Usos e Costumes

A Bíblia, Ellen G. White e o uso da calça comprida feminina

Introdução

Há algum tempo disponibilizamos em minha página no Facebook um post sobre Deuteronômio 22.5 explicando que o texto não trata da calça comprida em si, mas do travestismo.

Percebendo através de comentários que alguns filhos e filhas de Deus não compreenderam o princípio bíblico tratado no texto, bem como os princípios de modéstia cristã expostos em 1 Timóteo 2.9, 10 e 1 Pedro 3.3,4 (entre outros versos), decidimos fazer algumas considerações sobre o tema, com o objetivo de contribuirmos para a compreensão adequada do texto bíblico.

Por isso, no presente post transcreveremos alguns dos princípios da Bíblia (nossa única regra de fé e prática – Jo 17.17; At 17.11) para o vestuário cristão, e contextualizaremos algumas citações da escritora cristã Ellen G. White que nos levam em direção à um entendimento correto e equilibrado sobre o assunto.

Isso se torna de extrema importância considerando a observação feita por Ellen G. White: de que, infelizmente, em alguns lares “as criancinhas ouvem mais de vestuário do que da salvação”.[1]

O que o texto bíblico diz sobre a calça comprida

A meta hermenêutica (interpretativa) fundamental a ser buscada por todo estudante da Bíblia é compreender o que o autor originalmente tinha em mente quando escreveu o texto. Portanto, como bem apontaram Gordon D. Fee e Douglas Stuart, interpretar a Bíblia “não é ser ‘original’, tentando descobrir aquilo que ninguém viu. É chegar ao sentido claro do texto”.[2]

A tendência de vários cristãos é interpretar Deuteronômio 22.5 como uma advertência de Deus contra o uso de calça comprida por parte das mulheres. Porém, esse não é o caso. Considerando que a calça como vestimenta masculina ou feminina não existia no período em que o texto foi escrito (cerca de 3.500 anos atrás!), é totalmente infundado alegar que Deuteronômio 22.5 proíbe tal vestimenta. Isso faz parte de um procedimento condenado pelos eruditos bíblicos conhecido como “eisegese”, que é o mesmo que colocar no texto ideias pessoais do intérprete. É o “antônimo” de “exegese”, que significa extrair do texto as ideias que o autor original tinha em mente quando o escreveu.

Transcreveremos o texto na Tradução Ecumênica da Bíblia para que o leitor perceba do que realmente trata o verso em questão: “Uma mulher não usará vestes de homem; um homem não se vestirá com um manto de mulher, pois quem quer que assim proceda é uma abominação para o Senhor, teu Deus”.[3]

Destacou-se a palavra “manto” justamente para mostrar que o tipo de vestimenta usada na época não eram calças, ternos, saias, vestidos, etc., mas mantos, túnicas. Naquela época, “não havia muita diferença entre as roupas masculinas e femininas. Uma das principais era que as mulheres usavam o véu, e talvez algumas roupas de cores mais vistosas”.[4]  Além disso, o cinto que prendia a roupa do homem (para facilitar a caminhada) tinha uma cor mais neutra, enquanto que o cinto usado no manto feminino era bem mais colorido.

Portanto, lendo atentamente Deuteronômio 22.5, é fácil perceber que Moisés lida com a questão do travestismo, ensinando que mulher deve se vestir como mulher e homem, como homem.[5] Como destacado por William Coleman, “as mulheres também usavam cinco peças de vestuário, como os homens. E apesar de as diferenças entre as vestes masculinas e femininas serem muito pequenas, elas existiam de fato. Pela lei de Moisés, era proibido que alguém vestisse as roupas do sexo oposto (Dt 22.5)”.[6]

Por isso, os exegetas Gordon D. Fee e Douglas Stuart apontaram acertadamente:

Há, por exemplo, cristãos que baseados em Deuteronômio 22.5, argumentam literalmente que a mulher não deve usar calça comprida nem short. As mesmas pessoas, porém, raras vezes tomam literalmente os demais imperativos daquela lista, que incluem a construção de um parapeito no telhado de casa (v. 8), a não plantação de dois tipos de sementes numa vinha (v. 9), e fazer borlas nos quatro cantos do manto (v. 12). [7]

O que dizer sobre a calça comprida?

