Esclarecendo dúvidas básicas sobre mortalismo e aniquilacionismo

Esclarecendo dúvidas básicas sobre mortalismo e aniquilacionismo

Uma coisa que percebo muito é que grande parte dos questionamentos que recebo sobre mortalismo e aniquilacionismo não é sobre “como refutar isso ou aquilo”, mas sim sobre dúvidas relacionadas a coisas bastante simples e até elementares. Se por um lado a doutrina imortalista é bem conhecida por todos, pois todos fomos doutrinados com ela desde a infância, por outro lado o mortalismo é pouco conhecido, e muitas vezes “refutado” por gente que sequer o conhece ou estudou sobre o assunto (o que muitas vezes implica em verdadeiros ataques a espantalhos).

Por isso, neste artigo o propósito não será argumentar em favor do mortalismo, mas apenas explicarcomo ele é, através de 30 perguntas e respostas. Se você está mais interessado em uma argumentação propriamente dita, é só ler os meus livros a respeito (disponíveis gratuitamente na página dos livros), que juntos somam mais de 1.200 páginas, ou ler também os artigos, muitos deles novos, escritos depois dos livros (veja aqui). Antes de começar, vale um esclarecimento inicial: embora muitas vezes os termos “mortalismo” e “aniquilacionismo” sejam usados como sinônimos, eu designo por mortalismo a crença na morte da alma entre a morte e a ressurreição, e por aniquilacionismo a crença na morte eterna (depois da ressurreição), em contraste com o “tormento eterno”.

1) Os mortalistas creem que a alma e o corpo são a mesma coisa?

Não. A partir da descrição bíblica da criação da natureza humana (Gn 2:7), o ser humano é a junção do pó da terra (corpo) com o fôlego de vida (espírito). Juntos, eles formam uma “alma vivente”. Ou seja, corpo+espírito=alma (ser vivente). O corpo é o aspecto físico do ser humano, o espírito é o que traz ânimo ao corpo, fazendo com que respire e viva, e a alma é o que o ser humano é quando há essa ligação entre corpo e espírito. Na morte, o espírito volta para Deus (Ec 12:7) e o corpo volta ao pó (Gn 3:19), e a “alma vivente” torna-se apenas uma “alma morta”. Isso explica as mais de sessenta passagens em que a alma explicitamente morre na Bíblia (veja aqui).

Talvez você entenda melhor se passarmos isso para a forma de analogia. Pensemos no corpo como um notebook, que só funciona se estiver conectado ao cabo de energia (=espírito). Enquanto há a fusão do cabo com a entrada do notebook, há um computador ligado (=alma vivente). Mas se você tirar o cabo, o computador simplesmente desliga (=morte). Você não pode acessar as informações do notebook sem o cabo, e muito menos só com o cabo sem o notebook, pela mesma razão que não há vida fora do corpo, sem a fusão de espírito e corpo. Mas se você conecta novamente o cabo ao notebook, o computador volta a funcionar (é o que ocorre na ressurreição). O importante a se observar é que não há vida fora do corpo, pois é somente por meio dele que a vida se manifesta, e que o espírito não é uma “alma imortal” pessoal com consciência e personalidade que nem precisa do corpo para viver, mas apenas o fôlego cuja funcionalidade é dar animação (vida) ao corpo.

2) Os mortalistas creem que o espírito morre?

Essa pergunta não faz sentido dentro do prisma mortalista, pois o espírito em si mesmo não é uma entidade viva para “morrer”. É como perguntar se o ar morre, se o sopro morre ou se sua respiração morre. Ou seja, é uma pergunta sem nexo. Você não diz “a respiração do Fulano morreu”, mas sim que “Fulano deixou de respirar e morreu”. Da mesma forma, não há nenhuma passagem bíblica que diga que “o espírito morreu”, mas há muitos textos que mostram pessoas morrendo ao sair o espírito, ou seja, ao perder o “fôlego de vida” que o fazia continuar vivendo. Em contrapartida, há mais de sessenta textos que falam explicitamente na morte da alma, porque uma alma é efetivamente um ser vivo, que morre (veja uma lista de citações bíblicas aqui e aqui).

3) Os mortalistas creem que uma alma imaterial e presa dentro do corpo morre?

Não, porque, como disse, a alma no conceito mortalista não é um “fantasminha camarada” como no dualismo, mas apenas um ser vivo (chamamos isso de “holismo”). Essa é uma das maiores dificuldades em alguém aceitar a morte da alma, pois quando se fala em alma imediatamente vêm à mente algo como um “fantasma” com traços corpóreos mas imaterial, ou seja, aquela coisa bem típica de livros espíritas de Alan Kardec. Se alma fosse isso, realmente seria difícil pensar nela “morrendo” – sorte que esse tipo de coisa só existe nos livros kardecistas mesmo.

4) Existem outros sentidos de “alma” e “espírito”?

