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Como interpretar corretamente as profecias na Bíblia

Olá meus amigos! Quero compartilhar com vocês algumas dicas para interpretar corretamente as profecias da Bíblia e assim evitar armadilhas como o preterismo ou o futurismo (incluindo a interpretação dos reis de Ap 17). Em primeiro lugar postarei um artigo de Diogo Cavalcanti no portal oficial adventistas.org, depois um artigo do Biblical Research Institute (Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Diasobre a posição da escritora Ellen White publicado pelo Centro White.

Com isso terá suficiente conteúdo para poder perceber se uma interpretação bíblica é correta ou não. Antes, porém, pode assistir estes dois vídeos sobre o assunto:

 

 

 

Boa leitura meus amigos! Não esqueça de compartilhar com seus amigos!

O desafio dos métodos de interpretação

Por Diogo Cavalcanti

 

A partir da próxima coluna, vamos mergulhar no primeiro conjunto de sete do Apocalipse: o das sete igrejas (capítulos 2 e 3). Apesar de ser uma das seções aparentemente mais fáceis de se entender, tem sido má compreendida, devido a preconcepções que levam às conclusões mais controversas. Assim, a maneira de enxergar o texto é, na verdade, tão importante quanto o estudo do próprio conteúdo.

Por isso, antes de mergulhar na interpretação propriamente dita, precisamos entender e utilizar conscienciosamente o método mais adequado. O Apocalipse tem sido estudado de acordo com quatro metodologias de interpretação: preterismo, futurismo, idealismo e historicismo, ou uma combinação delas. Analisemos cada uma a seguir:

Preterismo

Os preteristas acreditam que o Apocalipse se restringe ao primeiro século. Dessa forma, as perseguições imperiais romanas seriam o único objeto de preocupação do autor do livro. Nas notas da Bíblia de Jerusalém, por exemplo, Babilônia representa a “Roma idólatra”, e as sete cabeças de Apocalipse 17 representam sete imperadores romanos.[1] No preterismo, o Apocalipse se distancia tanto da história cristã quanto do leitor atual.

Futurismo

Por sua vez, os futuristas têm no Apocalipse um livro essencialmente escatológico, tratando dos eventos mais iminentes à segunda vinda de Cristo.[2] Esse método de interpretação ganhou gradativamente a adesão de protestantes, evangélicos e de pentecostais, após a propagação do dispensacionalismo desde o século 19.

Segundo essa doutrina recente, Deus salva a humanidade de formas diferentes nas diversas “dispensações” (do grego, oikonomia, literalmente, “lei/administração da casa”, 1 Coríntios 9:17), referindo-se a diferentes formas de Deus atuar no mundo. Em cada dispensação o Senhor se revela de uma forma e a humanidade é testada em sua resposta a essa ação. Em cada dispensação, a humanidade falha, e Deus inicia um novo ciclo.

No dispensacionalismo há uma dicotomia entre Israel e a igreja. A igreja surge como um parêntese em relação ao plano divino para Israel – um tipo de “plano B”. Na segunda vinda de Cristo (invisível para o mundo), ocorre o chamado “arrebatamento secreto” dos cristãos, enquanto os judeus e os demais permanecem na terra e passam por sete anos de tribulação, durante os quais ainda são testados, até que o reino de Deus seja estabelecido definitivamente. A doutrina do arrebatamento secreto foi criada por John Nelson Darby por volta de 1830 e se difundiu no século 20 graças à Scofield Reference Bible, lançada em 1909. Essa maneira de interpretar o Apocalipse é o mote da série de livros e filmes Ninguém será Deixado para Trás (Left Behind), de Tim LaHaye e Hal Lindsey.

Porém, é importante lembrar que “todo dispensacionalista é futurista, mas nem todo futurista é dispensacionalista”.[3] Os futuristas críticos do dispensacionalismo creem no milenarismo clássico, segundo o qual não há dispensações nem distinção entre Israel e a igreja cristã em relação aos eventos finais.[4] Porém, de uma forma ou de outra, no futurismo, a “principal objeção… é que remove do livro qualquer contexto histórico”[5], e “o Apocalipse se torna relevante apenas para a última geração do tempo do fim”.[6]

Frutos da Contrarreforma

Muitos nem desconfiam que tanto o futurismo quanto o preterismo se originaram na Contrarreforma, por meio dos jesuítas espanhóis Luis de Alcázar (1554-1613) e Francisco Ribera (1537-1591). Em seu livro Vestigatio arcani sensus in Apocalypsi, publicado postumamente em 1614, Alcázar defendia que o anticristo havia sido um imperador romano que governou no primeiro século. Ribera propôs em seu comentário bíblico sobre o Apocalipse, intitulado Sacrum Beati Ioannis Apostoli, & Evangelistiae Apocalypsin Commentarij, de 1585, que o anticristo seria um judeu que reinaria em Jerusalém num futuro distante.[7] Para ele, somente os primeiros capítulos do Apocalipse lidavam com a Roma antiga, enquanto os demais seriam puramente escatológicos, assim como os futuristas afirmam atualmente.

Essas maneiras de se interpretar foram construídas para se combater os pregadores da Reforma, que identificavam o papado como o anticristo profetizado na Bíblia.[8] Segundo o apóstolo Paulo, um poder se levantaria ainda no futuro a partir de seu tempo, o qual se tornaria “objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (2 Tessalonicenses 2:4). Esse poder surgiria de um processo de apostasia do cristianismo (v. 3) e só seria destruído na volta de Jesus (v. 8). Nos ensinos de Jesus, este seria o mesmo poder blasfemo e perseguidor predito por Daniel (Mateus 24:15; Daniel 7:24-26).

Com o futurismo e o preterismo da Contrarreforma, as atrocidades da igreja romana antes, durante e depois da Idade Média escapam ilesas na interpretação de Daniel e do Apocalipse. Enquanto o futurismo foi adotado pelo mundo evangélico, o preterismo foi abraçado pelas igrejas e universidades protestantes liberais, fazendo-os perder de vista o passado e o que está escrito sobre o futuro (Apocalipse 13:3, 5-8).

