Infalibilidade: O profeta verdadeiro erra?

O futebol teológico da “infalibilidade” e da “inerrância” estão agitando mentes e corações no cristianismo evangélico hoje, especialmente na relação destes assuntos com a questão da inspiração profética. Grande parte da discussão revolve em torno de considerações semânticas, 1 e está intimamente associada com a teoria da inspiração verbal. Contudo, importantes perguntas precisam ser feitas – e respondidas – como: O profeta verdadeiro erra? Todas as predições de um profeta verdadeiro se cumprem 100% do tempo? Um profeta verdadeiro pode ter de mudar algo que escreveu ou disse?

Webster define infalível como: “1: incapaz de errar: inerrante; 2: não sujeito a induzir ao erro, enganar ou desapontar: certo; 3: incapaz de errar ao definir doutrinas relacionadas à fé ou à moral.” 2 Ele ainda define inerrante como “livre de erro: infalível.” 3 A questão da infalibilidade profética é levantada porque a Bíblia afirma ser mais confiável do que as produções literárias comuns de autores humanos. Como foi notado na parte 1 desta série, “Toda a Escritura é inspirada por Deus” (II Timóteo 3:16). Ela não está sujeita a “particular elucidação” porque a mensagem não se originou por iniciativa particular ou por criatividade particular. Em vez disso, “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (II Pedro 1:21). Portanto, disse Pedro, “fazeis bem em atendê-la” (v. 19). Na epístola que bem pode ter sido o primeiro livro do Novo Testamento a ser escrito, Paulo, no mesmo espírito da referência citada acima, de Pedro, admoestou os cristãos tessalonicenses: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom” (I Tessalonicenses 5:19-21). Por quê? Pedro responde: porque temos uma palavra profética “tanto mais confirmada” (II Pedro 1:19). Traduções mais recentes assim verteram a passagem: a palavra dos escritores proféticos é “tornada mais certa” 4, “tornada mais segura” 5, “ainda mais segura” 6, “ainda mais firme” 7, “confirmada” 8, “reafirmada” 9, e “mais plenamente garantida” 10. A questão, portanto, não é a singularidade da palavra profética por ser “mais confirmada” do que os escritos não-inspirados; a questão é: qual é a essência deste ser “mais confirmada”? De que forma esta palavra é “mais confirmada”? Vários modelos analógicos possíveis podem ser encontrados entre os cristãos evangélicos e entre os adventistas do sétimo dia:

1. A teoria da “camisa de força”: Esta teoria afirma que o controle do Espírito Santo sobre o profeta durante o processo de inspiração é tão rígido, tão apertado, que o profeta é impedido de cometer qualquer tipo de erro. Esta posição é bem ilustrada nas palavras de um evangelista adventista num sermão que explicava Ellen White para não-adventistas: “E, a propósito, as predições de Ellen White até este minuto foram certas todas as vezes. Os videntes gostam de falar de sua média de acertos. Eles se orgulham se estiverem certos 75 ou 80 por cento das vezes. “Ouçam! Um profeta de Deus com uma média de acertos? Nunca! Um profeta de Deus está certo 100% do tempo, ou não está certo de maneira alguma! “E outra coisa! Um profeta de Deus não muda de ideia! “Acho que vocês estão começando a ver a diferença entre um profeta – um profeta verdadeiro – e um vidente.” Assim, são sugeridos três postulados: (a) O verdadeiro profeta tem um QAP (quociente de acertos proféticos) de 100%, enquanto que os videntes (e falsos profetas) comumente têm um QAP de 75-80%; (b) se um profeta de Deus não estiver certo 100% do tempo, ele não está certo nunca; e (c) um profeta verdadeiro nunca tem de voltar atrás e mudar qualquer coisa que tenha escrito ou dito em sua capacidade profissional como profeta. Esta posição extrai suas ideias em grande parte da filosofia básica de inspiração defendida pelo autor de um livro popular sobre Ellen White publicado alguns anos atrás: “Um verdadeiro profeta [itálicos no original] não é um vidente que atua com a ajuda de uma muleta mental ou “espiritual”, mas é alguém que não tem qualquer grau de liberdade para sintonizar ou controlar os impulsos proféticos ou o chamado profético. Estes impulsos são sobrepostos à mente consciente do profeta por um ser pessoal sobrenatural, que tem absoluto conhecimento tanto do passado quanto do futuro, não deixando margem para equívocos ou erros de cálculo humanos.” 11 Esta posição tem sérios problemas e implicações com relação tanto à Bíblia quanto aos escritos de Ellen White, como será notado mais adiante.