Sim, porque o fato da alma ser o ser vivo e do espírito ser o fôlego da vida não implica que esses termos não possam ser usados em sentido figurado, alegórico ou metafórico, que chamamos de “significados secundários”. Por exemplo, o coração é um órgão do corpo que bombeia sangue, mas biblicamente há muitos textos onde ele é usado em sentido figurado, como a sede de sentimentos e emoções (veja Provérbios 4:23 e Mateus 22:37, por exemplo). Da mesma forma, embora estes sejam os significados primordiais de alma e espírito, há muitos textos onde espírito é “vida”, onde alma está atrelada ao intelecto e pensamentos, e assim por diante. Isso de modo algum contradiz seus significados primários e primordiais, como se a alma pudesse ser ao mesmo tempo mortal primeiramente e imortal secundariamente, o que seria uma contradição de termos e tornaria o significado primário irreal e sem sentido. Quem fez o estudo mais aprofundado sobre os significados bíblicos de espírito e alma nos originais hebraico e grego foi Samuelle Bacchiocchi, que você pode conferir aqui e aqui.

5) Os mortalistas creem que a alma literalmente dorme até a ressurreição?

Este é talvez o erro mais frequente. Não, a alma não dorme em sentido literal, como se no Céu houvesse uma cama onde as almas descansassem, roncassem e tudo mais. O “sono” é uma metáfora bíblica para a condição inconsciente do ser humano entre a morte e a ressurreição, justamente porque alguém que dorme em sono profundo não está consciente de nada que passa à sua volta, da mesma forma que alguém que morre. Ambos estão em “inatividade”, esperando o “despertar” de manhã, que, neste caso, é o despertar da ressurreição. Por isso alguns mortalistas dão à morte o nome de “sono sem sonhos”. Mas essa é uma força de expressão para expressar a inconsciência, porque na morte simplesmente não há vida. A pessoa morre hoje, e imediatamente ressuscita e se vê na presença de Deus, porque na perspectiva dela “nada” aconteceu entre sua morte e a ressurreição, ainda que tenham se passado milhares de anos na terra. Há sensação de passagem de tempo para os vivos, mas não para os mortos. Por isso é realmente um “partir e estar com Cristo”.

6) Por que vocês mortalistas falam tanto em ressurreição?

Não somos nós que falamos tanto em ressurreição, é a Bíblia. Metade das vezes em que o termo “esperança” aparece em Atos é relacionado à ressurreição, e a ressurreição é sempre um dos temas centrais de todas as cartas apostólicas. Paulo inclusive dedica um capítulo só para isso em 1ª Coríntios 15, onde diz que sem ressurreição os mortos já teriam perecido (1Co 15:18), não haveria vida póstuma (1Co 15:19) e seria melhor nos entregarmos ao pecado, “comer, beber e depois morrer” (1Co 15:32), pois todo o nosso trabalho seria vão (1Co 15:30). Isso de modo algum se compactua com a visão imortalista, onde a ressurreição é um mero detalhe que se resume ao simples “acréscimo de um corpo”, e que sem ela nós continuaríamos no Céu do mesmo jeito, só que em estado incorpóreo.

Basicamente, na visão imortalista a ressurreição é inútil, fútil, desnecessária e sem valor (embora seja óbvio que nenhum deles vá admitir isso abertamente). Sem ressurreição, as almas continuariam indo para o Céu e lá permaneceriam para sempre sem nenhum problema, na visão imortalista. Estaríamos para sempre com Deus no Paraíso com ou sem ela. É por isso que quase nunca se fala em ressurreição nas igrejas que adotam a imortalidade da alma (exceto em domingo de páscoa, é claro…). Ela foi praticamente suprimida dos púlpitos porque de fato não faz sentido quando se crê em uma “alma imortal”, que se torna o centro das atenções e é aquilo que realmente é importante para levar o homem ao Céu.

Em contrapartida, a visão mortalista é a visão bíblica: sem ressurreição estaríamos perdidos para sempre, os mortos já teriam perecido e não haveria recompensa alguma após a morte, uma vez que é justamente a ressurreição que traz de volta à existência alguém que já estava morto. Se não fosse pela ressurreição, o morto continuaria morto e nunca mais voltaria à existência. É por isso que no mortalismo a ressurreição é absolutamente fundamental, totalmente importante e completamente necessária. Na verdade, é a única visão que trata a ressurreição com um olhar bíblico. Podemos resumir isso tudo da seguinte maneira: o imortalista olha para a morte esperando sua alma sair do corpo e ir pro Céu, enquanto o mortalista olha para a morte esperando a ressurreição dos mortos para a vida eterna. A esperança de um está na imortalidade da alma, e a do outro está na ressurreição. Leia 1ª Tessalonicenses 4:13-18 e chegue às suas próprias conclusões.

7) O que acontece na ressurreição?

Depende. Para os imortalistas, na ressurreição ocorre a religação da alma com o corpo. Ou seja, a sua alma que já havia “voado” pro Céu como um fantasminha após a morte retorna para o corpo em estado glorificado, é religada a ele e então volta para o Céu da mesma forma que já estava antes. A mesma coisa ocorre para os perdidos: a alma já estava de alguma forma “queimando” no fogo do inferno, então se religa ao corpo na ressurreição e volta a queimar do mesmo jeito como já estava antes. Não é nem preciso dizer que a Bíblia não ensina nada disso, e de fato essa visão se aproxima muito do platonismo, em que a alma se “libertava” do corpo na morte, tornando contraditório voltar ao corpo que a “aprisionava”.