Idealismo

Diferentemente das outras correntes de interpretação, o idealismo não encontra no Apocalipse nenhuma ligação com fatos históricos. Para os idealistas, o livro apresenta uma descrição simbólica da luta entre o bem e o mal, que não se aplica a nenhum período histórico. Restariam apenas uma “verdade ética e princípios que se aplicam a crentes em qualquer período da história”.[9] É, portanto, fruto de uma abordagem mais humanista e pós-moderna da Bíblia, centrada no leitor.

Historicismo

Por fim, temos o historicismo. Segundo essa corrente de interpretação, profecias se cumpriram no passado, algumas se cumprem no presente e outras se cumprirão no futuro. LeRoy Edwin Froom o definiu como “o cumprimento progressivo e contínuo da profecia, numa sequência ininterrupta, dos dias de Daniel e o tempo de João, até o segundo advento e o fim do tempo.”[10]

Nos livros apocalípticos, percebe-se que o cumprimento das profecias se dá ao longo da história, culminando no estabelecimento do reino de Deus. Em Daniel, quatro impérios se sucedem, começando por Babilônia (neobabilônico), seguido pela “Grécia” (macedônico), “Medo-Pérsia” e Roma, dando lugar a “reinos” divididos, até que o reino de Deus seja estabelecido (cap. 2 e 7). Entretanto, essas profecias também contemplam fatos que se cumpririam em tempos “mui distantes”, do ponto de vista de Daniel, ou seja, nos “últimos dias” (Dn 8:26; 10:14).

No Apocalipse, a perspectiva do processo histórico é notada na primeira metade do livro (cap. 1-11), em que as três séries (igrejas, selos e trombetas) se estendem dos dias de João à volta de Jesus. Seguindo o princípio do paralelismo de Daniel, em que os quatro metais da estátua do capítulo 2 correspondem aos quatro animais do capítulo 7, essas três séries apontam para a ação divina sobre a igreja e seus antagonistas ao longo da história. Não é à toa que cada uma das três séries se encerra, apontando direta ou indiretamente para a volta de Jesus.

A segunda metade do livro (12-22), mais escatológica, apresenta um conflito iniciado no Céu e definido na cruz (Ap 12:4-12) que tem seu desfecho nos últimos dias, com a participação de diferentes agentes divinos e satânicos. Ou seja, demonstra a ação divina no passado com seus reflexos decisivos sobre o presente e o futuro da humanidade.

No historicismo, portanto, as ações divinas, as contrafações de Satanás e as respostas humanas são apresentadas numa linha contínua até a redenção final. Dessa forma, tanto o Apocalipse como Daniel, parecem cumprir seu papel como livros universais, com informações relevantes para todas as eras, desde sua composição.

No historicismo, portanto, o passado não foi esquecido. Pelo contrário, serve para avalizar as profecias ainda não cumpridas. É por esse método que os adventistas estudam o Apocalipse desde meados do século 19 e foram fortalecidos pela compreensão de que o mundo iria de mal a pior, enquanto a cultura enxergava um futuro brilhante na chamada belle époque. É graças a esse sólido método de interpretação atestado por Jesus, pelos autores bíblicos, escritores antigos e pelos reformadores que os adventistas identificam as profecias sobre a apostasia cristã, o golpe “mortal” sobre o papado e seu ressurgimento, a dominância de uma superpotência global e a disseminação do espiritismo. Isso não significa que os adventistas sejam melhores do que outros estudiosos da Bíblia, mas que somente um estudo consciencioso, guiado pelo Espírito Santo e fundamentado em sólidos princípios de interpretação pode levar a uma compreensão mais harmoniosa e plena de Daniel e do Apocalipse.

 

[1] Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002, p. 2159.

[2] “Futurist interpretation”. Bible Study Tools. Disponível em:  http://www.biblestudytools.com/commentaries/revelation/introduction/futurist-interpretation.html

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Russel N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Editora Hagnos, 2002, vol. 6, p. 362.

[6] Ranko Stefanovic. Revelation of Jesus Christ. Berrien Springs, MI:Andrews University Press,  2a edição, 2009, p. 12.

[7] Francis D. Nichol (ed.). Comentario Biblico Adventista Del Septimo Día. Buenos Aires: Associacion Casa Editora Sudamericana, 1996, p. 109.

[8] Ibid.

[9] Stefanovic, p. 12.

[10] E. Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers . Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association , 1950, vol. 1, p. 22, 23. Em: Hans K. LaRondelle, “The heart of historicism”, Ministry Magazine, setembro de 2005. Disponível em: https://www.ministrymagazine.org/archive/2005/09/the-heart-of-historicism.html

 

Ellen G. White e a Interpretação de Daniel e Apocalipse

Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia

O estudo das profecias de Daniel e Apocalipse é importante para a dinâmica espiritual da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Segundo Ellen White:

“Os ministros devem apresentar a firme palavra da profecia como o fundamento da fé dos adventistas do sétimo dia. As profecias de Daniel e Apocalipse devem ser cuidadosamente estudadas e, em ligação com elas, as palavras: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Obreiros Evangélicos, pág. 148.

“Quando os livros de Daniel e Apocalipse forem bem compreendidos, terão os crentes uma experiência religiosa inteiramente diferente. Ser-lhes-ão dados tais vislumbres das portas abertas do Céu que o coração e a mente se impressionarão com o caráter que todos devem desenvolver a fim de alcançar a bem-aventurança que deve ser a recompensa dos puros de coração”. Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 114.

Método Historicista de Interpretação

Como todo leitor da Bíblia sabe, os livros de Daniel e Apocalipse são na maior parte escritos em símbolos. Os estudantes da Bíblia, consequentemente, os descrevem como profecias apocalípticas, para distinguir das profecias diretamente clássicas, tais como as que encontramos nos profetas maiores e menores do Velho Testamento. Nesses dois livros apocalípticos, Deus revela toda a extensão da controvérsia moral que convulsionou nosso planeta dando ênfase na derradeira vitória de Sua causa, e na final condenação das forças do mal.

Desde o início, os Adventistas do Sétimo Dia seguiram o método histórico de interpretação profética para explicar os símbolos e seu significado. Algumas vezes esse método é chamado de historicismo, ou método histórico contínuo.

