Para entender o aniquilacionismo de forma completa e simples

Para entender o aniquilacionismo de forma completa e simples

A visão mortalista ou aniquilacionista (aniquilacionismo) entende o homem como uma unidade em que corpo, alma e espírito são características de uma mesma pessoa, e não um dualismo platônico onde o corpo é uma prisão da alma que dele se liberta após a morte. Esta visão é consistente com o relato da criação do homem, que nos diz que “Deus criou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (Gn 2:7). Observe que Deus não implantou uma “alma” dentro do corpo de Adão. Em vez disso, ele criou Adão com um fôlego de vida (espírito), que o fez ser uma “alma vivente”. Em outras palavras, de acordo com o relato bíblico da criação do homem, este não “possui” uma alma, mas é uma alma. Uma “alma vivente” é o que o ser humano é enquanto possui o espírito (fôlego de vida) que lhe faz respirar. Consequentemente, quando o homem morre o espírito volta para Deus que o deu (Ec 12:7), e o homem, que era uma “alma vivente”, se torna uma “alma morta”.

Isso explica as centenas de passagens que no hebraico e no grego expressamente afirmam a morte da alma, como, por exemplo, “que minha alma morra a morte dos justos” (Nm 23:10), “morra a minha alma com os filisteus” (Jz 16:30), “sua alma morrerá na própria infância” (Jó 36:14), “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18:4), “a espada virá e lhes tirará a alma” (Ez 33:6), “ninguém jamais preservará viva a sua própria alma” (Sl 22:29), “sua alma se chega à cova” (Jó 33:22), “essa alma terá que ser decepada” (Nm 19:13), etc. Embora nem sempre as versões vernáculas mantenham o vocábulo “alma”, é nephesh que aparece nessas e em outras centenas de passagens do hebraico que afirmam a morte da alma por todos os meios possíveis. A alma-nephesh é golpeada fatalmente (Lv 24:17), é destruída (Lv 23:30), é exterminada (At 3:23), é morta à espada (Js 10:28), é devorada (Ez 22:25), é decepada (Nm 19:13), é golpeada (Dt 19:11), é assassinada (Dt 22:26), falece (Lv 19:28), é entregue à morte (Jo 13:37), corre risco de morte (At 15:26), sofre decomposição (Sl 49:8-9), vai para a cova (Jó 33:22) e expira (Jó 11:20). Como costumo brincar às vezes, a alma é o “imortal” que mais morre no mundo!

Herodes e seus comparsas “buscavam a alma-psiquê da criancinha” (Mt 2:19-20) para assassiná-la; Jesus veio para “dar a sua alma em resgate de muitos” (Mt 20:28), indagou se era lícito “salvar ou matar uma alma” (Mc 3:4) no sábado e garantiu que “o pastor excelente entrega a sua alma em benefício das ovelhas” (Jo 10:11). Pedro assegurou a Cristo que “entregarei a minha alma em benefício de ti” (Jo 13:37) e alertou que toda alma que não o ouvisse seria “completamente exterminada dentre o povo” (At 3:23). Lucas em Atos nos relata que Paulo e Barnabé “arriscaram as suas almas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (At 15:26). Quando estava prestes a sofrer o naufrágio, Paulo tranquilizou os tripulantes dizendo que “não se perderá a alma de nenhum de vós, mas somente o navio” (At 27:22), embora na teologia imortalista a alma não poderia ser morta em nenhuma hipótese, naufragando ou não. Elias exclama que “mataram os teus profetas, só eu sobrei, e eles estão procurando a minha alma” (Rm 11:3), e João no Apocalipse registra a morte de toda alma vivente no mar (Ap 16:3) e vê as almas dos que foram degolados pelo testemunho de Jesus reviverem por ocasião da ressurreição dos mortos (Ap 20:4).