Já para os mortalistas, a ressurreição é exatamente o mesmo que a criação, só que no processo inverso. Na criação, Deus formou o corpo do pó da terra, soprou sobre ele o fôlego de vida e o homem se tornou alma vivente (Gn 2:7). Na morte, o fôlego/espírito volta para Deus, o corpo retorna ao pó da terra e nos tornamos almas mortas. E na ressurreição, Deus sopra novamente fôlego de vida, ressuscita o corpo do pó da terra em forma glorificada e assim voltamos a ser almas viventes. É o processo lógico, coerente e consistente com o relato bíblico da criação, morte e ressurreição do ser humano.

8) Se o corpo volta ao pó e a alma já não existe, então a ressurreição não seria uma “recriação”?

Este argumento é o mesmo contra os imortalistas. Na visão imortalista, é apenas o corpo que ressuscita, porque a alma já está viva e não se “revive” o que já está vivo. Mas o corpo em muitos casos já virou pó e não mais existe, então teria que haver uma “recriação” do corpo, fazendo da ressurreição uma recriação também no prisma imortalista. Talvez o fato do termo “ressurreição” ser usado no lugar de “recriação” tenha a ver com a realidade de que milhões ou bilhões de corpos mortos na volta de Jesus ressuscitarão sem que ainda tenham “deixado de existir”, porque não morreram há tanto tempo. Nestes casos, não há uma “recriação” do corpo, mas uma revificação que na prática não é muito diferente, pois o corpo ressurreto não será exatamente igual ao que morreu, mas um corpo glorioso imune à morte e a doenças (ou seja, imortal e incorruptível). Há também quem acredite que mesmo nos casos mais “difíceis” Deus juntará todos os átomos e partículas do corpo humano que não simplesmente “desaparecem” no universo, e a partir deles ressuscitará o corpo (e não “do nada”, como em uma “recriação”). De todo modo, essa questão é um dilema para ambos, não um “problema” particular dos mortalistas. O importante é que todas as nossas memórias serão conservadas por Deus, de modo que não seremos “outra” pessoa ao ressuscitarmos, embora possamos ter outro corpo.

9) Mas a ciência já não provou que existe uma alma imortal com as “experiências de quase morte” (EQM)?

Claro que não. Embora uma minoria de cientistas dê alguma credibilidade às EQM, elas são universalmente rechaçadas como “prova” de sobrevivência da alma. Em primeiro lugar, uma EQM é uma suposta experiência de “quase” morte, ou seja, a pessoa não morreu ainda. E se ela ainda não está morta, sua alma não pode ter saído do corpo. Além disso, uma breve análise dessas EQM que ocorrem no mundo todo já é mais que o bastante para constatarmos que elas não seguem nenhuma “teologia”, mas são apenas frutos da mentalidade de cada pessoa. Por exemplo, muitos católicos que tem EQM se vêem no Céu recebidos por um “santo padroeiro” ou pela virgem Maria; os muçulmanos se vêem no Paraíso islâmico das “setenta e duas virgens” para cada homem; muitos hindus se vêem no “Céu” indiano montados em uma vaca, e assim por diante. Se as EQM provassem alguma coisa, seria apenas que “todos os caminhos levam a Deus” e que não há qualquer religião ou Paraíso objetivamente certo.

10) Então como explicar as EQM?

São “experiências” produzidas pelo próprio cérebro do indivíduo, o que já foi comprovado em testes científicos. Por exemplo, um paciente que sofria de danos no lobo temporal teve a região temporoparietal do seu cérebro estimulada pelo doutor Penfield, e relatou ter deixado o seu corpo. Quando a estimulação parou, ele “voltou”, e quando Penfield estimulou a região temporoparietal de novo, ele deixou o seu corpo mais uma vez. Penfield também descobriu quando ele variou a corrente e a localidade do estímulo que ele poderia fazer os membros do seu paciente parecerem encurtados ou produzir uma cópia de seu corpo que existia ao seu lado (leia mais sobre isso aqui).

11) Mas a ciência prova que a alma não existe?

A ciência não pode “provar” que alma (no sentido dualista platônico) não existe, pelo simples fato desta tese não ser falseável. Por exemplo, se eu dissesse que existe um fantasma do seu lado neste exato momento, nem você e nem qualquer cientista do mundo poderia provar que não, no máximo poderia provar que não há evidência nenhuma de que haja um fantasma aí. A mesma coisa se aplica à alma. Os cientistas não podem dizer que ela “não existe”, mas podem provar que ela não tem nenhuma razão para existir, porque tudo o que os teólogos pensavam que estava atrelado à alma se provou que na verdade se trata apenas do cérebro, nestas últimas décadas em que a neurologia passou a ser uma área estudada como nunca antes.

Por exemplo, pensava-se que os nossos pensamentos, emoções, vontade e raciocínio eram função da alma. Então descobriram que quando um cérebro sofre um acidente estas funções são afetadas, mesmo que a tal “alma” ou o “espírito” permaneçam perfeitamente intactos. Há pessoas que sofreram danos cerebrais e não conseguem mais soltar palavras. Cada parte da sua mente pode ser danificada lesionando seu cérebro. Você pode parar de reconhecer rostos, e pode parar de reconhecer nomes de animais mesmo ainda reconhecendo nomes de ferramentas. E o que está sendo pedido para que consideremos é que você lesiona uma parte do cérebro e alguma coisa sobre a mente e a subjetividade é perdida, você lesiona outra parte e mais coisa é perdida, e, ainda assim, se você danifica a coisa inteira na morte, nós podemos nos levantar fora da mente com todas as faculdades intactas, reconhecer a vovó e falar em português…

12) Qual a base bíblica do mortalismo?