O método histórico aceita o conceito de que as profecias de Daniel e Apocalipse destinam-se a ser reveladas e cumpridas no tempo histórico, isto é, no período decorrido entre os profetas Daniel e João respectivamente, e o estabelecimento final do reino eterno de Deus. O princípio de dia/ano (um dia simbólico = um ano literal) é parte integral deste método, desde que ele sirva para revelar os períodos de tempo simbólico para que possamos localizar os eventos preditos ao longo da História.

Jesus usou o método histórico para interpretar Daniel quando Ele anunciou: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo (Mar 1:15). Nessa afirmação de cumprimento profético Ele se referiu à profecia de Daniel das 70 semanas (Dan 9:24-27) que predisse o aparecimento do Messias. Perto do final de Sua vida, Jesus novamente se referiu à mesma profecia. Dessa vez, porém, Ele apontou para outro aspecto – para “o príncipe que (há) de vir e (há) de destruir a cidade e o santuário” (v. 26). Ver Mat. 24:15; Luc 21:20. Esses eventos deveriam ocorrer depois de Sua morte e ascensão. Seu cumprimento histórico ocorreu na destruição de Jerusalém e do templo pelos romanos em 70 A.D.

Os reformadores protestantes (de cujas raízes nós derivamos) empregaram da mesma forma o método histórico. Nessa base concluíram que o Papado era o foco de várias das profecias de Daniel e Apocalipse. Seguindo esse método, os pioneiros do início da obra Adventista do Sétimo Dia puderam perceber nosso próprio tempo, o ministério duplo de Cristo no santuário celestial, nossa identidade como um povo, e nossa missão. Nossa compreensão de Daniel e Apocalipse tornou-se a estrutura distinta para manter estável e para enfatizar as verdades bíblicas que ensinamos como Igreja.

Métodos Preteristas e Futuristas de Interpretação

As interpretações protestantes de Daniel e Apocalipse no século XVI abalaram a Igreja Católica Romana. Em contrapartida, o Concílio Reformatório Católico introduziu os argumentos iniciais para dois sistemas diferentes de interpretação profética: preterismo e futurismo. Essas posições serviram para desviar o dedo acusador da profecia contra o sistema papal.

Preterismo (do latim  praeter, significando “passado”) argumenta que esses livros proféticos encontraram seu cumprimento no passado pré-cristão, ou nos primeiros séculos da era cristã. O preterismo eventualmente penetrou no pensamento protestante no final do século XVIII e tornou-se o ponto de vista do protestantismo liberal. Os ensinos da linha histórico-crítica hoje situam a obra de Daniel no II século a.C. e interpreta as profecias como se referindo a pessoa e tempos de Antíoco IV Epífanes, o rei selêucida da Síria. O livro de Apocalipse é restrito ao estado Romano nos primeiros séculos da era cristã.

O futurismo penetrou na linha Protestante no primeiro quarto do século XIX. A forma mais proeminente de interpretação futurista hoje coloca o cumprimento do conteúdo do Apocalipse (excetuando os capítulos 1-3) num período de tribulação de 3 anos e meio, no final dos tempos, como um arrebatamento secreto da Igreja para o céu.  A 70.ª semana da profecia das setenta semanas de Daniel 9:24-27 é desconectada do todo e recolocada nos últimos sete anos do mundo. Muitos protestantes conservadores adotaram o futurismo (com acréscimos e variações) como seu sistema padrão para interpretar as profecias de Daniel e Apocalipse.

Roma astutamente sabia que uma mudança no método de interpretar Daniel e Apocalipse levaria inevitavelmente a uma alteração nas conclusões. É fácil ver que tanto o preterismo como o futurismo desviam o enfoque profético de Roma e de suas atividades. O preterismo e os estudos histórico-críticos atuais colocam todos os cumprimentos no passado. O futurismo coloca o cumprimento do conteúdo do Apocalipse num ponto futuro – no final do mundo, após um pretendido arrebatamento secreto. (Os estudiosos histórico/críticos também vêem Daniel 11:40-45 como uma profecia que não se materializou).

Atualmente, os Adventistas do Sétimo Dia permanecem virtualmente sozinhos como proponentes do método historicista de interpretar Daniel e Apocalipse, o método de Cristo, Paulo e dos Reformadores.

A Contra-Reforma “Bate” à Porta Adventista

De maneira muito real, o espírito da Contra-Reforma está batendo hoje à porta da Igreja Adventista e pressionando com urgência para entrar!

Alguns estudiosos adventistas da bíblia propõem que a igreja considere seriamente as posições preteristas e histórico-críticas que compreendem esses livros proféticos como já cumpridos ou fracassados no passado. Diferentes abordagens são então adotadas para tornar tais profecias significativas e relevantes para a igreja hoje.

Variações Preteristas

Por exemplo, alguns sugerem que uma profecia pode ter múltiplos cumprimentos. Esse método iria assim sugerir que o pequeno chifre de Daniel 8 poderia ter vários cumprimentos (em diferentes épocas) em Antíoco IV, Roma pagã, Roma papal, e mesmo (um pouco antes do fim) em Satanás, quando ele personificar Cristo.

Outra teoria afirma que as profecias de Daniel não são uma revelação da presciência de Deus. Ao invés disto, teriam sido dadas como uma definição de Seu propósito e eram condicionais à obediência de Israel. Quando Israel falhou em aceitar o Messias e foi rejeitado por Deus como Seu agente, a intenção original das profecias de Daniel falhou. Consequentemente, Daniel não significa nada para a igreja hoje, a não ser que escritores inspirados surgissem posteriormente para fazer uma reaplicação da profecia dada. Nessa base, a cena do juízo pré-advento registrada em Daniel 7:9, 10, 13, 14 forçosamente se tornaria a cena do juízo executivo de apocalipse 20:11-15, porque o segundo texto é considerado a reaplicação joanina de Daniel 7!

Um terceiro produto da posição proterista é fazer com que alguns assumam uma visão idealista de Daniel e Apocalipse. Essa posição defende que os livros devem ser vistos como ilustrando (de forma simbólica) o grande conflito entre o bem e o mal – entre Deus e satanás, do qual podem ser extraídos apenas princípios espirituais. Enquanto tal batalha é evidente, o idealista escolhe não ir além; é incapaz de fazer aplicações específicas dos símbolos para as realidades históricas.

