Filosofia

O que é “eternidade” para o pensamento bíblico-hebreu?

O texto a seguir, escrito por Fernando L. Canale, foi extraído do Tratado de Teologia Adventista (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 124-129, no capítulo onde ele aborda a “Doutrina de Deus”.

Prepare-se! Quem sabe, seja a primeira vez que se depare com a maneira bíblica e hebraica de ver a eternidade e o tempo. É bem provável que sua compreensão do assunto tenha vindo da filosofia grega – o que é natural, considerando que fazemos parte de uma cultura ocidental.

Além de avaliar o conceito bíblico de “eternidade”, poderá ler a posição bíblica sobre outros atributos divinos.

Leia, reflita e comente aqui no blog.

O texto foi publicado originalmente no ótimo blog http://www.exegese.teo.br/

Boa leitura!

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O cristianismo sempre entendeu que Deus é eterno (Rm 16:26). A eternidade, como característica do ser divino, trata da relação de Deus com o tempo. Existe uma profunda e decisiva discordância entre a concepção tradicional e a concepção bíblica de eternidade. A concepção tradicional de eternidade mantida por cristãos em geral sofreu indevida influência da filosofia grega.

Segundo ela, existe uma diferença qualitativa intransponível entre o tempo e a eternidade. Eternidade seria a ausência total de tempo e de qualquer coisa relacionada com o tempo. Como resultado, toma-se a eternidade divina como significando que Deus é totalmente e completamente desvinculado e alheio a qualquer realidade temporal ou histórica. As consequências de uma ideia como essa permeiam e condicionam toda a concepção clássica da natureza e dos atos divinos.

Quando se busca, porém, a ideia de eternidade no registro bíblico, a primeira faceta que se apresenta é a de que as palavras comumente traduzidas por “eternidade” possuem significado claramente temporal. No AT [Antigo Testamento] ‘olam e no NT [Novo Testamento] aiõn significam basicamente “um tempo de longa duração”, e se referem a um período de tempo limitado ou ilimitado.

O fato de essa eternidade ser concebida em um modo temporal não significa que a Bíblia equipare a eternidade com o tempo criado que vivenciamos como limite de nossa finitude. Significa, antes, que a eternidade de Deus não é alienada do nosso tempo. O tempo divino, porém, é qualitativamente diferente do nosso tempo, não no sentido de negar o tempo, mas de incorporá-lo e excedê-lo. Vivenciamos o tempo, por exemplo, como uma mensuração de nossa transitoriedade, ao passo que, em Sua eternidade, Deus vivencia o tempo sem esse caráter transitório (Sl 103:15-17; Jó 36:26).

Diferentemente da tradição cristã clássica, influenciada pela filosofia grega, a Bíblia concebe o modo temporal e histórico da eternidade de Deus como compatível com Sua imutabilidade (Sl 102:24-27; Hb 1:10-12). Paulo nos diz que o plano da salvação foi elaborado “antes da fundação do mundo” (Ef 1:4). “Antes” pressupõe claramente o tempo anterior à criação. A afirmação paulina de que o plano da salvação esteve, “desde os séculos , oculto em Deus, que criou todas as coisas” (Ef 3:9), aponta para a eternidade passada, como abrangendo o tempo como uma característica da eternidade de Deus.

O tempo humano teve um começo (conferir 1 Coríntios 2:7), quando nosso Universo finito e seus habitantes foram criados. O Criador transcende tais limitações em Seu ser e em Sua experiência de tempo e história. O tempo humano é limitado e finito, cuja posse está nas mãos de Deus, sob formas que excedem completamente até nossos melhores esforços racionais e imaginativos. Procurar definir o tempo de Deus seria uma tentativa teórica de penetrar no mistério de Sua natureza. Nesse ponto, o silêncio é eloquência.

Entendemos, porém, algo importante, a saber, que, de acordo com a Bíblia, o eterno e imutável Deus pode Se relacionar de maneira direta e pessoal com homens e mulheres dentro do plano da história humana, a ponto de Ele e os seres humanos compartilharem a mesma história. A eternidade de Deus designa o dinamismo e a infinitude da vida e da história divinas, as quais ao mesmo tempo incluem e excedem completamente o âmbito de nossa história criada. Segundo a Bíblia, a distância que atualmente obstrui a comunhão direta e histórica entre Deus e Sua criação não é resultado da diferença entre um Deus atemporal e imutável e um ser humano histórico, mas a diferença entre um Deus santo e uma humanidade pecadora (Gn 3:22-24; Is 59:2).