Pode começar com essas 206 provas, embora seja um pequeno resumo.

13) Qual a base bíblica do aniquilacionismo?

Pode começar com esses 152 versículos.

14) Sua crença aniquilacionista é exatamente a mesma das testemunhas de Jeová?

Não. Embora haja algumas similaridades, há também muita diferença, para começar com o fato de que para eles grande parte dos ímpios nem passarão por ressurreição, e consequentemente não serão julgados e nem castigados em algum lugar. É o que eu costumo chamar de “aniquilacionismo direto”, ou seja, em que a pessoa morre para sempre antes mesmo de ser castigada. Quanto aos não-salvos que foram “menos maus”, eles entendem que terão uma segunda chance após a ressurreição, onde poderão ser reintegrados ao grupo dos salvos no Céu. É basicamente uma “segunda oportunidade de salvação”, o que eu rejeito completamente. E como não há um “inferno” ou “geena” nessa perspectiva, eles são obrigados a alegorizar todos os textos que falam disso, enquanto os aniquilacionistas tradicionais não precisam disso, pois reconhecem um castigo proporcional aos pecados de cada um e temporário, como Jesus ensinou (Lc 12:47:48, 58-59; 20:47; Mt 18:32-35).

15) Os aniquilacionistas como você não creem em inferno?

Nós cremos em “inferno”, mas não no inferno da Igreja Católica, essa criação medieval grotesca e bizarra onde os pecadores sem salvação são atormentados com fogo e enxofre por toda a eternidade em verdadeiras câmaras de tortura enquanto são castigados por demônios bisonhos com tridentes. Essa visão pateticamente distorcida do inferno foi uma invenção do mesmo período das cruéis perseguições religiosas, da Inquisição, da caça às bruxas, das Cruzadas e de outras aberrações que precisavam de uma teologia por detrás que pautasse esses abusos. O inferno bíblico é o geena, onde os pecadores pagarão por seus pecados por tempo proporcional aos seus pecados (Lc 12:47:48, 58-59; 20:47; Mt 18:32-35), e em seguida aniquilados, para então haver a “nova criação” de Deus, com “novos céus e nova terra”, em uma nova ordem onde a tristeza e o pranto já não existem (Ap 21:4-5).

16) No aniquilacionismo, Deus ressuscita os ímpios para matá-los logo em seguida? Por que ressuscitá-los, então?

Não. Como já disse, Deus ressuscita os ímpios para serem primeiramente julgados pelos seus pecados, então castigados no geena (vulgarmente conhecido como “inferno”) pelo tempo proporcional às suas más obras, e só depois disso é que deixam de existir. Portanto, a ressurreição dos ímpios de modo algum é inútil.

17) Você disse que o inferno bíblico é o “geena”. Mas onde está esse tal “geena” na Bíblia?

Está em todas as passagens que falam da condição do homem ímpio após a ressurreição, e que a maioria das versões tragicamente traduz por “inferno”. É só conferir o original grego. A confusão foi feita porque na Vulgata latina Jerônimo traduziu o termo por “infernus”, que significa “regiões inferiores”, que é uma palavra latina que nem mesmo poderia constar no Novo Testamento, que é grego. Daí o “infernus” foi se desenvolvendo e ganhando as características que conhecemos hoje na cultura popular. Para piorar as coisas mais ainda, muitas versões decidiram traduzir por “inferno” também uma série de termos hebraicos e gregos que nada tem a ver com o inferno, tais como Sheol, Hades e tártato, além do próprio geena.

Foi feita uma verdadeira “salada de frutas”, e como resultado surgiu o “inferno” que as pessoas nem imaginam o que era originalmente (a maioria acredita piamente que os escritores originais falaram mesmo em “inferno”!). Justamente por esse erro criou-se o mito de que “Jesus falou mais do inferno do que do Céu” (claro, porque eles traduziram tudo por “inferno”!). Muito sobre o inferno seria desmistificado se os tradutores apenas se limitassem a manter os termos nos originais, em vez de enfiar o latim de séculos posteriores sem qualquer cabimento, apenas para manter a tradição popular e não assustar os leitores com supostas “inovações”.

18) Pode citar um exemplo bíblico dessa incongruência?

É claro. Veja por exemplo Apocalipse 20:14, conforme traduzem muitas versões: “E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte” (Ap 20:4). Acontece que na teologia imortalista popular, o “lago de fogo” é o inferno de tormento eterno, então o texto estaria literalmente dizendo que o inferno foi lançado dentro de outro inferno! E não se preocupe, porque a coisa ainda pode piorar. Uma alma já estava condenada e queimando no inferno há séculos, então precisa sair do inferno onde está, se “religar” a um corpo ressurreto e então ser transferida a “outro inferno”, onde passará a queimar da mesma forma que antes, só que dessa vez por toda a eternidade… é realmente uma criatividade sem fim.

19) Se o Hades não é o inferno, então o que é?