Variações Futuristas

Outros estudantes adventistas da Bíblia (pastores e da mesma forma leigos) estão assumindo uma posição orientadamente mais futurista. Geralmente declaram lealdade às interpretações historicistas de Daniel e Apocalipse, que nos mantém como um povo. Há, porém, uma influência profundamente arraigada para tornar essas profecias relevantes para os acontecimentos atuais. Enquanto alguns situam certas profecias depois  do encerramento da perseguição para seu cumprimento primário (como as 7 trombetas), é mais comum optar por um cumprimento duplo no tempo do fim de certas profecias selecionadas de Daniel e Apocalipse. A única maneira de firmar na posição historicista da igreja, segundo eles, e ao mesmo tornar relevantes algumas profecias, é empregar o plano de cumprimento duplo.

Não á qualquer consistência nisso. Apenas alguns capítulos são reaplicados. Por exemplo, alguns estão ensinando que as bestas de Daniel 7 e 8 estão atualmente encontrando seu cumprimento nas atividades dos Estados Unidos, Rússia, Iraque e irã. Alguns argumentam que o período dos 1260 anos terá outro cumprimento no futuro, numa base de dia/dia, enquanto outros chegam mesmo a sugerir um duplo cumprimento para a profecia das 70 semanas.

Essas pessoas bem intencionadas, que estão atualmente defendendo um duplo cumprimentos de profecias seletas em Daniel e Apocalipse, têm um coisa em comum: todas creem que Ellen White apoia a teoria do cumprimento duplo para o livros de Daniel e Apocalipse.

Adventistas do Sétimo Dia sempre reconheceram através dos registros bíblicos que algumas profecias clássicas (nos profetas maiores e menores) dão clara evidência em seu contexto que pode ser esperado um mais completo cumprimento, após uma aplicação parcial, por exemplo, a profecia sobre o derramamento de Espírito Santo (Joel 2:28-32) e a profecia de Malaquias sobre a mensagem de Elias (Mal 4:5, 6).

Contudo, nunca assumimos tal posição referente às profecias de Daniel e Apocalipse. Atribuir duplos e múltiplos cumprimentos a essas grandiosas revelações da presciência divina é dar à face da profecia um nariz de cera, que pode ser voltado para esse ou aquele lado. Duplos e múltiplos cumprimentos privam de real significado essas grandes profecias e anulam sua contribuição para nossa convicção religiosa.

Os eventos das sete igrejas são únicos (Apoc 1-3). Quando escritas no princípio, essas mensagens tinham aparentemente uma aplicação direta para a situação local (1:11), e continuam a conter lições para a igreja em cada época. Mas mesmo nesse caso especial o Espírito parece ter pretendido somente um verdadeiro cumprimento profético.

“Os nomes das sete igrejas são símbolos da Igreja em diferentes períodos da era cristã. O número sete indica plenitude, e simboliza o fato de que as mensagens se estendem até o fim do tempo, enquanto que os símbolos usados revelam o estado da Igreja nos diversos períodos da história do mundo.”  Atos dos Apóstolos, pág. 585.

Será, porém, verdadeira a alegação de que se pode encontrar nos escritos de Ellen White as sementes de um novo método de interpretação de Daniel e Apocalipse, o método do cumprimento duplo? É possível que Ellen White realmente tenha ensinado e ratificado o método historicista de interpretar Daniel e Apocalipse, e ao mesmo tempo embutido aqui e ali frases das quais a igreja mais tarde formalizasse um novo método de interpretação profética? Não nos esqueçamos da verdade sólida que Roma reconheceu completamente quando seus teólogos jesuítas propuseram novos métodos para interpretar Daniel e Apocalipse: uma mudança de método inevitavelmente leva a uma alteração nas conclusões.

Em termos de interpretação profética, a Igreja Adventista está numa encruzilhada. O espírito da Contra-Reforma bate à porta Adventista. A decisão de abrir a porta e seguir o caminho que o protestantismo primitivo seguiu, é uma opção. A tentação de acompanhar a tendência ecumênica atual é extremamente atraente. Há, porém, razões poderosas porque deveríamos permanecer leais à fé profética de nossos pais pioneiros.

Posição Historicista de Ellen G. White

Não há a menor evidência que Ellen White tenha pretendido que a igreja seguisse algum outro método de interpretar as profecias de Daniel e Apocalipse, além do método historicista. Seus comentários do livro de Apocalipse apresentam da maneira mais clara possível, a compreensão historicista do que as profecias de Daniel e Apocalipse revelam na história, desde os tempos de Daniel e João até o estabelecimento do reino eterno de Deus.

Observe o seguinte:

“O livro de Apocalipse revela ao mundo o que foi, o que é e o que será; destina-se para nossa instrução sobre como serão os fins dos tempos. Deveria ser estudado com reverente respeito. Somos privilegiados em conhecer o que é para nossa compreensão…” Ellen G. White Comments, SDABC, vol. 7, pág. 954, grifo acrescentado.

“No Apocalipse são pintadas as coisas profundas de Deus… Suas verdades são dirigidas aos que vivem nos últimos dias da história da Terra, como o foram os que viviam nos dias de João. Algumas das cenas descritas nesta profecia estão no passado e algumas estão agora tendo lugar: algumas apresentam-nos o fim do grande conflito entre os poderes das trevas e o Príncipe do Céu, e algumas revelam os triunfos e o regozijo dos remidos na Terra renovada.” Atos dos Apóstolos, pág. 584; grifo acrescentado.

Nessas declarações compreensíveis, Ellen White demonstra como a profecia apocalíptica foi designada por Deus para encontrar cumprimento seqüencial ao longo da história. (1) Algumas dessas profecias se cumpriram em épocas passadas; (2) algumas das profecias estão se cumprindo agora. (3) algumas enfocam o conflito final na controvérsia e não se cumpriram ainda; finalmente, (4) algumas porções das profecias se relacionam com a Nova Terra, e somente então se cumprirão.

Ellen White observa que o livro de Apocalipse é tão importante para os cristãos dos últimos dias como era para os cristãos nos dias de João. “Suas verdades são destinadas para os que vivem nos últimos dias da história da terra.” Isso não é porque ele propõe duplos cumprimentos daquelas porções das profecias que já se cumpriram. As implicações de suas palavras são claras. O livro permanece relevante porque o cumprimento de algumas dessas profecias “estão ocorrendo agora” e outras logo irão se cumprir no “encerramento do grande conflito entre os poderes das trevas e o Príncipe do céu.” Além disso, o adventista de hoje pode continuar a extrair lições espirituais da história passada e do cumprimento profético. Desse modo as profecias de Daniel e Apocalipse continuam a trazer encorajamento, confiança e motivação aos cristãos do tempo do fim, mesmo que grande parte desses livros tenha encontrado cumprimento em épocas passadas.

