Bons Debates

Quão perfeito é “perfeito”? Pode o cristão ser perfeito?

Por Edward Heppenstall, Biblical Research Institute

Estar em uma posição/condição correta para com Deus é a coisa mais importante da vida. Acima de tudo que fazemos, de tudo que temos, o que somos nós como criaturas que estão diante do Senhor? Como estamos diante de Deus? Paulo afirma que a única forma de se estar bem com Deus é estar vestido com a perfeita justiça de Cristo.

Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé (Filipenses 3:8-9)

A única esperança do pecador

A perfeita justiça de Cristo é a única resposta ao problema do pecado na vida de qualquer homem, a única possibilidade de viver como Jesus aqui e agora. “Nossas justiças”, (o melhor que podemos fazer e ser em nós mesmos) são “como trapos de imundície” (Isaías 64:6). Trapos por que eles não nos cobrem, e imundos por que nos deixam desfigurados e em nossos pecados.

Muitos cristãos sinceros expressam insatisfação sobre o fato de que eles continuamente falham antes de chegar à perfeição. Muitos admitem que falham sempre em sua vida espiritual, que repetem os mesmos pecados de novo e de novo, e de dar vazão a padrões habituais que são contrários aos padrões vistos na vida de Jesus Cristo.

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Quando eles leem o mandamento de Cristo: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mateus 5:48), sentem condenação e desencorajamento.

Em quase todo grande reavivamento os crentes têm procurado, de uma forma ou de outra, atingir a perfeição de vida. Eles têm esperado e trabalhado por isso. Porém, o testemunho de todos os grandes cristãos é que eles não atingiram essa condição. Que quanto mais que eles se aproximavam e mais perto que chegavam de Cristo, maior era seu senso de inadequação e de pecaminosidade inerente.

Enquanto suas vidas davam testemunho de vitória sobre o pecado, ao mesmo tempo eles sentiam um mais profundo senso de suas próprias necessidades espirituais e de indignidade. Pergunte a Pedro, Tiago, João. Pergunte a Martinho Lutero e John Wesley. Pergunte às almas mais nobres
que a igreja cristã jamais conheceu, os espíritos mais zelosos que a humanidade jamais produziu. Com um poderoso coro e em uníssono eles exclamarão juntamente com Paulo:

Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para
conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos,
quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me
das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão,
prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Filipenses 3:12-14).

Se há uma verdade central que nos vem das Escrituras relativamente à experiência de todos os verdadeiros crentes que conheceram o poder salvador de Deus, é essa: Que a única perfeição, a única impecabilidade que eles jamais viram ou conheceram foi a perfeição e impecabilidade de Jesus Cristo, homem. Que por causa disso Jesus era inteiramente a salvação deles, bem como sua “justiça” e “perfeição”. Ser um cristão genuíno significa fé em Cristo, comunhão com Cristo, fidelidade a Cristo e frutificação para Cristo. Fé significa que o homem não tem perfeição ou justiça em si mesmo; que o homem confia completamente e somente em Cristo.

Perfeição bíblica

Um dos obstáculos para se viver uma vida cristã vitoriosa é a falha em compreender o que a Bíblia ensina sobre a natureza do pecado e da perfeição. Uma má apreciação é a raiz de muitos desses falsos ensinamentos sobre este assunto. A Bíblia, ao aplicar o termo “perfeição” aos crentes, nunca o faz com conotação de “impecabilidade”.

Existem pelo menos nove diferentes palavras hebraicas e seis gregas traduzidas na Bíblia como “perfeição”. Noé é declarado “perfeito em sua geração” (Gen 6:9). De Asa, rei de Judá, lemos: “o coração de Asa foi, todos os seus dias, totalmente (perfeito) do SENHOR.” (1 Reis 15:14). “Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão capaz de refrear também todo o corpo.” (Tiago 3:2); “Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados (perfeitos)” (1 Cor 2:6).

Os escritores bíblicos não estão dizendo que esses homens eram “sem pecado.” O significado da perfeição deles é maturidade espiritual, pleno crescimento espiritual, maduros em entendimento espiritual, íntegros ao responder a Deus, não deixando nada para trás. Um cristão perfeito é aquele cujo coração e cuja mente estão permanentemente compromissados com Cristo, sem vacilar. Noé, Abraão, e Jó foram todos declarados homens perfeitos. Ainda assim a história de vida deles demonstra que eles foram longe de serem homens sem pecado.