Considerando que em nossa cultura ocidental existem calças masculinas e femininas, o princípio realmente ensinado em Deuteronômio 22.5 para nossos dias é que os homens não devem usar calças próprias para mulheres, nem estas usarem calças que são apropriadas para pessoas do sexo masculino. Afirmar que toda calça comprida é um vestuário masculino em nossa cultura ocidental é infundado e, ao mesmo tempo, desconsiderar o propósito principal de Deuteronômio 22.5.

Não há problema algum em uma mulher cristã usar calça feminina no contexto apropriado[8] se sua roupa estiver de acordo com os princípios de modéstia, pureza e decência ensinados em 1 Timóteo 2.9, 10:

“Da mesma forma, quero que as mulheres se vistam modestamente, com decência e discrição, não se adornando com tranças e ouro, nem com pérolas ou com roupas caras, mas com boas obras, como convém a mulheres que declaram adorar a Deus”[9].

Os princípios destacados no texto acima a serem considerados na escolha da roupa feminina são estes:

  • Modéstia
  • Decência
  • Discrição
  • Sem luxo
  • Que não ofusque o que a pessoa é e faça seu corpo aparecer mais do que sua essência e caráter. Ao mesmo tempo, uma roupa com tais características não é sinônimo de desleixo e feiura. O vestuário “deve possuir a graça e a beleza, a conveniência da simplicidade natural. Cristo nos advertiu contra o orgulho da vida, mas não contra sua graça e beleza naturais”.[10]

Há saias e vestidos (e calças femininas) modestos e imodestos. Há saias e vestidos (e calças…) decentes e indecentes. Há saias e vestidos (e calças!) discretos e indiscretos. Há saias e vestidos (sim: e calças) luxuosos e não luxuosos. Resumindo: há saias e vestidos (de novo: e calças…) que chamam mais a atenção para o que a pessoa usa do que para o que ela é.

Perceba que o problema não está no uso de um tipo de roupa, e sim se tal peça do vestuário se harmoniza com os princípios de pureza e modéstia cristã expostos na Palavra de Deus (leia também 1Pe 3.3-5). O Criador não está preocupado se você usará saia ou calça, mas sim se sua roupa estará de acordo com a “moda cristã” ensinada por Ele.

Se você, mulher, escolher uma roupa apropriada para mulheres[11] (saia feminina ou calça feminina) e considerar que tal roupa precisa ser modesta, decente, discreta e sem luxo, estará obedecendo ao mandamento bíblico, além de contribuir para que os homens adulterem menos mentalmente. Sobre isso R. N. Champlin se expressou com muita franqueza:

Mesmo assim, até hoje prefiro que as mulheres crentes usem vestidos; mas tenho de admitir que um vestido é mais sexualmente apelativo do que calças compridas, pelo que, se uma mulher quiser parecer menos atrativa, sexualmente falando, que ela passe a usar calças compridas. Não será isso um ponto em favor do uso de calças compridas por parte das mulheres? Além disso, consideremos que uma mulher com seus longos cabelos soltos, que use um vestido longo bem talhado, fica muito mais atrativa, sexualmente, e assim será mais cobiçada do que uma mulher que use cabelos curtos e calças compridas. Assim, se você quiser reduzir a concupiscência, recomende que as mulheres cortem curto os cabelos e usem calças compridas. Mas é isso o que elas andam fazendo, afinal. O que posso afirmar é que o fato de as mulheres usarem cabelos curtos e vestirem calças compridas pode aliviar muitas tensões.[12]

A opinião de um homem é muito importante, considerando que este é muito mais atraído pelo aspecto visual do que uma mulher.

O uso da calça nos dias de Ellen G. White

Já vimos que uma mulher não deixa de ser uma cristã decente por usar uma calça comprida que tenha sido escolhida com os critérios de Deuteronômio 22.5, 1 Timóteo 2.9, 10 e 1 Pedro 3.3,4.

Porém, algumas pessoas sinceras podem questionar: “mas Ellen G. White não condenou o uso de calça comprida quando escreveu contra o ‘traje americano’”? As orientações para que a mulher não adotasse o “traje americano” se encontram na obra Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 456-466.