Em 1ª Reis 19:4, quando Elias diz “tira a minha alma”, um imortalista poderia interpretar que o profeta estava pedindo a Deus para que tirasse um “fantasminha” de dentro do corpo e o trouxesse à Sua presença. Mas o contexto diz exatamente o contrário – “tirar a alma” significava a morte da alma, e não a sua sobrevivência! O texto diz: “E ele mesmo entrou no ermo, sentou-se debaixo de certo zimbro. E começou a pedir que a sua alma morresse a dizer: ‘Já basta, Senhor, agora tira a minha alma, pois não sou melhor que os meus pais’” (1Rs 19:4). Este é um pequeno exemplo de como devemos tomar cuidado ao interpretar a Bíblia sob as lentes platônicas dualistas, quando os hebreus dos tempos bíblicos tinham uma ótica completamente diferente, mesmo quando usavam terminologias que mais tarde seriam apropriadas pelos platônicos em um sentido distinto.

Até mesmo o único texto usado pelos imortalistas para sustentar a sobrevivência da alma após a morte (Mt 10:28) narra a destruição dela no geena. Não há a menor lógica em dizer que os homens podem matar apenas o corpo e não a alma se Deus também só matasse o corpo e não a alma. A mensagem sobre temer a Deus mais do que temer aos homens só faria sentido caso Deus matasse mais do que os homens são capazes de fazer, isto é, se os homens pudessem dar fim à existência apenas do corpo enquanto Deus dá fim à existência do corpo e da alma. Aqui a destruição está claramente no sentido de aniquilação, e não apenas de “fazer perder” ou de “lançar”, como vertem algumas traduções e como entendem muitos imortalistas.

“Alma”, neste texto, está no sentido de vida póstuma (a vida que se obtém com a ressurreição), como muitas vezes ocorre nos evangelhos (Mt.16:26; Lc.21:19; Jo.12:25), e não no sentido primário de um ser vivo (Gn.2:7). O sentido do texto é que os homens podem dar um fim somente a esta vida terrena (representada pelo corpo), mas não podem fazer nada em relação à outra vida (a vida eterna). Deus, contudo, tem o poder tanto para dar um fim à existência terrena, como à eterna. Um ímpio pode matar um crente nesta vida, mas não pode tirar a vida eterna dele. Deus, porém, pode destruir um ímpio nesta vida e por toda a eternidade. Essa é a razão pela qual Lucas, ao incluir este texto em seu evangelho sinóptico, concorda com essa interpretação e sequer usa o vocábulo “alma” no texto (cf. Lc 12:4-5). Enquanto Mateus registra as palavras literais de Jesus, Lucas vai direto ao seu significado, em consonância com o entendimento aniquilacionista do texto.

Este entendimento da alma como uma pessoa que morre ao sair-lhe o fôlego da vida torna possível os muitos textos bíblicos que mostram cristalinamente a inexistência de vida consciente entre a morte e a ressurreição. Por exemplo, Salomão diz que “os mortos não sabem coisa nenhuma” (Ec 9:5), e para aqueles que pensam que ele estava se referindo apenas ao corpo no túmulo ou a esta vida ele complementa, cinco versos depois, que “no além, para onde vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Ec 9:10). O salmista faz a impressionante confissão de que “mortos não louvam o Senhor, nem os que descem à região do silêncio” (Sl 115:17), e diz que “na morte não há lembrança de ti [Deus]; no Sheol, quem te louvará?” (Sl 6:5). Se depois da morte eles não se lembrariam nem mesmo do próprio Deus, é bastante razoável pensar que eles não estariam com o próprio!

O salmista diz ainda que “se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (Sl 94:17). Este “lugar do silêncio”, para o qual o salmista diz que a sua alma habitaria (e não apenas o seu corpo), dificilmente seria uma vívida descrição do inferno com seus muitos gritos ou do Céu com seus altos louvores. É, antes disso, uma descrição da sepultura ou do Sheol, a “sepultura coletiva” dos mortos, onde “descansam” até a ressurreição. E que o Sheol não é uma “morada de almas incorpóreas” como apregoam os imortalistas, isso é evidente pelos textos que retratam o Sheol como um lugar onde vão os corpos mortos, ossos (Sl 141:7), defuntos ensanguentados (1Rs 2:9), igualado ao pó da terra (Jó 17:16) e onde “não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Ec 9:10).

