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Por que o ano de 457 a.C. é o início da contagem dos 490 anos de Daniel 9:24-27?

Pr. Gerhard F. Hasel, Ph.D.

O ponto de partida para as “setenta semanas”, (setenta shabu’im [1] ) de acordo com ‘o historicismo’ [2], é a “saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém (vs. 25). Isso ocorreu no sétimo ano de Artaxerxes I (Ezrá, Esdras 7:7, 8), quando ele emitiu seu primeiro “decreto” (vs. 11-26). O sétimo ano de Artaxerxes é agora estabelecido firmemente como 458/457 a. C., com o retorno de Esdras em 457, e não em 458 a.C. Consequentemente, o primeiro ano de reinado de Artaxerxes no cálculo judaico começou em 1º de tishri de 464 a.C.

Com base no fundamento histórico para essa data (457 a.C.) como o início das primeiras duas divisões do período das 70 semanas (7+62 semanas = 483 anos), a conclusão dos 483 anos é 27 d.C., o ano da “mikvê” de Yeshua. O mikvê marcou a inauguração do ministério público de Yeshua (Jesus) como o Mashiach, o Ungido. Há pelo menos duas fortes razões para a escolha do primeiro decreto de Artaxerxes I em 457 a.C. (Ezrá, Esdras 7) como o ponto de partida para os 490 anos. A primeira e principal razão é tanto exegética quanto histórica.

Primeira Razão

Daniel 9:25ª, identifica especificamente “a ordem” referente à restauração e reconstrução da cidade de Jerusalém como o início do período das 70 semanas.

A “ordem” dificilmente é entendida como um decreto de Deus. Em vez disso, parece se referir a uma ordem real de um rei, assim como foi emitido o “decreto real” (dãt, Daniel 2:13,15) para matar os sábios. Esse decreto ou “ordem” tinha a ver com a restauração e reconstrução da cidade de Jerusalém. Portanto, não é possível indicar que se esteja falando do decreto real de Ciro emitido no ano 538/537 a.C. (Ezrá, Esdras 1:1-4), que impelia os judeus exilados a construírem a “casa de Deus”, ou seja o templo. Não há sequer uma só palavra no decreto de Ciro para restaurar e reconstruir a cidade, como uma cidade. O decreto real de Dario I (Esdras 6:1 a 12) confirmou o decreto de seu antecessor e relatou mais uma vez a reconstrução do templo. Ele, da mesma forma, não tinha nada a ver com a cidade, como uma cidade.

O terceiro “decreto” ou ordem é a dada por Artaxerxes I no seu “sétimo ano” (Ezrá, Esdras 7:7, 8), isto é, 457 a.C. Essa ordem não pode referir-se à reconstrução do templo, pois ele foi concluído e dedicado em março de 515 a.C. (Esdras 6:13-18).

Os eventos registrados na passagem de Esdras 4:7-23 nos falam de uma insatisfação por parte dos samaritanos devido ao fato de os judeus estarem “reedificando aquela rebelde e malvada cidade e vão restaurando os seus muros e reparando os seus fundamentos” (vs. 12 conforme vs. 13,16 e 21). Se esse relato é de uma época posterior à ordem do sétimo ano de Artaxerxes I, a saber, um período de condições políticas incertas para o monarca persa depois da revolta egípcia de 448, então é possível concluir com segurança que a ordem dada em 457 a.C. dizia respeito à restauração e reconstrução de Jerusalém.

Deve-se notar que “os tempos angustiosos” (Daniel 9:25) durante os quais Jerusalém seria reconstruída novamente são refletidos claramente nos eventos registrados em Esdras 4:7-23. Embora a verdadeira palavra de comando de Artaxerxes I em 457 a.C. não faça menção explicita de nenhuma ordem para reconstruir a cidade de Jerusalém, até o momento é este o objetivo aparente conforme entendem os judeus, para quem foi dada a ordem.

Treze anos depois da ordem de Artaxerxes I, ou seja, no vigésimo ano de seu reinado (445/444 a.C), Hanani conta a Neemias que “os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas, queimadas (Neemias 1:3). Isso implica que a cidade tinha sido reconstruída, algo que que dificilmente poderia ter começado antes de 457 a.C., porque os decretos de Ciro e de Dario diziam respeito somente à construção do templo.

O próprio Esdras confessa que Deus deu permissão por meio dos reis persas “para levantar a casa do nosso Deus, para restaurar as suas ruínas e para que nos desse um muro de segurança em Judá e em Jerusalém” (Ezrá, Esdras 9:9). Fica evidente, a partir de sua referência ao “decreto de Ciro, de Dario e de Artaxerxes, rei da Pérsia” (Ezrá, Esdras 6:14), que Esdras considerou o terceiro “decreto” como a culminação dos três.

Deve-se também notar que dos quatro decretos conhecidos, apenas dois são decretos importantes. O decreto de Ciro é um decreto importante, enquanto o de Dario simplesmente confirma o de Ciro. O outro decreto importante foi a ordem do sétimo ano de Artaxerxes, enquanto o decreto de seu vigésimo ano é nada mais que uma ampliação e renovação de seu primeiro decreto. O decreto de Ciro e Dario dizem respeito à construção do templo; os de Artaxerxes à condição de Judá e Jerusalém.