Hades é o termo grego que corresponde ao hebraico Sheol. Embora os imortalistas o entendam como uma “morada de almas incorpóreas”, este nem de longe é o significado do termo, como eu provo neste artigocom dezenas de provas e citações bíblicas perfeitamente claras. O Sheol/Hades, biblicamente falando, é a “sepultura comum da humanidade”, onde todos estão sepultados. É justamente por não haver um equivalente exato ao português que muitas versões decidiram manter o termo “Sheol”. Embora algumas traduzam por “sepultura”, “pó”, “cinzas” ou “morte”, nenhuma dessas traduções é totalmente precisa, pois não expressa com exatidão a “sepultura coletiva” da humanidade. Talvez o que chegue mais perto no português seria o termo “cemitério”, que é o lugar em que se enterra muitos corpos em muitas sepulturas, mas ainda assim não é exato, porque envolve as sepulturas apenas de um determinado lugar, e não de toda a terra, como o Sheol.

20) A “morte eterna” não poderia ser apenas uma “morte espiritual”, como dizem os imortalistas?

Poderia, se não fosse por um probleminha básico: eles já estão mortos espiritualmente! A Bíblia diz que os ímpios nesta terra já estão “mortos em seus delitos e pecados” (Ef 2:1) neste presente momento, e não que eles morrerão espiritualmente quando forem lançados no inferno. Portanto, se os textos bíblicos falam de “morte”, eles não podem estar falando que aquelas pessoas morrerão espiritualmente, justamente porque neste mesmo sentido elas já estão mortas, e não se mata um morto! Se um texto diz que elas vão morrer, que o destino delas será a morte, só pode ser uma morte de outra categoria, ou seja, uma morte literal, biológica, porque mortas espiritualmente elas já estão, e não se mata o que já está morto.

21) Se Deus é um ser eterno, então o castigo não precisa ter duração eterna?

Não. Este é só um argumento bobinho e sofista que os imortalistas inventaram para poder dar uma “bagagem intelectual” à tese. A verdade é que não existe absolutamente nada que exija um castigo correspondente à “idade” de quem é “ofendido”. Se fosse assim, a lei de um país não iria punir um ladrão de bicicleta por, suponhamos, três anos, mas sim olhar para a idade de quem teve a bicicleta roubada e então punir de acordo com isso, e assim ele poderia ficar 50 anos preso se roubou de um ciclista de 50 anos, ou menos da metade disso se roubou de uma pessoa jovem. Isso parece completamente sem sentido pra você? Porque é.

Argumenta-se por vezes que a pena tem que ser maior de acordo com a dignidade da autoridade ofendida. Mas Deus não faz acepção de pessoas, e mesmo na lei brasileira a pena para quem mata um mendigo é a mesma para quem mata o presidente da república (veja aqui). Biblicamente falando, a pena para os crimes também nunca acompanha a idade ou dignidade de quem foi agredido. A pena para qualquer assassinato na lei de Moisés era sempre a mesma: a morte. Independia de ser de uma pessoa importante ou de um “Zé ninguém”.

O próprio argumento de que precisa de um tormento eterno por ofender a um Deus eterno fracassa miseravelmente quando comparado com a Bíblia, pois Davi ofendeu a um Deus eterno quando praticou adultério e ordenou um assassinato, e mesmo assim não foi castigado com um tormento eterno, ou com um tormento sem fim enquanto vivesse. Pedro negou três vezes Jesus ofendendo a Deus por isso, mas não foi castigado eternamente ou por todo o tempo enquanto viveu. Poderíamos acumular exemplos aqui aos montões, mas nenhum de alguém castigado para sempre por ter pecado contra um Deus eterno.

Por fim, a Bíblia mostra claramente que o castigo que alguém vai receber não tem nada a ver com quem ofendeu, mas com o que fez ofendendo-lhe. Se a única coisa que valesse fosse “contra quem” ofendeu, então não faria sentido nenhum punir de acordo com a gravidade dos erros, pois o que importaria é que pecou contra o mesmo Deus eterno, e supostamente nisso que consistiria o peso da condenação. Todavia, observe os textos abaixo e diga se isso se parece com um mesmo juízo indistinto sobre todo mundo:

“Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza,receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo,receberá poucos açoites” (Lucas 12:47-48)

“Eles devoram as casas das viúvas, e, para disfarçar, fazem longas orações. Esses homens serão punidos com maior rigor!” (Lucas 20:47)

“Quando algum de vocês estiver indo com seu adversário para o magistrado, faça tudo para se reconciliar com ele no caminho; para que ele não o arraste ao juiz, o juiz o entregue ao oficial de justiça, e o oficial de justiça o jogue na prisão. Eu lhe digo que você não sairá de lá enquanto não pagar o último centavo” (Lucas 12:58-59)

“Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti? E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até quepagasse tudo o que devia. Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas” (Mateus 18:32-35)

Como está nítido, o castigo varia de acordo com os pecados cometidos e não é eterno, o que sepulta a tese de que o castigo tem que ser igual para todos porque todos ofenderam a um mesmo Deus eterno.

22) Os mortalistas creem que quem não for mortalista vai pro inferno?

Lógico que não. Adotar ou não o mortalismo e/ou o aniquilacionismo é uma questão secundária, que em si mesma não salva ou condena ninguém.

23) Se é assim, por que então insistir em ensinar o aniquilacionismo?

