Apologética Cristã

O “textus receptus” e as traduções modernas da Bíblia

Johannes Kovar, Seminário Bogenhofen

Ressurgiu entre os adventistas a questão da confiabilidade das traduções da Bíblia e especialmente sobre qual tradução deve-se escolher. Em suas palestras, Walter Veith, um zoologista, afirma que o chamado textus receptus, no qual a versão King James (KJV, sigla em inglês1) e várias outras traduções para línguas modernas estão baseadas, deve ser preferido. Ele chega até essa conclusão parcialmente por causa de certas teorias de conspiração, que ele defende, mais do que sob o fundamento do estudo dos manuscritos gregos originais. Isso tem causado algum rebuliço e alguma irritação entre membros da igreja e pastores em vários países. A questão é se é melhor para as traduções modernas da Bíblia confiar no textus receptus, que é apoiado pela maioria dos manuscritos, ou ser favorável ao texto científico (Nestle-Aland). A maioria das Bíblias modernas está baseada neste último.
Temos hoje à nossa disposição uma riqueza de manuscritos de diferentes eras e de qualidade variável (cerca de 5.400 manuscritos para o Novo Testamento).2 Os autógrafos estão todos perdidos; deste modo, devemos reconstruir o texto original da melhor forma como pudermos, usando os manuscritos disponíveis para nós. Os editores do texto científico do Novo Testamento produziram um texto eclético, um texto que não pode ser encontrado em um manuscrito somente. Variantes desse texto são cuidadosamente listadas no aparato crítico do texto.
Temos consciência de dois principais tipos de texto para o Novo Testamento: (1) O texto alexandrino (Egito) cujos manuscritos datam do 2º século D.C. Ele é claramente o mais próximo dos originais, e forma a base para as edições científicas modernas. (2) O texto bizantino (Constantinopla). Tanto quanto sabemos, esse texto surgiu no 4º/5º século D. C. e se tornou a base para o que viria a ser o textus receptus e a versão King James (KJV). O tipo bizantino de texto é encontrado na maioria dos manuscritos que foram preservados (cerca de 80% de todos os manuscritos que temos).3 Começando no 6º/7º século ele foi lentamente aceito pelo cristianismo de fala grega.

I. A história do textus receptus.
Em 1 de março de 1516, o humanista católico Erasmo de Roterdã (1467-1536) publicou em Basel (na França) o primeiro Novo Testamento grego, que deveria aparecer em um total de cinco edições. Erasmo e seu editor Froben estavam com grande pressa, pois o cardeal da Espanha Ximenes estava trabalhando em sua própria edição. Sendo que Ximenes só conseguiu aprovação papal para a publicação em 1522, Arasmo venceu sua competição.
Para a publicação de seu texto, Erasmo confiou em seis manuscritos datados dentre os séculos XI e XV, estando bem ciente de sua qualidade inferior. Nenhum desses manuscritos era completo, e Erasmo mudou o texto grego aqui e ali, freqüentemente de acordo com a Vulgata Latina. Os manuscritos que Erasmo usou, incluindo as anotações que fez neles, ainda existem, de forma que seu trabalho pode ser analisado de forma relativamente bem.
Em 1519 Erasmo apresentou aproximadamente 1.100 cópias de uma segunda edição, que continha cerca de 400 melhorias. Martinho Lutero confiou nessa versão para sua tradução alemã da Bíblia (1522) e Tyndale fez o mesmo em sua tradução inglesa (1525).
Mas Erasmo também precisou enfrentar o criticismo. Por exemplo, ele foi acusado de ser um “ariano”, negando a Divindade de Jesus, pois originalmente ele omitiu a passagem de 1 João 5:7-8 que era encontrada na Vulgata, mas não nos manuscritos gregos: “pois há três que testificam no céu, o Pai, o Verbo e o Espírito Santo: e estes três são um” (KJV). Começando em 1522, Erasmo imprimiu esse texto mais longo, incluindo a fórmula trinitariana, mas explicou em uma nota de roda pé suas razões para não considerar essas palavras como originais.4
Em 1546, o editor parisiense Roberto Estienne (também conhecido como “Estéfanos,” 1503-1559) publicou sua primeira edição do Novo Testamento grego. A terceira adição, então chamada como “régia”, que foi lançada em 1550, se tornou muito conhecida e às vezes reconhecida como o texto padrão para o textus receptus. Contudo, Estéfanos não notou que diferentes leituras eram possíveis em diferentes partes do texto.
Ele estava consciente de que nem todos aprovavam seu texto sem reservas. Theodoro Beza, sucessor de Calvino, publicou nove edições do Novo Testamento grego entre 1565 e 1604, essencialmente usando a quarta edição de Estéfanos. Beza, todavia, modificou o texto grego em alguns lugares sem qualquer apoio em outras edições impressas ou manuscritos.
Entre 1624 e 1678 a família Elzevier da Holanda publicou sete edições do Novo Testamento grego. Em 1633, no prefácio de sua segunda edição eles afirmaram: “agora vocês seguram o texto, que foi recebido por todos” (“textum ergo habes, nunc ab omnibus receptum”), do qual o termo textus receptus foi derivado.
Todas essas edições mais ou menos oferecem o textus receptus que essencialmente remonta à primeira edição de Erasmo, na realidade um único textus receptus não existe.5

