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O vinho do casamento em Caná

Importância do Milagre

Os moderacionistas vêm a milagrosa transformação de água em vinho feita por Cristo no casamento de Caná da Galiléia como prova primária de que Jesus sancionou o uso de bebidas alcoólicas. Eles argumentam que, se Jesus produziu entre 450 e 600 litros de vinho alcoólico de alta qualidade para a festa de casamento e convidados em Caná, seria evidente que Ele aprovou seu uso com moderação.

A crença de que o vinho que Cristo forneceu em Caná era alcoólico tem cinco grandes pressupostos. Primeiro, presume-se que a palavra oinos “vinho” indica apenas “bebida de uva de qualidade fermentada”, ou seja, “vinho”.  Em segundo lugar, presume-se que, como a palavra oinos é usada em referência tanto ao vinho que acabou quanto ao vinho que Cristo fez, ambos os vinhos devem ter sido alcoólicos. Em terceiro lugar, presume-se que os judeus não sabiam como prevenir a fermentação do suco de uva; conforme argumentado por William Hendriksen, a temporada do casamento foi antes da Páscoa e da Primavera (ver João 2:13), ou seja, seis meses após a colheita da uva, e o vinho usado em Caná teria tido grande tempo para fermentar. Em quarto lugar, presume-se que a descrição dada pelo mestre do banquete ao vinho fornecido por Cristo como “ bom vinho” significava um vinho alcoólico de alta qualidade. Em quinto lugar, presume-se que a expressão “beberam demais” (João 2: 10) usado pelo mestre do banquete indica que os convidados estavam embriagados porque tinham bebido vinho fermentado e, consequentemente, o vinho que Jesus fez também deveria ter sido fermentado. Em vista da importância desta “ligação” entre Jesus e o Vinho, essas premissas desempenham uma qualificação da natureza do vinho fornecido por Cristo. Examinaremos cada um deles brevemente na ordem dada.

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O significado de Oinos

A suposição popular de que, tanto na Grécia secular quanto na bíblica, a palavra oinos significava o suco de uva fermentado, foi examinada amplamente e com grande extensão. Apresentamos numerosos exemplos de autores pagãos e cristãos que usaram a palavra grega oinos referindo-se tanto à uva fermentada quanto ao suco não fermentado. Também percebemos que oinos é usada pelo menos 33 vezes na Septuaginta para traduzir Tirosh, a palavra hebraica para “suco de uva”.

Um engano comum cometido com o uso da palavra “vinho”, não só na língua grega, mas também em inglês antigo, latino e hebraico, teria levado os estudiosos a cair na conclusão equivocada de que oinos significa apenas vinho fermentado. A verdade do assunto é, como mostramos, que oinos é um termo genérico, incluindo todos os tipos de vinho, tanto não fermentados como fermentados, tal como yayin em hebraico e vinum em latim. Assim, o fato de que o vinho feito por Cristo em Cana é chamado de oinos não oferece nenhum fundamento para concluir que era vinho fermentado e/ou alcoólico. Sua natureza deve ser determinada por evidências internas e por probabilidade moral. O registro do evangelista, como veremos, oferece informações preciosas para determinar esta questão.

Então, oinos seria somente alcoólico? A segunda suposição, que tanto o vinho que acabou quanto o vinho que Jesus fez eram alcoólicos, depende em grande parte do primeiro pressuposto, a saber, que a palavra oinos significa “exclusivamente” vinho alcoólico. Como afirmado por Kenneth L. Gentry, “A palavra oinos é usada em referência aos dois vinhos em questão. Demonstrou-se que esta palavra indica bebida de uva de qualidade fermentada, ou seja, vinho”. Só que esta suposição é desacreditada por dois fatos: primeiro, como mencionado anteriormente, a palavra oinos é um termo genérico que se refere aos vinhos fermentado e não fermentado. Assim, o fato de que a mesma palavra, oinos, seja usada para os dois vinhos em questão, não determina que ambos os vinhos sejam alcoólicos. Em seu livro Cristo, os Apóstolos e o Vinho, Ernest Gordon responde de forma semelhante à mesma suposição, dizendo: “Para a objeção de que a palavra oinos, vinho, é usada tanto para o vinho embriagador da festa como para o vinho que Cristo fez e, portanto, ambos deveriam estar embriagando”. Pode-se também citar Abbott, Dictionary of Religious Knowledge: “É bastante claro que a palavra vinho não implica necessariamente em suco fermentado. Significa apenas uma produção da videira”. O eminente helenista, Sir Richard Jebb, ex-professor de grego na Universidade de Cambridge, declarou oinos “um termo geral que pode incluir todos os tipos de bebidas”.