Se a visão de alguém a respeito do pecado for bem superficial, a perfeição impecável não seria um alvo impossível de ser alcançado. É uma visão defeituosa e incompleta de pecado que conduz a uma errônea compreensão de perfeição. Se pecado significa apenas atos deliberados e voluntários de se fazer coisas que se sabe serem erradas, então nenhum cristão deveria cometer pecado. Mas se o pecado inclui o estado mental do homem assim como seu coração, a inclinação do homem em direção ao pecado, e o pecado como uma tendência que habita dentro do homem, então a perfeição representa um quadro totalmente diferente do exposto anteriormente.

O que Deus espera de seu povo

Há alguns cristãos que acreditam que é possível alcançar um ponto de tal desenvolvimento espiritual nessa vida que a natureza pecaminosa seja completamente erradicada e depois não mais opere (exista) no homem. A Bíblia não ensina que a genuína vida cristã é tal como a de uma vida de vitória uniforme e permanente sobre todo pecado conhecido. A experiência cristã normal deveria ser de vitória constante e não de derrota constante.

Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça. E daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça? De modo nenhum! (Romanos 6:11-15).

Há uma verdade que todo crente deve aprender e ela lhe conduzirá à plena salvação em Cristo. É a necessidade de habitar em Cristo, de olhar continuamente a Cristo, de depender completamente de Cristo e de sua justiça, O método de salvação de Deus não é a erradicação da natureza pecaminosa, mas a contraposição do poder de Deus através do Espírito Santo. Somente pela contínua contraposição e presença do Espírito Santo é que é possível ser vencedor contra o pecado e contra a natureza pecaminosa dentro de nós.

É fatal acreditar que se somente nos rendermos totalmente a Cristo então nossa natureza pecaminosa será erradicada. A lei do pecado e da morte ainda está operando. É algo que permanece em nós enquanto vivermos.

A vitória sobre todo pecado conhecido não significa impecaminosidade. Significa a gloriosa oportunidade em Cristo de guerrear de forma bem sucedida contra todo pecado e vencer. Mas essa é uma experiência que precisa ser mantida dia após dia através da comunhão com Cristo e entrega a Ele.

A vida cristã é a batalha de uma vida inteira. Durante o tempo em que o crente habitar em Cristo, santidade real e vitória são coisas possíveis. O que experimentamos em nossa vida diária é o poder de Deus que se contrapõe ao pecado, isso é, se contrapõe a nossas tendências e natureza pecaminosas.

Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado. Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. (Romanos 7:24 – 8:2)

Salvação em Cristo somente significa que a tendência ao pecado na natureza humana é muito forte e prevalecente para ser tratada de qualquer outra forma, separada de uma confiança em Cristo e em seu poder salvador que acontece a cada momento. A lei do pecado e da morte está operando o tempo todo. A libertação vem de uma lei mais elevada, um poder do alto, o Espírito, o mais poderoso poder de Deus que contrabalança o poder a lei do pecado em nossos membros.

Pedro afundou no momento em que tirou os olhos de Cristo. Ele afundou por que ele tinha a tendência de afundar na água. A única coisa que o manteve acima da água foi o poder de Cristo que momentaneamente foi exercitado contrabalançando o poder gravitacional que o puxava para baixo. Assim é vida cristã.

Há na vida terrestre um constante conflito entre a carne e o Espírito: “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei”. (Gálatas 5:16-18).

O cristão deve andar continuamente no Espírito. Nunca nesta vida a vida cristã chegará a um lugar onde possa dispensar o poder de Cristo que age contrabalanceando as tendências pecaminosas em sua vida. Apenas através da contínua operação do Espírito Santo dia a dia é nossa natureza pecaminosa contrabalanceada; ela não é erradicada até o dia da ressurreição, até que o que é “mortal se revista de imortalidade.”

O cristão aprende a viver na esfera do Espírito, não na esfera da carne. O crente nunca está além do alcance da tentação ou da possibilidade de pecar. Mas em Cristo ele é levado a uma posição de vitória sobre todo pecado conhecido. O pecado não tem mais domínio sobre ele.

Natureza pecaminosa: controlada, mas não erradicada

Os maiores homens na Bíblia nunca afirmaram possuir perfeição impecaminosa. Eles estavam todos penosamente conscientes do fato de serem pecadores e continuaram e ser pecadores em toda sua vida.