Um dos textos que melhor expressa o sentido mortalista da consciência perecer com o espírito sendo-lhe retirado na morte é o Salmo 146:4, que reza:

“Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (Salmos 146:4)

Ele não diz que os pensamentos são transportados para uma outra dimensão por supostamente serem uma atribuição da alma que não morre, mas sim que deixam de existir na morte.

Talvez o leitor esteja propenso a imaginar este espírito que volta para Deus como sendo uma alma imortal, mas Salomão extingue a possibilidade quando diz que “o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo espírito [ruach, no original hebraico], e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (Ec 3:19-20). O escritor bíblico inspirado não apenas confirma que os animais possuem espírito-ruach tanto quanto os homens, como ainda diz que tem o mesmo espírito, e não espíritos de categoria diferente, como se o de um fosse imortal e o de outro não (o que faria toda a diferença).

É por isso que “entraram na arca de dois a dois de toda carne em que há um espírito vivo” (Gn 7:15, de acordo com o hebraico), e que depois do dilúvio “expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de fera, e de todo réptil que se roja sobre a terra, e todo homem, tudo o que tinha fôlego de espírito [ruach] de vida em seus narizes, tudo o que havia na terra seca, morreu” (Gn 7:21-22). Como vemos, a saída do fôlego de vida (espírito) implica na morte, e não no ‘teletransporte’ da alma consciente a uma outra dimensão, e é assim que entendemos os textos de Jesus (Lc 23:46) e de Estevão (At 7:59) entregando o espírito (e jamais entregando a alma). É importante destacar que logo após Estêvão entregar o espírito, não é dito que uma alma lhe saiu do corpo e foi direto à presença de Deus antes mesmo da ressurreição, mas sim que “dizendo isso, adormeceu” (v. 60).

Essa linguagem de inexistência de vida inconsciente após a morte antes da ressurreição também é familiar ao Novo Testamento, que diz que “Davi não subiu aos céus” (At 2:34), que os mortos só serão lançados no inferno na consumação deste mundo (Mt 13:40), que o reencontro entre os vivos se dará por ocasião da ressurreição (2Co 4:14), que a salvação do espírito é somente no “dia do Senhor” (1Co 5:5), que os ímpios não estão sendo punidos ainda, mas estão reservados “para o dia do juízo, para serem castigados” (2Pe 2:9), que Deus é “o único que possui a imortalidade” (1Tm 6:16) e que nós humanos devemos buscá-la (Rm 2:7) – porque nem todos a obterão. Paulo ensinou que “da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados. Mas cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; depois, quando ele vier, os que lhe pertencem” (1Co 15:22-23). É só na ressurreição que “isso que é corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revestirá de imortalidade” (1Co 15:53).

Para o apóstolo, “se os mortos não ressuscitam, ‘comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’” (1Co 15:32). A sugestão de viver de maneira hedonista no caso de não haver a ressurreição se confronta com o ensino de que já estaríamos como almas no Céu antes disso e a despeito disso, e que tudo o que aconteceria se não existisse a ressurreição seria a permanência no Céu do mesmo jeito, embora sem o revestimento de um corpo. Em vez disso, para Paulo a ressurreição era tão importante quanto absolutamente necessária e fundamental: sem ela, “os que dormiram em Cristo já pereceram” (1Co 15:18), e esta presente vida seria a única que desfrutaríamos (1Co 15:19). É, portanto, a ressurreição que tira o homem do estado de “não-vida” para o estado de “vida”, o que explica satisfatoriamente o porquê que sem ela Paulo teria lutado com feras em Éfeso à toa (1Co 15:32). Sem a ressurreição, esta vida seria tudo o que existiria. Não haveria uma “outra” vida.

Foi por isso que Jesus ensinou que “a sua recompensa virá na ressurreição dos justos” (Lc 14:14), e não imediatamente após a morte. Mesmo quando Paulo parece indicar uma vida póstuma antes da ressurreição em 2ª Coríntios 5:8, o contexto desmonta totalmente essa pretensão. Poucos versos antes Paulo disse que “gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida” (v. 4). Paulo já havia sido claro em sua epístola anterior ao dizer que este momento em que “o mortal será absorvido pela vida” é na ressurreição (1Co 15:51-54), que ele chamava de “revestimento” (1Co 15:53-54).