Primeiro porque livra milhões de mentes de um tormento psicológico, que consiste no dilema entre um Deus de amor revelado nas Escrituras, que morreu por nós e que nos ama mais do que qualquer pai ama o seu filho, e o “Deus do inferno eterno”, que condena bilhões de criaturas suas a um tormento sem fim, quando poderia perfeitamente condenar apenas pelo tanto justo e proporcional, que é como qualquer um faria, mesmo quem não tem o amor de Deus. Querendo ou não, esse dilema atormenta a mente de muitos imortalistas, e há muitos casos factuais de pessoas que abandonaram a Deus e viraram ateus ou agnósticos por causa disso. É uma doutrina diabólica, inventada justamente no propósito de ofuscar e obscurecer o amor de Deus, e que lastimavelmente tem obtido êxito em tantos casos.

24) E por que insistir em ensinar o mortalismo?

Simplesmente porque a imortalidade da alma é a base para TODOS os principais enganos não apenas do Cristianismo, mas de toda e qualquer falsa religião. Quase todas as falsas doutrinas do catolicismo romano que levam tanta gente à perdição são oriundas da crença na imortalidade da alma. Sem imortalidade da alma, não haveria purgatório, nem limbo, nem missa de sétimo dia, nem culto aos mortos ou pelos mortos, nem reza aos mortos ou “intercessão dos santos”, nem dia de finados, nem uso de velas para os mortos, nem solenidades em honra aos mortos, nem adoração de imagens (de mortos), nem canonização de “santos” (mortos), nem veneração de “relíquias” (de mortos), nem procissões com imagens (de mortos), e assim por diante. Caso você ainda não tenha notado, todo o sistema satânico e idólatra do catolicismo romano gira em torno dos mortos, e só existe por causa da crença numa alma imortal que sobrevive à morte do corpo.

Se as pessoas fossem esclarecidas na questão da morte, também ninguém creria em reencarnação, pois saberiam que não há uma alma que sobrevive à morte para depois “reencarnar” em outro corpo. Também ninguém creria em “aparições marianas”, em mediunidade ou em invocação e/ou evocação dos mortos, pois saberiam que isso é impossível por não haver vida fora do corpo, e assim não seriam enganados por embusteiros charlatões ou por demônios. E a própria idolatria tradicional a imagens, em qualquer religião, geralmente tem a ver com a crença em “santos” ou “divindades” que morreram no passado e que devem ser cultuados hoje. Em suma, acabe com a imortalidade da alma, que você destruirá automaticamente todos os grandes enganos que Satanás plantou no mundo através da primeira grande mentira, a que“certamente não morrerás” (Gn 3:4). É como um efeito dominó: você só precisa derrubar a primeira peça, que as outras vão caindo naturalmente, sem precisar fazer qualquer esforço.

25) Então por que há evangélicos por aí que passam a vida toda tentando “provar” a imortalidade da alma e “refutar” o mortalismo em um monte de artigos?

São “idiotas úteis”, que mesmo sem ter a intenção, estão lutando para manter o pilar e fundamento de todos esses enganos. Na verdade, um dos defeitos da apologética protestante tradicional é justamente esse, de tentar derrubar “peça por peça” do dominó, desperdiçando tempo e energia imensos e desnecessários, em vez de detonar o que sustenta todos eles. Por exemplo, perde-se tempo fazendo um monte de artigos para “refutar a reencarnação”, depois mais um monte de artigos para “refutar a intercessão dos santos”, então mais um monte de artigos para “refutar o culto aos mortos”, então mais um monte para “refutar o purgatório”, e assim por diante. Não que esses enganos não devam ser refutados por si só, mas quando se foca em destruir o que dá sustento a todos eles, consegue-se isso de forma muito mais rápida e eficiente.

É como demolir um prédio: você pode ir tirando objeto por objeto do prédio, ir varrendo andar por andar, quebrando parte por parte e tendo um desgaste gigante, ou pode dinamitar as bases do prédio e explodir tudo de uma vez. É preciso entender que não importa o quanto se refute esses enganos “construídos em cima”, porque enquanto existir a base, sempre construirão novos enganos no lugar. Enquanto o povo crer em imortalidade da alma, sempre surgirão falsas doutrinas, em número cada vez maior, substituindo as heresias anteriores. O que o diabo mais adora é levar os homens para longe de Deus, e o jeito mais fácil de se conseguir isso é conduzi-los aos mortos. É assim com praticamente toda falsa religião do planeta, e todas elas se sustentando no mesmo e único fundamento da “alma imortal”.

26) Se no fim das contas os ímpios vão ser aniquilados, então eu vou pecar à vontade!!!

Se você acha que perder uma felicidade eterna no Paraíso com Deus desfrutando de paz e alegria sem fim, ser castigado pelos seus pecados no geena como um ímpio impenitente junto com demônios e gente imoral e ainda ser aniquilado para sempre vale a pena por “alguns anos de pecado na terra”, então eu acho que você precisa rever os seus conceitos sobre o que vem a ser “compensador”. Ademais, quem é crente de verdade não é crente só porque quer “escapar de um inferno eterno”, mas porque ama a Deus de todo o coração e por isso quer viver com Ele para sempre. Quem precisa de um inferno eterno para manter comunhão com Deus através do medo e do terror precisa urgentemente rever seu relacionamento com Ele.

27) Mas os cristãos não foram desde sempre imortalistas, e o mortalismo é uma invenção recente de adventistas e testemunhas de Jeová?

