O descanso de Hebreus 4

O descanso de Hebreus 4

O Descanso de Hebreus 4: Seria o descanso pela fé contrário ao descanso do sábado semanal?

O sábado como memorial do Éden aponta para um tempo em que o homem gozava de plena comunhão com o Criador e estava livre das fadigas e tribulações decorrentes do pecado. Mas além disso aponta para a soberania de Deus sobre Sua criação. A proposta do evangelho é reconduzir o homem ao estágio de homem novo, “nova criação” (2Co 5:17) e à plena comunhão com o Criador, em um novo Céu e nova Terra, no eterno descanso em Deus e com Deus. O livro de Hebreus, em seu capítulo 4 menciona a entrada no descanso de Deus para o crente tendo sua referência o sétimo dia:

“Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo. Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia.” (Hb 4:3-4).

Pergunto: O descanso em Jesus, prometido no Evangelho ocuparia hoje o lugar do sábado?

O Propósito da Exortação de Hebreus 4

Uma vez que a reconciliação ou reestabelecimento da comunhão da criatura com o Criador se inicia com a experiência da fé na redenção em Cristo, sendo que Ele é o próprio Criador e sustentador do cosmo (Cf. Hb 1:1-3), Hebreus afirma que é no “hoje” (ou no agora), no instante em que cremos em Seu poder de salvar e a Ele nos entregamos pela fé, que então se inicia o reestabelecimento daquela comunhão perdida no Éden, iniciada no sexto dia da criação e celebrada no sétimo, na plena unidade do Criador com suas criaturas (cf. 4:3a). Mas o início não é ainda a plenitude. Ansiamos ainda a plenitude, nosso retorno ao Éden, o reino de Deus.

Antes de tudo, é bom salientar que o autor de Hebreus percebe a similaridade das experiências entre a comunidade a que se dirige e seus antepassados. Nesse sentido, como o texto mesmo afirma, também houve o anúncio do evangelho (ou boas-novas) aos antepassados (cf. Hb 4:1-2). Porém acrescenta que na conquista da terra, a Josué não se deu de forma cabal o descanso que Deus idealizava para eles, a saber, a irrupção do Reino de Deus por meio da fidelidade do povo à aliança e ao Messias (como mais tarde seria profetizado pelos profetas e nos Salmos, em diversos textos).

A razão de o Israel segundo a carne haver fracassado, segundo a Escritura, sempre foi a incredulidade: ao se negarem a responder com fé nas promessas de Deus em conduzi-los até o ponto que Ele havia planejado, e por isso ficaram na metade do caminho (cf. Hb 3:7-11; 4:2). Algumas vezes encontraram a prosperidade material e a expansão do reinado de Israel, mas não experimentaram a irrupção do reino de Deus. Ao se negarem finalmente a reconhecerem o Messias em Jesus de Nazaré, a promessa do Reino de Deus já não se vê atrelada ao povo judeu como nação, mas permaneceria com o remanescente fiel de Israel, que se torna a Igreja, e que agora proclama esse Reino para o mundo todo. E é essa grande salvação em Jesus, o grande descanso que o livro de Hebreus nos capítulos 3 e 4 anunciam. E a parênese ali, que tem sua referência no Salmo 95, tem como finalidade alertar que eles, os hebreus convertidos não deveriam repetir os erros de seus antepassados, impedindo o cumprimento da promessa, ao desistirem de sua fé em Jesus. Diz o texto (cf. Hb 4:1).

Mas podemos questionar: O que Deus esperava deles e em que ponto falharam?

O Chamado ao Descanso pela Fé

Quando salvou Seu povo hebreu, Deus prometeu a Moisés: “A minha presença irá contigo, e eu te darei descanso” (Ex 33:14). Para Moisés e Israel, essa promessa era grandiosa, após o longo período de lutas e escravidão no Egito. Porém, como tantas vezes Deus havia dito, as promessas desse descanso eram condicionais e apelavam para a fé e obediência de Seu povo: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos. . .”.

Como observa Pedro Apolinário, os hebreus, sempre motivados em entrar na terra prometida, quando se lembrava das promessas, sempre se esqueciam de cumprir as condições. Por isso, o Salmo 95 citado em Hebreus 3 e 4 afirma que por sua “incredulidade” na promessa dada por Deus, quase todos pereceram no deserto, sem desfrutar da terra prometida (cf. Hb 3:14-19). Isso não impediu que Deus prosseguisse apelando seu povo em cada momento, a fim de que aceitassem a graça que desejava oferecê-los. A queda espiritual do povo e sua rejeição à autoridade divina é uma constante nos profetas e nos Salmos.

Era para esse descanso que Jeremias apelava quando escreveu: “Ponde-vos à margem no caminho e vede, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho; andai por ele e achareis descanso para as vossas almas…”(Jr 6:16). O apelo de Jeremias atualiza a promessa para o povo, anos depois do deserto.

Também o Salmo 95 atualiza o apelo de Deus para o “hoje”, ao afirmar que embora o povo houvesse entendido um cumprimento da promessa do descanso com Josué, o Seu propósito pleno ainda terá seu lugar, e para que ela se realize, é preciso que o Seu povo permaneça em atitude de fé em Seu poder de salvar e cumprir Sua promessa, e assim não repita os erros da geração passada, sob a pena de permanecer fora do descanso (Hb 4:7). Desse modo, também a promessa era para aquele dia, o “hoje”. O salmista espera que o povo que aguardava a salvação de Deus permanecesse em atitude de fé, naquele dia, e por isso atualiza o apelo para que não haja o endurecimento do coração no dia chamado “hoje”. Ele entendia que essa exigência era sempre atual para o povo da aliança.