Portanto, ao expressar que não queria ser despido, mas sim revestido, o que ele estava dizendo é que seu propósito em morrer não era para estar com Cristo em um estado incorpóreo e “despido”, mas sim porque sabia que ressuscitaria em seguida, onde ele estaria revestido do corpo glorioso da ressurreição e assim estaria com Cristo. O raciocínio é simples: se Paulo diz que quer estar com Cristo e que não quer estar despido, mas revestido, é porque este encontro não se concretizaria na condição de despido (sem corpo), mas revestido (com o corpo ressurreto).

Ou seja, Paulo desejava morrer porque sabia que isso o levaria à ressurreição onde encontraria a Cristo. Para nós, os vivos, a ressurreição pode parecer demorada, porque estamos sujeitos à passagem do tempo. Mas para quem já voltou ao pó (Gn 3:19), o tempo deixa de contar na sua própria perspectiva. Consequentemente, a ressurreição vem para ele em “um piscar de olhos”, imediatamente, ainda que tenham se passado longos séculos entre os vivos na terra. É isso, e não uma suposta “alma imortal”, que explica o desejo de Paulo em “partir e estar com Cristo” (Fp 1:23), o que se concretiza na ressurreição.

Tanto é assim que o salmista era claro ao dizer que só esperava ver a Deus quando despertasse, usando a mesma palavra hebraica para “ressuscitar” (em Dn 12:2): “Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar ficarei satisfeito ao ver a tua semelhança” (Sl 17:15). O salmista não estava dizendo que num belo dia de manhã acordaria de sua cama e de repente veria a Deus, mas sim que veria a Deus quando despertasse dos mortos, o que mostra claramente que é na ressurreição, e não em um “estado intermediário” anterior, que os mortos – inclusive Paulo – verão a Deus.

Cabe destacar ainda que Paulo não disse que receberia a coroa da justiça logo após a morte, mas “naquele dia” – o dia do juízo, que ele mesmo disse que só ocorre na volta de Jesus (1Co 15:23; 2Tm 4:1). Até lá, a coroa lhe estaria “guardada”:

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Desde agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2ª Timóteo 4:6-8)

Ademais, se após a morte vem o juízo (Hb 9:27) – e não o Céu ou o inferno – e a Bíblia é perfeitamente clara ao afirmar que o juízo só ocorre na segunda vinda de Cristo e jamais menciona um juízo anterior a isso ou mais de um juízo, então os mortos não podem estar já no Céu ou no inferno antes mesmo de serem julgados. É por isso que nem mesmo os herois da fé alcançaram a concretização da promessa, mas a alcançarão juntamente conosco, os vivos, na ressurreição da volta de Jesus:

“Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11:39-40)

Qual era essa promessa, que os herois da fé ainda não obtiveram? A resposta está versos antes:

“Todos estes ainda viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-nas de longe e de longe as saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou-lhes uma cidade” (Hebreus 11:13-16)

Ele não apenas confirma que se trata da pátria celestial, como ainda garante que eles “estão buscando uma pátria”, o que mostra que não estão nela ainda. A cidade celestial está preparada a eles por Deus, como um mestre de cerimônias que prepara uma grande festa que ainda está por acontecer. A conclusão só pode ser uma: eles não estão no Céu!

O próprio Senhor Jesus foi enfático a este respeito, quando disse que seus discípulos estariam com ele quando ele voltasse para os levar onde ele está, e não quando as almas individuais de cada discípulo subisse para a presença de Cristo no Céu: “Quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (Jo 14:2-3). Essa é a razão pela qual Paulo, ao consolar os tessalonicenses que tinham parentes falecidos, em momento nenhum usa dos clichês modernos dizendo que já estão com Jesus no Céu e por isso não há razão para lamentos, mas os consola inteiramente apenas com a esperança da ressurreição (veja 1ª Tessalonicenses 4:13-18).

