Apologética Cristã

A Reforma Protestante e a união das igrejas

FERNANDO DIAS é pastor e editor da Casa Publicadora Brasileira

O dia 31 de outubro de 1517 foi uma data que mudou o mundo ocidental. Um frei alemão chamado Martinho Lutero fixou um cartaz à porta da igreja do castelo de Wittenberg. O anúncio estampava 95 teses contra a venda de indulgências (documento que assegurava o perdão de pecados), uma prática popular da Igreja Católica na época. A cristandade ocidental, até então praticamente monolítica, fragmentou-se. Surgiram centenas de denominações protestantes, cada uma com a pretensão de reformar a Igreja. Hoje, é virtualmente impossível determinar o número exato das seitas cristãs, estimado na casa das dezenas de milhares.

A um ano de o ato histórico de Lutero completar os 500 anos, passos importantes estão sendo dados para a aproximação de católicos e protestantes. Nesta segunda-feira, o papa Francisco desembarcou em Malmo, na Suécia, país historicamente protestante, em um encontro com a liderança da Federação Luterana Mundial. “Essa viagem é importante porque é uma viagem eclesial, muito eclesial no campo do ecumenismo”, expressou o pontífice durante conversa com os jornalistas que acompanhavam o voo.

Em junho deste ano, a assinatura de um guia litúrgico intitulado “Do conflito à comunhão” revelou o desejo mútuo pelo fim das desavenças históricas e a consumação de uma unidade articulada em décadas de discussão sobre o ecumenismo.

Se bem que o ato ecumênico na Suécia simbolize a iminente conciliação entre luteranos e católicos, há sinais de uma aproximação crescente de outros grupos de protestantes, evangélicos e pentecostais com a Igreja Católica.

As causas que dividiram o cristianismo não estão sendo consideradas em sua reunificação. As motivações do rompimento dos protestantes com os católicos e das denominações protestantes entre si foram doutrinárias. A visível falha do movimento ecumênico consiste em elaborar a unidade cristã sem rever os pontos doutrinários que precipitaram o cisma. Enquanto a volátil e multiforme igreja protestante aceita cada vez mais o discurso conciliador do papa, a igreja romana permanece inabalável sobre os mesmos fundamentos milenares reafirmados na contrarreforma do século 16, as mesmas questões que, para os reformadores, eram inaceitáveis e razão incontestável para o rompimento com a Sé romana.

O grande questionamento protestante era a revisão dos dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana à luz da Bíblia. Roma nunca reconsiderou suas posições. Portanto, o protesto de Lutero ainda permanece válido.

A unidade cristã pela qual Jesus orou jamais deve ser conquistada sacrificando a correta interpretação de Sua Palavra. O legítimo ecumenismo deveria acontecer com cada denominação cristã revendo seus concílios, catecismos, credos e suas confissões de fé, rejeitando os pontos em desacordo com as Sagradas Escrituras e acrescentando os preceitos bíblicos negligenciados por séculos.

Curiosamente, a prerrogativa de completar a Reforma Protestante foi assumida por uma denominação cristã surgida no despertamento milenarista do século 19, nos Estados Unidos. Os adventistas do sétimo dia entendem que a Reforma será concluída por meio de seu movimento.

Os adventistas sempre entenderam que sua missão é ecumênica. Diferentemente de outras denominações protestantes, os adventistas não se contentaram em estabelecer igrejas nacionais, ainda que federadas a alianças internacionais, como outros protestantes. A igreja adventista do sétimo dia é, por natureza, mundial, católica, no sentido do significado original da palavra. O nome foi primariamente aplicado à igreja cristã no sentido de que sua missão se estende a todo o planeta. Nesse sentido, a igreja adventista é autenticamente católica, uma vez que entende que sua missão evangélica se destina a alcançar “cada nação, tribo, língua e povo” (Ap 14:6).

No desenvolvimento de suas doutrinas, os adventistas foram mais radicais ainda que quaisquer dos reformadores. Passaram por alto concílios, pais da igreja, credos, catecismos e confissões de fé. Uma vez que entendem que sua missão inclui outros cristãos, católicos e protestantes, podemos entender que os adventistas têm uma proposta autenticamente ecumênica, de reunir os cristãos genuínos em uma unidade doutrinária elaborada conforme a doutrina bíblica purgada de toda tradição humana.

Há muitas divergências doutrinárias que dividem as igrejas cristãs. Posso enumerar algumas das principais crenças em disputa: o significado da ceia do Senhor; a doutrina da salvação e da eleição; a inspiração da Bíblia; a validade dos dons espirituais após o fim da era apostólica; o milênio. Um legítimo ecumenismo deve rever pontos como esses, conciliando os cristãos que se dividiram por causa desses temas em torno de posições genuinamente bíblicas sobre os mesmos.

