Paulo e o Sábado (Romanos 14)

Paulo e o Sábado (Romanos 14)

O sábado em Romanos 14 

Em Roma, um grupo ascético fanático (herético), marcadamente semelhante àquele de Colossos (Colossenses 2), advogava estrito vegetarianismo, abstenção do vinho e a observância de dias (Romanos 14:1-10, 21). Sugerimos anteriormente que provavelmente Paulo está correlacionando (como em Colossenses 2:16) o comer-não-comer com a observância de dias. Se esta interpretação está correta, então os “dias” mencionados em Romanos 14:5 e 6 dificilmente podem incluir o sábado, pois sabemos que este era considerado dia de festa e não dia de jejum.
O problema em Roma era aparentemente mais ameno que em Colossos ou na Galácia. Os mestres ascéticos lá eram provavelmente uma minoria menos influente e não eram “propagandistas de um cerimonialismo almejado no âmago da cruz”. (John Murray, The Epistle to the Romans, 1965, p. 173) Isto é indicado pela linguagem tolerante e reprimida do apóstolo: “Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o Senhor não come, e da graças a Deus”. (14:5 e 6).

 

 

O princípio de agir segundo as convicções próprias e de respeitar um ponto de vista diferente (Romanos 14:3, 10, 13-16, 19-21) na questão de dietas e dias, se sobressai em Romanos em óbvio contraste com o princípio da justificação pela fé. Quanto a este, Paulo duramente se recusa a comprometer; quanto àquele, reconhece a consciência do indivíduo como a autoridade final. O que faz esta óbvia diferença? A resposta deve ser encontrada na compreensão que Paulo tinha do que é essencial e o que não é para a salvação. Que a fé em Jesus Cristo é a base da salvação, é para Paulo um princípio inquestionável e essencial (cf. Romanos 3:22, 26, 27, 28, 31; 4:3, 13, 22-25; 5:1). Porém, como a fé é experimentada e expressa de modo diferente em cada indivíduo, o modo pelo qual a fé é praticada não é essencial. “Que cada um”, diz Paulo, “seja completamente convencido em sua própria mente” (14:6).

O principio básico repetidamente estabelecido pelo apóstolo para determinar a legitimidade da observância de dias ou regras dietéticas, deve ser o de estar seguro de que se é motivado por um desejo consciente de se honrar ao Senhor (“observe ao Senhor – curiw fronei” – Romanos 14:6, 7, 18; cf. 1Coríntios 16:31).

Na base deste principio, podemos perguntar, poderia Paulo ter advogado o abandono da observância do sábado? É difícil acreditar que ele teria considerado tal prática empecilho para se honrar ao Senhor, quando ele mesmo “costumeiramente ” (Atos 17:2) se reunia com “judeus e gregos” no sábado na sinagoga (Atos 18:4). W. Rordorf argumenta que Paulo assume uma posição dupla. Com respeito aos cristãos judeus “fracos” ele lhes concede liberdade para observar a lei, inclusive o sábado. Por outro lado, aos cristãos gentios “fortes” ele concede absoluta “liberdade de qualquer observância da lei”, particularmente do sábado. [W. Rordorf, Sunday, p. 138.]

Pode esta conclusão ser legitimamente tirada de Romanos 14? Observe-se que o conflito entre o “fraco” e o “forte” sobre dieta e dias está relacionado somente remotamente (se estiver) à lei mosaica. O “homem fraco” que “come somente legume” (14:2) não bebe vinho, (14:21) e “considera um dia melhor (aparentemente para jejuar) que outro” (14:5) não pode reivindicar apoio para tais convicções provenientes do Velho Testamento. Em lugar algum prescreve a lei mosaica estrito vegetarianismo, total abstinência de vinho e uma preferência por dias de jejum. Veja que o voto do nazireu incluía abstenção de todos os derivados da uva. (Números 6:2-4) Isto era, contudo, um voto temporário e voluntário. Alguns, como Samuel (1Samuel 1:11) e João Batista (Lucas 1:15) eram nazireus pela vida toda. Não temos, porém, registro de alguém que fizesse voluntariamente o voto pela vida inteira. Os recabitas levavam uma vida nômade, habitando tenda e se abstinham de vinho e bebidas intoxicantes (Jeremias 35:1-19).