II. Apocalipse 22:19 e o textus receptus.
De acordo com o textus receptus, apocalipse 22:19 diz: “Deus tirará sua parte do livro da vida.” Não existe manuscrito grego de antes do tempo de Erasmo que traga esse vocabulário. Todos os manuscritos mais antigos lêem “árvore da vida.” Como a expressão “arvore de vida” surgiu? Quando Erasmo trabalhou em seu Novo Testamento grego, ele só tinha à sua disposição um único manuscrito grego do livro do Apocalipse.
Infelizmente, essa cópia não tinha a página final que continha os últimos versos (Apocalipse 22:16b-21). Erasmo não tirou tempo para procurar um manuscrito grego do Apocalipse que estivesse completo. Ao invés disso, ele traduziu uma versão então em uso da Vulgata para o texto de Apocalipse 22:16b-21 retraduzida para o grego. A tradução dele difere substancialmente do texto encontrado nos manuscritos. Existem palavras no texto de Erasmo que não são encontradas em um único manuscrito grego.
Quem quer que considere o textus receptus como sendo o texto original inspirado precisa acreditar que o texto original grego era desconhecido até o ano de 1516 e deve aceitar o humanista católico Erasmo de Roterdã como um escritor inspirado do Novo Testamento. Aqui está uma lista de diferentes versões de Apocalipse 22:19:
New American Standard Bible (NASB) 1995 (Nova Versão Padrão Americana, 1995)
“. . . God shall take away his part from the tree of life . . .”
“…Deus tirará sua parte da árvore da vida…”
Revised Standard Version (RSV) 1971 (Versão Padrão Revisada, 1971)
“. . . God will take away his share in the tree of life . . .”
“… Deus tirará sua porção na árvore da vida…”
New International Version (NIV) 1984 (Nova Versão Internacional [NVI] 1984)
“. . . God will take away from him his share in the tree of life . . .”
“… Deus tirará dele a sua porção na árvore da vida…”
New English Translation (NET) 2005 (Nova Tradução Inglesa, 2005)
“. . . God will take away his share in the tree of life . . .”
“… Deus tirará sua porção na árvore da vida…”
English Revised Version (ERV) 1885 (Versão Revisada Inglesa, 1985)
“. . . God shall take away his part from the tree of life . . .”
“… Deus tirará sua parte da árvore da vida…”
New King James Version (NKJV) 1982 (Nova Versão do Rei Tiago, 1982)
“. . . God shall take away his part from the book of life . . .”
“…Deus tirará sua parte do livro da vida…”
King James Version (KJV) 1611 (Versão Rei Tiago, 1611)
“. . . God shall take away his part out of the book of life . . .”
“…Deus tirará sua parte pra fora do livro da vida…”
Em mais de dez lugares no Apocalipse, Erasmo oferece formas de texto que não podem ser encontrados em qualquer manuscrito de que dispomos hoje (por exemplo, Apocalipse 4:4; 5:14; 18:5). Esses fatos deveriam persuadir a todos de que o textus receptus não é idêntico ao texto original do Novo Testamento.

