Paulo e os esportes

Paulo e os esportes

Paulo gostava muito de aproveitar a cultura local para pregar mensagens que fossem entendidas com maior facilidade pelo seu público. A referência mais comum eram os esportes praticados na região!

As cidades da Europa (Roma, Corinto, Tessalônica, Filipos) e Ásia (Esmirna, Mileto, Laodicéia, Éfeso, Colossos, Antioquia, etc), as quais receberam a evangelização do Apóstolo Paulo, reverenciavam os seus deuses Júpiter, Hércules, Artêmis, Apolo, etc, através de sacrifícios de animais, mas também com a realização de diversos jogos de exercícios.
Para os gregos antigos, esporte era toda e qualquer disputa, sempre competitiva, que permitisse ao vencedor homenagear as divindades com a sua vitória.
O homem começou a praticar os primeiros treinos físicos obrigados pelas lutas de sobrevivência. À medida em que se consolidavam as comunidades, as necessidades de conquista e defesa davam origem à criação dos exércitos, com cada povo tentando aprimorar-se nos exercícios físicos, fundamentais ao preparo dos guerreiros.
A luta era exercitada na preparação dos exércitos, tornando-os aptos para as batalhas contra as outras nações. A cultura grega foi a primeira a constatar que os exercícios físicos tinham outras aplicações, além da preparação dos soldados. Para reverenciarem os ídolos, costumavam organizar uma série de programas esportivos.
O ser humano participava dos jogos de exercícios para medir a sua capacidade física, enfrentando outros homens, animais, obstáculos naturais ou artificiais, em troca de vitórias, como prêmios, medalhas, dinheiro, fama, prestigio ou simplesmente satisfação pessoal. A vitória exaltava o atleta (grego: “lutador”) e a sua cidade natal. Essa essência do esporte o coloca em oposição ao trabalho.

Os primeiros vestígios de combates travados com punhos (pugilismo) foram registrados na ilha de Creta, 1500 a.C. Onomasto de Esmirna, todavia, é o primeiro vencedor de lutas com punhos que a história registra. Ele combateu e venceu 23 olimpíadas, em 688 a.C. A violência de então pode ser verificada pelo depoimento de Andrôco: “Eu, Andrôco, combati violentamente nos pugilatos de todos os jogos da Grécia. Em Pisa (Elida), perdi uma orelha. Em Platéia (Atica), um olho. Em Delfos, desmaiei. Mas meu pai, Damósteles, já estava preparado para tirar-me da arena ferido ou morto”.
A palavra “luta” vem do grego “athlos” e significa ‘peleja’ ou ‘combate’. Traduzido para o latim “lucta”, termo derivado do verbo “luctor” – lutar, empregado no sentido de exercício físico. O termo aplica-se a todo esforço considerado valioso. Nas práticas esportivas, refere-se a disputa entre duas ou mais pessoas, que aplicam-se mutuamente golpes físicos, regularmente permitidos, até que o(s) oponente(s) seja(m) derrubado(s) e imobilizado(s) pelo(s) outro(s).
A palavra “corrida” vem do grego “dromos”, que significa luta de velocidade entre pessoas, animais ou veículos. Exs: corridas a pé, corridas de bigas ou quadrigas, corridas de cavalos (hipismo), etc.

O Apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, observando a grande influência que estes jogos de competição exerciam na vida dos gentios, usou estes mesmos termos (corrida e combate), trazendo para a vida espiritual dos cristãos o ensinamento de que a nossa corrida é rumo ao reino dos céus e a nossa luta é pela conquista da salvação, e não o combate praticado pelos atletas nos estádios: “E subi por uma revelação e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios e particularmente aos que estavam em estima; para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão”. (Gálatas 2:2).

Aos cristãos da Ásia Menor (Licaônia, Pisídia, Isauria, Panfília, Frígia, Cilícia, Ponto, etc), no ano 58 d.C., Paulo escreveu: “Correis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais a verdade?” (Gálatas 5:7).
Aos cristãos de Filipos, cidade da Macedônia, no ano 64 d.C., ele declarou: “Retendo a palavra de vida, para que no dia de Cristo possa gloriar-me de não ter corrido nem trabalhado em vão”. (Filipenses 2:16).

Na sua epístola aos judeus convertidos da Palestina, particularmente aos de Jerusalém, no ano 64 d.C., Paulo confirmou: “Portanto, nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos com paciência a carreira que nos está proposta: olhando para Jesus, autor e consumador da fé.” (Hebreus 12:1-2).
“Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouço acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (Filipenses 1:27).