IMUTABILIDADE

Outra característica do ser divino que tem sido importante componente da doutrina cristã de Deus através dos séculos é a imutabilidade. Esse atributo tem que ver com o fato de Deus não mudar (Ml 3:16; Tg 1:17). Lamentavelmente, porém, a teologia tradicional equiparou imutabilidade com impassibilidade. Essa equiparação foi necessária devido à concepção atemporal de eternidade [como visto no tópico Eternidade]. Quando se entende imutabilidade como impassibilidade, diz-se que Deus possui uma vida estática, da qual relações, emoções, novas experiências e mudanças de vida estão inteiramente excluídas. Ou seja, a imutabilidade descreve a vida divina como desvinculada da experiência e da história humanas.

Essa concepção não deixa nenhuma margem para a compreensão histórica do grande conflito entre Deus e Satanás, ou para a encarnação histórica e real de Jesus Cristo. Ao ministrar um ensino como esse, a teologia clássica seguiu a filosofia grega, em completa desatenção ao conceito bíblico de imutabilidade.

Apesar de não ser encontrado na Escritura nenhum termo que expresse o conceito de “imutabilidade”, a Bíblia afirma claramente que em Deus “não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1:17). A maneira como a Bíblia entende a eternidade divina leva em conta o fato de a compatibilidade entre a perfeição de Deus e uma concepção de vida de Deus incluir alterações dinâmicas tais como realização de coisas novas (Is 43:19; Jr 31:31; Ap 21:5), emoções (Êx 34:14; Nm 11:33; Dt 4:24; 6:15), relacionamento (Lv 26:12; Zc 13:9; Ap 21:3) e até mesmo arrependimento (Êx 32:14; Jr 18:8; 42:10).

Não resta dúvida de que a imutabilidade do Deus bíblico, que é capaz de mudar Sua decisão de destruir Nínive (Jn 3:4) por causa da reação positiva dos ninivitas à pregação de Jonas (v. 10), não pode ser compreendida como impassibilidade [ou seja, alguém indiferente à dor, às alegrias ou aos desgostos]. Não obstante, o fato de Deus mudar de ideia, como quando Se arrepende, não significa uma mudança no propósito para com os seres humanos. Trata-se mais de uma adaptação à mudança de ideia e propósito por parte do ser humano.

Para a Bíblia, a mudança divina também tem que ver com a vida dinâmica de Deus e não com a constituição de Seu ser. Ou seja, a realidade de Deus não varia nem muda de um ser menos perfeito para um mais perfeito. Deus é sempre o mesmo (Sl 102:26-27; Hb 13:8).

De acordo com a doutrina bíblica de Deus, o movimento e a mudança na vida divina, inconcebíveis para a teologia clássica, desempenham papel central na natureza perfeita da vida e atividades divinas. Além do mais, a encarnação presume que Deus seja capaz não apenas de Se relacionar e viver dentro dos conceitos do tempo criado, mas também de vivenciar pessoalmente novos e genuínos acontecimentos históricos.

A encarnação envolve uma progressão histórica e real dentro da própria vida divina de Deus sem haver a necessidade de mudança ou desenvolvimento na estrutura do ser divino (Fp 2:6-8). Dentro desse contexto, a imutabilidade de Deus é coerentemente apresentada através da Bíblia como “fidelidade” ou constância em Seus atos históricos.

Deus é capaz de agir na história e de mudar de ideia (Jr 18:8; 42:10; Jn 3:9-10) sem infringir a perfeição de Seu próprio ser, ou completar um processo de desenvolvimento interior de um nível mais simples para um nível mais alto de existência. Ainda assim, Sua eterna fidelidade (Sl 100:5; 117:2) garante que Ele nunca mudará de ideia, mas que sempre cumprirá Seus planos (Is 25:1), juramentos (Hb 7:21) e promessas de recompensa (Is 61:8), proteção (Sl 91:14) ou castigo (Sl 119:75) em relação às escolhas humanas.