III. Argumentos a favor e contra o textus receptus.
O que se segue é uma compilação dos argumentos mais importantes em favor do textus receptus em itálico e os contra argumentos correspondentes.
(1) O textus receptus foi o texto dos reformadores. Tanto quanto somos capazes de avaliar a obra dos reformadores, eles não foram perfeitos. A ideia de que Deus confiou o texto grego correto a eles é uma suposição que não pode ser provada. O originador deste texto foi um padre católico.
(2) O textus receptus é literariamente inspirado e inerrante. Os adventistas respeitam a confiabilidade da Palavra de Deus, conquanto não advoguem a teoria da inspiração através do ditado. A inspiração sempre se refere aos escritos originais, não ao processo de cópia e tradução.
(3) O textus receptus remonta aos primeiros cristãos. As fontes mais antigas dos textos disponíveis a nós alcançam o 4º século. João Crisóstomo (morto em 407) citou o texto bizantino de seu tempo e é sua testemunha mais antiga. Contudo, o texto alexandrino é 200 anos mais antigo. Citações bíblicas dos mais antigos pais da igreja estão sempre mais próximos do texto científico moderno do que do textus receptus.
(4) O clima úmido do mediterrâneo limitou a durabilidade dos bons manuscritos do textus receptus a 150 ou 200 anos. O clima quente e seco do Egito tornou possível que alguns dos manuscritos ruins produzidos em Alexandria sobrevivessem. Por seus muitos defeitos, heresias e corrupções eles não foram mais usados. É extremamente improvável que somente os manuscritos “ruins” permanecessem intactos e que todos os alegadamente “bons” desaparecessem. Depois da divisão do império romano no 4º século, o grego gradualmente se tornou uma língua usada somente na parte oriental do império. Esse fato explica porque ali e em uma data relativamente tardia o texto majoritário se tornou importante. Além disso, a região do mediterrâneo não é úmida e quente, mas seca e quente. Até hoje muitos manuscritos antigos permanecem na Grécia (exemplo, Athos) e na Itália (exemplo, Roma).
(5) Há influência gnóstica no texto alexandrino, enquanto o texto bizantino é teologicamente ortodoxo. Um dos primeiros grandes hereges, Marcião, veio da Ásia menor. É, portanto, incorreto concluir que estar na Ásia menor e na Grécia garante ortodoxia. Por outro lado, o bispo de Alexandria excomungou Orígenes, defendendo dessa forma, a ortodoxia. Mais tarde, na disputa cristológica, o alexandrino Atanásio demonstrou mais uma vez que o Egito aderiu a posições teológicas saudáveis. A ideia de que por serem achados no Egito os manuscritos foram também escritos no Egito não pode ser provada e nem é provável.
(6) A grade fidelidade na transmissão do textus receptus é provada pela impressionante uniformidade do texto. Diferenças são encontradas nos manuscritos bizantinos. As edições do textus receptus também diferem umas das outras.
(7) O textus receptus forma a maioria dos textos. Se for verdade que a maior parte dos textos é igual à verdade, então deveremos todos nos tornar católicos. Um erro se torna verdade quando é multiplicado mil vezes? Além do mais, teríamos que voltar à tradução Latina da Vulgata. Afinal, há 8.000 manuscritos da Vulgata e há somente 5.400 manuscritos gregos. Por outro lado, até o 9º século D.C. o texto alexandrino formou a maioria. Se alguém levar em conta traduções desse tipo textual em outras línguas, então ele é o tipo prevalecente até hoje. A quantidade ou grande número de manuscritos não deve ser um fator usado para determinar sua qualidade.
(8) Os jesuítas e a igreja católica provaram ser os maiores oponentes do textus receptus. Enquanto Erasmo era, ele mesmo, um sacerdote católico, o protestante, crente na Bíblia, Bengel (1687-1752) bem como Tischendorf (1815-1874) criticaram o textus receptus. Por séculos a família textual do textus receptus foi transmitida pela igreja ortodoxa grega. É a igreja ortodoxa
grega mais confiável como guardiã do texto original do que a igreja católica romana é? O maior cuidado é demandado com respeito a qualquer teoria da conspiração.
(9) Os precursores das edições modernas, Westcott (1825-1901) e Hort (1828- 1892) eram espiritualistas. Em 1881 eles publicaram uma edição do Novo Testamento grego que criou sensação entre estudiosos. Ela foi atacada de muitas frentes, mas no geral foi recebida como a maior aproximação do texto original do Novo Testamento. O texto deles lançou os fundamentos para as edições posteriores de Nestle e Aland. Ainda que a alegação de que eles eram espiritualistas não possa ser provada por um exame da história, ativistas em prol da “King James” perpetuam essa ideia constantemente.

