Existe um chamado bíblico para o ecumenismo?

Existe um chamado bíblico para o ecumenismo?

Para alguns cristãos, o termo “ecumenismo” e? uma palavra repugnante. Muito frequentemente, essa atitude tem levado a? intolera?ncia doutrina?ria e relacional para com outros cristãos. A apatia resultante e o desinteresse em relac?ão a outros cristãos são justificados por meio de argumentos vagos como “permanecer em defesa da verdade” ou “evitar compromisso”. Mas, muitas vezes, tal apatia representa simplesmente ma? vontade em ir ale?m da familiar e rotineira zona de conforto. Ou, pior, pode ser motivada por um senso de elitismo, ate? mesmo fanatismo, em relação a outros cristãos. A fim de evitar essas barreiras a? cordialidade, necessitamos pensar cuidadosamente a respeito de nossa visão da igreja de Deus nos aspectos visi?vel e invisi?vel. Pore?m, temos que ser muito cuidadosos na abordagem desse tema. Um cuidadoso estudo de nossa histo?ria e nossos ensinamentos mostrara? que ha? um ecumenismo positivo e outro nocivo. O positivo diz respeito a? consideração, ao cuidado, apoio pra?tico que deve haver entre os cristãos. O ecumenismo nocivo e? uma busca mais formal, ideolo?gica, por uma unidade institucional e doutrina?ria. Vamos analisar as duas formas.

O lado positivo

Muitos de no?s talvez fiquemos surpresos ao aprender que nossas crenças fundamentais reconhecem a validade da igreja ecume?nica. Os diciona?rios definem a palavra ecume?nico como significando literalmente universal. Nossa crença fundamental nu?mero 12, “O remanescente e sua missão”, começa com estas palavras: “A igreja universal se compo?e de todos os que verdadeiramente creem em Cristo.”1 Essa declaração reconhece que Cristo tem cristãos fie?is em muitos lugares, incluindo o espectro das denominações cristãs. Pore?m, não devemos nos esquecer de acrescentar estas linhas: “mas, nos u?ltimos dias, um tempo de ampla apostasia, um remanescente tem sido chamado para fora, a fim de guardar os mandamentos de Deus e a fe? em Jesus.”2

Na verdade, cremos na func?ão especial que tem um remanescente visi?vel, com uma mensagem e missão especiais.

Entretanto, nunca ensinamos que a realidade desse remanescente nega a existe?ncia da igreja universal, invisi?vel. Ao contra?rio, nossos pioneiros sempre reconheceram que, de acordo com Ellen G. White, “ha? cristãos verdadeiros em todas as igrejas, inclusive na comunidade cato?lico-romana”.3

O movimento adventista do se?culo 19 foi um dos movimentos verdadeiramente ecume?nicos dos tempos modernos. Guilherme Miller era batista, mas pregava sua mensagem do advento em igrejas de muitas denominações. Inicialmente, aqueles que se tornavam adventistas não deixavam essas igrejas, mas, em muitos lugares, foram eventualmente forçados a sair. A? medida que o movimento crescia, ganhava representantes de quase todas as denominações americanas – metodistas, batistas, presbiterianos, congregacionalistas e conexão cristã. Depois do desapontamento de 1844, o movimento adventista, que se tornou Igreja Adventista do Se?timo Dia, foi composto de ex-membros daquelas igrejas.

Alguns mante?m a visão de que nossos pioneiros se sentaram em uma sala com a Bíblia nas mãos e montaram um conjunto inteiramente novo de crenças e pra?ticas, reconstruindo a igreja do Novo Testamento a partir do zero. A realidade e? que os primeiros adventistas tomaram crenças e pra?ticas de uma variedade de grupos, esquadrinharam-nas atrave?s do filtro bíblico, adotando e adaptando aquelas que foram aprovadas nesse teste. De fato, algumas de nossas pra?ticas litu?rgicas não estão ordenadas nem mesmo descritas na Bíblia, mas foram adaptadas de outras igrejas cristãs. Entre elas estão as reuniões de orac?ão semanais, Escola Sabatina, reuniões campais, a ordem litu?rgica, coleta de ofertas, Santa Ceia trimestral, e outras que afetam nosso culto e pra?ticas de testemunhar.

Os adventistas do se?timo dia são, eles mesmos, o resultado de um verdadeiro movimento ecume?nico bíblico.

