Josué 1:1 e 2 nega a ressurreição de Moisés?

Josué 1:1 e 2 nega a ressurreição de Moisés?

A análise anterior revela que a argumentação de Elias Soares em torno de Josué 1:1-2, para negar a ressurreição de Moisés, é totalmente infundada1. Ele alega que no hebraico, ao Deus dizer “Moisés, meu servo, é morto” (Js 1:2), isso indica que 30 dias após o luto por Moisés (Dt 34:6), este ainda continuava morto, de modo que seu corpo “se decompôs” sendo, portanto, inviável ter ele ressuscitado.
Mesmo que a hipótese de tradução apresentada por Moraes possa verter o texto como “Moisés, meu servo, está morto”, o texto não é conclusivo sobre o assunto. No contexto de Josué, Deus apenas não havia revelado sobre a disputa que ocorreu pelo corpo de Moisés, pois não era o assunto em pauta na narrativa. Se os Israelitas soubessem que Moisés havia sido arrebatado após sua ressurreição, com certeza dariam um jeito de fazer uma imagem para idolatrar o profeta. É por isso que a disputa pelo corpo de Moisés e sua ressurreição ficam evidentes no Novo Testamento.

Se a revelação da doutrina da Trindade foi progressiva (entre outras doutrinas bíblicas), por que os autores bíblicos não poderiam receber uma revelação progressiva sobre a ressurreição de Moisés? Devemos considerar um contexto muito mais amplo que o de Deuteronômio 34:8 e José 1:1, 2 para avaliarmos o assunto, assim como o fizeram eruditos protestantes que estão sendo listados no presente trabalho.
Devemos considerar que traduções bem reconhecidas como a Tradução Ecumênica da Bíblia2 e a Bíblia de Jerusalém3 simplesmente dizem que Moisés morreu. A interpretação do Pr. Soares foge do significado simples do verbo, e isso é impor ao texto uma ideia preconcebida.
Sérgio Monteiro, teólogo e apologista adventista, esclareceu por meio de um áudio que essa frase no hebraico (“Moisés, meu servo, é morto”) não pode ser usada para indicar se Moisés morreu há 30 dias, no mesmo dia ou há mil anos.
Segundo ele, alegar que a tradução do verbo na Septuaginta indica que “até o momento em que ela foi traduzida” eles (os tradutores) “criam que Moisés continuava morto”, é uma inverdade. A Septuaginta é apenas uma tradução e, como se pode ver na obra de Geza Vermes (mais adiante), a crença na Ascensão de Moisés era comum entre boa parte dos judeus.
Se as traduções não são unânimes para Josué 1:1- 2; se o significado simples é que Moisés “morreu”, não podemos fazer toda uma teologia em cima apenas de um suposto significado gramatical, desconsiderando outros trechos bíblicos, comentaristas abalizados e o propósito evidente no contexto de Josué 1:1-2.
Deus simplesmente estava dizendo à Josué: “Moisés morreu e agora você terá de liderar o povo. Não conte com Moisés”. Nada mais do que isso. O texto é uma narrativa que tem o propósito de informar que Josué sucedeu Moisés. Dar a ele um sentido que não faz parte da intenção original do autor é forçar uma interpretação de maneira irresponsável.

3. Matthew Henry, teólogo metodista, também imortalista, falando de Miguel4:

Ele não ficaria disputando com o diabo, nem entraria em um debate particular a respeito dos méritos dessa causa especial [veja: “causa especial”, muito mais que brigar por um corpo morto]. Ele sabia que Moisés5 era seu conservo, um dos favoritos de Deus, e ele não permitiria passivamente que fosse insultado [Satanás estava insultando um corpo morto?], não pelo príncipe dos demônios […] Moisés era uma dignidade, um magistrado, alguém amado e preferido pelo grande Deus; o arcanjo achava insuportável que alguém assim fosse tratado dessa forma [um corpo morto pode ser ofendido a tal ponto de Miguel não aceitar?] por um espírito desprezível e apóstata, independentemente de sua posição.6

Os críticos que consideram “hereges” os adventistas, por crerem na ressurreição de Moisés e na identificação de “Miguel” com Cristo, deveriam aprender com Matthew Henry a interpretar Judas 1:9. Ou, ao menos terem a humildade de não acusar o adventismo de “heresia” ao perceberem que nossa crença, assim como a crença de tal comentarista evangélico, em nada afeta a ortodoxia cristã bíblica.