Desde a Reforma, a presença de Cristo no pão e no vinho tem sido tema de divisões. De um lado, católicos argumentam que, de fato, Cristo se faz pão na missa, a transubstanciação. Luteranos e anglicanos preferem crer na consubstanciação, uma ideia que procura despir a idolatria da missa, sem uma modificação radical do rito. Os calvinistas e evangélicos reduzem a Santa Ceia a mero símbolo. Para alguns, a santa ceia é uma cerimônia exclusivista. Para outros, deve ser uma celebração aberta.

Os adventistas resgataram um rito da ceia do Senhor conforme o preceito bíblico, restaurando o lava-pés, e entendem que, se bem que Cristo não esteja no pão, está presente com os comungantes na celebração da Ceia. A doutrina do Santuário Celestial revela que o sacrifício de Cristo, consumado uma única vez na cruz, não precisa ser repetido por meio da missa. Cristo tem um ministério de intercessão e salvação no Céu, que continua a obra realizada na cruz. O santuário no Céu, no qual Cristo atua, e não a igreja, oficia a verdadeiramente válida intercessão em favor do pecador. Seguindo o exemplo de Jesus, os adventistas praticam a comunhão aberta.

Quanto à doutrina da eleição, os protestantes acham-se divididos entre calvinistas e arminianos. Os primeiros seguem a herança do reformador francês Calvino, que superenfatizou o papel de Deus na salvação, a ponto de dizer que Deus escolhe quem vai ser salvo e rejeita quem vai se perder. Os arminianos consideram a teologia calvinista uma aberração, e entendem que o ser humano seja dotado de livre-arbítrio, sendo responsável por sua própria salvação ou perdição.

Ecumenismo autêntico deve buscar a unidade cristã sem abrir mão de verdades bíblicas fundamentais

Os adventistas parecem ter encontrado o ponto de equilíbrio da doutrina da eleição, coisa que os teólogos protestantes procuram desde o século 17. Embora se incline mais para o lado arminiano, devido à sua ênfase na santificação, o adventista não consegue entender a salvação como possibilidade do livre-arbítrio humano, mas como obra soberana de Cristo. A escritora adventista Ellen G. White, afirmou: “Cristo é a fonte de cada impulso correto. Ele é o único que pode implantar no coração a inimizade contra o pecado” (Caminho a Cristo, p. 26).

O mundo cristão se divide a respeito do conceito que cada pessoa tem de como as Sagradas Escrituras foram produzidas e que autoridade ela tem sobre a Igreja. Há inerrantistas, para os quais cada palavra da Bíblia foi ditada por Deus, e os históricos-críticos, que atribuem uma redação humana à Bíblia, sendo esta, para eles, o produto de uma cultura. Alguns entendem a supremacia da Bíblia, e dizem ser ela a única revelação de Deus, enquanto outros valorizam também a tradição cristã. Os adventistas descobriram que a verdade está num delicado meio-termo. Aceitam a inspiração das Escrituras, mas creem que esta não se deu por ditado. Cada escritor da Bíblia pôde refletir nela seu talento humano, bem como suas limitações. Valorizam a supremacia das Escrituras, sem limitar o Espírito Santo, que continua a fornecer revelações adicionais e complementares por meio de profetas modernos, como Ellen G. White.

Quanto à validade dos carismas, os adventistas também estão em uma posição sugestiva de mediação entre carismáticos e cessacionistas. Os adventistas não podem ser classificados como pentecostais, mas, como eles, creem na vigência dos dons espirituais para todas as eras. Uma posição bíblica que, se acatada por todo o cristianismo, pode ser o equilíbrio entre esses dois grupos.

Finalmente, a interpretação dos eventos finais também tem sido um ponto histórico de discórdia no cristianismo. Há basicamente quatro grandes posições a respeito da ocasião da segunda vinda de Cristo. São elas, amilenarismo, a posição de que o milênio de Apocalipse 20 seja simbólico; o pós-milenarismo, doutrina de que a vinda de Cristo ocorra após o milênio; pré-milenarismo dispensacionalista, posição de que Cristo venha antes do milênio e antes da grande tribulação; pré-milenarismo histórico ou pós-tribulacionista, a doutrina de que Cristo venha antes do milênio e após a grande tribulação.

Os adventistas creem que Cristo virá antes do milênio e após a grande tribulação, e têm feito dessa mensagem sua principal pregação. Essa posição evita os extremos do futurismo e do preterismo proféticos, encontrando o equilíbrio bíblico em um cumprimento histórico dos sinais da segunda vinda de Jesus.

Dessa forma, o adventismo, que é conhecido por evitar associações ecumênicas com outros cristãos, têm sua proposta de um autêntico ecumenismo, concitando todos os cristãos a abandonar suas interpretações particulares e se unirem em torno da Palavra de Deus, cumprindo assim a oração de João 17, na qual Jesus intercedeu pela unidade cristã (“a fim de que todos sejam um”, v. 21), e na qual também disse: “E eles têm guardado a Tua Palavra” (v. 6).

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One comment

  1. Professor, só não entendi o nome seitas no inicio!

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