Por fim, o vinho fornecido por Cristo é diferenciado do outro por ser caracterizado como ton kalon, “o bom” vinho e isto sugere que os dois vinhos não eram idênticos. A natureza da diferença entre os dois vinhos será discutida no decorrer deste artigo.

Sobre a preservação de suco de uva

O terceiro pressuposto de que seria impossível fornecer suco de uva não fermentado para um casamento na primavera, cerca de seis meses após a colheita, baseia-se no pressuposto de que a tecnologia para preservar o suco de uva não fermentado era desconhecida no momento. Essa hipótese é claramente desacreditada por numerosos testemunhos do mundo romano dos tempos do Novo Testamento, que descrevem vários métodos para preservar o suco da uva.

A respeito da conservação do suco de uva na época bíblica existem dois grandes equívocos: a) No mundo antigo, era fácil preservar o vinho fermentado, porque tudo o que é preciso fazer é deixar a fermentação do suco ocorrer naturalmente; e b) No mundo antigo, era impossível preservar o suco de uva não fermentado porque as pessoas não possuíam o conhecimento técnico nem os meios para evitar a fermentação. Ambas as noções populares são infundadas. Os problemas que os antigos encontraram na preservação do vinho fermentado eram tão grandes como, se não realmente maiores, do que os problemas enfrentados na preservação do suco de uva não fermentado. Para evitar que o vinho se torne ácido, mofe ou cheire mal, uma série de conservantes são utilizados, como sal, água do mar, pó líquido ou sólido, filtragem em coador, pó de mármore, fumaça de enxofre e outros.

Em comparação com a preservação do vinho fermentado, a manutenção de suco de uva a partir da fermentação foi um processo relativamente simples. Era realizado simplesmente por ferver o suco até se tornar um xarope, ou separando a polpa fermentável do suco da uva por meio de filtragem, ou colocando o suco de uva em frascos selados que foram imersos em um tanque de água fria ou fumegando com enxofre os frascos de vinho antes de selá-los. O uso de tais técnicas indica claramente que os meios para preservar suco de uva sem fermentação eram conhecidos e usados no mundo antigo.

O fato de que a documentação mais comum vem principalmente do mundo clássico, e não do mundo do Antigo Testamento, não significa que a arte de preservar o suco de uva fosse desconhecida no antigo Israel. Os judeus não eram menos conhecedores na arte de preservar frutas, cereais e sucos do que as nações vizinhas. De acordo com Josefo, os romanos ficaram atônitos ao encontrar, na fortaleza de Masada, vinho, óleo, frutas e cereais, e suco de uva recém-preservado, embora tenham sido armazenados por vários anos.  Além disso, fontes rabínicas mencionam especificamente o uso de vinho cozido. O motivo do silêncio das Escrituras sobre os meios utilizados para preservar o suco da uva é encontrado na natureza da própria Bíblia, um livro que trata principalmente dos aspectos da vida relacionados à história da salvação. Na Bíblia, não encontramos nenhum tratado sobre agricultura, como entre escritores clássicos. A razão disso não é falta de interesse ou de conhecimento da agricultura, mas uma relutância em lidar com questões não relacionadas à vida religiosa do povo de Deus.

Nenhuma menção é feita na Bíblia sobre os meios usados para evitar a deterioração do vinho fermentado, mas os judeus deviam conhecê-los. O mesmo vale para o suco de uva não fermentado. A Bíblia atesta que o povo de Deus teve e usou suco de uva não fermentado. Não nos contamos como os judeus preservaram o suco de uva não fermentado. Temos razões para acreditar que eles conheciam alguns métodos de preservação bem  conhecidos e usados no mundo antigo.

A preservação do suco foi, de certa forma, um processo mais simples do que a preservação do vinho fermentado. Assim, existia a possibilidade de o casamento de Caná fornecer suco de uva não fermentado aos convidados perto da época da Páscoa, uma vez que tal bebida poderia ser mantida sem fermentação ao longo do ano.

“Vinho alcoólico de alta qualidade”

O quarto pressuposto surgiu porque o vinho que Jesus forneceu foi pronunciado como “o bom vinho” (João 2:10) pelo mestre do banquete, porque era rico em conteúdo alcoólico. Tal presunção baseia-se nos gostos do século XX. Albert Barnes, um conhecido estudioso e comentarista do Novo Testamento, faz uma advertência em seu comentário sobre João 2:10 para não “sermos enganados” com o termo “bom vinho”. O motivo, ele explica, é que “usamos a frase para denotar que é bom em proporção à sua força e em seu poder de embriagar. Mas nenhum desses sentidos deve ser anexado à palavra aqui”.