Em relação ao estado final dos ímpios, há mais de 150 versículos bíblicos que ensinam que os ímpios serão eliminados (ex: Pv 2:22), destruídos (ex: 2Pe 2:3), arrancados (ex: Pv 2:22), mortos (ex: Jo 8:24), exterminados (ex: Sl 37:9), executados (ex: Lc 19:14,27), devorados (ex: Ap 20:9), se farão em cinzas (ex: 2Pe 2:6), não terão futuro (ex: Sl 37:38), perderão a vida (ex: Lc 9:24), serão consumidos (ex: Sf 1:18), perecerão (ex: Jo 10:28), serão despedaçados (ex: Lc 20:17-18), virarão estrado para os pés dos justos (ex: At 2:34-35), desvanecerão como fumaça (ex: Sl 37:20), terão um fim repentino (ex: Sf 1:18), serão como a palha que o vento leva (ex: Sl 1:4-6), serão como a palha para ser pisada pelos que vencerem (ex: Ml 1:1,3), serão reduzidos ao pó (ex: Sl 9:17), desaparecerão (ex: Sl 73:17-20), deixarão de existir (ex: Sl 104:35), serão apagados (ex: Pv 24:20), serão reduzidos a nada (ex: Is 41:11-12), serão como se nunca tivessem existido (ex: Ob 1:16), serão evaporados (ex: Os 13:3), lhes será tirada a vida (ex: Pv 22:23) e não mais existirão (ex: Sl 104:35). Só no hebraico há dúzias de substantivos diferentes usados para empregar o aniquilacionismo final, contra nenhuma passagem de “tormento eterno”.

Um dos textos que expressa o sentido aniquilacionista é o de 2ª Pedro 2:6, que diz:

“Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios” (2ª Pedro 2:6)

Se pela simples menção de serem “reduzidos às cinzas” um imortalista poderia interpretar em um sentido “espiritual” ou “alegórico”, Pedro faz questão de traçar uma analogia com as cidades de Sodoma e Gomorra, que foram literalmente reduzidas às cinzas com o fogo que caiu do céu, e não apenas espiritualmente ou de forma alegórica. Pedro poderia ter usado como analogia centenas de coisas que não foram destruídas literalmente mas que foram “arruinadas espiritualmente”, e usá-las como um exemplo do estado final dos ímpios. Em vez disso, fez questão de pegar como exemplo duas cidades que foram literalmente e completamente destruídas pelo fogo que caiu do céu, e ainda disse que acontecerá o mesmo com os ímpios, sendo reduzidos às cinzas da mesma forma. Se Pedro quisesse ser aniquilacionista, dificilmente poderia ser mais claro que isso.

É evidente que isso ocorrerá depois de um tempo justo e proporcional onde cada um pagará pelos seus pecados no geena, e não um “pagamento eterno”. O próprio Jesus fez menção a esse tempo finito quando disse que “você não sairá de lá enquanto não pagar o último centavo” (Mt 5:26). Ele não disse que o servo mau não sairia da prisão “nunca”, mas sim “até pagar o último centavo”, o que presume um fim. Em outro texto, Jesus diz que “o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia” (Mt 18:34). Mais uma vez, Cristo não diz que o ímpio ficou sendo atormentado “para sempre”, mas sim até um momento, que é até completar o pagamento da sua “dívida” (neste caso, os pecados cometidos em vida). Tampouco faria sentido um sofrimento infinito por pecados finitos, como Jesus aponta no texto que diz:

“Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lucas 12:47-48)

Note que nenhum servo leva “infinitos” açoites, ou é açoitado para sempre. Em vez disso, uns levam muitos, e outros poucos açoites. O “pouco”, evidentemente, presume um fim. Ninguém pode levar açoites eternamente, pelos séculos dos séculos, até nunca mais, e mesmo assim se dizer a respeito desse indivíduo que ele levou apenas poucos açoites. Isso seria uma subversão grosseira da lógica. Portanto, o tempo de sofrimento no geena não é o mesmo para todo mundo (“eterno” para Hitler e “eterno” também para o ladrão de frangos), e é finito para ambos.