A fidelidade histórica é, portanto, uma característica divina que distingue Deus dos seres humanos (Nm 23:19; 1Sm 15:29). A imutabilidade de Deus, portanto, é compreendida não como impassibilidade, mas como eterna identidade da natureza de Deus consigo mesmo e fidelidade histórica, constância e coerência de Seu relacionamento, propósitos e ações para conosco. Esse pressuposto é necessário para conceitos teológicos tais como tipologia, encarnação, cruz e o grande conflito entre Deus e Satanás, conforme apresentados ao longo da Bíblia.

AMOR E IRA

Diversas são as maneiras pelas quais a predestinação, a criação, a revelação geral, a presença histórica e a providência revelam Deus como um ser relacional, cuja essência é o amor (1 João 4:8). Exatamente por causa disso, a ira é estranha à Sua natureza (Is 28:21).

Para compreender adequadamente os conceitos bíblicos de ira e amor divinos, é necessário reconhecer que Deus pode expressar ambos os sentimentos sem ser contraditório. Ao revelar Sua glória a Moisés, Deus explicou que era um “Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos até à terceira e quarta geração” (Êx 34:6-7).

O AMOR DE DEUS

As Escrituras declaram que “Deus é amor” (1Jo 4:8, 16). Revelam um “Deus de amor” (2Co 13:11), bem como o “amor de Deus” (2Co 13:14; conferir Ef 2:4) por Sua criação. O Pai (1Jo 3:1), o filho (Ef 3:19) e o Espírito Santo (Rm 15:30) Se empenham em expressar Sua amorável natureza íntima, não só nos atos de criar o Universo e se comunicar com ele, mas também, e mais notavelmente, no ato de elaborar e implementar um surpreendentemente sábio e complexo plano de salvação.

A definição do amor de Deus não pode ser extraída por analogia de conceitos ou experiências humanas. O significado do amor só pode ser definido por Deus através de um ato de revelação direta. O amor é uma realidade relacional. João expõe com clareza a natureza relacional do amor quando observa que “conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1 João 4:16).

Há, porém, mais amor divino do que o pode sugerir sua estrutura relacional. O amor divino é explicitado nos mínimos detalhes quando, segundo a predestinação eterna de Deus, “Se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador” (Tt 3:4), e o Pai e Jesus Cristo nos deram “eterna consolação e boa esperança, pela graça” (2Ts 2:16).

O amor de Deus apresenta sua mais surpreendente e inesperada manifestação na vida e morte de Jesus Cristo (Rm 8:39; 1Jo 4:10; Rm 5:8). O amor divino é a base não somente da criação, mas também da redenção. A encarnação e a cruz de Cristo revelam efetivamente que o amor divino é um ato de abnegação em favor dos seres humanos, inclusive dos humildes, desprezados e indignos.

A Escritura descreve a essência do amor divino no ato de o Pai entregar o Filho (Jo 3:16; Rm 8:32; conferir 2Co 5:21) e, simultaneamente, no ato de o Filho Se entregar a Si mesmo (Gl 2:20; Ef 5:2; Hb 9:14). Paulo explica a autorrendição do amor do Filho pelo mundo, ressaltando que Cristo Jesus “não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-Se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a Si mesmo Se humilhou, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2:6-8).

Com base nisso, não admira ouvir Paulo afirmar que o amor demonstrado por Cristo “excede todo entendimento” (Ef 3:19). Segue-se, pois, que o amor divino é a fonte (1Jo 4:7) e o modelo (1Co 13) do amor humano.

A IRA DE DEUS

Que o Deus bíblico Se ire e traduza em ação Sua ira sobre os pecadores, destruindo-os pelo fogo eterno, parece algo estranho à Sua natureza (Is 28:21). Contudo, o conceito bíblico da ira de Deus não é contraditório nem incompatível com Sua natureza amorosa. Visto que Deus é amor, Seu objetivo é salvar todos os seres humanos. Paulo expôs com precisão esse fato básico da teologia cristã em uma afirmação concisa: “Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5:9).

A resposta de Deus ao pecado humano é a oferta da salvação em Jesus Cristo (Gn 3:15). Se Deus é amor e Seu propósito explícito é salvar pecadores, surge a pergunta: o que Lhe causa ira? Segundo a Escritura, a ira divina é provocada quando o pecado persistente (Dt 9:7; 2Cr 36:16; Jr 7:20-34; 32:31-33; Os 12:14; Rm 2:5; Cl 3:5-6) leva homens e mulheres a rejeitar sistematicamente a amorosa oferta de salvação em Jesus Cristo. (Jo 3:36; Hb 6:4-6).