4. Bíblia de Estudo de Genebra: [sobre Mateus 17:3]:

Moisés, o doador da lei, e Elias, o maior profeta do período monárquico, têm aqui o privilégio de falarem com Jesus. De acordo com Lc 9:31, eles discutiram sobre a iminente morte redentora de Jesus.7

Comentando Lucas 9:31, a referida Bíblia de Estudo afirma: “Pedro queria prolongar essa experiência ao sugerir a construção de tendas para acomodar, e possivelmente deter, os visitantes celestiais”.8

5. Bíblia de Estudo Scofield:

A cena da transfiguração contém, em menor proporção, todos os elementos do futuro reino em sua manifestação (2Pe 1:15-21): 1) o Senhor Jesus, não em humilhação, mas em glória (v.2); 2) Moisés, glorificado, representante dos redimidos que passaram por meio da morte para o reino (Mt 13:43; comp. Lc 9:30, 31); 3) Elias, glorificado, representante dos redimidos que entraram no reino ao serem arrebatados (1Co 15:50-53; 1Ts 4:13-17) […].9

6. Geza Vermes (uma das maiores autoridades em judaísmo e cristianismo da atualidade).

Em seu livro sobre a Ressurreição e Mitos10, ele afirma que havia entre os Judeus a crença de que Moisés e Isaías haviam ressuscitado e, portanto, ido corporalmente ao céu.
Ele deixa bem claro que Judas 1:9 estaria certamente fazendo referência à ressurreição de Moisés. É um autor muito respeitado tanto por cristãos quanto por judeus nessa área da pseudoepígrafia judaica que não deveria ser ignorado pelos críticos.
Ele argumenta que o próprio fato de a obra ser chamada de A Assunção de Moisés (escrita entre 3 a.C a 30 d.C), prova que esses judeus bem antigos (não todo o judaísmo, obviamente) criam que Moisés foi corporalmente ao Céu.
Além disso, devemos destacar que da obra Assunção de Moisés possui-se apenas fragmentos, e nenhum dos que restaram contêm a parte final que esclareceria a suposta razão da disputa entre Miguel e Satanás. O que podemos fazer é deduzir que, inspirado pelo Espírito Santo, Judas extraiu essa parte da referida obra para explicar a verdade que queria comunicar.
Geza Vermes cita o Talmude11 Babilônico na passagem Yomá 4:9, onde aparece esse relato muito interessante: “Moisés ascendeu na nuvem e foi escondido na nuvem e foi santificado pela nuvem”.
Essa expressão “escondeu-se numa nuvem” está descrevendo a ressurreição de Moisés. Isso porque essa expressão simbolizava a crença daqueles judeus do período do Segundo Templo na ressurreição corpórea das pessoas. É por isso que a ressurreição de Cristo e Sua consequente ascensão é descrita em Atos 1:9-11 com seu corpo subindo e uma nuvem o envolvendo.
Geza Vermes também faz menção à Pesiquitá Rabat 20:4: “quando Moisés foi ascendido ao Céu, uma nuvem desceu e o cobriu, e esta nuvem cobriu Moisés e o carregou”. Aparentemente essa descrição é do 1º século depois de Cristo, contemporânea à época de Judas. Ela descreve uma tradição judaica antiga.