Ellen White não aborda cada parte de Daniel e Apocalipse em seus escritos. Suas apresentações mais detalhadas se encontram no bem conhecido livro, O Grande Conflito. Por exemplo, ela apresenta uma clara interpretação do chifre pequeno (Dan 7); do dragão (Apoc 12); da besta semelhante a um leopardo (Apoc 13); e os períodos de tempo respectivos (3 ½  tempos = 1260 dias = 42 meses  = 1260 anos de supremacia papal, 539-1798 A.D.) bem como da besta dos dois chifres (Apoc 13) e o conflito final acerca do Sábado, e a Lei de Deus simbolizada pela obrigação da “marca da besta” imposta pela “imagem da besta”. (Ver O Grande Conflito, Págs. 438-450). Esses trechos apóiam completamente o método historicista e as principais conclusões e posições adotadas pelos nossos pioneiros que adotaram esse sistema. Seus escritos divinamente inspirados confirmam o fundamento profético (derivado de Daniel e Apocalipse) no qual a Igreja Adventista do Sétimo Dia se baseia hoje.

Ensinam os Escritos de Ellen G. White algum outro método de Interpretação Profética?

Aqueles Adventistas que defendem uma aplicação do cumprimento duplo para determinadas profecias de Daniel e Apocalipse, geralmente argumentam que encontram o endosso desse método disfarçado em certas frases de Ellen White. Esses pontos alegados para um novo sistema de interpretação profética são descartados através de seu grande volume de escritos e obras, e têm sido trazidos à tona apenas recentemente. A seguir examinaremos citações que são comumente usadas, tentando não ser exaustivo:

Exposição 1

“O inundo está extremamente afetado com o espírito de guerra. As profecias de Daniel 11 quase atingiram seu cumprimento final”. Review and Herald, 24 de novembro de 1904.

Argumento: a ênfase é colocada sobre a expressão o “cumprimente final”. Deduz-se que se a profecia tem um cumprimento final, deve ter tido cumprimentos prévios.

Resposta: não está embutido aqui o princípio do cumprimento duplo ou múltiplo. Ellen White está simplesmente mencionando que a última parte desta grande profecia, Daniel 11, está quase se cumprindo. Que esse é o verdadeiro sentido da passagem que pode ser verificado quando comparada com a sua reafirmação do mesmo ponto cinco anos mais tarde no artigo intitulado, “A Última Crise”. Lemos: “O mundo está agitado pelo espírito de guerra. A profecia do capítulo 11 de Daniel está bem próxima de Seu completo cumprimento”. Testimonies, vol. 9, pág. 14 (publicado em 1909); grifo acrescentado.

Exposição 2

“Estamos no limiar de grandes e solenes acontecimentos. Muitas das profecias estão prestes a se cumprir em rápida sucessão. Cada elemento de energia está prestes a ser posto em ação. Repetir-se-á a história passada. Antigas controvérsias serão revividas, e perigos rodearão de todos os lados o povo de Deus. A tensão está se apoderando da família humana. Está permeando tudo na Terra…“Estudai o Apocalipse em ligação com Daniel; pois a história se repetirá…” Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 116; grifos acrescentados.

“A profecia do capítulo 11 de Daniel está próxima de seu completo cumprimento. Muito da história que tem acorrido no cumprimento desta profecia se repetirá.” Carta 103, 1904; Manuscrito 489, 1077; grifos acrescentados.

Argumento: Uma repetição dos eventos históricos que cumpriram determinada profecia indica que a profecia por si mesma tem um cumprimento duplo.

Resposta: Ellen White usa a expressão “a história se repetirá” muitas vezes. Porém, história e profecia são duas questões diferentes. Não implica que uma repetição de experiência histórica também signifique uma repetição da mesma profecia. Tal conclusão distorce o que ela quis dizer com tal frase.

Ellen White nos aconselha a estudarmos o cumprimento profético passado – estudas os princípios envolvidos – porque situações similares surgirão novamente e o povo de Deus terá que enfrentá-las. “Velhas controvérsias despertarão novamente.” Preparemo-nos para tais questões através da compreensão dos desafios envolvidos naqueles eventos passados. A História irá, sem dúvida, se repetir, mas não a mesma específica profecia que já se cumpriu no passado.

Por exemplo, Daniel 7:25 e Apocalipse 13:7 são duas profecias que se referem à perseguição do povo de Deus durante os 1260 anos de domínio papal na Europa. Sabemos que a perseguição contra o povo de Deus se repetirá nos tempos finais da história humana, porque outra profecia diz que será assim (Apoc 13:15-17). Essa repetição de perseguição, porém, (história repetida) não envolve a repetição das profecias de Daniel 7:25 e Apocalipse 13:7. Estudar a vida dos fiéis e os problemas que enfrentaram em sua época – e como os encararam – pode nos fortalecer para enfrentar a perseguição que teremos em nosso próprio tempo.

Exposição 3

“A luz que Daniel recebeu de Deus foi dada especialmente para estes últimos dias. As visões que ele teve às margens do Ulai e do Hidequel, os grandes rios de Sinear, estão agora em processo de cumprimento e logo ocorrerão todos os acontecimentos preditos.” Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 113; grifos acrescentados.

Essa afirmação se relaciona com a explanação do anjo Gabriel a Daniel após receber a visão do capítulo 8. “Entende, filho do homem, pois esta visão se refere ao tempo do fim.” (vol. 17)

Argumento: Ellen White morreu no início do século XX. Como Gabriel, ela está evidentemente nos mostrando um evento futuro, além do seu tempo.