Isso já foi completamente refutado no meu livro “Os Pais da Igreja contra a Imortalidade da Alma”. Em primeiro lugar, os antigos hebreus da época do Antigo Testamento eram mortalistas, o que é atestado até mesmo em autoridades judaicas reconhecidas como a Enciclopédia Judaica e inúmeros autores. Em segundo lugar, os primeiros Pais da Igreja, até meados do segundo século, e alguns também depois disso, continuaram sendo mortalistas. Em terceiro lugar, muitos dos chamados “pré-reformadores”, como William Tyndale, e “reformadores radicais”, como os anabatistas, eram mortalistas. Em quarto lugar, Lutero era mortalista e há mais de 300 alusões de mortalismo em suas obras, ainda que não fosse dogmático a este respeito. E finalmente, numerosos teólogos desde muito antes de adventistas e testemunhas de Jeová continuaram sendo mortalistas e/ou aniquilacionistas, entre eles John Locke e Edmund Law.

28) O mortalismo é uma crença de grupos sectários! (Ou: se os adventistas e testemunhas de Jeová são mortalistas, então o mortalismo é falso!)

Eeeeeee daí? Espíritas e muçulmanos são doutrinariamente absurdamente distantes das verdades cristãs e são imortalistas, e nem por isso eu vou dizer que a imortalidade da alma é falsa apenas porque esses grupos heréticos ou infiéis creem nela. Não se define uma verdade mediante a inversão do que um grupo tido como sectário diz, mas sim mediante uma exegese bíblica séria e sólida. É lamentável quando o debate deixa de ser sobre “o que a Bíblia diz”, e passa a ser sobre “o que as TJ dizem”, como se a crença inversa das TJ fosse um identificador automático da verdade divina. Além disso, as testemunhas de Jeová creem na justificação pela fé e os adventistas creem na volta de Jesus, e nem por isso essas doutrinas estão erradas. Tampouco eles “patentearam” o aniquilacionismo, que já existia antes deles e continuou existindo depois, como se fôssemos obrigados a virar adventistas ou TJ para crermos na doutrina bíblica da mortalidade da alma, ou como se isso fosse uma briga de torcida onde somos obrigados a ficar “de um lado ou do outro”, comprando o discurso completo de algum lado que defende o mortalismo.

Por fim, há cada vez mais numerosos aniquilacionistas que não são nem adventistas e nem TJ, que descobriram a verdade bíblica em outras denominações, como os casos mais ilustres de Oscar Cullmann e John Stott, entre muitos outros. O Pacto de Lausanne (1974), que foi o maior congresso mundial evangélico que reuniu centenas de nações e denominações das mais diversas em torno de uma Confissão de Fé comum, não definiu nada a respeito de imortalidade da alma e tormento eterno, justamente por não entender que o mortalismo/aniquilacionismo é uma “doutrina sectária”, mas sim uma opção evangélica legítima. Hoje em dia, só os mais radicais e fundamentalistas continuam usando esse argumento, que visa jogar os aniquilacionistas no campo da “heterodoxia” mediante associação com supostas “seitas”.

29) Os cristãos do mundo todo são em suma maioria imortalistas. Isso não prova que a imortalidade da alma é verdadeira?

Não se faz teologia por “maioria de votos”. Houve uma época em que a maioria da Igreja era ariana, e nem por isso o arianismo é verdadeiro. Há mil anos no Oriente prevalece com larga maioria os membros da Igreja Ortodoxa, e nem por isso essa Igreja é necessariamente verdadeira. Na época de Lutero, a Igreja Romana tinha uma maioria absoluta de fieis e suas falsas crenças eram seguidas em toda parte no Ocidente, e nem por isso significa que o catolicismo romano era verdadeiro. Por muito tempo o pré-tribulacionismo não era nem mesmo conhecido, até que surgiu no século XIX e hoje é maioria entre os evangélicos. Por muito tempo também os protestantes não sabiam o que era “arminianismo” e quase todas as igrejas protestantes mais antigas adotavam alguma forma de calvinismo, mas hoje o arminianismo é maioria nas igrejas.

Em resumo: algo ser predominante em número de adeptos não significa rigorosamente nada. Não significa que esteja necessariamente certo, e tampouco significa que esteja necessariamente errado. Independentemente de que igreja você seja ou que confissão religiosa professe, você teria que mudar muita coisa do que pensa se seguisse mesmo essa lógica de “a voz do povo é a voz de Deus”, onde a maioria sempre está com a razão. Havia sete mil joelhos que não haviam se dobrado diante de Baal em Israel na época de Elias (1Rs 19:18), e nem por isso os adoradores de Baal estavam com a razão, não é? Além disso, hoje temos internet, um meio muito mais fácil de divulgar conteúdo e de tirar pessoas do erro, o que era muito mais difícil até pouco tempo atrás, em que a única forma de doutrinação que as pessoas recebiam era na igreja que congregavam, ou seja, elas aprendiam sempre as mesmas coisas o tempo todo e sem contraponto, por isso continuavam crendo do mesmo jeito. É por isso que nos últimos anos o aniquilacionismo vem crescendo tanto no mundo todo, seja entre os eruditos ou entre os leigos.

30) O aniquilacionismo não seria apenas uma “muleta emocional” para não precisar encarar os horrores da realidade de um tormento eterno?