“Mas, havendo primeiro padecido e sido agravados em Filipos, como sabeis, tornando-nos ousados em nosso Deus, para vos falar o evangelho de Deus com grande combate” (I Tessalonicenses 2:2).
“Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grandes combates contra o pecado” (Hebreus 10:32).
“Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado”.(Hebreus 12:4).
O Senhor tem chamado os seus servos ao combate espiritual e não aos combates dos jogos de exercícios. Continua o Apóstolo Paulo: “Porque quero que saibais quão grande combate tenho por vós que estão em Laodicéia e por quantos não viram o meu rosto em carne”. (Colossenses 2:1).
“E rogo-vos irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e por amor do Espírito, que combatais comigo nas orações por mim a Deus”. (Romanos 15:30).
O cristão trava uma batalha espiritual para conseguir entrar no reino dos céus. Se não vencermos o pecado e o mundanismo, não conseguiremos o descanso eterno. Este é o nosso combate: “A lei e os profetas duraram até João: desde então é anunciado o reino de Deus e todo o homem emprega força para entrar nele”(Lucas 16:16).
” E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus e pela força se apoderam dele”.(Mateus 11:12).
Tal como os atletas vencedores recebiam uma coroa, como recompensa de sua vitória nos jogos, da mesma forma o cristão receberá uma coroa que não se corrompe, pela vitória na luta pela causa do evangelho: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor justo juiz, me dará naquele dia”.(II Timóteo 4:7-8).
“Este mandamento te dou, meu filho Timóteo, que, segundo as profecias que houve acerca de ti, milites (lutes) por elas boa milícia (luta)”. (I Timóteo 1:18).
“Ninguém que milita (luta) se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar aquele que o alistou para a guerra. E, se alguém também milita, não é coroado se não militar legitimamente”. (II Timóteo 2:4-5).
Quando Paulo estava na prisão em Roma, escreveu no ano 64 d.C., uma epístola aos cristãos da cidade de Éfeso. Referindo-se ao imenso anfiteatro desta cidade, citou os gladiadores “Samnitas”, que constituíam a mais antiga categoria destes lutadores. Eram pesadamente armados com capacetes de visagem, escudos grandes retangulares, espadas retas e curtas, armaduras nos braços direitos e nas pernas esquerdas. Isso mostra aos cristãos que a peleja não era nesses combates mas, sim, espiritualmente contra toda a força de Satanás: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue (os homens) mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes.. Estai pois firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade e vestida a couraça da justiça; e calçados os pés na preparação do evangelho da paz; tomai sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do espírito, que é a palavra de Deus”. (Efésios 6:11-17).

Na cidade de Tessalônica (região da Macedônia), onde Paulo havia pregado e convertido alguns (Atos 17:1 e 4), havia também um anfiteatro, levando o Apóstolo a fazer a mesma comparação, no ano 54 d.C.: “Mas nós, que somos de dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e da caridade (amor) e tendo por capacete a esperança da salvação.” (I Tessalonicenses 5:8).
No ano 59 d.C., o Apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, chamou a atenção dos cristãos do sul da Grécia (Corinto) a respeito dos jogos gregos, alertando que os gentios competiam para conseguirem uma coroa corruptível (perecível), mas os cristãos na luta do evangelho, buscavam uma coroa incorruptível (espiritual), que é a salvação eterna. Declarou que, ao invés de combater nos jogos, ele reduzia a sua vida ao serviço do evangelho, para não ser reprovado eternamente, não participando, portanto, de jogos de exercícios: “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade correm, mas um só leva o prêmio? (…) e todo aquele que luta (no pugilismo) de tudo se abstém; eles (ímpios) o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, (cristãos), porém, uma (coroa) incorruptível. Pois eu assim corro, não como a coisa incerta (corrida do estádio); assim combato, não como batendo no ar (boxeando). Antes (ao invés disso) subjugo o meu corpo e o reduzo a servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha d’alguma maneira ficar reprovado.” (I Coríntios 9:24-27).

A Bíblia Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), da Sociedade Bíblica do Brasil, traduz assim 1 Coríntios 9.26: “Por isso corro direto para a linha final. Também sou como um lutador de boxe que não perde nenhum golpe”. Muitas pessoas que criticam a NTLH afirmam ser este um exemplo de que esta versão não é confiável, tendo em vista que Paulo não poderia se referir ao boxe, pois este seria, supostamente, um esporte que não existia à época. Porém, uma análise mais acurada do texto, e do contexto histórico em que foi produzido, nos conduzem a outra conclusão.

