Ignorância e a Liberdade Para a Má-Educação

Ignorância e a Liberdade Para a Má-Educação

Introdução

No artigo de hoje quero lhe mostrar que atacar muçulmanos e generalizá-los é fata de cristianismo, e demonstração de ignorância quanto aos princípios da lógica e da boa retórica.

Afinal, como bem escreveram Tiago Rafael Vieira e Jean Marques Regina:

Aquele que adora o faz com todo o seu âmago e sem limites. Ofender e denegrir o sagrado é um ataque ao mais íntimo do homem […] Atacar sua fé no sagrado é solapar a sua dignidade de ser humano. Essa é a última barreira, o último muro para a bestialidade. Aqui deixamos de ser humanos, para nos tornarmos animais.[1]

Muitos confundem liberdade de expressão com má educação, e isso ocorre por alguns motivos:

  1. Ignorância.
  2. Má fé.
  3. Pouca cultura.
  4. Falta de domínio sobre as próprias emoções.
  5. Falta de uma verdadeira conversão.

Em síntese, você e eu somos livres para expressarmos nossas crenças e opiniões sobre as crenças dos outros, e até discordar delas. Porém, não somos livres – diante de Deus e da lei – para ferirmos a consciência religiosa dos outros.

Em resposta à pergunta feita por juristas, filósofos e intelectuais – “Em razão da liberdade de expressão posso falar e fazer qualquer coisa?”, Thiago Rafael Vieira e Jean Marques Regina na obra Direito Religioso: Questões práticas e teóricas demonstram que a resposta é não:

Entendemos que não e, aqui, damos nossa singela contribuição ao debate. A liberdade de expressão encontra um limite: a dignidade da pessoa humana[2]

Os autores argumentam corretamente que todas as liberdades emanam da dignidade humana e são servas dela, trabalhando para seu crescimento.

Logo, uma instituição religiosa pode ser criticada por suas doutrinas eu certos métodos de evangelização, mas jamais isso deve ferir o sagrado. Este é o alvo de fé e onde o ser humano deposita sua última e mais cara confiança.[3]

Por isso, atacar o senso de sagrado e diminuir pessoas por causa de suas crenças, é um procedimento repulsivo a Deus e não está em harmonia com os princípios do evangelho, entre eles o que ordena “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem…” (Mt 5:44). Se devemos fazer isso pelos inimigos, imagine se não devemos amar um irmão de outra confissão religiosa que não é nosso inimigo, mas apenas discorda de nossas crenças!

Há pessoas na internet, incluindo apologetas e seus seguidores, que por não entenderem que a dignidade humana coloca um limite em nossas palavras, que a consciência religiosa das pessoas deve ser respeita, bem como seu senso do sagrado, onde elas depositam a última e mais cara confiança, atacam sem piedade, fazendo um verdadeiro desfavor ao evangelho.

Por exemplo, um polemista tem atacado o Islamismo de tal forma que podemos nos perguntar se em algum momento ele considerou que está ferindo a dignidade humana, e que não é essa a forma de Cristo ou apostólica de falar das verdades cristãs.

Veja um exemplo bíblico bastante claro.

Em Atos 17:16-32 vemos que Paulo se encontrava em Atenas, onde “ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos” (v. 16). Para evangelizar essas pessoas que estavam longe do verdadeiro Deus e Seu plano de salvação, o texto nos informa que ele “discutia na sinagoga com judeus e com gregos tementes a Deus, bem como na praça principal, todos os dias, com aqueles que por ali se encontravam (v. 17).

Todavia, o tom do discurso de Paulo nos mostra que ele sabia, pelo nível de cultura que possuía, que a dignidade humana é o limite para aquilo que vamos falar aos outros. Se nossa abordagem ferir esse princípio, estamos ofendendo a pessoa, a Deus, e desrespeitando seu senso do sagrado. A ignorância e desrespeito não faziam parte do caráter do apóstolo.

Longe de sair por Atenas dizendo: “todos vocês são idólatras?”; “todos vocês irão para o inferno!”, Paulo de forma educada e cristã, elogiou os atenienses não pela idolatria, mas pela dedicação que eles tinham para com a religião (mesmo sendo errada):

Então Paulo levantou-se na reunião do Areópago e disse: “Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos, pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não o conhecerem, eu lhes anuncio (At 17:22-23).

Recorde-se que antes ele estava indignado com a idolatria, mas ele teve domínio emocional para não deixar transparecer sua indignação e, assim, afastar as pessoas e fechar portas para a pregação.

Em seguida Paulo elogiou os gregos, bem como aquilo de bom que existia neles, o que possibilitou que eles se dispusessem ao menos a ouvir o que ele tinha a dizer sobre Deus, adoração e juízo final.

Definitivamente, se alguns “cristãos” brigões seguissem o método inspirado de Paulo, fariam o mesmo em relação aos muçulmanos:

  1. Assim como Paulo, ficariam indignados com as doutrinas do alcorão que não estão de acordo com a Bíblia.
  2. Elogiaria os trechos do Alcorão que estão de acordo com a Bíblia.
  3. Os elogiaria pela fé e devoção que os muçulmanos têm, pois eles oram 5 vezes ao dia (coisa que muito cristão está longe de fazer).
  4. Os evangelizaria, mostrando que ao contrário de o Corão afirma, Jesus é Deus, os ama e quer salvá-los.