Concluímos que, no mundo romano dos tempos do Novo Testamento, os melhores vinhos eram aqueles cuja potência alcoólica havia sido removida por fervura ou filtração. Plínio, por exemplo, diz que “os vinhos são mais benéficos (utilissimum) quando toda a sua potência alcoólica é removida pelo filtro”.  Da mesma forma, Plutarco aponta que o vinho é “muito mais agradável de beber” quando ele “não inflama o cérebro nem infesta a mente de paixões”, porque sua força foi removida através de filtragem frequente. Referindo-se a alguns dos mesmos autores antigos, Barnes diz: “Plínio, Plutarco e Horacio descrevem o vinho como bom, ou mencionam isso como sendo o melhor vinho por ser inofensivo (poculis vini innocentis). O vinho mais útil, utilissimum vinum, era aquele que tinha pouca força e o vinho mais saudável, saluberrimum vinum, era o que não tinha sido adulterado pela “adição de nada ao mosto ou ao suco”. Plínio disse expressamente sobre “Jesus e seu vinho” ser um “bom vinho” pois era aquele que estava destituído de espírito. Não se deve supor, portanto, que o “bom vinho” fosse mais forte do que o outro. É preferível presumir que era mais ameno, ou mais puro. Esse seria o melhor vinho certamente. O vinho aqui referido era, sem dúvida, como era geralmente bebido na Palestina: o suco puro da uva. Não era vinho fermentado; nem vinho alcoólico; nem era vinho composto de várias substâncias, como bebemos nesta terra. O vinho comum bebido na Palestina era o suco simples da uva”. O vinho que Cristo fez foi de alta qualidade, não por causa do conteúdo de álcool mas, porque, como Henry Morris explica, era “vinho novo, recém criado! Não era velho, degradado, como deveria ser, se fosse embriagante. Não houve tempo suficiente para o processo de fermentação quebrar a estrutura dos seus açúcares que dão energia aos álcoois desintegráveis. Assim, essa foi uma representação apropriada da Sua glória e foi apropriada para servir como o primeiro de Seus grandes milagres” (João 2:11).

O Uso de Cerveja e Vinho: Os Conselhos da Bíblia

Testemunha rabínica

A testemunha rabínica sobre a natureza do vinho não é unânime. O rabino Isidore Koplowitz ressalta em sua introdução à sua coleção de declarações rabínicas sobre vinho e bebida forte que “é verdade que alguns médicos talmúdicos sancionaram, sim, e até recomendaram o uso moderado do vinho. Mas é igualmente verdade que muitos rabinos talmúdicos, em palavras vigorosas, condenaram o consumo de vinho e bebidas intensas. Alguns rabinos até atribuíram a queda de Israel ao vinho”.  Um exemplo de desaprovação é a afirmação, muitas vezes repetida, com pequenas variações e de diferentes rabinos, que diz: “quando o vinho entra no organismo de uma pessoa, é certo que, onde quer que há vinho, não há entendimento”.

Esta consciência do efeito nocivo do vinho alcoólico explica por que alguns rabinos recomendaram o uso de vinho fervido. Falando sobre este último, o Mishna diz: “o rabino Yehuda permite [o vinho fervido como oferenda], porque melhora [a sua qualidade]”.  “Tal vinho”, observa a Enciclopédia da literatura bíblica de Kitto, “foi estimado [entre os judeus] como o vinho mais rico e melhor”.  Em outros lugares, o Talmud indica que beber foi proibido ao acompanhamento de instrumentos musicais em ocasiões festivas, como o casamento (Sotah 48a, também Mishna Sotah 9,11). Este último é confirmado por testemunhos posteriores de rabinos citados em discussão sobre o vinho da Páscoa. À luz desses testemunhos e considerações, concluiríamos que o vinho fornecido por Cristo foi descrito como “o bom vinho” exatamente porque não era embriagante.

Beber “socialmente” forma alcoólatras

Implicações morais

Outra razão que nos leva a rejeitar a suposição de que “o bom vinho” produzido por Cristo era forte em conteúdo alcoólico é a reflexão negativa que tal suposição molda sobre a sabedoria do Filho de Deus. Se, além da quantidade considerável do alegado vinho alcoólico já consumido, Cristo produziu milagrosamente entre 450 e 600 litros de vinho embriagante para o uso de homens, mulheres e crianças reunidos na festa de casamento, então ele deve ser mantido moralmente responsável por prolongar e aumentar a embriaguês e seu milagre serviria para sancionar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Se essa conclusão fosse verdadeira, ela destruiria a falta de pecado da natureza e dos ensinamentos de Cristo.