Resposta: As citar isoladamente esse parágrafo (tirando-o do contexto dos escritos e das evidentes crenças dela), pode parecer que Ellen White está aqui apoiando um cumprimento duplo de Daniel 8. No capítulo, Gabriel menciona especificamente os reinos da Medo-Pérsia e da Grécia, como o cumprimento respectivo do carneiro e bode simbólicos (Dan 8:20, 21). Isso é agora história passada. Embora Ellen White pareça declarar que as visões que Daniel teve no capítulo 8 “estão agora em processo de cumprimento”, e visto que Gabriel também disse que o cumprimento se daria no “tempo do fim”, pareceria que deveria ser esperado um cumprimento atual ou duplo de Daniel 8. Contudo, tal conclusão ignora o contexto histórico no qual Ellen White escreveu o texto acima, bem como o aspecto particular da visão ao qual ela se referiu quando disse que estava “agora em processo de cumprimento.”

Ellen White, juntamente com a Igreja Adventista em geral, cria que o período de opressão papal, os 1260 anos, se estendeu de 538 até 1798 A.D. Esse período profético é mencionado tanto em Daniel como em Apocalipse, sob três diferentes símbolos de tempo: (1) três tempos e metade de um tempo (Dan 7:25; 12:7; Apoc 12:14); (2) 1260 dias (Apoc 11:3, 12:6); (3). 42 meses (Apoc 11:2; 13:5). Em conformidade com isso, Ellen White e os pioneiros criam que o período de tempo transcorrido desde 1798 até o final do sofrimento humano seria o que foi designado como “o tempo do fim”, o período anunciado pelo anjo Gabriel. O Juízo pré-advento, ou investigativo, ocorreria nesse período e seria anunciado na terra pela mensagem do primeiro anjo (Dan 7:9,10,13,14; Apoc 14:6,7). Note como Ellen é clara sobre o assunto:

  1. “Daniel ficou na sua sorte para dar seu testemunho, que foi selado até o tempo do fim, quando deveria ser proclamada ao mundo a mensagem do primeiro anjo…” Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 115; grifos acrescentados.
  2.  “…Desde 1798, porém, o livro de Daniel foi descerrado, aumentou-se o conhecimento das profecias, e muitos têm proclamado a mensagem solene do juízo próximo”. O Grande Conflito, pág. 356.
  3. “A mensagem de Apocalipse 14, proclamando que é vinda a hora do juízo de Deus, é dada no tempo do fim”. Mensagens Escolhidas, vol. II, pág. 107; grifos acrescentados.
  4. “As visões proféticas de Daniel e João predizem um período de escuridão e declínio moral; mas no tempo do fim, o tempo no qual estamos agora vivendo, a visão deveria falar e não se esconder.” Testimonies, vol. 5, págs. 9-10; grifos acrescentados.

À luz das citações acima, é evidente que quando Ellen White declarou que as visões que Daniel teve (cap. 8) “estão agora em processo de cumprimento”, ela estava se referindo ao grande juízo investigativo, antes da vinda de Cristo (Dan. 7,8) que estava acontecendo no céu em seus dias, e que continuaria até o final da história humana. Ela não estava desvendando um princípio oculto para levar a igreja a interpretar um cumprimento duplo para o carneiro, o bode, os quatro chifres e o chifre pequeno. O aspecto da visão que Daniel viu junto ao rio Ulai, que ainda está em processo, de cumprimento, refere-se ao ministério de Cristo no Santíssimo, anterior à Sua recepção do reino eterno e Sua segunda vinda. Na Terra as mensagens dos três anjos (Apoc 14:6-14) continuam a anunciar aos povos a urgência da hora: “É chegada a hora de Seu (de Deus) juízo” (Apoc 14:7).

Exposição 4

“A questão do Sábado será ainda assunto de grande controvérsia, no qual todo o mundo tomará parte (Apoc 13:4-8, 10). Esse capítulo todo é uma reelação do que certamente irá ocorrer (Apoc 13:11; 15-17).” Ellen G. White Comments, SDABC, vol. 7, pág. 979; grifos acrescentados.

Argumento: Essa passagem é mencionada como “decisiva” para provar que Ellen White ratificou um duplo cumprimento das profecias, e, como exemplo, uma repetição da profecia de 1260 anos como 1260 dias literais.

O leitor é solicitado a observar que Ellen menciona Apoc 13:4-8, 10 no texto acima. O texto retrata o poder papal sob o símbolo da besta leopardo, com sete cabeças e dez chifres com coroas. A passagem também inclui o elemento tempo de sua supremacia antes de ser ferida: 42 meses proféticos ou 1260 dias proféticos. A atenção é então dirigida para a declaração após a passagem das Escrituras: “Esse capítulo todo é uma revelação do que certamente irá ocorrer” (grifos acrescentados).

Desses dois pontos segue-se o seguinte raciocínio: O período de 1260 anos do reinado papal é passado. Mas agora Ellen White nos diz que esse “capítulo todo” – incluindo o elemento de tempo dos 42 meses – irá (futuro) certamente ocorrer. Aqui está uma prova irrefutável para adoção do princípio do duplo cumprimento para interpretar Daniel e Apocalipse, e torná-lo relevante para o nosso tempo.

Resposta: essa declaração de Ellen White precisa apenas ser lida em seu contexto para se verificar que não provê base alguma para um cumprimento duplo de Apocalipse 13:1-10, ou seu período de tempo. Se o volume do SDABC estiver disponível, o leitor está convidado a acompanhar, à medida que estudamos o conteúdo desses dois parágrafos selecionados, o comentário de Apocalipse 14:9-12.

O contexto “decisivo” começa num parágrafo anterior, onde Ellen White cita primeiramente Apocalipse 14:9-10, a advertência do terceiro anjo contra a marca da besta e sua imagem. Ela então faz uma observação: “É do interesse de todos compreender o que é o sinal da besta, e como poderão escapar dos terríveis castigos de Deus. Por que os homens não estão interessados em conhecer o que constitui o sinal da besta e sua imagem? [grifos acrescentados]. Está em contraste direto como o sinal de Deus”. Ela então cita Êxodo 31:12-17, que estabelece o sábado como “sinal” ou marca de Deus, implicando portanto que o “sinal da besta” é algo que está em oposição ao sábado. Ela continua: “A questão do Sábado será o ponto do grande conflito onde todo o mundo irá participar”(grifos acrescentados). Nesse ponto ela cita Apocalipse 13:4-8, 10. Essa passagem dá a informação de como se pode identificar a besta: sua origem e poder derivados do dragão; seu domínio de 42 meses proféticos; sua perseguição aos santos naquele tempo; sua blasfêmia contra o Céu; seu cativeiro; e o fato de que o mundo irá adorá-la e segui-la novamente. Com base nesses dados, pode-se determinar que a besta é o poder papal. Isso coloca o leitor em posição de identificar o sinal e a imagem da besta, como ela convidou a fazer no primeiro parágrafo de seu escrito.