Em acréscimo, é preciso observar que Mateus 25:46 (o “carro-forte” dos imortalistas na questão do tormento eterno) não ensina um tormento eterno, mas sim uma punição eterna, que é o significado do termo grego kolasin, que muitos léxicos apontam como sendo uma punição no sentido de pena capital ou despedaçamento. Ou seja, Jesus não estava contradizendo a si mesmo, mas apenas traçando o destino eterno do ímpio pecador, cuja punição eterna é a morte eterna, e não um sofrimento eterno. Isso está totalmente de acordo com 2ª Tessalonicenses 1:9, que fala de destruição eterna, e não de tormento ou sofrimento eterno.

A punição/destruição eterna é a morte eterna, não um sofrimento sem fim. Ela consiste justamente no fato de que a pessoa destruída nunca mais voltará à existência, porque é para sempre. É isso o que difere o aniquilacionismo cristão do aniquilacionismo dos estoicos, que acreditavam que a pessoa era destruída em um momento, mas depois de uma era voltava à existência novamente (ou seja, uma destruição temporária, enquanto o aniquilacionismo cristão é uma destruição eterna, sem volta).

Semelhantemente, a linguagem de “fogo eterno” significa em toda a Bíblia apenas uma destruição total com efeitos irreversíveis, e não um processo eterno. Por exemplo, Isaías diz que “os ribeiros de Edom se transformarão em piche, e o seu pó, em enxofre; a sua terra se tornará em piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada, e para todo o sempre ninguém passará por ela” (Is 34:9-10). A linguagem aqui é ainda mais contundente e enfática que os textos que falam do geena como um local de “fogo eterno”, e, no entanto, não há em Edom um fogo literalmente queimando até hoje. O fogo é eterno pelos efeitos, e não pelo processo.

Há também os que se apropriam de uma linguagem hiperbólica apocalíptica que afirma que o diabo, a besta e o falso profeta foram “atormentados para sempre” no lago de fogo (Ap 20:10). Apesar do texto não tratar da humanidade, não há qualquer exigência de se interpretar isso literalmente. Os problemas vão além do fato de que a besta e o falso profeta são provavelmente sistemas em vez de pessoas (que não podem ser “atormentados” para sempre), porque cinco versos depois João diz que “a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo, que é a segunda morte” (Ap 20:14). Uma vez que “morte” e “Hades” são coisas impessoais ou abstratas que não podem ser literalmente queimadas em algum lugar, o texto só pode estar se referindo à morte literal, isto é, à cessação de existência. A implicação disso é que o que cai no “lago de fogo” deixa de existir – por isso não há mais morte, nem Hades, nem aqueles que neles estavam (v. 15).

Assim, o “lago de fogo” (que só é mencionado no Apocalipse) não é uma câmara eterna de torturas ou um lago literal de lava ardente, mas uma metáfora apocalíptica para se referir à segunda morte, a morte eterna e irreversível, quando os ímpios deixam de existir para sempre. Tampouco faria sentido o Hades (que é o inferno, na teologia imortalista) ser literalmente lançado dentro do lago de fogo (que é também o inferno, na teologia imortalista), o que implicaria numa bizarrice: o inferno sendo lançado em um outro inferno! O texto só faz um sentido claro e simples na ótica aniquilacionista.

Há ainda o texto do “bicho que não morre” (Mc 9:48), que é por vezes mal utilizado por imortalistas que ignoram completamente o fato de que isso é uma alusão explícita ao texto de Isaías, que diz que “sairão e verão os cadáveres dos que se rebelaram contra mim; o seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará, e causarão repugnância a toda a humanidade” (Is 64:24). Como se vê, o verme não está consumindo uma alma imortal e consciente, mas sim um cadáver, o que mostra que aquelas pessoas já estavam mortas (aniquiladas) quando o “verme” ou “bicho” (do grego skolex, que significa “um verme do tipo que depreda cadáveres” – #4663 de Strong) o ataca.