7. Flávio Josefo em Antiguidades judaicas, 4. 326:

Amigavelmente conversava ainda com Eleazar e Josué, quando uma nuvem se colocou entre eles e o escondeu em um determinado vale, embora ele mesmo tenha escrito nos livros sagrados que havia morrido, por temor de que por sua elevada piedade, pensassem que ele havia sido levado para a divindade.12

Essa passagem é vista pelos principais comentaristas como uma expressão da crença de Josefo, de que Moisés foi assunto ao Céu.
Após uma análise da citação original de Josefo, Sérgio Monteiro observou:
É por isto que é correto afirmar que na mentalidade de Josefo, Moisés não morreu. Neste sentido, Josefo é parte de um conjunto de tradições que afirmavam explicitamente a recepção de Moisés nos céus13, seja pela Ressurreição – como parece evidente de Judas 9, apoiado no Assunção de Moisés – ou pela Ascenção direta sem passar pela morte. Ademais, é claro que os autores do Novo Testamento, judeus, estavam conscientes deste conjunto de tradições e, por seu uso, as recebiam como válidas[8]. Textos como Romanos 5:12-14 e Judas 9, parecem apontar para uma compreensão neotestamentária de que Moisés havia sido liberto do império da Morte.14
Perceba o quanto são significativas as evidências de que entre os judeus havia a crença na assunção de Moisés, e que isso influenciou também aos autores bíblicos inspirados sem que eles tivessem sido corrigidos pelo Espírito Santo.

Referências:

  1. A alegação de que Ellen G. White em Primeiros Escritos, p. 164 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014 – 10ª ed.), contradiz Josué 1:2, ao dizer que Moisés ao ter passado pela morte não viu “corrupção”, é totalmente infundada, quando percebemos que outros comentaristas creem na ressurreição de Moisés, assim como Ellen G. White. Os críticos não alegam, por exemplo, que as fontes citadas no presente esboço “contradizem Josué 1:2”. A co-fundadora do adventismo foi muito feliz em sua abordagem do evento da transfiguração quando afirmou na mesma página: “Moisés estava presente para representar os que serão ressuscitados dentre os mortos, por ocasião do segundo aparecimento de Jesus. E Elias, que fora trasladado sem ver a morte, representava os que serão transformados à imortalidade por ocasião da segunda vinda de Cristo, e serão trasladados para o Céu sem ver a morte”.

  2. A Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) assim verte o texto: “Moisés, meu servo, morreu”. Nada mais do que isso.

  3. Já a Bíblia de Jerusalém traduz do mesmo modo: “Moisés, meu servo, morreu; agora, levanta-te!”

  4. Diferentemente das Testemunhas de Jeová, os adventistas creem que Miguel é um título honorífico de Cristo, sem que isso interfira em sua absoluta divindade. Nossa posição é praticamente a mesma de Matthew Henry e outros eruditos protestantes. Veja meus artigos “Cristo e o Arcando Miguel”, disponível em http://leandroquadros.com.br/cristo-e-o-arcanjo-miguel/ ; Internet; e “Miguel não é mais que um título do divino Jesus”, disponível em http://leandroquadros.com.br/miguel-nao-e-mais-que-um-titulo-do-divino-jesus/ ; Internet. Estudos sobre a posição adventista a respeito da identificação de Jesus com Miguel podem ser vistos em: Questões Sobre Doutrina: o clássico mais polêmico da história do adventismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2009), p. 87-95; Juan Víctor Mamani Quispe, “Quién Como Dios?: La Vindicación de Cristo” em Cristología: VII Simposio Bíblico Teológico Sudamericano (Cochabamba, Bolívia: Editorial UAB, 2009), p. 387-398; Gerhard Pfandl, “Quem é o Arcanjo Miguel?” em Interpretando as Escrituras: descubra o sentido dos textos mais difíceis da Bíblia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2015), p. 221-222; Veja-se também “Miguel Arcanjo”, disponível em https://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://www.bibleexplained.com/revelation/r-seg11-12/r1207a-Michael.htm&prev=search ; Internet (consultado em 02 de setembro de 2016).