Tempo de Oportunidade

“Ningue?m recebeu ate? agora o sinal da besta. Ainda não chegou o tempo de prova. Ha? cristãos verdadeiros em todas as igrejas, inclusive na comunidade cato?lico-romana. Ningue?m e? condenado sem que haja recebido iluminação nem se compenetrado da obrigatoriedade do quarto mandamento.” “Mas ningue?m devera? sofrer a ira de Deus antes que a verdade se lhe tenha apresentado ao espírito e conscie?ncia, e haja sido rejeitada. Ha? muitos que nunca tiveram oportunidade de ouvir as verdades especiais para este tempo. A obrigatoriedade do quarto mandamento nunca lhes foi apresentada em sua verdadeira luz. Aquele que le? todos os corações e prova todos os intuitos, não deixara? que pessoa alguma que deseje o conhecimento da verdade seja enganada quanto ao desfecho da controve?rsia.”

“Deve-se dispensar o mais prudente e mais firme trabalho aos pastores que não pertencem a? nossa fe?. Muitos ha? que não sabem nada melhor do que serem desviados por pastores de outras igrejas. Orem e trabalhem obreiros fie?is, tementes a Deus e fervorosos…, orem e trabalhem, digo, pelos pastores sinceros que foram ensinados a interpretar mal a Palavra da Vida. Muitos pastores que agora pregam o erro hão de pregar a verdade para este tempo.”

As mensagens ange?licas

Alguns poderiam argumentar que, com o início da pregação das tre?s mensagens ange?licas de Apocalipse 14, no fim dos anos 1840 (incluindo a mensagem do segundo anjo sobre a queda de Babilo?nia), não mais pode haver associação com outras igrejas cristãs que compõem a Babilo?nia cai?da. Essa simplesmente não foi a compreensão dos nossos pioneiros. Em vez disso, eles foram ativos em compartilhar com outros cristãos pontos em comum, principalmente contra a escravidão e em favor da temperança e da liberdade religiosa. Ellen G. White falou a grandes audie?ncias de não adventistas, defendendo leis de temperança, assim como pregou em pu?lpitos de igrejas de outras denominações.

Ale?m disso, ela usou comenta?rios bíblicos e livros religiosos escritos por outros cristãos depois de 1844, chegando a se referir a alguns comenta?rios não adventistas de seu tempo como estando entre seus “melhores livros”.4 Dirigindo-se aos pastores adventistas, estimulando-os a se envolverem no trabalho pessoal em favor de outros pastores, ela escreveu: “Nossos pastores devem procurar aproximar-se dos pastores de outras denominações. Orem por esses homens e com eles, por quem Cristo esta? fazendo intercessão. Pesa sobre eles solene responsabilidade. Como mensageiros de Cristo, cumpre-nos manifestar profundo e fervoroso interesse nesses pastores do rebanho.”5 Dois pontos merecem ser especialmente notados: Primeiro, devemos orar “por esses homens e com eles”.

Aqui, a preposição “com” implica não apenas preocupação evangeli?stica, mas tambe?m companheirismo. Segundo, devemos notar seu reconhecimento de que esses pastores tambe?m são “pastores do rebanho”. Essa fraseologia e? o reconhecimento de que esses pastores de outras denominações tambe?m estão velando sobre “o rebanho” de Cristo. Como isso deve ser compreendido a? luz da mensagem do segundo anjo, que anuncia a queda de Babilo?nia? O quarto anjo de Apocalipse 18 indica que Babilo?nia tera? cai?do completamente quando ela estiver comprometida com os poderes comerciais e civis do mundo, e usar as forças civis para fins religiosos. Ellen G. White e os pioneiros compreendiam a mensagem do quarto anjo como estando ainda no futuro, e que Babilo?nia, ao cair, continua a abrigar fie?is cristãos com os quais podemos e devemos nos relacionar. Somente quando esses cristãos usarem o poder estatal a fim de perseguir aqueles dos quais discordam em questões espirituais, teremos chegado ao ponto em que não mais podemos conviver em harmonia.6 A ana?lise contextual do capítulo evidencia que, mesmo em nossos dias, a mensagem do quarto anjo ainda esta? no futuro. Assim sendo, muitos pastores adventistas estão envolvidos, e muitos outros deveriam estar empenhados em visitar pastores de outras denominações e orar com eles. Esse relacionamento tambe?m serve como base para um trabalho conjunto em assuntos comunita?rios, como liberdade religiosa, criacionismo, igualdade racial, fami?lia e casamento. Isso enfatiza o fato de que o ecumenismo pra?tico e? uma questão local envolvendo assuntos comunita?rios. Justiça social enraizada no evangelho e na vinda de Cristo foi a base do ecumenismo adventista histo?rico. Temperança, combate a? escravidão e liberdade religiosa foram esforços destinados a proteger e afirmar pobres, fracos, jovens e marginalizados. Os adventistas necessitam ser despertados e novamente inspirados para esse tipo de esforço interdenominacional bem orientado.