Depois de citar Apocalipse 13:4-8, 10 (dando as informações para se identificar a besta), Ellen White diz: “O capítulo todo é uma revelação do que certamente irá ocorrer.” Ela então cita imediatamente (para fins de explanação) Apocalipse 13:11, 15-17. Esses versos predizem o surgimento da besta de dois chifres (v.11) e a instituição da imagem da besta e a obrigatoriedade do sinal da besta, sob pena de perseguição e morte.

Portanto, é bem claro que quando Ellen White diz: “O capítulo todo é uma revelação do que certamente irá ocorrer” ela não está dizendo que Apocalipse 13:4-8, 10 terá um duplo cumprimento. Forçar essa interpretação é extrair violentamente a declaração de seu contexto.

Seu ponto não é um cumprimento duplo de Apocalipse 13:1-10, nem do período de tempo correspondente. Ao invés disso, seu assunto é “o sinal da besta” e sua imposição no tempo do fim. Essa é a ênfase de ambos os parágrafos nessa seleção. O único propósito ao citar Apocalipse 13:4-8,10 é que o leitor identifique a besta. Se ele puder identificá-la, está em posição de identificar o seu sinal, o qual, diz ela, é exatamente o oposto do sinal de Deus. Assim, com a besta e seu sinal identificados, ela aponta para a predição profética relacionada com a imagem da besta, e a obrigatoriedade do sinal, ou a crise que irá envolver esse ponto o futuro.

Exposição 5

Quanto a declarações concernentes ao discurso de Cristo em Mateus 24, os itens seguintes são geralmente mencionados:

“Ao referir-se à destruição de Jerusalém, Suas palavras proféticas estenderam-se, para além daquele acontecimento, à conflagração final…” O Desejado de Todas as Nações, pág. 628.

“Mas esta profecia foi dada também para os últimos dias.” Ibidem, pág. 631.

“Esta profecia terá outra vez seu cumprimento.” Ibidem, pág. 633.

“As profecias que tiveram seu parcial cumprimento na queda de Jerusalém, têm mais direta aplicação aos derradeiros dias.” O Maior Discurso de Cristo, págs. 120, 121.

Argumento: Conclui-se desses textos que a profecia de Cristo referente à destruição de Jerusalém irá ter um segundo cumprimento na destruição do mundo. Assim, é colocado, de acordo com a exposição, que Ellen White na realidade ensinou o cumprimento duplo da profecia apocalíptica.

Resposta:A seguir, o contexto das várias citações do Desejado e do Maior Discurso de Cristo sobre o sermão do monte das Oliveiras (Mateus 24):

“Jesus não respondeu aos discípulos falando em separado da destruição de Jerusalém e do grande dia de Sua vinda. Misturou a descrição dos dois acontecimentos. Houvesse desenrolado perante os discípulos os eventos futuros segundo Ele os via, e não teriam podido suportar esse espetáculo. Por misericórdia com eles, Jesus misturou a descrição das duas grandes crises, deixando aos discípulos o procurar por si mesmos a significação. Ao se referir à destruição de Jerusalém, Suas palavras proféticas estenderam-se para além daquele acontecimento, à conflagração final do dia em que o Senhor Se levantará do Seu lugar para punir o mundo por sua iniquidade, quando a Terra descobrirá seu sangue, e não mais encobrirá seus mortos. Todo esse discurso foi dado, não para os discípulos somente, mas para os que haveriam de viver nas últimas cenas da história terrestre.” O Desejado de Todas as Nações, pág. 628; grifo acrescentado. Ver também a pág. 631.

Deveria se notado também no início que Ellen White entendeu claramente que, em Seu sermão, Jesus falava de dois eventos distintos. Um evento tinha a ver com a destruição de Jerusalém, e outro se referia à Segunda Vinda e ao final do mundo. Ele combinou a descrição de ambos, porque os dois tinham semelhanças. Porque esses dois eventos estão misturados em um sermão, a profecia é válida para nós no tempo do fim do mundo, bem como o foi para os discípulos na ocasião. Não há o princípio de cumprimentos repetidos sendo enunciado aqui. Cada evento abordado por nosso Senhor tem o seu próprio tempo de cumprimento: a queda de Jerusalém, e, bem depois, no final dos tempos, a queda do mundo.

Portanto, podemos dizer que ambos os pontos do discurso de nosso Senhor e os comentários de Ellen White no Desejado de Todas as Nações e no Maior Discurso de Cristo indicam claramente que Mateus 24 não é uma profecia única com duplo cumprimento. É,isso sim, uma profecia com duas faces, relacionada a dois eventos distintos (um evento visto como símbolo do outro, devido a certas semelhanças), cada evento se cumprindo no seu tempo respectivo. Consequentemente, nem Mateus 24 nem os comentários de Ellen White se constituem bases distintas das quais se induzir um princípio de duplo cumprimento para as profecias apocalípticas de Daniel e Apocalipse.

Exposição 6

“A grande obra do Evangelho não deverá encerrar-se com menor manifestação do poder de Deus do que a que assinalou o seu início. As profecias que se cumpriram no derramamento da chuva temporã no início do evangelho, devem novamente se cumprir na chuva serôdia, no final do mesmo.” O Grande Conflito, pág. 617.

Argumento: A profecia da chuva temporã (pentecostes) teria um segundo cumprimento no derramamento da chuva serôdia.

Resposta: Os comentários de Ellen White sobre o derramamento do Espírito Santo são parecidos com seus comentários sobre Mateus 24. Imediatamente antes de escrever o parágrafo acima, ela menciona Oséias 6:3 e Joel 2:23. Ambas as passagens predizem dois eventos; uma chuva temporã e uma chuva serôdia, da mesma forma como costumava ocorrer em Israel nas estações naturais de chuva, de onde foi extraída a figura bíblica. Assim, essas profecias que ela cita tiveram seu cumprimento no Pentecostes (chuva temporã) e irão naturalmente ter outro cumprimento (chuva serôdia) quando a obra do evangelho for terminada.

Sumário

Essas seis exposições dão um consistente exemplo do tipo de argumento que alguns estudantes adventistas da Bíblia estão empregando na tentativa de encontrar suporte na Sra. White para o princípio do duplo cumprimento profético. Honestidade e senso de justiça deveriam nos prevenir de deturpar os escritos de alguém que permanece como forte defensora do método historicista, com uma teoria contrária de dois ou mais cumprimentos. Como vimos, quando os argumentos apresentados são devidamente analisados, somos forçados a admitir que não há qualquer princípio de duplo ou múltiplo cumprimento que seja usado como ferramenta para explicar as profecias apocalípticas de Daniel e Apocalipse.

Ellen White e os Defensores do Duplo Cumprimento

Na última década do século passado,alguns adventistas chegaram a sugerir cumprimentos futuros das Mensagens dos três Anjos (Apoc 14). Ellen White reprovou tais tentativas e considerou seus defensores como enganados.

“Em nossos dias, como no tempo de Cristo, pode haver uma leitura ou interpretação errônea das Escrituras…

“Alguns há que estão investigando as Escrituras em busca de provas de que essas mensagens estão ainda no futuro. Eles concluem pela veracidade cumulativa das mensagens, mas deixam de assinalar-lhes o devido o devido lugar na história profética..Portanto, essas pessoas acham-se em perigo de transviar o povo quanto a localizar as mensagens. Não vêem nem entendem o tempo do fim, nem o tempo a que devem aplicar essas mensagens.” Evangelismo, págs. 612, 613; grifos acrescentados.

“Não consegui dormir depois de uma e meia da madrugada. Eu estava levando ao irmão T uma mensagem que o Senhor me dera para ele. Os pontos de vista particulares que ele mantém são uma mistura de verdade e erro… Os grandes sinais demarcadores da verdade, mostrando-nos a direção da história profética, devem ser cuidadosamente observados, para que não sejam derribados, e substituídos por teorias que trariam confusão em vez de genuíno arrependimento…”

“Tem havido uns e outros que, estudando a Bíblia, julgaram descobrir grande luz, e teorias novas, mas não têm sido corretas. As Escrituras são todas verdade, mas por aplicarem-nas mal, homens chegam a erradas conclusões… Alguns tomarão a verdade aplicável a seu tempo, e pô-lá-ão no futuro. Acontecimentos na sequencia da profecia, que tiveram seu cumprimento no distante passado, são considerados futuros, e assim, por essas teorias, a fé de alguns é solapada.

“Segundo a luz que o Senhor houve por bem conceder-me, estais em risco de fazer a mesma obra, apresentando perante outros verdades que tiveram seu lugar e fizeram sua obra específica para o tempo, na história da fé do povo de Deus. Reconheceis como verdadeiros esses fatos na história bíblica, mas os aplicais no futuro. Eles têm sua força ainda em seu devido lugar, na cadeia dos acontecimentos que nos tornaram, como um povo, o que somos hoje, e como tal, eles devem ser apresentados àqueles que se encontram nas trevas do erro.

“As direções do Senhor foram assinaladas, e maravilhosissimas Suas revelações do que era a verdade. Ponto após ponto foi estabelecido pelo Senhor Deus do Céu. Aquilo que era verdade então [ênfase da autora], é verdadeiro hoje. Não cessam, porém, de ouvirem-se as vozes: ‘Isto é verdade. Eu tenho novo esclarecimento.’ Mas esses novos esclarecimentos em sentidos proféticos são manifestos em aplicar mal a Palavra e levar o povo de Deus ao sabor das ondas sem uma âncora que os segure…” Mensagens Escolhidas,vol. II, págs. 101-104; grifos acrescentados.

Conclusões

Desta pesquisa sobre Ellen White e a interpretação das profecias de Daniel e Apocalipse, destacam-se três aspectos:

  1. Ellen White claramente endossa o método historicista para interpretar as profecias desses dois importantes livros.
  2. Os escritos de Ellen White não contêm qualquer princípio de duplo cumprimento oculto em parágrafos por acaso, que apoie a prática de reaplicar certas profecias em Daniel e Apocalipse ao Cenário atual.
  3. Ellen White rejeita tentativas de dar a tais profecias um duplo cumprimento.

“Acontecimentos, na sequencia da profecia, que tiveram seu cumprimento no distante passado, são considerados futuros, e assim, por essas teorias, a fé de alguns é solapada.” Mensagens Escolhidas, vol. II, pág. 102.

Os Adventistas do Sétimo Dia reconhecem que estamos vivendo “no tempo do fim”, a era final da experiência humana. Em harmonia com o método historicista, nós, juntamente com Ellen White, traçamos a revelação dos documentos proféticos de Daniel e Apocalipse. As profecias que se cumpriram no passado nos dão a plena certeza de que Deus irá fazer cumprir as poucas partes que ainda permanecem, e que se referem primordialmente ao conflito final entre o Céu e os poderes das trevas, em torno do selo de Deus e do sinal da besta.

Que zelo errôneo nos constrangeria agora a alterar nosso método de interpretação profética? Qual a natureza do impulso que leva alguns dentre nós a especular como certas profecias devem se cumprir novamente, considerando esse “segundo” cumprimento mais importante que o “primeiro”, pessoas essas que prosseguem em tal despropósito? Cremos que tal especulação é enganosa, e se continuar, irá finalmente deixar “o povo de Deus ao sabor das ondas sem uma âncora que os segure.” Ibidem, pág. 104.

À luz desta pesquisa podemos ter certeza de que, se a irmã White estivesse viva hoje, ela deploraria as correntes de interpretação que estão pressionando a Igreja, como resultado de se levantar o conceito do duplo cumprimento. Acrescentando, podemos estar certos de que ela pediria que seus escritos não fossem usados para apoiar tal erro. Provavelmente ela acrescentaria: “Se vocês desejam saber o que o Senhor me revelou sobre a profecia Bíblica, não tentem deduzir princípios isolados de um parágrafo aqui, de uma linha acolá. Ao invés disso, leiam minha obra, O Grande Conflito, onde são consideradas as partes principais de Daniel e Apocalipse. Essa é a verdade profética para nosso tempo.”

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