Porque Deus é amor, Ele não quer “que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (1Rs 8:46-51; 2Pe 3:9). A ira divina pode, porém, ser evitada pelo arrependimento (1Rs 8:46-51; Jl 2:12-14), confissão (Dn 9:16-19), restituição (Lv 5:16; Nm 5:7-8) e intercessão (Êx 32:9-14).

Em suma, a ira divina pode ser desviada se os seres humanos aceitarem a vontade de Deus (Sua lei) e o perdão que Ele oferece gratuitamente a todos por meio de Jesus Cristo. Mas quando rejeitam teimosa e persistentemente a vontade de Deus e a amorável dádiva da salvação oferecida em Jesus Cristo, os pecadores se tornam obstinados em sua posição ao Senhor, tornando-se, por conta disso, inimigos de Deus.

Naum explica que a ira de Deus é executada sobre Seus inimigos: “O SENHOR é Deus zeloso e vingador, o SENHOR é vingador e cheio de ira; o SENHOR toma vingança contra os Seus inimigos” (Na 1:2). Durante a história da salvação, a ira de Deus foi executada somente de forma ocasional e parcialmente (Lm 2:1-3; conferir At 17:30). Será, porém, executada escatologicamente no último dia, quando “todos os que cometem perversidade serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo” (Ml 4:1; conferir Ap 14:10, 19; 19:15-21).

TRANSCENDÊNCIA

Transcendência é outro conceito teológico que aparece na Bíblia sem uma palavra específica que a expresse. Transcendência significa basicamente “independência” de alguma coisa e tem que ver, no estudo da natureza de Deus, com a independência que Ele manifesta em Seu relacionamento com o Universo.

O sentido no qual Deus é diferente da criação tem sido compreendido tradicionalmente com base em Sua eternidade atemporal e impassível imutabilidade. Ou seja, Deus é diferente da criação porque não está subordinado ao tempo nem à história, ao passo que a criação é temporal e histórica.

Seguindo este princípio, a teologia clássica encontra uma semelhança ou analogia básica entre a realidade transcendente de Deus e a realidade criada. Tal semelhança é o fundamento que permite a razão humana discorrer sobre Deus e construir uma teologia natural. Outros tem sugerido que entre Deus e a criação existe uma diferença total e absoluta, designada como “transcendência absoluta”. A transcendência absoluta não admite nenhuma similitude entre a natureza eterna de Deus e Sua criação histórica.

A Bíblia concebe Deus diferente do mundo, tanto em termos de realidade (Deus não é o mundo, nem está o mundo incluído em Seu ser) como em termos de natureza. É óbvio, porém, que quando a diferença é entendida como “transcendência absoluta”, Deus Se torna o grande desconhecido. As consequências das abordagens tradicional e moderna à interpretação da transcendência de Deus foram, em última análise, responsáveis pela reviravolta nas concepções panteístas da imanência divina nos últimos três séculos. De acordo com essa concepção, Deus não é mais uma pessoa independente do mundo, senão o próprio mundo, em sua profunda causa ontológica ou poder para sê-lo.

As Sagradas Escrituras apresentam uma concepção diferente da transcendência de Deus. Desde o princípio, a doutrina da criação prepara o terreno tanto para a transcendência como para a semelhança entre Deus e Sua criação. A criação divina estabelece a independência entre a realidade de Deus e a realidade do Universo (Gn 1:1; Hb 11:3) e, por consequência, a dependência do Universo em relação a Deus (Is 42:5).

A Escritura fala claramente da transcendência divina, tomando como ponto de partida a imanência de Deus no santuário. O relato da cerimônia de dedicação do templo de Salomão (2Cr 5-7) aponta para o fato de que a transcendência do ser divino está além do âmbito da criação. Começando com a afirmação da imanência pessoal e histórica de Deus, a narrativa identifica o lugar de habitação de Deus em dois espaços: primeiramente, a habitação de Sua glória pessoal no templo-santuário terrestre (2Cr 5:13-6:2; 6:41; 7:13; conferir Êx 40:34-38), e depois, Sua morada celeste (2Cr 6:21, 25, 27, 30, 33, 39; conferir Hb 8:1-2; Ap 7:15).