2. A teoria da “intervenção”: Este conceito afirma que se em sua humanidade um profeta de Deus erra, e a natureza desse erro é suficientemente séria para afetar materialmente (a) a direção da igreja de Deus, (b) o destino eterno de uma pessoa, ou (c) a pureza de uma doutrina, então (e só então) o Espírito Santo imediatamente move o profeta a corrigir o erro, para que não seja causado nenhum erro permanente.

Esta posição pode se alinhar com a realidade objetiva das Escrituras e dos escritos de Ellen White. Mas antes de aplicarmos o teste a estas duas teorias, devemos fazer uma pausa para examinar a natureza e fonte da crença religiosa. Várias perguntas penetrantes são relevantes aqui: (1) Em qual das duas teorias apresentadas acima você acredita? (Ou você tem uma terceira teoria?) (2) Por que você crê nela? Esta segunda pergunta pode ser mais importante que a primeira.

Sua crença é baseada na credibilidade da fonte – algum pregador, pastor, professor de Bíblia favorito ou erudito da Bíblia por quem você tem elevado respeito tomou esta posição, e por causa de sua consideração por esta pessoa, você aceitou, sem analisar, aquilo que lhe foi dito? Ou você tem esta crença porque você confirmou objetivamente a posição? Na época de Paulo os cristãos de Beréia foram chamados “mais nobres” que os de Tessalônica por duas razões que têm grande relevância para nós nesta discussão: 1. Eles receberam as palavras de Paulo “com avidez”. Isto é, estavam abertos a nova luz; não fecharam a mente. 2. Eles examinavam “as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram de fato assim” (Atos 17:11). Isto é, eles confirmavam o que tinham ouvido antes de aceitá-lo; não aceitaram credulamente, passivamente o que lhes era ensinado, sem verificá-lo pessoalmente na Palavra de Deus.

Poderíamos escusar a Paulo se ele tivesse dito aos bereanos: “Não só sou um profeta inspirado do Senhor, mas também tenho o mais elevado dom espiritual – o do apostolado. Vocês não precisam verificar o que eu lhes disse; podem acreditar na minha palavra, pois eu tenho a mais alta autoridade de Deus nesta Terra”.

Mas ele não lhes disse isso. Em vez disso, louvou-os por não aceitarem simplesmente sua palavra, mas, ao contrário, por irem aos escritos previamente inspirados a fim de verificar o que ele havia dito.

Leia mais: Centro de Pesquisas EGW

Referências:

1 Para uma discussão recente equilibrada e extremamente útil sobre as várias posições e proponentes, veja o editorial “Rhetoric About Inerrancy: The Truth of the Matter” na revista Christianity Today, vol. 25, no. 15 (4 de setembro de 1981), pp. 16-19. 

2 Webster’s New Collegiate Dictionary (Springfield, Mass.: G & C Merriam Co., 1976), p. 590. 

3 Ibid., p. 589. 

4 New International Version. 

5 Revised Standard Version. 

6 Confraternity New Testament. 

7 The Amplified Bible

8 King James II Version of the Bible

9 The Berkeley Version in Modern English

10 The New Testament: An American Translation. (Goodspeed). 

11 Rene Noorbergen, Ellen G.White: Prophet of Destiny (New Canaan, Conn.: Keats Publishing, Centro de Pesquisas Ellen G. White www.centrowhite.org.br , Inc., 1972), p. 21. Grifos acrescentados a menos que especificado. 

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Leandro Quadros
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