IV. Diferenças.
As diferenças entre as traduções da Bíblia baseadas no textus receptus e aquelas que seguem um texto eclético não são graves. Somente umas poucas passagens são de significado maior. Estima-se que 98% do texto do Novo Testamento não revela variantes apreciáveis. Defensores do textus receptus tem freqüentemente levado as diferenças muito a sério.
(1) O textus receptus e os nomes cristológicos. Um argumento contra as edições modernas é que elas deixam de fora nomes e títulos cristológicos ou os abrevia. É parcialmente verdade que alguns nomes e títulos de Deus estão ausentes nas edições científicas modernas, mas o textus receptus também contém versos nos quais um nome ou título de Deus está faltando ou é abreviado. Exemplo, João 12:1 “onde estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos.” Aqui o textus receptus omitiu o nome “Jesus” (onde estava Lázaro, a quem Jesus ressuscitara dentre os mortos). Ninguém pode provar que as versões do textus receptus refletem precisamente o texto original. Versões mais longas podem facilmente ser extensões mais tardias
acrescentadas por copistas.
(2) João 6:47. É argumentado que a teologia de João 6:47 se tornou distorcida [nas versões científicas modernas] pois a expressão “em mim [Jesus]” está faltando na frase que lida com a crença. A versão King James traz a aversão antiga, “aquele que crê em mim tem a vida eterna.” É claro que é vital crer em Jesus, mas esse fato se torna bastante claro no contexto a despeito do tipo de texto que se use. Além disso, a expressão “em mim” é afirmada explicitamente [nas versões científicas modernas] em João 6:35; 7:38; 11:25-26. As teorias da conspiração não conseguem explicar de forma plausível por que todos esses outros textos também não foram imediatamente mudados para garantir o sucesso da frase mais curta. Se uma manipulação intencional foi planejada, isso deveria ocorrer muito mais sistematicamente.
(3) Passagens em Bíblias modernas que claramente demonstram a Divindade de Jesus. Algumas passagens bíblicas lidando com a Divindade de Jesus, cf. 2 Pedro 1:1, são mais claras nas Bíblias modernas do que na King James. “…through the righteousness of God and our Savior Jesus Christ” (KJV). “…pela justiça de Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” “…through the righteousness of our God and Savior Jesus Christ” (NIV). “pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (NVI).
(4) Nenhuma mudança na teologia. Não há diferenças textuais que possam ser usadas para levantar um argumento real em favor de alguma mudança na teologia. Sempre que o texto científico é um pouco mais curto que o textus receptus, a frase omitida pode ser encontrada de forma relativamente fácil em outras passagens bíblicas. Exemplo: Colossenses 1:14, “Em quem temos a redenção, por seu sangue” (KJV). Essa frase “por seu sangue” está ausente de algumas traduções modernas da Bíblia, mas é encontrada em Efésios 1:7, por exemplo.
(5) Palavras teologicamente duvidosas no textus receptus. Há instâncias onde o texto majoritário é problemático. O texto majoritário de João 5:3:4 diz: “Porquanto um anjo descia em certo tempo, agitando-a; e o primeiro que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse.” (KJV). Este texto está ausente das versões modernas da Bíblia ou é relegado a notas de roda pé. Todavia, a leitura da King James resulta numa teologia alarmante: Deus é arbitrário, recompensando os fortes e punindo os fracos. Interessantemente, Ellen White também questiona esse texto (O desejado de todas as nações, p. 201). Ela explica o texto como retratando a teologia popular, e ela claramente não acredita numa obra divina [revelada nesse texto]. A afirmação de que o textus receptus é mais ortodoxo não pode ser substanciado.

