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Francisco e o domingo

“Talvez seja a hora de nos perguntarmos se trabalhar aos domingos é uma liberdade verdadeira” – afirmou o papa Francisco recentemente, numa visita a Molise, no sul da Itália. O que rende apenas uma nota num jornal secular não passa despercebido em nosso radar profético. Para aqueles que vigiam na madrugada da história, qualquer afirmação mais assertiva de Roma é digna de atenção. De fato, a declaração do papa não se trata apenas de uma frase solta no ar, de um anseio ou uma opinião pessoal, mas de uma posição institucional em favor do restabelecimento de uma instituição essencialmente romana, o domingo.

A declaração é emblemáica, pois fala sobre o momento atual, sobre um dia de descanso e sobre liberdade, conceitos de enorme peso no panorama escatológico, conforme entendemos. Logicamente, o papa não tinha as profecias em vista ao fazer sua declaração, mas a lógica por trás de sua fala não deixa de ter implicações profundas para o bom entendedor.

Discursos papais

Em sua encíclica Laudato Si (“Louvado Seja”), na qual trata do cuidado do planeta, ele menciona a importância de participar na eucaristia aos domingos: “A participação na Eucaristia é especialmente importante ao domingo. Este dia, à semelhança do sábado judaico, é-nos oferecido como dia de cura das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo. O domingo é o dia da Ressurreição, o ‘primeiro dia’ da nova criação, que tem as suas primícias na humanidade ressuscitada do Senhor, garantia da transfiguração final de toda a realidade criada” (itálicos acrescentados).

Percebe-se que, da mesma forma que enraíza a identidade do domingo no sábado bíblico, Francisco o distingue dele, restringindo-o aos limites do judaísmo. Sem dúvida, o sábado tem uma forte e respeitável identidade judaica, mas deve-se lembrar que é anterior ao povo judeu, de acordo com as Escrituras, uma dádiva concedida a toda a humanidade (Gênesis 2:1-3). O mandamento do sábado não foi uma inovação do Sinai ou dos dez mandamentos, mas um “lembra-te” que remete às origens. Na argumentação do pontífice romano, o chamado sábado cristão (o domingo), tanto no meio católico como no protestante, reveste-se de todas as prerrogativas do sábado bíblico. Transforma-se numa das maiores respostas para a crise ecológica, assim como de todas as outras (a palavra “crise” é utilizada 30 vezes ao longo da encíclica).

Na encíclica, Francisco completa o raciocínio argumentando que “a lei do repouso semanal impunha abster-se do trabalho no sétimo dia, ‘para que descansem o teu boi e o teu jumento e tomem fôlego o filho da tua serva e o estrangeiro residente’ (Êxodo 23, 12). O repouso é uma ampliação do olhar, que permite voltar a reconhecer os direitos dos outros. Assim o dia de descanso, cujo centro é a Eucaristia, difunde a sua luz sobre a semana inteira e encoraja-nos a assumir o cuidado da natureza e dos pobres”. A linguagem suave em torno do restabelecimento do domingo como bálsamo para as feridas da humanidade e do planeta traria consigo um ímpeto ainda maior à causa do domingo assim como à influência global da Igreja Católica. Sua linguagem não expressa o apelo de um líder religioso, mas a voz de um estadista global cheio da autoridade de uma igreja que sabe aonde quer chegar.

A voz de Francisco faz avançar o aggiornamento (“atualização”) proposto desde o Concílio Vaticano II, nos anos 1960, para tornar o catolicismo mais relevante na sociedade. Desde então, as encíclicas, assim como todos os esforços e a comunicação da igreja romana, não apresentam mais suas crenças pela força do dogma, ou da autoridade eclesiástica em si. Procura-se apresentá-las, agregando elementos bíblicos, filosóficos, antropológicos, científicos e ecumênicos, entre outros, para a defesa dos pontos de vista romanos. Quanto ao domingo, sem dúvida, a maior referência é a encíclica Dies Domini (“Dia do Senhor”, de 1998), assinada pelo papa João Paulo II, com a participação de Joseph Ratzinger, seu futuro sucessor (confira aqui uma resenha que preparei anos atrás sobre a encíclica).