  5. Comentando Deuteronômio 34:6, Matthew Henry observou: “O conceito que têm alguns dos judeus de que Moisés foi levado ao céu, como Elias, é infundado, pois está expressamente escrito que ele morreu e foi sepultado; mas é provável que ele tenha sido ressuscitado para encontrar Elias, para presenciar a solenidade da transfiguração de Cristo” (Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Gênesis a Deuteronômio [Rio de Janeiro: CPAD, 2012]), p. 682. A respeito de Mt 17:3, continua: “Havia santos glorificados com Ele; se havia três para dar testemunho na terra, Pedro Tiago e João, também havia alguns para dar testemunho da parte do céu […] Elias foi levado ao céu em um carro de fogo, e não morreu. O corpo de Moisés nunca foi encontrado. Possivelmente estava preservado da degradação, e reservado para essa aparição” (Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João [Rio de Janeiro: CPAD, 2012], p. 216, 217.

  6. Matthew Henry’s Commentary on the Whole Bible, vol. 6 – Acts to Revelation (Rio de Janeiro: CPAD, 2012), p. 955.

  7. Bíblia de Estudo de Genebra. 2ª Ed. Revista e Ampliada (Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; São Paulo: Cultura Cristã, 2009), p. 1257. Grifos acrescidos.

  8. Ibid., p. 1337.

  9. Bíblia de Estudo Scofield (São Paulo: Holy Bible, 2009), p. 875.

  10. Geza Vermes, The Resurrection: History and Myth (Doubleday, EUA: 2008).

  11. “O Talmude é uma compilação de estudos, reunidos desde o tempo de Esdras até o sexto século de nossa era, contendo leis, poesias, orações, ritos, sermões, folclore, regras sobre o procedimento, mas especialmente comentários escriturísticos. Outra definição bastante sintética é esta: Talmude é um repositório de leis judaicas. O termo Talmude vem do hebraico Lamad = aprender, vindo a significar depois ensino, instrução, estudo. Todo o talmude não é mais do que um esclarecido comentário à Bíblia, continuando a ser grande força e fonte do judaísmo” (Pedro Apolinário, História do Texto Bíblico: Crítica Textual [São Paulo: Instituto Adventista de Ensino, 1985], p. 194).

  12. A tradução foi feita por Sérgio Monteiro a partir do texto grego de Josefo, como se encontra na obra Flavii Iosephi opera. B. Niese (Berlin. Weidmann. 1892). O texto grego se apresenta como se segue: ἀσπαζομένου δὲ καὶ τὸν Ἐλεάζαρον αὐτοῦ καὶ τὸν Ἰησοῦν καὶ προσομιλοῦντος ἔτι, νέφους αἰφνίδιον ὑπὲρ αὐτὸν στάντος ἀφανίζεται κατά τινος φάραγγος. γέγραφε δ᾽ αὑτὸν ἐν ταῖς ἱεραῖς βίβλοις τεθνεῶτα, δείσας μὴ δι᾽ ὑπερβολὴν τῆς περὶ αὐτὸν ἀρετῆς πρὸς τὸ θεῖον αὐτὸν ἀναχωρῆσαι τολμήσωσιν εἰπεῖν.

  13. Como indica Monteiro em seu artigo, uma descrição das tradições judaicas quanto à Morte de Moisés e sua ascensão pode ser vista no ensaio de Haacker, K., Schafer, P., ‘Nachbiblische Traditionen vom Tod des Mose’, in: O. Betz, K. Haacker, M. Hengel (eds.), Josephus Studien. Untersuchungen zu Josephus, dem antiken Judentum unddem Neuen Testament (FS O. Michel; Gottingen, 1974), p. 147-174.

  14. Sérgio Monteiro, “Flávio Josefo e a Morte de Moisés: Uma nota”, disponível em http://www.feoufideismo.com/2017/09/flavio-josefo-e-morte-de-moises-uma-nota.html ; Internet (consultado em 28 de novembro de 2017).

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