A versão mais famosa que conhecemos dessa passagem, da versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada (ARA), traz a seguinte tradução de 1 Coríntios 9.26: “Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar”. Se analisarmos o termo “luto” em grego, veremos que se trata da palavra pukteo. O Dicionário Strong define essa palavra como “boxear, utilizando os punhos, ou seja, lutar como um boxeador nos jogos. Figurativamente, lutar”. Ou seja, o sentido literal do termo pukteo é “boxear”, pois deriva de pux, que significa “punho”, e origina os termos pygme (“lutar boxe”) e pyktes (“boxeador”). A própria palavra “pugilista” deriva da raiz grega pux, que originou o termo latino pugil (“boxeador”) e pugnus (“punho”). Assim, vemos que a prática do boxe era muito famosa não apenas entre romanos, mas célebre desde os gregos e seus jogos olímpicos.


Jovens lutam boxe. Afresco da civilização minóica, em Acrotiri, Santorini, cerca de 1500 a.C.

Concluímos, portanto, que Paulo, grande conhecedor da cultura grega e romana, estava fazendo alusões às práticas esportivas (boxe e corrida) tanto gregas como romanas. Cabe lembrar que Paulo estava escrevendo para os coríntios, habitantes de uma das mais famosas cidades gregas, que conheciam perfeitamente a prática do pygme, ou seja, o boxe grego. O apóstolo estava se referindo aos famosos Jogos Ístmicos. Em honra a Poseidon, a cada dois anos eram promovidos os Jogos Ístmicos, que tiveram extraordinária importância e esplendor na antiga Hélade. Eram realizados no Istmo de Corinto, ponto de ligação entre a Grécia continental e o Peloponeso. Esses torneios recebiam um grande número de participantes e espectadores, levando-se em consideração o fato de Corinto ser um dos mais importantes centros comerciais e de diversões daquele tempo.

Confrome Eusébio de Cesareia, em sua crônica 70, o boxe foi primeiramente considerado um desporto olímpico em 688 a.C., na 23ª olimpíada da antiguidade; seu vencedor foi Onomastus de Esmirna, que foi quem definiu as regras do esporte. O boxe era chmado de pygme ou pygmachia entre os gregos, que treinavam com sacos de areia chamados korykos e usavam faixas de couro nas mãos, como luvas, conhecidas como himantes. O boxe também foi praticado desde os primórdios da Roma Antiga.

As origens do boxe, porém, são mais antigas. Surgido no continente africano, remonta ao ano 6000 a.C., na região da atual Etiópia, de onde se difundiu primeiro à antiga civilização egípcia e aos povos mesopotâmios vizinhos, onde encontramos baixo relevos de boxeadores que datam do ano 5500 a.C. Do Egito, passou à civilizção minóica, em Creta, e de lá passou à mesopotâmia e chegou à India.

Boxeador de Quirinal. Escultura em bronze do período helenístico (século I a. C.). Note-se as faixas na mão esquerda do “boxeador de Terme”. (Museu de Roma).

Por esta razão, conluímos que a tradução da NTLH foi muito pertinente, conforme é a opinião dos maiores comentaristas bíblicos. Adam Clarke (1760-1832), teólogo metodista e erudito bíblico britânico, explica que a expressão grega “aera derein”, traduzida por “golpes no ar”, deve ser interpretada como um treino de luta de boxe, em que o lutador praticava os golpes desferindo socos ao vento, prática relata por Virgílio (70 a.C-19 a.C.) em sua Eneida (verso 375). No comentário de Archibald Thomas Robertson (1863-1934), renomado erudito do Novo Testamento, lemos que “um boxeador agia assim quando treinava sem adversário, prática que era chamada pelos gregos de skiamachia (lutar com a sombra)”. No comentário People’s New Testament, lemos que “Paulo usa, primeiramente, a figura de um corredor que possui um objetivo específico. A segunda figura é retirada do boxeador que erra o oponente e atinge o ar”. O grande comentarista Albert Barnes também confirma que se trata e uma luta de boxe, assim como o comentário Marvin R. Vincent (1834-1922).

Paulo, portanto, nos exorta a desferimos golpes certeiros, de modo que não percamos nossa energia com golpes ineficientes e, assim, evitemos o risco de receber um contra-ataque devastador.

Este é, portanto, mais um exemplo de que a Nova Tradução na Linguagem de Hoje é extremamente elucidativa e, pelo menos por mim, altamente recomendada.

Bibliografia.

Enciclopédia Mirador- Volumes 1,2,10 e 13.
Bíblia Sagrada.

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