Não. A razão principal e fundamental para crermos no aniquilacionismo não é de ordem moral ou emocional, mas exegética, relacionada às 152 passagens (entre outras) que mencionei. Apenas para citar uma aqui: “Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios” (2Pe 2:6). Pedro diz que os ímpios serão reduzidos a cinzas, e sabemos que uma “cinza” não sente, não pensa, não sofre, não vive. É o melhor e mais preciso elemento para um aniquilacionista ilustrar o aniquilacionismo. Como se isso não fosse suficientemente claro, ele ainda alude ao destino das cidades de Sodoma e Gomorra, que foram literalmente reduzidas às cinzas, e não apenas “alegoricamente” ou “espiritualmente”. E diz que é assim que acontecerá com os ímpios. Portanto, a única exegese sóbria do texto é a de que os ímpios serão realmente reduzidos a cinzas, como as cidades de Sodoma e Gomorra foram quando o fogo caiu do céu e as destruiu completamente (compare com Apocalipse 20:9).

Por outro lado, não ignoramos que há também muitas razões para descrer em um tormento eterno por uma ótica moral, pois não há nem justiça e muito menos amor em se condenar alguém a um castigo de tormento eterno da pior forma possível por causa de alguns anos de pecado na terra. Para os imortalistas, até índios que nunca ouviram falar de Jesus na vida, e até crianças que chegaram à idade da razão (estamos falando de gente com doze anos, por exemplo), seriam condenadas a um tormento, não por minutos, horas ou dias, mas pelos séculos dos séculos, incansavelmente, incessantemente. É um horror literalmente sem fim; um filme de terror que não acaba nunca. Nenhuma tortura ou sofrimento terreno por pior que tenha sido se compara a isso. Pense no pior filme de terror que você já viu, e agora multiplique isso por um bilhão, e ainda não chegará nem perto de um tormento eterno em um lago de fogo e enxofre literal de onde ninguém poderá escapar. E o pior: monstros como Hitler seriam condenados à mesma pena de um ladrão de frangos, por exemplo. Não apenas não há moral, como também não há justiça ou coerência nisso.

Uma vez que a Bíblia reiteradamente descreve Deus como um ser justo e amoroso, que ama as suas criaturas e deseja que todos sejam salvos, este argumento moral não é apenas uma “muleta emocional”, mas um argumento consistente e bíblico, pautado na própria natureza de Deus. O castigo tem que ser proporcional aos pecados de cada um, e em um tormento sem fim não há nada de proporcional, pois se sofre infinitamente por pecados finitos. Não há como um receber “muitos açoites” (Lc 12:47) e outro “poucos açoites” (Lc 12:48), como disse Jesus, se o tormento é eterno para todos. Não há como um tempo eterno e sem fim ser considerado “pouco”, pois o “pouco” presume um fim.

O aniquilacionismo também é a única visão que condiz com a realidade bíblica de um mundo vindouro regido sob uma “nova ordem” onde o mal já não existe (Ap 21:4-5). Na cosmovisão imortalista, o mal nunca será destruído finalmente. Ele será “controlado”, até “derrotado”, mas não “extinto”. Sempre haverá seres blasfemando contra o Criador, sempre haverá uma mancha de pecado no Universo, sempre haverá sofrimento, tristeza, tortura, angústia, aflição, desespero, maldade, dor. O mal será sempre parte inseparável da criação, pois o mal existe enquanto os maus existirem. Na visão bíblica aniquilacionista, por outro lado, haverá o momento em que os ímpios serão eliminados e junto com eles toda e qualquer mancha de pecado, e o Universo estará completamente limpo de todo o mal. Nessa nova criação de Deus, já “não há mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Ap 21:4), e Deus será “tudo em todos” (1Co 15:28).

  • Lista de artigos-resposta

Embora eu particularmente recomende que se leia os livros e não se limite a artigos isolados, eu sei que muita gente não terá tempo ou paciência de ler os livros e mesmo assim vai querer uma resposta rápida e direta sobre cada texto que supostamente “prova” a imortalidade da alma, e por isso montei a tabela abaixo, que é uma resposta aos argumentos mais rotineiros.

TEXTO RESPOSTA
Parábola do rico e Lázaro Link 1 | Link 2
“Hoje estarás comigo no Paraíso” Link 1 | Link 2 | Link 3
“Partir e estar com Cristo” Link 1
Moisés no monte da transfiguração Link 1 | Link 2 | Link 3
As “almas” debaixo do altar Link 1
Não temer aqueles que podem matar o corpo, mas não a alma Link 1 | Link 2
Os espíritos em prisão Link 1
Significado de Sheol/Hades Link 1 | Link 2 | Link 3
Levar cativo o cativeiro Link 1
Um espírito não tem carne e osso Link 1
No corpo ou fora do corpo Link 1
“Samuel” aparecendo a Saul em En-Dor Link 1 | Link 2
Deus de vivos, não de mortos Link 1 | Link 2
A existência de dois juízos (particular e geral) Link 1 | Link 2
O bicho que não morre Link 1
O fogo eterno Link 1 | Link 2
O “castigo eterno” de Mateus 25:46 Link 1 | Link 2 | Link 3
Apocalipse e o tormento eterno Link 1
O lago de fogo Link 1

Precisa de mais esclarecimentos sobre o mortalismo, a respeito algo que não consta aqui? Escreva-me nos comentários.

 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,

Lucas Banzoli (www.facebook.com/lucasbanzoli1)

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