No ano de 2000, João Paulo II afirmou: “A ‘pequena semente’ que João XXIII lançou […] cresceu e deu vida a uma árvore que já alarga os seus ramos majestosos e frondosos na Vinha do Senhor. Ele já deu numerosos frutos nestes 35 anos de vida e ainda dará muitos outros nos anos vindouros. Uma nova estação abre-se diante dos nossos olhos […] O Concílio Ecuménico Vaticano II constitui uma verdadeira profecia para a vida da Igreja; e continuará a sê-lo por muitos anos do terceiro milénio há pouco iniciado. A Igreja, enriquecida com as verdades eternas que lhe foram confiadas, ainda falará ao mundo, anunciando que Jesus Cristo é o único verdadeiro Salvador do mundo: ontem, hoje e sempre!” (itálicos acrescentados). Como uma organização milenar, Roma não faz planos para o ano que vem, mas para décadas e eras. Está em seus planos a vinda de uma “nova estação”, na qual “falará ao mundo”.

Cenário previsto

Há um século e meio a escritora Ellen White anteviu não só o ressurgimento do papado, então enfraquecido, como da observância do dia consagrado por Roma. No capítulo “A Imutável Lei de Deus”, ela faz afirmações impressionantes: “Enquanto os adoradores de Deus se distinguirão especialmente pelo respeito ao quarto mandamento – dado o fato de ser este o sinal de Seu poder criador, e testemunha de Seu direito à reverência e homenagem do homem – os adoradores da besta salientar-se-ão por seus esforços para derribar o monumento do Criador e exaltar a instituição de Roma. Foi por sua atitude a favor do domingo que o papado começou a ostentar arrogantes pretensões; seu primeiro recurso ao poder do Estado foi para impor a observância do domingo como “o dia do Senhor”(O Grande Conflito, páginas 446, 447).

Ela, contudo, ressaltou que existem muitos sinceros em todas as igrejas e que a profecia de Apocalipse 13 só vai se cumprir quando for imposta por lei: “… hoje existem verdadeiros cristãos em todas as igrejas, não excetuando a comunhão católica romana, que creem sinceramente ser o domingo o dia de repouso divinamente instituído. Deus aceita a sinceridade de propósito de tais pessoas e sua integridade. Quando, porém, a observância do domingo for imposta por lei, e o mundo for esclarecido relativamente à obrigação do verdadeiro sábado, quem então transgredir o mandamento de Deus para obedecer a um preceito que não tem maior autoridade que a de Roma, honrará desta maneira ao papado mais do que a Deus. Prestará homenagem a Roma, e ao poder que impõe a instituição que Roma ordenou. Adorará a besta e a sua imagem. Ao rejeitarem os homens a instituição que Deus declarou ser o sinal de Sua autoridade, e honrarem em seu lugar a que Roma escolheu como sinal de sua supremacia, aceitarão, de fato, o sinal de fidelidade para com Roma – ‘o sinal da besta’. E somente depois que essa situação esteja assim plenamente exposta perante o povo, e este seja levado a optar entre os mandamentos de Deus e os dos homens, é que, então, aqueles que continuam a transgredir hão de receber “o sinal da besta” (Ibid., p. 449).

Voltando à declaração de Francisco, as múltiplas crises que o mundo enfrenta hoje: ecológica, política, econômica, alimentar, social, moral e de segurança estão fazendo os líderes mundiais refletirem. A alternativa que ganha cada vez mais sentido é a união de diferentes atores com vistas ao bem comum. É a busca de um consenso, mesmo que isso comprometa a liberdade, a exemplo do que aconteceu nos Estados Unidos e no mundo pós-11 de setembro. É a influência cada vez maior da Igreja sobre o Estado, numa relação que nunca foi casta e jamais será. Chegou a hora de abrirmos a Bíblia, de estarmos atentos aos movimentos de Roma, que apontam mais e mais para o quadro descrito nas profecias. Ainda não chegou a hora indicada pela profecia, mas sem dúvida chegou o momento de decidirmos de que lado estamos.

Fonte: adventistas.org

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