A nova aliança aboliu os Dez Mandamentos?

A nova aliança aboliu os Dez Mandamentos?

“Na Bíblia aparecem dois pactos: um ‘antigo’ e outro ‘novo’. Na realidade, não há mais que um pacto: existe apenas um plano de salvação, que é um ‘pacto eterno’ por meio de Jesus (Apocalipse 13:8). O que se fala de um ‘pacto antigo’ – o que foi confirmado no Sinai – e um ‘pacto novo’ ou “nova aliança” – o que foi confirmado no calvário – pode contribuir para uma confusão. O pacto eterno é simplesmente o que Deus tem disposto para a salvação da raça humana. Em sua essência, o ‘pacto eterno’ é um sinônimo do ‘plano de redenção’. Este pacto foi feito com Adão no Éden (Gênesis 3:15) e mais tarde foi renovado com Abraão, um plano mediante o qual o homem poderia ser restabelecido à posição que havia perdido.

O homem necessitava receber o perdão de suas transgressões. Este perdão só foi possível por meio da obra que o Filho de Deus haveria de realizar em Sua encarnação, vida e morte. O caráter do homem necessitava ser posto novamente em harmonia com a imagem divina. Prometeu-se ao homem o poder divino, o qual, uma vez aceito pelo ser humano, expulsaria da vida o pecado e incorporaria no ser os traços da piedade. Este pacto ou convênio para a salvação foi feito com Adão, porém se aplica igualmente aos homens de todas as idades. No Novo Testamento, este mesmo pacto se denominou ‘novo pacto’, simplesmente porque sua validação mediante o sacrifício de Cristo ocorreu depois da validação do antigo pacto, realizado no Sinai.

O antigo pacto foi feito no Sinai. Já que existia uma disposição adequada para a salvação dos homens, por que foi necessário que se fizesse este outro pacto? O pacto antigo nunca teve o propósito de ocupar o lugar do pacto eterno. Tampouco devia servir como outra maneira para alcançar a salvação. Se for estudado o marco histórico, se compreenderá com maior clareza seu propósito. Enquanto haviam sido escravos no Egito, os israelitas haviam perdido o conhecimento de Deus e dos requerimentos divinos. Necessitar-se-ia algum tempo para voltar a compreendê-los.

O pacto eterno é simplesmente o que Deus tem disposto para a salvação da raça humana. Em sua essência, o “pacto eterno” é um sinônimo do “plano de redenção”.

A verdade espiritual só pode compreender-se na forma gradual. Só quando se tem aprendido uma verdade, pode-se entender bem outra. Deus começou Sua instrução no Sinai dizendo ao povo que o propósito de Seu plano era o de harmonizar a vida deles com o caráter divino. Todavia, este propósito foi expresso em forma objetiva ‘Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa’ (Êxodo 19:5, 6). Nesse momento os israelitas pouco entendiam o que isto implicava. Concordaram com a ampla declaração de propósitos e responderam: ‘Tudo o que Jeová disse, faremos’ (Êxodo 19:8). Deus tinha um plano de prosseguir a partir deste ponto, e instruir o povo de modo a conseguir esses objetivos. De forma gradual, à medida em que pudessem compreender, Deus se proporia ensinar-lhes todos os detalhes do pacto eterno…”

“Desgraçadamente, o povo nunca pôde prosseguir mais além da primeira lição em sua instrução espiritual. Captou a ideia de que era necessário obedecer. Essa filosofia já haviam aprendido no Egito. Portanto, procurou o favor de Deus esforçando-se em render uma obediência externa aos requerimentos divinos. Foram repelidos todos os intentos divinos de mostrar que era necessário ter um coração novo, e que era indispensável a graça divina para que tal obediência fosse possível. Salvo poucas exceções individuais, esta atitude continuou durante todo o período do Antigo Testamento, apesar de os profetas repetidas vezes instarem ao povo para que aceitassem essa relação mais excelsa…”1

“Os israelitas não haviam cumprido com os requerimentos divinos porque haviam procurado ser justos por meio de seus próprios esforços inúteis. O Senhor conhece esta tendência inerente no homem, e lhe prometeu “um novo pacto” (ou concerto), e por meio desse pacto o homem chega a ser santo pela fé no Redentor e Santificador (Gálatas 3; Hebreus 8:8-10). Deus desejava que os repatriados experimentassem de todo o coração e com toda a alma a realidade do novo pacto. Porém, a nação não alcançou este ideal…”2

