Crônicas para a Alma

“Eu estou sempre com você…”

Uma das experiências mais assustadoras da minha vida teve lugar na noite de 14 de março de 2015. Eu deveria voar de Washington para Zurique, na Suíça. Quando procurei pelos voos disponíveis, encontrei duas possibilidades: um voo direto, sem escalas, partindo no sábado, às 17h40, e outro com escala em Londres, com partida prevista para as 23h. Sem dúvida, a primeira
opção era a melhor, mas acabei comprando a segunda. A razão era simples: o primeiro vôo partiria durante as horas do sábado.

Naquela manhã de sábado, fui à igreja com minha esposa e meu filho, e depois desfrutamos de um bom almoço. Por volta das 5h da tarde, o meu estômago começou a dar sinais de que havia algum problema. Julguei que não era nada sério e, após o pôr do sol, minha esposa me deixou no aeroporto para eu embarcar naquele voo. Mas quanto mais próximo da hora do embarque, mais a minha dor abdominal e as náuseas aumentavam. Em desespero cada vez maior, eu orei: “Senhor, não me lembro de jamais ter ouvido a Sua voz de forma audível. Mas agora eu realmente preciso que o Senhor me diga claramente se devo ou não embarcar neste avião.”

Em vez de falar diretamente comigo, o Senhor usou uma agente da companhia aérea, que se demonstrou muito amiga, para me guiar na direção certa. Quando lhe perguntei sobre a possibilidade de mudar o horário do meu voo para o dia seguinte, ela perguntou como eu estava me sentindo e se ela devia chamar os paramédicos. Depois de relutar um pouco, finalmente concordei. Os paramédicos me colocaram na ambulância e se dirigiram para um hospital nas proximidades. Meu abdômen estava quase como um balão, e somente as injeções de Dilaudid (muito mais fortes do que a morfina) podiam controlar a dor.

O PET-Scan e os Raios-X mostraram uma total obstrução entre o intestino delgado e meados do jejuno, que poderia ser tanto um tumor, como outra coisa qualquer. Assim, na manhã de domingo, um tubo intranasal foi usado para remover todos os alimentos não digeridos do meu estômago, e então, na segunda-feira à noite, foi feita uma laparoscopia (três pequenas incisões), através das quais, o cirurgião foi capaz de identificar e cortar um pequeno pedaço de tecido, como uma corda, liberando assim a adesão ao retroperitônio, que era o que estava causando o problema. Foi um procedimento simples, e não houve necessidade de fazer a biópsia. Louvado seja o Senhor! Dois dias depois, fui liberado do hospital e voltei para casa.

O que poderia ter acontecido?
Ouvimos dizer que “nosso Pai celestial tem mil modos de providenciar em nosso favor, modos de que nada sabemos. Os que aceitam como único princípio tornar o serviço e a honra de Deus o supremo objetivo hão de ver desvanecidas as perplexidades, e uma estrada plana diante de seus pés.” [1] Isso significa que Deus poderia ter resolvido o meu problema de saúde de uma forma diferente. No entanto, da minha limitada perspectiva humana, só posso imaginar o que teria acontecido se essa obstrução intestinal ocorresse exatamente da mesma forma, porém, se eu tivesse decidido seguir por outro caminho.

Por exemplo, o que teria acontecido se eu tivesse simplesmente ignorado o conselho inspirado de evitar viagens desnecessárias durante as horas do sábado e tomado o voo das 17h40? Certamente, aquela dor intensa e as náuseas teriam aparecido enquanto eu estivesse atravessando o Oceano Atlântico. Como a pressão do ar na cabine, naquela altitude, é inferior à do nível do mar, a minha dor e as náuseas teriam sido ainda maiores. Além disso, os aviões comerciais não estão equipados para lidar com tais problemas. Por outro lado, se a minha dor tivesse começado um pouquinho mais tarde, eu teria embarcado no voo das 23h. Nesse caso, o avião teria que retornar ao aeroporto de partida ou aterrissar em outro aeroporto na costa nordeste da América do Norte. Mas o meu problema também poderia ter começado mais longe de casa, quem sabe durante o voo sobre o Atlântico, ou enquanto esperava por minha conexão em Londres, ou até mesmo durante a viagem de trem de Zurique para o destino final. Naturalmente, essas são apenas especulações humanas. Mas estou convencido de que o meu problema ocorreu exatamente no momento menos arriscado e do modo mais fácil de ser resolvido.