Joseph P. Free observa que a grande quantidade de vinho milagrosamente produzida por Cristo no final de uma festa de casamento prova que: a) “O consumo excessivo de álcool foi permitido”, ou: b) “Os oinos neste caso eram suco de uva”. À luz de toda a condenação do vinho no Velho Testamento, certamente parece que a bebida era somente suco de uva”. É contra o princípio da analogia bíblica e moral supor que Cristo, o Criador das coisas boas (Gênesis 1: 4 , 10, 12, 18, 21, 25; Col 1:16), exerceria a Sua energia sobrenatural para criar um vinho inebriante que as Escrituras Sagradas condenam como “escarnecedor” e “alvoroçador” (Prov. 20: 1) e que o Espírito Santo escolheu como símbolo da ira divina.

A consistência moral e bíblica exige que “o bom vinho” produzido por Cristo tenha sido suco de uva fresco e não fermentado. O próprio adjetivo usado para descrever o vinho é compatível com esta conclusão. “Deve ser observado”, cita Leon C. Field, “que o adjetivo usado para descrever o vinho feito por Cristo não é agathos (bom, simplesmente), mas kalos, que é o moralmente excelente ou adequado. O termo sugere ainda a caracterização do vinho inebriante por Theophrastus como o vinho moral (ethikos)”.

Referindo-se à natureza do vinho produzido por Cristo, Ellen White diz que: “O vinho que Cristo providenciou para a festa, e o que Ele deu aos discípulos como um símbolo de Seu próprio sangue, era o suco puro da uva”. É para isso o profeta Isaías se refere quando fala do vinho novo “no aglomerado”, e diz: “Não destrua isso, porque uma bênção está nele”. O vinho não fermentado que Ele forneceu aos convidados do casamento foi uma bebida saudável e refrescante. Seu efeito foi transformar o sabor em harmonia com um apetite saudável.

“Beberam bastante”

A suposição final a ser examinada diz respeito à expressão “beberam bastante” (João 2:10) usado pelo mestre do banquete. A declaração completa diz: “Todos servem primeiro o melhor vinho e, depois que os convidados já beberam bastante, o vinho inferior é servido; mas você guardou o melhor até agora” (João 2:10). A suposição aqui é que, como significado original da palavra grega, “beberam bastante” indica a embriaguez. Como essa margem para interpretação é gerada, de acordo com a declaração do mestre do banquete, pelo “bom vinho” servido habitualmente primeiro, então “o bom vinho” fornecido por Cristo também deveria ter sido intoxicante, porque foi comparado com o ‘bom vinho’ normalmente servido no início de um banquete.

Alguns vêm este significado do verbo grego methusko, “embriagar”, como uma prova incontestável da natureza alcoólica do vinho produzido por Cristo. Por exemplo, em uma revisão acadêmica do livro de John Ellis, The Wine Question in the Light of the New Dispensation, os comentadores dizem: “Há outra prova incontestável [da natureza alcoólica do vinho produzido por Cristo] contida na passagem em si; a palavra methusko em grego significa “fazer beber, embriagar”, no passivo “estar bêbado”. Mas este termo nunca é usado para designar os efeitos de bebidas, sejam inebriantes ou não.

Este raciocínio interpreta mal e faz mal o comentário do mestre do banquete, e negligencia o uso mais amplo do verbo. O comentário em questão não foi feito em referência a esse indivíduo em particular, mas à prática geral entre aqueles que faziam suas festas: “Todo homem serve primeiro o bom vinho; e, quando os homens beberam livremente, é servido o vinho ‘pobre’” (João 2:10, RSV). Esta observação sobre o vinho é por causa, como muitos comentaristas reconhecem, das partes de menor qualidade do estoque de um mestre de banquete contratado comercialmente naquela época, em vez de uma descrição real do estado de embriaguês em um determinado indivíduo.

Outra consideração importante é o fato de que o verbo grego methusko pode também significar “beber livremente” sem qualquer implicação de embriaguês. Em seu artigo sobre este verbo no Dicionário teológico do Novo Testamento, Herbert Preisker observa que “methuo e methuskomai” são usados ​​ de forma literal no NT para “serem bebidos” e “ficarem bêbados”. Methuskomai é usado sem julgamento ético ou religioso em João 2:10 em relação à regra de que o vinho mais pobre é servido apenas quando os convidados “beberam bastante”.