“O pacto que Deus fez com Israel no Sinai geralmente é chamado de ‘velho’ pacto (Hebreus 8:13). Devido ao fracasso do povo em avaliar plenamente o propósito de Deus, e por não haver entrado no verdadeiro espírito do pacto, o velho pacto ressaltou-se em contraste com o novo, o Evangelho, da seguinte maneira: (1) Era mais elementar (Gálatas 4:1-5). (2) Estava mais estritamente relacionado com ritos externos e cerimônias (Hebreus 9:1). (3) Seus motivos consistiam principalmente em castigos e recompensas, pois sendo ‘filhos’, estes eram os únicos incentivos que os israelitas estavam preparados para compreender (Gálatas 4:3; Patriarcas e Profetas, p.387). (4) Suas bênçãos eram temporais. (5) Dependia das relações humanas e de boas obras mais do que da graça divina e de um Salvador do pecado… A bênção extraordinária do novo pacto é que pela fé em Cristo se é dado poder ao crente para cumprir ‘a justiça da lei’ (Romanos 8:1-4; conferir Atos 13:37-39).

“Deus permitiu que Israel se ocupasse em guardar a lei para que pudesse dar-se conta de sua incapacidade de o fazer, o que, erroneamente, se sentiu capaz de realizar. Assim, iam ser apartados da confiança própria para confiar em Deus; da confiança em seus esforços próprios para a fé na realização divina. Assim, a lei chegaria a converter-se no meio de conduzir-lhes a Cristo como seu único Salvador do pecado (Gálatas 3:23-26). Dessa maneira se preparou o caminho para a relação do novo pacto, o Evangelho da graça divina, a lei guardada em Cristo mediante Ele (Jeremias 31:33-34; Romanos 3:21-31; 8:1-4; Hebreus 8:7-11). Como Paulo declara, essa relação do novo pacto não invalida a lei ‘pela fé’ (Romanos 3:31). A lei permanece como a norma do dever, a norma de uma prática santa. O novo pacto estabelece a lei como o código eterno de justiça, sem o qual não pode haver nenhuma conduta santa”3

Hebreus 9:19 está dizendo que os Dez Mandamentos foram abolidos?

Leiamos o verso: “porque, havendo Moisés proclamado todos os mandamentos segundo a lei a todo o povo, tomaram o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, e lã tinta de escarlate, e hissopo e aspergiu não só o próprio livro, como também sobre todo o povo” (Hebreus 9:19). Depois de uma leitura atenta perceba que de maneira alguma o texto está tratando do assunto dos mandamentos.

O sangue dos animais sacrificados nos dias do Antigo Testamento simbolizava o sangue de Cristo (João 1:29) que seria derramado em nosso favor. Aquele sangue simbolizava o sangue de Jesus que viria morrer pelo pecador, assim Moisés iniciou o antigo pacto aspergindo sangue sobre o povo e a lei. Os Dez mandamentos eram a base do velho concerto, como igualmente o são do novo; mas não eram o velho concerto em si4.

O concerto (o mesmo que “acordo”) dependia do decálogo, mas o decálogo não dependia do concerto. No velho concerto a aliança foi feita pelo sangue de animais (símbolo do sangue de Jesus); no novo, é feito pelo sangue do próprio Cristo (Lucas 22:20). Mas isso não anula a lei de Deus. Veja:

“Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Jeremias 31:33).

“Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Hebreus 8:10).

“Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei no seu coração as minhas leis e sobre a sua mente as inscreverei” (Hebreus 10:16).

Percebeu qual é a diferença entre o velho e novo concerto?

1) No velho concerto a lei era guardada pelo povo somente pela letra (porque escolheram assim) e não com o coração;

2) No novo concerto Deus mudou isso: imprimiu a lei na mente e no coração dos crentes, ensinando assim que só podemos ser obedientes pela graça de Cristo.