A morada celeste de Deus não é, contudo, o âmbito de Sua transcendência, visto que o “Céu” é parte da criação de Deus. O fato de Deus habitar no Céu deve, portanto, ser entendido como uma referência à Sua imanência histórica, isto é, Sua relação com as outras criaturas não afetadas pelo pecado. Duas habitações divinas são necessárias, não por causa da transcendência de Deus, mas devido à introdução do pecado na Terra e à necessidade da presença pessoal de Deus com Seu povo.

A dimensão da transcendência divina entra em foco novamente quando Salomão pergunta: “Mas, de fato, habitaria Deus com os homens na Terra? Eis que os céus e até o céus dos céus não Te podem conter, quanto menos esta casa que eu edifiquei” (2Cr 6:18; 1Rs 8:27). Percebe-se e expressa-se aqui o mistério da realidade de Deus.

Ele realmente vive na Terra, mesmo em um templo, e no Céu (imanência), mas Seu ser excede completamente a criação (transcendência). Somente quando o mistério do ser de Deus – que é totalmente independente e completamente insuperável, e no entanto capaz e disposto a estabelecer uma íntima relação de morada com Sua criação – for revelado, seremos capazes de reconhecer e adorar a Deus em Sua majestade divina. Nenhum esforço da razão ou da imaginação humana pode penetrar a revelação de Deus em Sua essência divina.

A Bíblia, porém, não adota a ideia de uma transcendência “absoluta”, que exclua as semelhanças entre Deus e a criação. Ao contrário, segundo o relato bíblico de Gênesis, homem e mulher foram criados “à imagem de Deus” (Gn 1:27), o que afirma claramente uma semelhança entre Deus e a humanidade. O fato, porém, de existir essa semelhança não justifica o uso especulativo da razão sozinha para compreender Deus.

Somente Deus, que conhece perfeitamente ambos os lados da analogia entre Ele e a criação, pode extrair analogias cognitivas ou comparações de Seu próprio Ser com a nossa ordem criada. Os seres humanos, que conhecem apenas seu próprio lado da criação, não podem traçar um quadro analógico apropriado da realidade divina.

Com base nisso, nenhuma analogia extraída da criação pode servir de fundamento para atribuir a Deus alguma forma física ou conceitual. Ou seja, a analogia que existe entre Deus e a criação não possibilita o desenvolvimento de uma teologia natural. Como era de se esperar, o segundo mandamento nos instrui a não fazer “imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra” (Êx 20:4). Só Deus pode empregar analogias para revelar-Se sem correr o risco de descambar para as vãs especulações.

Algumas das analogias empregadas por Deus são chamadas de antropomorfismos, isto é, elas atribuem a Deus características pertencentes a seres humanos. Nos antropomorfismos bíblicos, Deus revela o que Ele é e o que pode fazer com relação às realidades humanas. Quando Deus diz, por exemplo, que tem braço (Êx 15:16; Sl 89:13), não quer dizer que possua exatamente ou univocamente o que chamamos de braço. A expressão significa que a realidade divina é capaz de executar tudo o que pode ser executado por um braço humano, e infinitamente mais.

Não somos capazes de conceber ou imaginar a verdadeira estrutura da realidade de Deus que Lhe permita realizar estes atos. A linguagem analógica nos revela, porém, aspectos da essência e das capacidades divinas, embora resguardando ao mesmo tempo o mistério de Sua natureza divina.

Em Si mesmo, Deus é real e tem uma forma, ainda que a realidade e a forma divina ultrapassem em muito a realidade e a capacidade cognitiva das criaturas de intelecto mais elevado. Além dos limites daquilo que foi revelado sobre Seu ser, o silêncio é, e sempre será, eloquência. A revelação ocorre quando o próprio Deus estabelece uma relação direta com nossa história humana. No entanto, desde o primeiro momento em que Se revela, o mistério de Seu ser transcendente parece não ser passível de ser alcançado por nossa limitada inteligência.

A transcendência de Deus aparece associada a diversos de Seus atributos conforme revelados na Bíblia, como, por exemplo, os da presciência, onisciência e onipotência. É contudo, na doutrina da Trindade que a transcendência de Deus se revela em seu nível mais profundo.

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