O lado negativo

Evidentemente, tambe?m houve limites no ecumenismo adventista dos pioneiros, particularmente no que se refere ao ecumenismo ideolo?gico formal. Um claro exemplo histo?rico desses limites foi a Confere?ncia Missiona?ria Mundial de 1910, realizada em Edimburgo, Esco?cia. Os adventistas assistiram a esse evento e participaram das reuniões, mas se recusaram a apoiar a divisão de campos missiona?rios mundiais entre as va?rias denominações.7 Essa recusa pode ter parecido uma atitude mesquinha, secta?ria e arrogante, mas podemos firmemente garantir que o Senhor não abençoaria os resultados de uma concorda?ncia. Sem essa recusa, e? improva?vel que os adventistas do se?timo dia se tornassem a denominação evange?lica mais difundida no mundo, com mais de 17 milhões de membros em mais de 200 pai?ses, operando o mais disseminado sistema educacional e me?dico no mundo. Humildemente, reconhecemos que o poder de Deus faz com que as pequenas coisas se tornem muito grandes, e devemos estar sempre atentos a?s adverte?ncias contra a jacta?ncia de nos acharmos “ricos e abastados” (Ap 3:17). Por si mesmo, o crescimento não e? prova de que estamos certos, embora a falta dele provavelmente evidencie que estejamos indo na direção errada. De todo modo, ha? duas questões importantes diante de no?s: Por que o adventismo resistiu a? divisão do campo missiona?rio?

Qual e? o princi?pio que levou a? recusa e que tambe?m pode limitar nosso envolvimento no movimento ecume?nico formal de hoje?

Sa?bado e ecumenismo

Uma razão fundamental para essa dificuldade se centraliza em nossa crenc?a de que o se?timo dia, o sa?bado, e? o dia do Senhor. O sa?bado ergue barreiras histo?ricas, profe?ticas, teolo?gicas e pra?ticas ao nosso pleno envolvimento com o moderno movimento ecume?nico. Em primeiro lugar, como assunto pra?tico, nosso dia especial de adoração cria uma barreira ao culto regular com outros grupos cristãos. Esses grupos podem se reunir, sem problemas, para o culto de adorac?ão. Mas o compromisso central de nosso culto e? que ele se realiza em um dia em que poucas igrejas tambe?m se reu?nem para adorar. Podemos ate? realizar e assistir cultos em outros dias, por causa de algum evento especial, assim como outros cristãos podem fazer o mesmo no sa?bado. Mas essa não e? a pra?tica rotineira. Em segundo lugar, nossa observa?ncia do sa?bado nos tem dado grande sensibilidade para com a situação das minorias religiosas que te?m sido perseguidas pelo fato de manterem crenças diferentes das tende?ncias atuais da maioria. O antissemitismo tem uma longa e desafortunada histo?ria na Europa e na Ame?rica, e frequentemente a marca da intolera?ncia inclui a observa?ncia do sa?bado. Depois do ini?cio da Reforma, luteranos, calvinistas e cato?licos se uniram na perseguic?ão e no assassinato de anabatistas, por causa das crenças deles. Alguns anabatistas observavam o sa?bado do se?timo dia e foram objeto de perseguição por causa dessa pra?tica. Na Ame?rica do fim do se?culo 19, adventistas foram penalizados e encarcerados por transgredirem leis dominicais. 8 Acreditava-se que os grupos minorita?rios poderiam ser pressionados a aceitar as crenças da maioria, ou talvez a minimizar crenças não defendidas por essa maioria. Diante disso, quando cristãos começaram a se reunir em grupos, propondo unidade nos pontos em comum, os adventistas ficaram preocupados. Na verdade, como adventistas, cremos que, em algum ponto no futuro, certas pra?ticas de culto mantidas pela maioria serão impostas por meio de leis governamentais. Assim, somos firmemente refrata?rios a projetos direcionados a buscar unidade por meio do jogo da minimizac?ão teolo?gica ou doutrina?ria. Temos crenças fundamentais, distintivas, como o sa?bado, que a Histo?ria nos mostra ser vulnera?vel a? minimizac?ão por parte de outros cristãos. Em terceiro lugar, encontramos no sa?bado uma autoridade teolo?gica inerente. Cremos que o sa?bado não e? simplesmente um dia da semana, mas uma expressão da amora?vel autoridade de Deus.