Semelhantemente, o “homem forte” que “crê que pode comer qualquer coisa” (14:2) e que “considera iguais todos os dias” não está assegurando sua liberdade da lei mosaica mas, das crenças ascéticas aparentemente derivadas o judaísmo sectário. Note-se que a distinção entre alimento limpo e imundo em Romanos 14:4 é diferente daquela de Levítico 11. Nesta, os alimentos ilícitos são designados na LXX pela palavra “????????? – akathartos” que significa “impuro”. Em Romanos, entretanto, o termo usado é “?????? – koinos” que significa “comum”. Aparentemente, a discussão era acerca de carne que por si era lícito de se comer, porém, por causa da associação com culto a ídolos (cf. 1Coríntios 8:1-13) era considerado por alguns como “?????? – koinos” sendo assim, inadequada para o consumo humano.

A discussão toda então, não é sobre a liberdade de se observar a lei versus a liberdade de não observá-la, mas concerne a escrúpulos “não essenciais da consciência, ditados, não por preceitos divinos, mas por convenções e superstições humanas. Uma vez que estas convicções e costumes divergentes não minavam o fundamento do evangelho, Paulo aconselha tolerância e respeito mútuos neste assunto.”

O fato de que Paulo recomenda tolerância e respeito mesmo com relação a diferenças em dieta e dias (Romanos 14:3-6) oriundos de convenções humanas, indica que na questão de “dias” ele era demasiado liberal para promover o repúdio do mandamento do sábado e a adoção da observância do domingo em seu lugar. Houvesse ele feito assim e teria encontrado oposição e discussões intermináveis com os advogados do sábado. A ausência de qualquer traço de tal polêmica é talvez a mais clara evidência do respeito de Paulo para com a instituição do sábado.
Em última análise, então, a atitude de Paulo para com o sábado deve ser determinada não na base de suas denúncias das observâncias heréticas e supersticiosas que possivelmente incluíam a guarda do sábado, mas sim na base de sua atitude para com a lei como um todo. A falha em não distinguir entre o conceito de Paulo para com a lei como um corpo de instrução que ele considera “santo justo e bom” (Romanos 7:12; cf. 3:31; 7:14 e 22) e da lei como um sistema de salvação separado de Jesus Cristo, que ele energicamente rejeita, é, aparentemente, a causa de muito malentendido quanto à atitude de Paulo para com o sábado.

Não há dúvida que o apóstolo respeitava aquelas instituições do Velho Testamento que ainda tinham valor aos cristãos. Notamos, por exemplo, que ele adorava no sábado com “judeus e gregos” (Atos 18:4, 19, 17:1, 10, 17), passou os dias dos “pães asmos” em Filipos (Atos 20:16), “apressara-se para estar em Jerusalém, se possível, no dia de Pentecostes” (Atos 20:16), fez um voto de nazireu por sua própria iniciativa em Cencreia (Atos 18:18); purificou-se no Templo para provar que “vivia guardando a lei” (Atos 21:24); e fez circuncidar a Timóteo (Atos 16:3). Por outro lado, sempre que estes costumes ou semelhantes eram promovidos como base de salvação, ele denunciava em termos inequívocos sua função desvirtuada. Poderíamos dizer, portanto, que Paulo rejeitava o sábado como meio de salvação, mas aceitava-o como sombra apontando para a substância que pertence a Cristo.

Por Samuele Bacchiocchi – Do Sábado Para o Domingo

 

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2 Comentários

  1. Boa noite Sr. Leandro Quadros.

    Assisti ao vídeo do YouTube a respeito dos esclarecimento de O Livro de Enoque “não ser inspirado”. Entendi as explicações do Doutor Rodrigo Silva, mas não me convenceu. Para mim o Livro de Enoque é inspiração de Deus. A não ser que esse livro não tenha sido escrito por ele ou por quem ouviu a narração diretamente dele. Pois, como um homem que andou com Deus e foi levado por Ele não vai ter inspiração para narrar ou escrever um livro?

    E por quê Gênesis sendo um livro sagrado conta um pouco da história de Enoque?

    E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. Gênesis 5:24

    E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. Gênesis 5:23

    E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. Gênesis 5:22

    • Leandro Quadros
      dezembro 30, 16:19 Resposta

      Jesus viveu após a escrita desse livro e não deu importância a ele. Isso para mim basta. A Bíblia é suficiente!

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