V. Ellen G. White.
Ellen White escreveu sobre Erasmo: “A Bíblia de Wycliffe fora traduzida do texto latino, que continha muitos erros. Nunca havia sido impressa, e tão elevado era o custo dos exemplares manuscritos, que, a não ser homens ricos ou nobres, poucos poderiam adquiri-los; demais, sendo estritamente proscrita pela igreja, tivera divulgação relativamente acanhada. Em 1516, um ano antes do aparecimento das teses de Lutero, Erasmo publicara sua versão grega e latina do Novo Testamento. Agora, pela primeira vez, a Palavra de Deus era impressa na língua original. Nesta obra muitos erros das versões anteriores foram corrigidos, dando-se mais clareza ao sentido.” (O grande conflito, p. 245)
Ellen G. White não diz que todos os erros foram eliminados. Ela sabia que, infelizmente, erros adentraram no processo de cópia dos textos bíblicos. “Alguns nos olham seriamente e dizem: ‘Não acha que deve ter havido algum erro nos copistas ou da parte dos tradutores?’ Tudo isso é provável […] todos os erros não causarão dificuldade a uma alma, nem farão tropeçar os pés de alguém que não fabrique dificuldades da mais simples verdade revelada.” (Mensagens escolhidas, v. 1, p. 16). “Vi que Deus havia de maneira especial guardado a Bíblia, ainda quando dela existiam poucos exemplares; e homens doutos nalguns casos mudaram as palavras, achando que a estavam tornando mais compreensível quando, na realidade, estavam mistificando aquilo que era claro, fazendo-a apoiar suas estabelecidas opiniões, que eram determinadas pela tradição.” (Primeiros escritos, p. 220-221).
Ellen White fez citações a partir da Versão Revista Inglesa (English Revised Version [ERV]) e Versão Americana Revisada (American Revised Version [ARV 1901, também conhecida como American Standard Version [ASV]), ambas baseadas no texto grego do Novo Testamento de Westcott-Hort.6 De acordo com seu filho, W. C. White, ela deu à suas secretárias ordens específicas para usar a versão eu melhor refletisse as ideias dela. Em seu livro “a ciência do bom viver” (1905), ela tomou dez versos da VER, mais de cinqüenta da ARV e poucos textos de outras versões. Isso prova que ela não limitou a si mesma à King James (KJV). Quando, mais tarde, ela faz importantes afirmações sobre inspiração (Mensagens escolhidas, v. 1 e a introdução do grande conflito), ela não fez nenhuma advertência contra novas traduções. Evidentemente ela não via nenhuma ameaça a quaisquer crenças ou teologia.