O léxico grego de Parkhurst cita o uso da Septuaginta do grupo de palavras methuo em passagens do Antigo Testamento, como ilustrativo do significado de “beber livremente”: “Methuo denota, em geral, beber vinho ou bebida forte mais livremente do que o habitual, que seja para embriaguez ou não, de forma passiva para beber livremente e para a alegria, embora não para a embriaguez (João 2:10). Neste sentido, o verbo é claramente usado pela LXX (ie Septuagint), Gen 43:34; Cant 5: 1; e, também, é usado em Gênesis 9:21: “O último significado é respeitado por versões que o traduzem com maior precisão “quando os homens bebem livremente “.

O verbo methusko em João 2:10 é usado no sentido da saciedade. Refere-se simplesmente à grande quantidade de vinho geralmente consumido em uma festa, sem qualquer referência a efeitos embriagantes. Aqueles que desejam insistir na ideia de que o vinho usado na festa foi alcoólico e que Jesus também forneceu vinho alcoólico, embora de melhor qualidade, levam à conclusão de que Jesus criou uma grande quantidade adicional de vinho embriagante para que a festa de casamento pudesse continuar sua indulgência imprudente. Tal conclusão destrói a integridade moral do caráter de Cristo.

O Objeto do Milagre

O objeto do milagre feito era que Cristo manifestasse a Sua glória para que os Seus discípulos acreditassem nEle. E este objetivo foi alcançado: “Este sinal miraculoso, em Caná da Galiléia, foi o primeiro que Jesus realizou. Revelou assim a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (João 2:11). A presença de Cristo em uma festa de casamento destinava-se a mostrar a aprovação divina da instituição matrimonial e dos prazeres inocentes da vida social. No entanto, todas essas considerações foram subservientes à manifestação da glória de Cristo no cumprimento de Sua missão messiânica. A glória de Deus é revelada especialmente em Seu ato de Criação (Salmo 19: 1-2). Da mesma forma, o eterno poder e divindade de Cristo (Romanos 1:20) manifestaram-se no início de Seus milagres através de um ato de Criação: “Ele (…) fez o vinho da água “(João 4:46).

O vinho do milagre deve ter sido idêntico ao vinho encontrado nos cachos de uva, porque este é o único vinho que Deus produz. “Não há sequer uma evidência”, escreve RA Torrey, “de que o vinho que Ele [Cristo] fez estava embriagando. Era vinho fresco. O vinho recém-fabricado nunca está alcoólico. Não é inebriante até algum tempo após o processo de fermentação ter sido estabelecido. A fermentação é um processo de degradação. Realmente não há uma evidência sequer de que o Senhor produziu álcool, que é produto da decadência e da morte. Ele produziu um vinho vivo não contaminado pela fermentação”.

“Fruto da vide”

Afirma William Pettingill que “havia pouca semelhança nele [vinho feito por Cristo] ao que se descreve na Escritura de Deus como “picada de uma serpente” e como a “mordida do basilisco” (Prov. 23: 29-32).

Sem dúvida, foi como o fruto celestial da videira que Cristo fez. “E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai”. (Mt 26:29). Não é de admirar que o anfitrião da festa de casamento em Caná pronunciou que o melhor vinho fora mantido até a última hora. Nunca antes ele provara tal vinho e nunca mais o provaria. Os milagres de Cristo sempre foram direcionados para fins benévolos. Ele “não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los” (Lucas 9:56). Se fosse verdade que Cristo tivesse fabricado milagrosamente um vinho inebriante, esse milagre seria uma notável exceção entre os seus milagres. Seria uma manifestação malévola de Seu poder. Ele teria manifestado vergonha e não glória.

Conclusão

Cristo estava ciente da poderosa influência que seu exemplo teria nas gerações contemporâneas e futuras. Se, com todo esse conhecimento, ele criasse um vinho inebriante, Ele teria revelado o poder e a glória mais diabólicos do que divinos. Seus discípulos dificilmente teriam acreditado nEle, se o tivessem visto fazer milagres para encorajar a embriaguez.

Leon C. Field observa apropriadamente que Cristo “não foi Maomé, que ofereceu aos homens a atração do paraíso sensual, mas um ‘homem de tristeza e dores’, cuja severa exigência de todos os que vieram depois dele era que eles deveriam negar-se a si mesmos, assumir cada um a sua cruz e segui-lo (Mt 16:24). E foi pela encarnação pessoal e pelo encorajamento prático da abnegação e abstinência (e não pelo exemplo ou sanção de luxo e auto-indulgência), que Cristo ganhou Seus seguidores e alcançou Suas vitórias”.

Por Dr. Samuele Bacchiocchi, extraído do livro: Wine in the Bible.  Traduzido e adaptado por Mauricio Mancuzo

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