Em síntese, podemos resumir a ótica aniquilacionista assim:

(1) Uma “alma vivente” é apenas um “ser vivo”, que morre;
(2) Uma alma é “vivente” enquanto animada pelo “fôlego da vida” (espírito). Quando o sopro volta a Deus, torna-se apenas alma morta;
(3) Na ressurreição, Deus sopra novamente o espírito em nossas narinas, ressuscitando um corpo glorioso, e voltamos a ser almas viventes;
(4) Esse período entre a morte e a ressurreição é um estado inconsciente (sem vida), como os textos bíblicos nos indicam. Não existe vida fora do corpo. O corpo não é uma parte dispensável que se possa viver sem ele, e muito menos a prisão da alma;
(5) Após a ressurreição, os justos herdam a vida eterna na nova terra, e os ímpios são castigados por um tempo proporcional aos seus pecados no geena até serem aniquilados (a morte ou destruição eterna), e assim o mal e o pecado serão completamente eliminados para sempre. Então se consumará o que Paulo escreveu: Deus “será tudo em todos” (1Co 15:28), o que ainda não é pelo simples fato de ainda existirem ímpios – os quais continuarão existindo para sempre na visão imortalista.

Talvez você entenda melhor se passarmos isso para a forma de analogia. Pensemos no corpo como um notebook, que só funciona se estiver conectado ao cabo de energia (=espírito). Enquanto há a fusão do cabo com a entrada do notebook, há um computador ligado (=alma vivente). Mas se você tirar o cabo, o computador simplesmente desliga (=morte). Você não pode acessar as informações do notebook sem o cabo, e muito menos só com o cabo sem o notebook, pela mesma razão que não há vida fora do corpo, sem a fusão de espírito e corpo. Mas se você conecta novamente o cabo ao notebook, o computador volta a funcionar (é o que ocorre na ressurreição). O importante a se observar é que não há vida fora do corpo, pois é somente por meio dele que a vida se manifesta, e que o espírito não é uma “alma imortal” pessoal com consciência e personalidade que nem precisa do corpo para viver, mas apenas o fôlego cuja funcionalidade é dar animação (vida) ao corpo.

Não há espaço aqui para lidar adequadamente com cada texto usado pelos imortalistas para o seu ponto – a parábola do rico e Lázaro, a “vírgula” de Lucas 23:43, a “sessão espírita” de Moisés no monte e de Samuel em En-Dor que são refutadas em grande parte pelos próprios teólogos imortalistas, dentre outros textos que extrapolariam o limite de escopo deste artigo se fossem examinados particularmente. Para isso recomendo a leitura do meu livro A Lenda da Imortalidade da Alma e dos apêndices do meu livro Os Pais da Igreja contra a Imortalidade da Alma, ou então simplesmente entre em contato comigo deixando um comentário em qualquer artigo do blog, onde eu respondo a todos.

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LIVROS PARA APROFUNDAMENTO

Os meus dois livros sobre o tema (mencionados acima) estão disponíveis para download gratuito do pdf ou para compra da versão impressa na página dos livros (clique aqui para acessar). *Nota: na versão impressa são três livros, porque eu tive que dividir o “A Lenda da Imortalidade da Alma” em dois volumes em função da quantidade de páginas, e assim o “A Verdade sobre o Inferno” corresponde ao oitavo capítulo do pdf da “Lenda da Imortalidade da Alma”.

Há também o livro “Imortalidade ou Ressurreição”, do Dr. Samuele Bacchiocchi, que infelizmente não é mais vendido, mas você pode acessar online os dois capítulos que abordam os significados de alma e espírito no Antigo e Novo Testamento aqui e aqui. O prof. Azenilto Brito, que traduziu o livro, me enviou uma síntese do mesmo que contém outras partes do livro (é um arquivo em formato Word que eu posso enviar para quem me solicitar via e-mail ou facebook). O livro do Oscar Cullmann (Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?) também se esgotou, mas você encontra online aqui.

Por Lucas Banzoli

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Sobre o autor

Leandro Quadros
Leandro Quadros 695 posts

Escritor e apresentador dos programas "Na Mira da Verdade" e "Lições da Bíblia"

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