Tanto quanto um homem está num estado de pecado com uma natureza pecaminosa, ele confessará ser um pecador. O cristão sempre reconhece a si mesmo como pecador necessitado da graça de Deus.

Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós. (1 João 1:8-10).

Encontramos aqui (em 1 João 1:8-10) o mais solene aviso contra a doutrina da perfeição impecável nesta vida. O incontrovertido significado dessa passagem é que o homem que reclama a si mesmo o que João não ousava dizer de si mesmo é um mentiroso. A verdade não está nele.

A doutrina da perfeição sem pecado leva a conclusão que tanto Cristo quanto o Espírito Santo são desnecessários (para salvação), uma vez que a erradicação na natureza pecaminosa for alcançada.

Onde os professos cristãos reclamam haver erradicado sua natureza pecaminosa, há uma correspondente perda da verdadeira dependência de Cristo. Há uma quebra no único relacionamento salvífico de que o homem necessita para ser vitorioso. Isso permite que as pessoas pequem e chamem o pecado de bem. Isso desencoraja aqueles que lutam para ser como Cristo, mas falham em não atingir uma falsa idéia de perfeição.

É a vontade de Deus que tendo nos entregado a Cristo na conversão da melhor forma que Ele conhece, o crente mantenha a atitude de que tão logo qualquer coisa adicional seja revelada como contrária à vontade de Deus ele prontamente abandona e desiste de tal coisa. Deus verá que através de toda a vida cristã aqui na terra haverá mais profundos reconhecimentos da pecaminosidade e do egoísmo de nossa própria natureza.

Haverá crescente dependência, crescente arrependimento e oração por perdão. O crente nunca chegará ao lugar onde ele não orará a oração do Senhor: “perdoa nossas dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores.”

Por essa compreensão crescente nós sempre precisaremos de um crescente “olhar a Jesus, o autor e consumador da fé.” Não há limites no poder de Deus. Ele sempre está desejoso de nos conceder a vitória. Mas o homem limita a Deus em virtude de sua falta de visão (compreensão) e de entrega. Em proporção a maturidade e completude do seu conhecimento será a maturidade e completude de sua entrega e vitória.

Pela graça somente: o verdadeiro significado

A doutrina básica do cristianismo é a salvação pela graça somente. Essa doutrina representa a final renúncia tanto do esforço humano quanto da pretensão à perfeição humana. Cristo somente é nossa perfeição, nossa única justiça. Em nós mesmos nunca somos impecáveis. Mas tanto quanto olharmos para Cristo, o pecado ou o próprio “eu” não podem prevalecer.

A pretensão à perfeição sem pecado em qualquer momento da vida aqui na terra é a raiz do orgulho espiritual e justiça própria. O cristão não nega que a vida nova em Cristo é capaz de uma nova justiça, de vitória sobre o pecado. Ele apenas insiste que não é a justiça ou vitória dele mesmo, mas de Cristo.

Não haverá ponto de conquista na vida espiritual onde alguém poderá descansar com a certeza de que não mais pecará ou que ele não está diante de Deus como um pecador necessitado de graça e poder. O cristão sabe que ainda continua nele uma fonte de mal, uma natureza depravada.

Salvação pela graça somente significa que a perfeição absoluta não pode ser realizada aqui e agora. Justificação pela fé significa que nós olhamos continuamente e exclusivamente para Cristo, que olhamos para fora de nós mesmos e toda a esperança em nós é de vivermos para Ele somente.

A salvação genuína nos dirige para Cristo, para a única vida perfeita vivida aqui na terra, e para sua redenção através da cruz. O que é absolutamente central é Cristo. A vitória do homem sobre o pecado é exclusivamente a obra de Deus em Cristo, o contínuo controle do Espírito Santo, para que através da união diária (constante) com Cristo participemos da vida santa de Cristo.

A justiça salvadora de Cristo não é o início de uma nova justiça própria, mas o definitivo fim da justiça própria. É o viver perpetuamente em Cristo como o centro e a fonte além de nós e de nossa sabedoria e poder. Nós vivemos continuamente por um Cristo ressurreto e nunca por nós mesmos. A vitória existe pela contínua operação do Espírito Santo, por que a vida cristã consiste nos frutos do Espírito e poder de Deus.

 

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