O sa?bado nos lembra de que Ele nos criou por amor. Tambe?m nos lembra, de modo especial, Sua autoridade como Criador. De que maneira o sa?bado e? um memorial u?nico dessa autoridade? Alguns dos dez mandamentos, como leis contra roubos, assassinatos e adulte?rio, podem ser estabelecidos por autoridades civis, independentemente da Bíblia. Pore?m, o sa?bado do se?timo dia foi estabelecido apenas por uma ordem especial de Deus. A psicologia pode nos ensinar que seres humanos funcionam melhor e sa?o mais sauda?veis por repousarem um dia entre os sete da semana. 9 Mas na?o pode nos dizer que o melhor dia para repousar seja o se?timo dia. Assim, ao observar o sa?bado como santo dia do Senhor, revelamos um sinal especial de submissão a? amora?vel autoridade de Deus. No sa?bado, criação, amor e autoridade estão juntos em um expressivo si?mbolo de adoração. Como adventistas, não cremos que sejamos salvos por causa da observa?ncia do sa?bado. Mas, cremos que essa observa?ncia e? um reconhecimento especial da autoridade divina, em contraste com a autoridade humana, seja ela expressa pela tradição, por um magiste?rio ou pela vontade da maioria. O ecumenismo formal tende a dizer, pelo menos na pra?tica, que as coisas importantes para a maioria devem ser importantes para todo o mundo. Assim, a autoridade do grupo tende a determinar quais são as doutrinas importantes e de que maneira elas são definidas. Acaso, não e? assim que todas as declarações de crenc?as são formuladas? E? verdade. Pore?m, a? mesa adventista permanece o compromisso de tratar as Escrituras como autoridade final, a norma pela qual todas as reivindicações da razão, da Histo?ria e da experie?ncia são julgadas. Ao observarmos as denominac?ões cristãs de hoje, vemos uma variedade de abordagens de autoridade doutrina?ria e ensino. Ha? diferentes pontos de vista sobre o papel da tradição, a importa?ncia do ensinamento do magiste?rio, e me?todos de estudo da Bíblia, como o me?todo cri?tico superior, que os adventistas colocam abaixo da autoridade escrituri?stica.

Autoridade bíblica

Para os adventistas do se?timo dia, a autoridade das Escrituras prove?m de Deus, falando atrave?s do Espírito Santo a uma comunidade comprometida em observar o memorial semanal de Sua soberania. Isso nos faz relutantes em nos unirmos a grupos para os quais a autoridade final se encontra na tradição, nos credos, em um sacerdo?cio ou magiste?rio, ou em algo como maioria na comunidade cristã. O movimento milerita, como exemplo de um verdadeiro movimento ecume?nico bíblico, deve ser aplaudido. Ele estava fundamentado na busca da verdade bíblica, comprometido com a autoridade final das Escrituras, conforme executada pelo Espi?rito Santo na comunidade de crentes. Cremos que esse movimento ecume?nico, universal, ocorrera? novamente antes da segunda vinda de Cristo e que ele incluira? “toda nac?a?o, tribo, li?ngua e povo” (Ap 14:6). Oremos para que minha igreja, sua igreja e muitas outras igrejas tenham humildade a fim de que sejam parte desse movimento. Enquanto isso, compartilhemos nossos dons, aproximemo-nos de outros cristãos e pastores, não em busca de unidade superficial, imposta por homens, mas a unidade genui?na, biblicamente fundamentada, de acordo com o “assim diz o Senhor!”

Equipe Biblia.com.br

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Nicholas P. Miller é professor de História na Andrews University.

Artigo Publicado na Revista Ministério. Agosto de 2014.

Refere?ncias:

1 Nisto Cremos, p. 211.

2 Ibid.

3 Ellen G. White, Evangelismo, p. 234.

4 Herbert Douglas, A Mensageira do Senhor, capi?tulo 12.

5 Ellen G. White, Evangelismo, p. 562.

6 Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 603-605.

(Andrews University).7 F. L. Cross e E. A. Livingstone, editores, The Oxford Dictionary of the Christian Church (Oxford: Oxford University Press, 2005); George Knight, Historical Sketches of Foreign Missions (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2005), p. 18-26.

8 George H. Williams, The Radical Reformation (Kirksville, MO: Truman State University Press, 2000), p. 272; Bryan Ball, The Seventh- Day Men (Oxford: Clarendon Press, 1994), p. 37; W. L. Emerson, The Reformation and the Advent Movement (Hagerstown, MD: Review and Herald, 1983), p. 73-75; para descric?a?o do aprisionamento, julgamento e condenac?a?o de adventistas do Se?timo dia, no se?culo 19, por causa da observa?ncia do sa?bado, ver William A. Blakely, American State Pages and Related Documents on Freedom in Religion (Washington, DC: Review and Herald, 1949), p. 457-512.

9 Neil Nedley, Proof Positive (Amore, OK: Neil Nedley, 1999), p. 504.

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