Infelizmente, os brigões parecem desconhecer a abordagem apologética de Paulo que tinha o propósito de defender a verdade evangelizando, não atacando.

Além de atacar o Islamismo, alguns generalizam, dizendo que “todos os muçulmanos são terroristas e assassinos”. Além da falta de um cristianismo atuante na vida, essa postura revela uma profunda ignorância e desconhecimento dos princípios da lógica e da boa retórica.

Ignorância

A ignorância pode ser verificada quando comparamos esse tipo de ataque com aquilo que a Palavra de Deus ensina sobre o poder e uso das Palavras:

Repele de ti a linguagem perversa, afasta de ti a maledicência (Pv 4:24 –  Tradução Ecumênica da Bíblica).

A boca do justo é fonte de vida, mas a dos maus encobre a violência (Pv 10:11, Ibidem).

No falar excessivo não falta pecado; quem modera a linguagem é homem prudente (Pv 10:19).

Onde há um falastrão, há golpes de espada! A língua dos sábios, ao contrário, é um remédio (Pv 12:10).

Quem vigia a boca protege a própria vida; arruína-se quem escancara os lábios (Pv 13:3).

Ao servo do Senhor não convém brigar mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente. Deve corrigir com mansidão os que se lhe opõem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento, levando-os ao conhecimento da verdade, para que assim voltem à sobriedade e escapem da armadilha do diabo, que os aprisionou para fazerem a sua vontade (2Tm 2:24-26 – Nova Versão Internacional).

Enfim, uma pessoa com acesso a tais textos deveria lê-los, arrepender-se e mudar sua forma de abordar aos irmãos muçulmanos ou quem quer que seja.

Leia também:

A Homossexualidade à luz da Bíblia e da Ciência

Desconhecimento da lógica

O desconhecimento dos princípios da lógica fica evidente quando percebemos que a generalização é um tiro no próprio pé de quem a usa. Veja como isso funcionaria:

  • Entre os muçulmanos há terroristas. Portanto, todos os islâmicos são terroristas.
  • Cristãos participaram da Inquisição, que mataram milhares de pessoas. Logo, todos os cristãos são assassinos.
  • Ateus na antiga União Soviética assassinaram por tiro, enforcamento, fome, congelamento ou tortura um total de aproximadamente 170 milhões de pessoas – incluindo idosos e crianças.[4] Logo, todos os ateus são assassinos.

Percebe que generalizar, além de ignorância, é ir contra a lógica, e que não podemos avaliar o todo pela parte? Não devemos jogar fora a criança com a água da bacia..

Desconhecimento da boa retórica

Por sua vez, o desconhecimento da boa retórica também é evidente na forma como alguns tentam persuadir outros a crerem que todos os islâmicos são terroristas. De acordo com Aristóteles (384-322 a.C.):

A persuasão é obtida graças ao caráter pessoal do orador, quando o discurso é proferido de tal maneira que nos faz pensar que o orador é digno de crédito […] Pode-se considerar seu caráter, por assim dizer, o mais eficiente meio de persuasão de que [o orador] dispõe.[5]

De acordo com a Retórica, se algum cristão deseja convencer um muçulmano de que o cristianismo é verdadeiro, deveria falar de tal forma que a pessoa sentisse que tal cristão é digno de crédito. E eu pergunto: um espírito belicoso e um caráter agressivo passam confiança para o público a quem se quer ensinar? Obviamente, não.

Se Cristo Se recusou a proferir “juízo infamatório” [o mesmo que “juízo ofensivo”, “insultos”] contra o diabo (Jd 1:9), não devemos fazer isso com nossos semelhantes. Devemos deixar com Deus a obra de julgar e condenar alguém por causa de suas intenções.[6]

Conclusão

  1. Não confundamos liberdade religiosa ou liberdade de expressão com “liberdade para a má-educação” ou ignorância.
  2. Não imitemos pessoas e debatedores belicosos, pois vários deles terão problemas com a justiça, além de prestarem contas a Deus por ferirem a dignidade das pessoas.
  3. Aprendamos a evangelizar, discutir e a discordar de forma que nosso caráter passe confiança àqueles a quem desejamos persuadir para que sigam a Jesus Cristo.
  4. Além disso, respeitemos a religião dos outros e os tratemos como gostaria de ser tratados, “pois esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7:12).

Clique aqui e veja também meu artigo “3 Razões Bíblicas Para Acolher as Pessoas, ao Invés de Compactuar com a Ignorância Delas”. Veja também o vídeo “O Caráter do Bom Apologeta” clicando aqui.

NOTAS E REFERÊNCIAS

[1] Thiago Rafael Vieira e Jean Marques Regina Direito Religioso: Questões práticas e teóricas, 3ª ed. ampliada e atualizada (São Paulo: Vida Nova, 2020), p. 99.

[2] Vieira e Regina, Direito Religioso: Questões práticas e teóricas, p. 98.

[3] Ibid., p. 99.

[4] R. J. Rummel, Death by Government (New Brunswick: Transaction Publishers, 1994), p. 9.

[5] Aristóteles, Retórica, 1ª ed. (São Paulo: EDIPRO, 2011), p. 45. Livro 1.

[6] Francis D. Nichol, Vanderlei Dorneles (editores). Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 5 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), p. 347. Série Logos.

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