Segunda Razão

A segunda razão para a escolha do primeiro “decreto” de Artaxerxes em 457 a.C. baseia-se no cálculo dos 490 anos. Apenas essa ordem se ajusta ao cômputo dos 490 anos solares. O princípio de reconhecer o cumprimento da profecia também foi levado em conta. Aqui deve-se relembrar que a necessidade de encontrar um desfecho que se ajuste aos fatos históricos é compartilhada pela interpretação ‘historicista’ e suas opositoras da mesma forma.

O final da primeira divisão de 7 anos é 408 a.C. Essa primeira divisão de 49 anos é designada à restauração e reconstrução de Jerusalém. Poucas informações do período por volta de 400 a.C. excluem inevitavelmente qualquer tentativa de se verificar a exatidão da data de 408 a.C. para a restauração da cidade de Jerusalém.

A segunda divisão das 62 semanas, 434 anos, completa o período até o surgimento do Messias em 27 d.C. A interpretação ‘historicista’ tradicional segue a pontuação das versões LXX, Teodócio, Vulgata, Siríaca, a qual foi adotada nas versões inglesas atuais (KJV, ASV, ERV (margem), MLB, JB, NASB). Isso significa que a frase é lida assim:

“até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas; as praças e as circunvalações se reedificarão.” (9:25, NASB).

“até que seja ungido um príncipe, passar-se-ão sete períodos; durante 62 períodos será reconstruída com suas praças e seus fossos.” (9:25, Bíblia Hebraica, português).

Há versões inglesas que seguem a pontuação do texto massorético (VER, RSV, NEB) que tem uma athnach (o principal divisor disjuntivo dentro de um versículo) após as palavras “sete semanas”. Marcas de pontuação em manuscritos hebraicos não adquiriram uso geral antes do surgimento de uma grande atividade massorética em 600 d.C. e 930 d.C. Seu uso foi cristalizado na forma presente apenas no século 9/10, enquanto continuou em pequenas questões de acentuação no século 14.

Evidências atuais sugerem que acentos nas versões gregas são anteriores aos dos manuscritos hebraicos dos massoretas. Considerações contextuais também têm sido citadas a favor da antiga pontuação. Além disso, a estrutura literária da poesia de Daniel 9:25 sugere também que a pontuação massorética está incorreta.

Os textos do Qumran relacionados a Daniel 9:24-27 não apoiam a pontuação massorética ou moderna. Todas as traduções antigas seguem uma pontuação não-massorética, a saber, a Septuaginta e Teodócio, Símaco e Áquila além da Peshitta. Elas tratam as 7 e as 62 semanas como um período único ao final do qual o Messias viria.

A pontuação não-messiânica da tradição massorética parece refletir uma “rejeição do papel messiânico de Yeshua (Jesus) e a frustração das outras esperanças messiânicas judaicas do primeiro e segundo séculos d.C. Portanto, ela reflete um preconceito anticristão. Parece, com base na evidência citada, que a pontuação tradicional nas versões antigas e refletidas em inglês nas KJV, ASV, MNLB, JB NASB, etc. deve ser mantida com base na evidência histórica, contextual, literária, e as versões sem fazer injustiça ao contexto hebraico.

A terceira divisão de uma semana, os últimos sete anos, começa em sucessão cronológica às 69 semanas (483 anos) com a mikvê e o começo do ministério público de Yeshua (Jesus Cristo). “Na metade da semana” ( Daniel 9:27) (isto é, três anos e meio depois, em 31 d.C.) o Messias traria fim ao sistema sacrifical por sua morte… a última metade da semana chega ao fim com:

– Morte de Estevão, (Atos 7:60).

– Dispersão dos discípulos de Jerusalém, (Atos 8:1).

– Pregação aos goin’s (gentios, Atos 8).

– E possivelmente com a aceitação de Shaul (Paulo) de Yeshua (Jesus) como o Mashiach (Messias).

A correlação cronológica exata entre Daniel 9:24-27 e os eventos históricos indicam notável superioridade da interpretação ‘historicista’ sobre os outros esquemas. O único esquema que pode reivindicar correlação e harmonia perfeitas entre a profecia e a história com relação a 9:24-27, ao ano e mesmo à metade do ano é o que sincroniza os 490 anos de 457 a.C. ao término em 34 d.C.

Daniel 9:24-27 “é uma das mais notáveis profecias preditivas da ‘Bíblia Hebraica’”. O critico K. Koch observa que “o cumprimento matemático singular e absolutamente exato de uma predição messiânica da ‘Bíblia Hebraica’ quanto à vida do Mashiach na B’rit Hadashah desempenhou em séculos anteriores um importante papel como prova para a veracidade das Escrituras Sagradas”. As correlações cronológicas recentes dão apoio adicional ao “cumprimento matemático absolutamente exato” de 9:24-27.

 

Equipe Biblia.com.br

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Fonte: Gerhard F. Hasel, “Interpretação da Cronologia das Setenta Semanas”, em Setenta Semanas, Frank B. Holbrook (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress), p. 30-33.

Referências:

[1] A profecia das setenta semanas, Shabu’im = Semanas, sabu’im , de Sabua `, que sempre leva um plural feminino, sebu’ot , quando significa um período de sete dias , ou seja , uma ` semana . ‘ O masculino plural aqui, provavelmente, indica que a palavra é concebida como um heptad … de anos”. Davidson, 1966, “O hebraico Analítico e Caldeu Lexicon”, pp.698-699.

[2] Historicismo é uma escola de interpretação profética que crê e ensina que as profecias das Escrituras Sagradas se cumprem no decorrer da história humana e não somente no passado ou especialmente no futuro. A profecia se cumpre na história.

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