Apologética Cristã

O Evangelho também está presente no Antigo Testamento

Introdução

O escritor Edino Melo, um dos críticos do adventismo no Brasil e autor do livreto 77 Verdades Sobre o Sábado e o Adventismo à luz da Bíblia, apresentou a Lei e o Evangelho como sendo antagônicos. Na página 11 de sua obra ele afirmou:

 

 

“A Lei durou até João (Lc 16:16-17) sendo cumprida por Jesus (Mt 5:18) e encravada na cruz (Cl 2:14; Ef 2:15); com a morte de Jesus, iniciou-se a Nova Aliança (Hb 9:15-17). Muitos tentam insistentemente voltar às ordenanças da Lei (At 15:5; Gl 5:2-5). Apesar disso, a Igreja bíblica fica com o Evangelho”[i].

O presente artigo demonstrará que, em sua afirmação, Edino Melo negou pelo menos dois princípios hermenêuticos fundamentais para a correta interpretação das Escrituras, o que compromete significativamente a compreensão do seu leitor sobre a Revelação Especial de Deus manifesta em todas as Escrituras.

Melo também se utilizou de alguns textos bíblicos de forma descontextualizada para apoiar sua tese antinomista, bem como seu conceito de “substituição” dos pactos. Este trabalho não se deterá num estudo exegético de tais textos, e para isso se recomenda a leitura da obra Interpreting Scripture: Bible Questions and Answers, editada por Gerhard Pfandl e publicada pelo Biblical Research Institute em 2010.[ii]

O livro Respostas a Objeções, de Francis Nichol, que, apresenta uma resposta apologética aos textos utilizados pelo antinomistas, também poderá ser consultada pelo leitor do presente artigo.[iii]

1º Princípio: a Totalidade da Escritura

O referido crítico do adventismo, ao fazer uma distinção entre a Lei e o Evangelho, desconsiderou o testemunho que a própria Escritura dá de si mesma em 2 Timóteo 3:16, 17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”.

O texto não deixa dúvidas de que cada escrito, seja do Antigo ou Novo Testamento, faz parte da Revelação divina para educar, aperfeiçoar e preparar o ser humano para a prática do bem, seja nesse mundo ou no mundo por vir. Por isso, Richard Davidson pôde afirmar que a frase toda a Escritura “[…] certamente inclui todo o Antigo Testamento, as Escrituras canônicas da igreja apostólica (ver Lc 24:44, 45; Jo 5:39); Rm 1:2; 3:2; 2Pe 1:21)”[iv].

A origem divina e sagrada dos Escritos do Antigo Testamento (que incluem a Lei de Moisés) é claramente revelada no termo grego original da palavra “toda”, como aponta Canale. Segundo o autor, a palavra theopneustos possui um sentido original mais amplo, o mesmo que “respirar”[v]. Desse modo, Paulo está afirmando em 2 Timóteo 3:16 que todos os escritos do Antigo Testamento, incluindo a Lei de Moisés, foram “respirados por Deus”, o que exclui qualquer possibilidade de o Novo Testamento “substituir” ou “corrigir” o Antigo Testamento, pois, Deus não erra.

Por isso, apresentar o Evangelho como sendo antagônico à Lei (escritos de Moisés) é uma negação de um princípio interpretativo essencial, e que fazia parte do método de estudo dos cristãos da igreja apostólica (At 17:11).

Como bem afirmou Carlos A. Steger: “[…] a Revelação Especial (por meio da Bíblia) é progressiva. A revelação posterior (Novo Testamento) não “corrige” a anterior (Velho Testamento), mas, a ‘amplia’ e ‘aprofunda’. Isso significa que o Novo Testamento não ‘corrige’ ou ‘muda’ o Antigo Testamento”[vi].

2º Princípio: a Analogia da Escritura

Esse segundo princípio fundamental desconsiderado por Edino Melo é conhecido como “analogia” ou “harmonia das Escrituras”, e parte do pressuposto de que sendo Deus o autor do Antigo e Novo Testamento, existe uma unidade entre ambos os escritos, mesmo que tenham sido produzidos por diferentes autores e em momentos distintos da história.

Ao afirmar que “a Igreja bíblica fica com o Evangelho”, Melo apresenta uma falsa dicotomia entre o Antigo Testamento e o “Evangelho eterno” (Ap 14:6), dando a entender que o evangelho não fazia parte da Revelação Especial dada aos antigos profetas.

Isso está longe de se harmonizar com o princípio interpretativo do próprio Senhor Jesus Cristo, que encontrava nas Escrituras do Antigo Testamento perfeita harmonia, bem como fonte autoritativa de verdade absoluta (Lc 24:27, 44-45).

Além disso, a falsa dicotomia apresentada pelo referido autor nega e revelação da graça divina já no primeiro texto messiânico do Antigo Testamento (Gn 3:15); rejeita o ensino da graça e o papel central do cordeiro (não das obras) no sistema cerimonial Levítico (Lv 22:18-20; compare-se com João 1:29 e 1 Coríntios 5:7); contraria o que o próprio Antigo Testamento revela sobre a crença de Davi na salvação unicamente pela graça de Deus (Sl 27:1), bem como sobre a crença de Isaías (Is 12:2).

A teologia de Edino Melo ignora que sempre existiu apenas um plano de salvação desde a eternidade (1Pe 1:18-20; Ap 13:8) e que, mesmo sendo a salvação unicamente pela graça de Cristo e não pelas obras (Ef 2:8,9), o estilo de vida dos salvos se revela através de uma vida de boas obras (Ef 2:10). Em resumo: para os autores bíblicos, o evangelho está presente em toda a Bíblia e as obras, mesmo não sendo um “meio” de salvação, fazem parte da vida daqueles que estão sendo transformados à imagem de Cristo (cf. Rm 8:29), e que possuem o fruto do Espírito (Gl 5:22, 23). E não poderia ser diferente, pois o “viver na carne” desagrada ao Espírito Santo (Rm 8:4-10).

 

 

Deve-se destacar também que uma análise do conceito de Revelação nas obras de autores protestantes revela que, além de antibíblica, a opinião do autor de 77 Verdades Sobre o Sábado e o Adventismo à luz da Bíblia não é aceita nem mesmo entre eruditos não observadores do sábado. Pinnock, ao comentar Mateus 5:17,18 (um dos textos distorcidos por Melo), afirmou que “nesse texto, Jesus faz um pronunciamento sobre a autoridade infalível do Antigo Testamento, e da compreensão escatológica do seu próprio ministério”[vii].

Bloesch destaca que “ambos os Testamentos amplamente testificam a origem divina da Escritura”[viii]. Por sua vez, Thiessen afirma que frases como “Deus disse”, “Assim diz o Senhor”, “Veio a mim a Palavra do Senhor”, são usadas abundantemente e aparecem mais de 38.000 vezes nas Escrituras[ix]. Finalmente, Artola e Caro destacam que o Novo Testamento se refere ao Antigo Testamento “como Palavra de Deus viva e atual”[x].

Conclusão

A afirmação: “a Igreja bíblica fica com o Evangelho”, deveria ser complementada do seguinte modo: a Igreja bíblica fica com o Evangelho presente em toda a Bíblia, seja no Antigo ou no Novo Testamento (cf. Gn 3:15; Jo 3:16, 36; Jr 31:33 e Hb 8:10).

O evangelho de João no capítulo 16:13 afirma que o Espírito Santo guiaria os crentes à “toda a verdade” – verdade essa que está presente também no Antigo Testamento, que era a Bíblia de Jesus e dos apóstolos, bem como fonte autorizada de verdade para todos eles (ver Lc 24:27, 44-45; 2Tm 3:15-17; 2Pe 1:19-21).

Além disso, Jesus reafirmou a autoridade do Antigo Testamento em Seu sermão na Montanha (Mt 5:17-19) e Paulo, autor que mais bem sistematizou a doutrina da graça, usou abundantemente os escritos da Lei de Moisés e do restante do Antigo Testamento para ensinar a doutrina da justificação pela fé, tanto em sua carta aos Gálatas quanto em sua carta aos Romanos.[xi]

Isso nos leva a concluir que a dicotomia que Edino Melo faz entre o Antigo Testamento e o evangelho não possui qualquer embasamento bíblico, o que compromete significativamente a saúde espiritual de todos aqueles que aceitam esse tipo de conceito. Biblicamente, ninguém pode tirar “um i ou um til” da Lei (Mt 5:17) e da Revelação divina sem que sofra sérios prejuízos, de consequências eternas (Mt 5:19. Ver também Ap 22:18, 19).

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