Quando ao citar o Salmo 95, o autor de Hebreus busca afirmar o mesmo pensamento do salmista, entendendo que o apelo de Deus é para todos em todos os tempos e lugares, incluindo o povo cristão da Nova Aliança. Seu apelo é que eles busquem, “hoje”, abrir o coração para a graça soberana de Deus e assim entrem no descanso prometido. Ele afirma categoricamente que se Josué tivesse dado descanso, Deus não apelaria ao povo de novo, em outro dia, o “hoje”, como sendo o dia de descanso (cf. Hb 4:8). E quando traz o tema do sábado, ele o apresenta tão somente para resposta a uma pergunta: “como se entra no descanso pela fé?” E a resposta: “deve repousar como Deus repousou no sétimo dia, descansando de suas obras”. O “como descansar em Deus?” é a questão em voga, e não a pergunta “devo ou não devo descansar no sábado?”.

Nesse sentido, aqui o sábado é usado apenas como uma metáfora para o descanso eterno que se inicia na redenção pela fé na salvação operada por Deus. O anti-tipo (ou mesmo contraste) se estabelece entre a terra da promessa alcançado por Josué e o descanso pela fé, concedido por Jesus. Nada no texto oferece a possibilidade de que seja afirmada a negação do sábado semanal como dia sagrado. Antes, pode-se dizer que a simples utilização do sábado dentro do contexto sugere que de fato era sagrado ou a força da metáfora não teria seu efeito.

O Sábado de Hebreus 4

Desse modo se nota que o descanso mencionado em Hebreus 4 não descaracteriza o sábado do sétimo dia. Ele é citado apenas como uma metáfora para dar sentido ao caráter do descanso em Deus como exigido por Ele desde os dias do deserto. Se desde aqueles dias havia o descanso sabático semanal e se exigia um descanso em Deus, um descanso nunca conflitou com o outro. O evangelho (ou boas novas) pregadas a eles nos chega a todos no dia que se chama “hoje”, exigindo a mesma atitude pedida a eles: Descanso dos esforços humanos e confiança de que Deus realiza a salvação daquele que crê nEle.

Ademais, se o sentido da experiência de fracasso dos antigos hebreus tem seu uso relacionando com a experiência do Êxodo e o descanso em Deus na terra da promessa, o sentido do descanso eterno tem sua referência no descanso sabático de Deus, e não no dos homens, como o autor de Hebreus mesmo afirma: “Deve descansar de suas obras, como Deus, das Suas”. Se de fato buscamos uma referência para o descanso prometido com base em nosso descanso semanal, veremos que embora venhamos a descansar a cada sábado, sempre saberemos que esse descanso está incompleto em seu sentido escatológico, pois não revela ainda a plenitude do descanso que terão aqueles que aceitam a redenção pela fé. Ainda não descansamos o descanso primevo, o descanso como Deus descansou, pois agora estamos presos às fadigas e às lutas com o pecado. Desse modo, o descanso sabático referido é o de Deus, ocorrido no passado, desde a fundação do mundo. Apenas aquele sábado de Deus remete a nossa mente para o eterno e perfeito descanso que teremos Nele, no Éden restaurado. Assim, de fato, “resta um repouso para o povo de Deus” (Hb 4:9), prefigurado pelo descanso de Deus no sexto sétimo dia da semana da Criação.

Retornando ao ponto inicial, a promessa de descanso, citada em Hb 4:1 permanecerá até que sejamos plenificados com a comunhão com o Criador tal como experimentou Adão naquele sétimo dia no Éden. Como o autor de Hebreus mesmo diz: Tudo permanece em forma de “promessa”. Em Cristo adentramos o limiar do Reino e já o vivenciamos, e temos confirmada a nossa entrada nesse descanso, pela fé. Em Cristo, descansamos na salvação de Deus e cremos naquilo que Ele fez e fará por nós. E até que o “descanso” definitivo ocorra, o sábado do sétimo dia tem seu propósito de relembrar a cada semana de onde viemos e para onde vamos: do descanso em Deus e para o descanso em Deus que abraçamos em forma de promessa no momento em que descansamos em Cristo pela fé.

Conclusão

Concluindo, o evangelho já existia desde os dias do deserto, com suas figuras e tipos que asseguravam a graça de Deus. O povo foi privado da entrada no descanso definitivo por conta de sua incredulidade. Já nos dias da monarquia, o salmista entendia que o descanso era para além do descanso dos conflitos desse mundo e exigia uma atitude de fé na graça de Deus. Seu apelo para o hoje é o mesmo do autor de Hebreus: ambos tencionam chamar a atenção para a atitude de fé para que recebam a graça do descanso. O descanso mencionado não é o do sábado semanal, mas a posse da salvação pela fé, quando descansamos no poder de Deus que nos salva através de Jesus.

Assim, entendo que o descanso do sábado não conflita com o Evangelho: Ele proclama o senhorio de Deus sobre Sua criação e também a submissão de Seus súditos a Ele. E até que o Céu a Terra passem, o sábado ainda é o memorial de nosso tempo edênico, no passado e no futuro, e por isso também tem sua relevância no presente, ao nos apontar o Criador e nos ensinar a descansar nEle. [Claudio Sampaio].

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