Romanos 14 liberou a guarda de qualquer dia?

Romanos 14 liberou a guarda de qualquer dia?

Introdução

O estudo a seguir de Romanos 14 não deixará dúvida alguma de que o apóstolo Paulo jamais sonhou em “abolir” as leis dietéticas e a observância do sábado, pois estas faziam parte da Bíblia que ele tinha como inspirada: o Antigo Testamento (2Tm 3:16).

Preparado pelo Pr. Rafael Montesinos (ministra nos EUA) e traduzido pelo nosso amigo e colaborador Maurício Mancuzo, esse post será muito útil àqueles que se preocupam em estudar contextualmente a Palavra de Deus, para extrair dela aquilo que o autor original realmente intencionava transmitir.

Fiz alguns acréscimos e espero que o pastor não me processe por isso 🙂

Boa leitura.

Estudo de Romanos 14

Romanos 14 começa com uma controvérsia com os “fracos na fé” (v.  1) na igreja de Roma.

Alguns acreditavam que tudo poderia servir de alimento mesmo que tivesse sido sacrificado a ídolos, enquanto os fracos na fé comiam só vegetais (λάχανον – lachanon – verso 2).

Aqueles que comiam carne desprezaram os que comiam só vegetais para evitar (por medo) comer carne sacrificada aos ídolos (κρέας – kreas – verso 21). Esse é o ponto central do capítulo.

Segundo vários estudiosos, os mestres ascéticos e judaizantes tinham dias  reservados para o jejum obrigatório. Alguns aceitaram tais dias de jejum e outros não (verso 5). Os gregos, por exemplo, preferiam outros dias.

Portanto, perceba que o assunto discutido em Romanos 14:1,2, 14 (especialmente) não é o mesmo tratado em Levítico 11 por exemplo, que proíbe o uso de carnes imundas. Os contextos são bem diferentes, de modo que usar tais versos para afirmar que hoje o cristão pode “comer de tudo”, é desrespeitar o texto e contexto bíblico.

E quanto a Romanos 14:5? Estaria Paulo ensinando que cada cristão pode escolher o dia de guarda segundo a própria consciência e não segundo a revelação bíblica? Leiamos o verso:

“Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente”.

A verdade é que a palavra “igual”,  no versículo 5 foi adicionada ao texto para tentar dar-se um sentido ao mesmo. Todavia, forçou uma interpretação.

A adição dessa palavrinha mais atrapalhou que ajudou, pois irmãos católicos e protestantes passaram a interpretar que “todos os dias são iguais” e, portanto, tanto o sábado quanto o domingo podem ser santificados. Porém, a verdade é que Romanos 14:5 se refere provavelmente aos dias de jejum (Romanos 14: 3) e não ao sábado.

Outros estudiosos creem que podem se referir a dias de observância religiosa judaica (leia Levítico 23) que, obviamente, não estão relacionados com o sábado do 7o dia, que foi estabelecido muito antes da existência de tais dias festivos cerimoniais:

“Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército. E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera” (Gn 2:1-3).
Percebeu que o sábado do sétimo dia não depende da existência dos dias festivos cerimoniais hebreus? Afinal, o mesmo foi criado no Éden, antes da entrada do pecado e bem antes da existência de qualquer hebreus sobre a Terra!
Pense nisso:

O sábado não é o centro da questão em Romanos 14, mas o julgamento inapropriado dos irmãos (v 2, 10-13).

Em relação a esta passagem, o Comentário da Bíblia do Expositor diz: “A estreita associação do contexto com a alimentação sugere que Paulo tenha em mente a observância de um dia especial, especificamente designado para banquete ou jejum.” Aparentemente, Paulo está falando sobre um ou mais feriados romanos, durante os quais foram realizadas festas, jejum ou abstinência de certos alimentos.

Quanto ao argumento de que esta passagem mostra que o Sábado não é diferente dos outros dias, o Dr. Samuele Bacchiocchi faz a seguinte declaração: “Paulo aplica o princípio básico ‘ele faz isso para o Senhor’ (14: 6) apenas em o caso de “dá mais valor a certo dia”. Ele nunca diz o contrário; isto é, “aquele que julga iguais todos os dias, faz isso para o Senhor”.

“Em outras palavras, em relação à dieta, Paulo ensina que alguém pode honrar o Senhor comendo ou em abstenção (14:6), mas em relação aos dias, ele nem aceita que a pessoa que considera todos os mesmos dias faz isso para o Senhor. Assim, Paulo dificilmente dá seu apoio àqueles que estimam todos os dias o mesmo”.

O Dr. Bacchiocchi continua: “Se, como geralmente se supôs, o crente ‘fraco’ foi aquele que observou o Sábado, Paulo se consideraria ‘fraco’, como observou o sábado e os outros feriados judeus (Atos 18: 4, 19; 17: 1, 10, 17; 20:16).

“No entanto, Paulo se considera ‘forte’ (“nós que somos fortes”, Romanos 15: 1). Assim, ao falar sobre a preferência entre os dias, dificilmente poderia ter pensado sobre a observância do Sábado.

“Outra prova dessa conclusão é fornecida pelo conselho de Paulo: ‘Que cada um esteja plenamente convencido em sua própria mente’ (14: 5). É difícil pensar que Paulo poderia reduzir a observância dos dias sagrados, como o Sábado, a Páscoa e o Pentecostes, a uma questão de convicção pessoal, sem sequer explicar as razões para isso. E é ainda mais surpreendente porque ele trabalha muito para explicar por que a circuncisão não é obrigatória para os gentios”(Samuele Bacchiocchi, The Sabbath in the New Testament, página 119).