VI. Os adventistas do sétimo dia e as modernas traduções da Bíblia.
Pelo fato dos adventistas valorizarem as Escrituras é de se esperar que eles se preocupem com traduções da Bíblia que estejam baseadas em diferentes tipos de texto.7
Quando a ERV apareceu, um substancial número de artigos foram publicados na Review and Herald comentando favoravelmente sobre essa nova tradução ainda que com plena consciência de que ela se afastava da versão King James. A seguir, uma vívida discussão entre adventistas, declarações oficiais da conferência geral foram apresentadas em 1930 e 1931. Eles afirmaram que a KJV e a ARV podiam ser usadas entre os adventistas a despeito de suas diferenças. Nenhum dos empregados da igreja deveria agravar a discussão desnecessariamente e cada adventista deveria estar livre para decidir em favor de uma ou de outra tradução.
Quando novas traduções para o inglês apareceram, mais uma vez a conferência geral fez uma afirmação (1954). A igreja justificou a necessidade de novas traduções com dois argumentos que ainda são válidos hoje. Primeiro, novas descobertas arqueológicas enriquecem nosso entendimento, e, segundo, cada língua viva está em constante flutuação. Traduções da Bíblia devem levar em conta estas coisas.

O instituto de pesquisas bíblicas da conferência geral (BRI, sigla em inglês) publicou vários artigos no passado sugerindo não confiar na King James pelo simples motivo dela não estar baseada nos melhores manuscritos.

VII. Sumário.
O mundo acadêmico bem como muitos adventistas favorecem o texto científico como base para  as traduções modernas da Bíblia. É claro, é possível que diante de novas descobertas de manuscritos uma ou outra leitura nas edições científicas modernas precise ser feita. Não obstante, as edições científicas modernas podem ser confiadas, e os defensores do textus receptus deveriam estar conscientes das fraquezas encontradas no texto favorito deles.
As diferenças entre ambos os textos são menores e, portanto, não deveriam diminuir nossa confiança na transmissão e validade do texto bíblico. Não é cientificamente legítimo nem pastoralmente recomendável negar às traduções modernas cuidadosas o direito de existir.

 

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Referências:

1 King James Version (Versão King James ou Versão Rei Tiago). Nota do tradutor.
2 Para mais detalhes, veja Kurt Aland and Barbara Aland, The Text of the New Testament Grand Rapids,
Eerdmans,1989).
3 Contudo, a maioria deles é do 9º século em diante.
4 Cf. Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament (Stuttgart: United Bible
Societies, 1993), 715-716.
5 Veja http://www.kjvonly.org/other/wescott_&_hort.htm.

6 Para mais detalhes veja: e http://www.adventistbiblicalresearch.org/documents/kjvonly.htm e
http://www.adventistbiblicalresearch.org/documents/whitebible.htm.
7 Veja
http://www.adventistbiblicalresearch.org/documents/Which%20Version%20Can%20We%20Trust.htm

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One comment

  1. Há que se considerar que aqueles que defendem o uso do Textus Receptus como o mais adequado à tradução são estimulados por uma idéia equivocada e estranha, que parece pressupor que o texto recebido é a própria palavra de Deus, como espécie de ditado. Talvez ignorando que Erasmo também fez pesquisa, embora consultando uma quantidade bem inferior de manuscritos em relação ao texto crítico, sugerem que o texto eclético é corrompido.

    Porém, conforme destacado no artigo acima, não temos acesso aos autógrafos (originais), de modo que qualquer texto apresentado, queira ou não; goste ou não o leitoe, será sempre resultado de reconstrução. E logicamente falando, entre o séc.XVI, época em que Erasmo apresentou seu texto definitivo e o séc. XIX, quando os textos chamados de “ecléticos” passaram a ganhar força, especialmente pelos trabalhos destacados dos doutores Wettscot e Hort, até os trabalhos de Aland, a pesquisa textual evoluiu sobremaneira.

    Desprezar o árduo trabalho de reconstituição do texto sagrado à luz de uma vasta opção textual, que segue os melhores manuscritos para optar por uma versão cujo campo de pesquisa foi menor, parece não ser a melhor escolha.

    E se de fato não temos um “original”, a reconstituição do que seria o próximo dele deve levar em conta as muitas possibilidades.

    Considere-se que desses mais de 5.000 testemunhos textuais NENHUM é idêntico a outro. Assim, comparar testemunhos textuais, conforme faz a crítica textual, é imprescindível para que tenhamos maior segurança quanto ao que seria a leitura original desses textos.

    O Textus Receptus é importante, sob o ponto de vista histórico, mas não é determinante.

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