Se Deus no novo concerto imprime Suas leis em nossa mente e coração, é lógico que esta lei não foi abolida! “É oportuno lembrar que o insucesso do velho concerto não estava na lei de Deus, mas no povo. Em Hebreus 8:9 se diz que Deus os repreendeu, porque eram repreensíveis. A tradução inglesa diz: ‘Porque sendo eles (o povo) achado em falta…’. ”5

“O velho concerto era um pacto de obras, feito sobre promessas humanas, e o seu fracasso demonstrou falibilidade do homem em pretender, por esforço próprio, guardar os mandamentos de Deus, ou pôr-se em harmonia com a lei do Céu. Quão significativas foram as palavras de Paulo, ao dizer que “a inclinação da carne” – a mente carnal que caracterizou o Israel rebelde – “não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o poder ser” (Romanos 8:7).

“Isto significa que, quando pelo evangelho somos transformados do carnal para o espiritual, então a lei de Deus pode ser escrita em nossos corações, e o novo concerto – ratificado com o precioso sangue de Cristo – é efetivado em nossa vida. Quem não tem um novo coração e não se põe em harmonia com a lei do céu, nunca nasceu de novo, pois quem vive transgredindo a lei de Deus continuamente está em pecado, porque “o pecado é a transgressão da lei”, segundo a melhor tradução de 1 João 3:4 e o mais autorizado conceito teológico”6.

Devemos ter claro em nossa mente que não existe um plano de salvação para as pessoas que viveram na época do antigo testamento e outro para os que vivem no novo testamento. Há um meio de salvação – pela graça – para toda a humanidade:

“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2:11).

“Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam” (1 Pedro 1:10-11).

“Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação. Só ele é a minha rocha, e a minha salvação, e o meu alto refúgio; não serei muito abalado” (Salmo 62:1-2).

A Salvação pela graça não é privilégio apenas do povo que vive sob o novo concerto. Já pensou um dia, você chegar ao céu, encontrar Abraão e dizer a ele: “Abraão, eu fui salvo pela graça”. Abraão poderia argumentar: “eu fui salvo pela lei…? Que história é essa? Uns devem guardar a Lei e outros não? Como isso?” O Céu seria uma verdadeira confusão, pois a salvação seria mais fácil para os que vivem na época do novo concerto (Deus estaria fazendo acepção de pessoas!).

Abraão também foi salvo pela graça e assim como ele foi obediente a Deus (Gênesis 26:5), pela atuação do Espírito Santo em nós (Filipenses 2:13), precisamos ser transformados para nos tornarmos fiéis aos mandamentos do nosso Criador, pois somos descendentes espirituais de Abraão, o “Israel espiritual”! (Gálatas 6:16).

A graça não anula a lei. Ela nos capacita a obedecer e viver em conformidade com os ensinamentos de Deus; não foi dada para nos dar permissão para pecarmos, como lemos em Romanos 6:6-8. Paulo mesmo afirma: “Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei” (Romanos 3:31).

Portanto, as expressões “velho concerto” e “novo concerto” não se referem a períodos diferentes em que num deles a lei era válida e noutro, não. O termo “velho concerto” também é com base no “sangue” e é chamado de “velho” porque foi dado no Sinai. Já o “novo” é chamado de “novo concerto” não porque não existia (Apocalipse 13:8), mas porque foi validada pelo sangue de Cristo na cruz. Deus tem um plano de salvação estabelecido na eternidade (1 Pedro 1:18-20).

A lei nunca foi o meio de salvação e nem o será; é apenas a base para o concerto. O cristão deve guardá-la como demonstração de fé e de que teve seu caráter realmente convertido. A obediência é uma prova de amor a Jesus (João 14:15). Eis alguns versos para nosso estudo e reflexão:

“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos”? (Romanos 6:1-2).

“E daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça? De modo nenhum! Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a quem obedeceis sois servos, seja do pecado para a morte ou da obediência para a justiça?” (Romanos 6:15-16).

“Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça. Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hebreus 10:26-31).

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos” (1 João 5:3).

“Quanto às tuas prescrições, a muito sei que as estabeleceste para sempre” (Salmo 119: 1520).

“Aquele que diz: eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade” (1 João 2:4).

“Porque povo rebelde é este, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do Senhor” (Isaías 30:9).

Pr. Valdeci G. da Silva Jr. – Biblia.com.br

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Leandro Quadros
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