Os alimentos que eles consideravam comuns (κοινός – koinos) (v. 14) eram as carnes (κρέας – kreas), ou seja, carnes sacrificadas aos ídolos.

No versículo 17, as palavras βρῶσις (brosis) e πόσις (posis) são usadas também em Colossenses 2:16. Essas palavras são traduzidas como “alimentos” e “bebidas” em nossas Bíblias, mas sua tradução deve ser comer e beber, ou seja: o ato de comer e o ato de beber (Léxico de Strong). Eles são dois substantivos de ação.

Duas palavras gregas que matam a charada

Quando essas duas palavras citadas anteriormente (brosis e posis) são analisadas à luz do termo grego κοινός (koinos), o leitor irá notar que essas palavras não estão relacionadas com carnes imundas de Levítico 11, mas com a impureza ritual ensinada pelos fariseus, como comer sem lavar as mãos (veja Marcos 7:2), e o não se juntar com os gentios para não ser “contaminado” cerimonialmente por eles (João 18:28; Atos 10:28). Os judeus consideram os “gentios” κοινός (koinós), ou seja, impuros cerimonialmente.

Deixe-me detalhas mais ainda essa questão que é muito importante:

Na Septuaginta, tradução do Antigo Testamento para o grego, os judeus usaram a palavra grega (ἀκάθαρτος – akathartos) para se referir às carnes imundas em Levítico 11 e Deuteronômio 14. Já em 1 Coríntios 8 e em Romanos 14:14, usaram outra palavra para se referir à impureza cerimonial por comer carnes sacrificadas aos ídolos:  κοινός (koinos).

Portanto:

  • ἀκάθαρτος (akathartos) se refere às carnes imundas de Levítico 11 e Deuteronômio 14.
  • κοινός (koinos) se refere a alimentos considerados imundos cerimonialmente

O uso dessas diferentes palavras na Septuaginta prova que a questão em Romanos 14 e em 1 Coríntios 8 não é carnes imundas! Afinal, Paulo usou koinos e não akathartos! Se ele quisesse se referir aos alimentos imundos de Levítico 11, teria usado akathartos ao invés de koinos. Paulo conhecia bem o grego e também a diferença de tais termos.

Isso nos ajuda a entendermos também Colossenses 2:16. A orientação apostólica para não julgar os outros “por causa de comida e bebida” não possui relação alguma com Levítico 11. Nada tinha a ver com os animais que Deus classificou como imundos mas sim, com a contaminação cerimonial em tocar ou beber algo que pudesse estar contaminado cerimonialmente do ponto de vista dos fariseus.

Voltando a 1 Coríntios 8 e Romanos 14, os animais sacrificados aos ídolos foram contaminados porque foram considerados koinos, ou seja, impuros cerimonialmente. Essa palavra aparece também em Romanos 14:14, de modo que é impossível afirmar que esse texto apoia o uso de carnes imundas propriamente ditas.

Os alimentos tratados por Paulo  foram chamados κρέας (carne) no verso 13, como em Romanos 14:21. Unindo todas essas informações, fica claro que o problema tanto em 1 Coríntios 8 quanto em Romanos 14 é o mesmo: a poluição farisaica cerimonial.

O lençol zoológico de Atos 10

Outro texto que não seria mal interpretado se as pessoas soubessem a diferença entre akathartos (impureza em si de carnes imundas) e koinos (apenas impureza ritual) é Atos 10.

Pedro viu em visão um lenlol que desceu do céu cheio de quadrúpedes, répteis e pássaros (At 10:11, 12). Deus disse a Pedro: “mata e come” (Atos 10:13). Pedro respondeu: “… Senhor, não, porque nunca comi nada comum (κοινός) e impuro (ἀκάθαρτος)”. E Deus respondeu: “o que Deus purificou, não o chame de comum (κοινός) (At 10:15).

Veja que o diferente uso desses termos nos informa que o que Deus limpou foi aquilo considerado κοινός (koinos) e não o ἀκάθαρτος (atathartos)!

Aqueles animais impuros representavam os gentios, com os quais Pedro não se unia por considerá-los koinos, ou seja, impuros cerimonialmente. Não se pode relacionar esse texto com Levítico 11 porque Pedro não usou o termo atathartos.

Por esta razão, quando Cornélio e sua família se converteram a Cristo e receberam o Espírito Santo, Pedro disse: “… Você sabe o quanto é abominável para um homem judeu se unir ou se aproximar de um estrangeiro, mas Deus me mostrou isso, que ninguém chame outro homem de comum ou imundo “(At 10:28).

A mensagem da Bíblia é clara.

Considerações finais

Para finalizar, devemos considerar algo de muito importante para a devida interpretação de Romanos 14:
Não há um registro sequer, tanto na Bíblia quanto na história, que após essa orientação apostólica em Romanos 14, os cristão de Roma tenham passado a comer carnes imundas e a observar o domingo como dia de guarda.
Perceba que não estou fazendo do inapropriado “argumento do silêncio”, mas destacando um fato, pois uma mudança tão drástica naquilo que a Lei de Moisés ensinava deveria ter nos deixado algum registro histórico de judeus cristãos se revoltando contra Paulo ou aceitando sua nova interpretação.
Por isso, é sensato que todo cristão não veja em Romanos 14 além do que foi dito pelo apóstolo. Consideremos todo o contexto bíblico para darmos a correta interpretação ao texto bíblico e não nos esqueçamos de que a Bíblia de Paulo (assim como a Bíblia de Jesus – ver Lucas 24:27, 44) era o Antigo Testamento. Jamais o apóstolo mudaria algo no texto do livro que era sua regra de fé e prática (Rm 15:4; 2Tm 3:16).
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Leandro Quadros
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