O que eu aprendi?
As crises são as oportunidades de Deus para nos lembrar de algumas realidades que nem sempre levamos tão a sério quanto deveríamos. Durante os 56 anos de minha vida, nunca havia passado por qualquer tipo de cirurgia, e aqueles quatro dias em que estive no hospital me ajudaram a ver que nossa vida é muito mais frágil do que podemos imaginar. Isaías 40 compara os seres humanos à relva que permanece verde por um tempo e então fenece, e às flores que florescem, depois caem, e então desaparecem (v. 6, 7). Mas o mesmo capítulo acrescenta ainda que “aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam” (v. 31). [2]

Outra realidade que passou pela minha cabeça no hospital é que nós podemos controlar algumas coisas, mas não todas. Há circunstâncias na vida que estão muito além do nosso poder de controle. Uma voz do Céu disse ao rei Nabucodonosor que “o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens” (Daniel 4:32) e, por extensão, também governa a nossa própria vida. Apesar de não entender exatamente por que certos problemas aparecem em nosso caminho, não devemos nos esquecer de que “Deus não conduz jamais Seus filhos de maneira diferente da que eles escolheriam se pudessem ver o fim desde o princípio e discernir a glória do propósito que estão realizando como Seus colaboradores”. [3]

Uma terceira realidade bastante significativa é a de que às vezes precisamos desacelerar a rotina da vida e repensar nossas prioridades. Ellen White assim escreve: “À medida que aumenta a atividade, e os homens são bem sucedidos em realizar alguma obra para Deus, há o risco de confiar em planos e métodos humanos. Vem a tendência de orar menos e ter menos fé. Como os discípulos, arriscamo-nos a perder de vista nossa dependência de Deus e buscar fazer de nossa atividade um salvador.” [4] Oswald Chambers também adverte: “Cuidado com qualquer coisa
que compete com a sua fidelidade a Jesus Cristo. O maior concorrente da verdadeira devoção a Jesus é o serviço para Ele. É mais fácil servir do que derramarmos nossa vida completamente
a Ele.” [5]

As crises são as oportunidades de Deus para nos lembrar de algumas realidades que nem sempre levamos tão a sério quanto deveríamos. Este é o relato de uma dessas crises e o que ela significou para a fé e a vida de uma pessoa.

Leva uma montanha
Pouco tempo depois que cheguei em casa de volta do hospital, um cunhado me enviou um link do YouTube com a bela canção do Gaither Vocal Band (Gravado por Patricia Romania na Gavadora Novo Tempo), “Às vezes é preciso uma montanha.” [6] As primeiras quatro linhas do refrão dizem que “às vezes é preciso uma montanha, às vezes um mar agitado, às vezes é preciso um deserto para me alcançar.” A música toda sugere que Deus às
vezes permite que passemos por crises relevantes, a fim de nos trazer para mais perto dEle. Por outro lado, podemos ver como faz a diferença em nossa vida quando permanecemos sempre comprometidos com Deus e Sua Palavra, independentemente das circunstâncias!

Vivemos dentro do grande conflito cósmico / histórico entre Deus e Seus santos anjos, e Satanás e seus anjos maus, o que significa que muitos dos nossos incidentes na vida ainda não são totalmente compreensíveis. Mas, na escola celestial, “todo remido compreenderá a atuação dos anjos em sua própria vida. Que maravilha será entreter conversa com o anjo que foi o seu protetor desde os primeiros momentos, que lhe vigiou os passos e cobriu a cabeça no dia de perigo, que com ele esteve no vale da sombra da morte, que assinalou o seu lugar de repouso, que foi o primeiro a saudá-lo na manhã da ressurreição, e dele aprender a história da interposição divina na vida individual, e da cooperação celeste em toda a obra em favor da humanidade!” [7]

Deus não prometeu nos libertar de todas as tempestades da vida, mas sim, estar conosco no meio delas (Mateus 8:23-27). Jesus mesmo declarou aos Seus seguidores: “Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo!” (João 16:33). “Eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20).

E isso faz toda a diferença!

Por: Alberto R. Timm, PhD pela Andrews University, é diretor associado do Ellen G. White Estate, Silver Spring, Maryland, USA. Para a Revista Dialogue

REFERÊNCIAS
1. Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990), p. 330.
2. Todas as citações das Escrituras são da Nova Versão Internacional.
3. Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p. 479.
4. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 362.
5. Oswald Chambers, My Utmost for His Highest, edição atualizada na linguagem de hoje (Grand Rapids, Michigan: Discovery House, 1992), leitura para 18 de Janeiro.
6. https://youtube.com/watch?v=b-24kkrKp1Y.
7. Ellen G. White, Educação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 305.

Clique nesta imagem para ir ao site e conhecer o conteúdo do áudio livro

Tags:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *