O que a Bíblia diz sobre as experiências fora do corpo?

O que a Bíblia diz sobre as experiências fora do corpo?

Alguns imortalistas citam a experiência de Paulo revelada aos coríntios para tentarem provar de alguma maneira que existe uma alma imortal presa dentro do nosso corpo. Veremos tal citação: “É necessário que eu continue a gloriar-me com isso. Ainda que eu não ganhe nada com isso, passarei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu. Se foi no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe” (cf. Co.12:1,2).

Para eles, a alma de Paulo se desligou temporariamente do corpo rumando ao Céu a fim de ter as revelações. Tal interpretação, contudo, carece de respaldo teológico. Em primeiro lugar, porque a experiência que Paulo teve se deu enquanto este estava em vida, e não depois de morto. A doutrina da mortalidade da alma prega que não existe vida entre a morte e a ressurreição, sendo, portanto, a morte a cessação total de existência consciente. Como a experiência de Paulo se deu enquanto este ainda estava com vida, segue-se que não contraria os princípios teológicos da doutrina mortalista.

Em segundo lugar, não é nos dito que Paulo foi na forma de uma “alma imortal” para o Paraíso. Ele afirma que foi “no corpo ou fora dele”; e não “no corpo ou na alma”. Em toda a citação deste acontecimento não há qualquer citação de alma-psiquê ou de espírito-pneuma, mas apenas de corpo-soma. Paulo não queria confundir os seus leitores e, por isso, nem sequer faz qualquer menção de “alma” ou “espírito” em tal experiência.

Estar fora do corpo não significa, na visão holista paulina, estar na forma de um espírito descorpóreo (se fosse assim então ele faria menção da possibilidade de partida da alma na experiência, o que não é nos dito). Significa apenas que ele poderia estar fisicamente no Paraíso (“no corpo”), ou tendo um quadro mental do Paraíso (“fora” do corpo). Isso explica o porquê de Paulo falar claramente em “visões e revelações” no verso 1, porque ele sabia da possibilidade daquilo ter se tratado apenas de uma visão, o que não é algo real em si mesmo (cf. At.12:9).

Neste caso, não seria o seu próprio corpo que lá estaria, pois ele [Paulo] estaria na terra e tendo uma visão [arrebatamento de sentidos] do Paraíso. O apóstolo Pedro nos afirma que uma visão não é necessariamente algo que esteja acontecendo de fato no devido momento como um acontecimento físico: “Pedro, saindo, seguia-o, e não sabia que era real o que se fazia por meio
do anjo, mas julgava que era uma visão” (cf. At.12:9).

Vemos, portanto, que a dúvida de Paulo não se baseava na suposição de estar no Céu como alma ou como corpo, mas sim de estar literalmente no Céu (corporavelmente) ou de estar tendo uma visão como se lá estivesse (v.1), o que seria considerado “fora do corpo”, porque o corpo estaria na terra enquanto passava-se a visão e as revelações, e não porque a alma teria partido.

Concorda também com isso todo o ensinamento bíblico acerca de arrebatamentos, pois a Bíblia nunca nos mostra qualquer caso de qualquer profeta do AT ou de qualquer pessoa que tenha visto a partida da alma para ter a experiência. Essa nunca é a linguagem bíblica empregada por eles, porque eles não acreditavam na visão dualista da natureza humana. Por isso, em absolutamente nunca a alma-psyque/nephesh é referida em qualquer experiência de qualquer pessoa, mas tão somente fazem eles questão de mencionar uma visão (revelação), em um arrebatamento de sentidos em que eles se viam em determinado lugar.

Vemos, por exemplo, a narração da experiência de Ezequiel: “Enquanto ele falava, o Espírito entrou em mim e me pôs de pé, e ouvi aquele que me falava” (cf. Ez.2:2). Não é nos dito que foi o espírito do próprio profeta que deixou o corpo na experiência, mas sim o Espírito de Deus que
temporariamente entrou nele a fim de lhe capacitar a receber de Deus aquilo que Ele lhe havia dado. A mesma linguagem é expressa várias vezes pelo profeta:

“No quinto dia do sexto mês do sexto ano do exílio, eu e as autoridades de Judá estávamos sentados em minha casa quando a mão do Soberano Senhor veio ali sobre mim” (cf. Ezequias 8:1)

“Então o Espírito me ergueu e me levou para a porta do templo do Senhor, que dá para o oriente. Ali, à entrada da porta, havia vinte e cinco homens, e vi entre eles Jazanias, filho de Azur, e Pelatias, filho de Benaia, líderes do povo” (cf. Ezequias 11:1)

“Então o Espírito de Deus ergueu-me e levou-me aos que estavam exilados na Babilônia, na visão dada pelo Espírito de Deus” (cf. Ezequias 11:24)

Veja que não é o espírito do profeta que deixa o corpo, mas sim o Espírito de Deus que espiritualmente lhe erga a fim de ele ter uma visão de determinado local. É exatamente isso também o que aconteceu com João no Apocalipse: “Imediatamente me vi tomado pelo Espírito, e diante de mim estava um trono no céu e nele estava assentado alguém” (cf. Ap.4:2), e é essa também a ideia expressa pelo apóstolo Paulo em 1Cor.12:1,2.

Sumariando, quando Paulo menciona que foi “arrebatado” nesta experiência, ele está falando de visões proféticas, como diz de modo claro o verso 1.

Os profetas tinham a sensação de estarem em outros lugares quando estavam tendo as visões (cf. Ez.11:24; Ap.1:10); mas essa de Paulo, em especial, ele não sabia se estava de fato naquele lugar (se fosse assim necessariamente estaria no corpo), ou se estava lá em uma visão, tendo um
arrebatamento de sentidos em que se viu no Paraíso. Algo semelhante aconteceu com Pedro:

“Estando eu orando na cidade de Jope, tive, num arrebatamento dos sentidos, uma visão; via um vaso, como um grande lençol que descia do céu e vinha até junto de mim” (cf. Atos 11:5)

O que acontece é um arrebatamento de sentidos – que é considerado como sendo uma “visão” – e não uma “alma imortal” deixando temporariamente o corpo ou um “espírito” se desligando da prisão do corpo e habitando em outro lugar, ao maior estilo kardecista de ensino. Tal linguagem é extremamente estranha à luz da Bíblia, simplesmente porque o dualismo grego não se encaixa nas Escrituras.

Todos os apóstolos e profetas sabiam muito bem que o que lhes sucedia não era um espírito deixando o corpo e muito menos uma alma imortal que se desligava da matéria, mas sim um arrebatamento de sentidos em que se viam em determinado lugar. A razão pela qual eles jamais afirmaram que as suas “almas” deixaram o corpo provém do fato evidente de que eles não
acreditavam no dualismo entre corpo e alma pregado entre os gregos.

FIO DE PRATA

Muitos imortalistas também gostam muito de utilizar o texto de Eclesiastes 12.16, que fala sobre o rompimento do “fio de prata” significando que este rompimento refere-se a separação da alma quando o indivíduo morre. Mas, quem ler o capítulo inteiro de Eclesiastes 12 perceberá a linguagem pungente em que o sábio se refere ao fim da vida de todos, antecedido pela penosa experiência da velhice até o ponto em que “o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus que o deu” (vs. 7). O vs. 6 descreve o fim da vida em alegorias variadas e linguagem bem gráfica: “antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço”.

E, em relação ao v.6, mais uma vez afirmo, como já fiz com mais detalhes em outro artigo. Se a interpretação dos imortalistas é no sentido de que “o espírito” que volta vai para junto do Eterno como entidade consciente, então temos a pregação da salvação universal! TODOS os espíritos de TODOS os que são pó (a raça humana inteira) retornaria para Deus, já que o texto não implica absolutamente separação de salvos e perdidos.

Porque a própria advertência a todos para que o Criador seja lembrado, antes que a morte chegue sem que Ele seja assim tido em conta, não dá margem a qualquer noção de intenção do autor em falar do espírito só dos salvos, e sim de todos os seres humanos.

Esse verso de Eclesiastes deixa implícito que o espírito retorna a Deus no instante do falecimento e esse “espírito” deriva de ruach, no hebraico. Esta palavra tem vários significados dentre os quais “respiração”, “vento”, “vitalidade”, “coragem”, “mente”, “temperamento”, “sede das emoções”, etc.
Todavia, em nenhuma das 379 ocorrências de seu uso no Velho Testamento ruach denota uma entidade separada capaz de existência consciente à parte do corpo físico.

Porque nada indica que o “espírito”, concedido por Deus ao homem no princípio, é o mesmo “sopro”, ou “fôlego de vida”, e tem consciência depois da morte. A Bíblia não autoriza tal interpretação, nem neste verso, nem em qualquer outro. Pelo contrário, o quadro que se ressalta do que o salmista nos apresenta quando esse “espírito” é recolhido é a falta de consciência após a morte:

“Não confieis . . . nos filhos dos homens . . . Sai-lhes o espírito (fôlego) e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia perecem todos os seus desígnios (Salmo 146:3,4).

Muitos outros textos falam claramente da condição de inconsciência do homem na morte: Sal. 6:5; 30:9; 88:10; 115: 17; Ecl. 9: 5, 6; Isa. 38: 18, 19; 1 Cor. 15: 16-19, 32.

A esperança de Jó de vida eterna centralizava-se na ressurreição, não em ir para a glória imediatamente quando morresse:

“Porque eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros”. (Jó 19: 25-27)

Que a grande esperança de vida eterna se centraliza, não na morte com ida de uma alma para o céu, mas na ressurreição, fica por demais claro ainda os seguintes textos: Salmos 17:15; João 6:39,40; Lucas 20:37,38; João 11:23, 25; Fil.3:11; 1 Tes. 4:14,17; Mat.16:27 (cf. Isa. 40:10); 2 Tim. 4:7,8).

“Quem tem ouvidos para ouvir, OUÇA!”

Fonte

Anterior Batismo Pelos Mortos – 1Coríntios 15:29
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Sobre o autor

Leandro Quadros
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Escritor e apresentador dos programas "Na Mira da Verdade" e "Lições da Bíblia"

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