Para compreendermos devidamente tais orientações, precisamos fazer ao menos duas coisas: (1) saber no que consistia o traje americano condenado por ela e (2) ler todo o capítulo.

Se dúvidas permanecerem, ou se a pessoa se sentir mais segura buscando fontes autorizadas, um terceiro passo é ler o “Apêndice” preparado pelos Depositários do Patrimônio Literário White. É o que faremos no presente tópico.

Em primeiro lugar, se cremos que Ellen G. White foi uma profetisa usada por Deus para levar nossas mentes de volta à Bíblia, nossa única regra de fé e prática[13], não podemos imaginar que ela tenha ensinado algo que não esteja relacionado com os princípios realmente existentes no texto de Deuteronômio 22.5. Se assim o fizesse, ela teria sido uma falsa profetisa (cf. Ap 22.18-19).

Todavia, quando entendemos os escritos de Ellen G. White contextualmente, percebemos que além de tais escritos exaltarem a Jesus Cristo e a Bíblia Sagrada[14], demonstram total coerência com as Escrituras e não acrescentam (jamais poderiam) “um i ou um til” (cf. Mt 5.17) à Palavra de Deus.

Partindo desses pressupostos, estaremos habilitados para compreender o referido trecho de Testemunhos Para Igreja, vol. 1, no qual ela trata sobre “A Reforma do Vestuário”.

No que consistia o traje americano

Tanto Ellen G. White quando os Depositários do Patrimônio Literário White nos informam o seguinte:

Ellen G. White: “Existe ainda outro estilo de vestido adotado pela classe de supostas reformadoras do vestuário. Imitam o máximo possível o sexo aposto. Usam bonés, calças, coletes, paletós e botas, sendo estas últimas as partes mais destacadas no traje… Consiste de colete, calças e uma peça semelhante a um casaco, que vai até a metade da cocha”.[15]

Depositários do Patrimônio Literário White: “O ‘traje americano’, ao qual se refere a irmã White, era uma modificação do estilo anterior patrocinada pela Dra. Harriet Austin, de Dansville, Nova Iorque. Combinava saia curta, cujo comprimento ia ‘até a metade da coxa’ entre os quadris e os joelhos, com calças de aparência masculina, paletó e colete… Este ‘assim chamado vestuário reformado’ foi mostrado à irmã White em 1864 como sendo inadequado para ser adotado pelo povo de Deus”.[16]

Na identificação do traje americano algumas coisas saltam diante dos olhos do leitor:

  1. O mesmo não consistia somente de calça masculina, mas também no uso de boné masculino, colete, paletó, bota e saia curta.
  2. Que Ellen G. White era contra a masculinização do vestuário feminino.

É totalmente infundado alegar que ela esteja sendo contrária a um tipo de roupa em específico – nesse caso, a calça feminina que existe em nossos dias (repetirmos: tal roupa deve estar de acordo com os princípios de modéstia e pureza de 1 Timóteo 2.9, 10).

Do mesmo modo que a condenação dela ao uso de botas masculinas por parte das mulheres não significa que hoje as cristãs não possam usar botas femininas, sua condenação ao uso de calças masculinas não pressupõe que a mulher moderna não possa usar uma calça feminina.

Por uma questão de coerência, quem critica o uso de calças femininas deveria também criticar (e não usar) botas femininas e nem mesmo bonés femininos. Que Ellen White não condena o uso de botas femininas fica bastante claro no contexto:

“A forma do corpo não deveria ser comprimida, no mínimo que fosse, com espartilhos e cintas. O vestido deve ser totalmente confortável, para que os pulmões e o coração possam desempenhar ação saudável. O vestido deve atingir um pouco abaixo da parte alta da bota, mas curto o suficiente para não varrer a sujeita das ruas e calçadas, sem precisar erguê-lo com a mão. Um vestido ainda mais curto do que esse seria apropriado, conveniente e saudável para as mulheres quando nas lides domésticas, especialmente para as que são obrigadas a executar trabalho ao ar livre”.

Preste bem atenção! Se White num parágrafo condenou o traje americano que tinha bota masculina e noutro aprovou o uso de botas femininas[17], é óbvio que nos dias de hoje ela condenaria a calça masculina para as mulheres e aprovaria as calças (modestas e puras) femininas!

Do mesmo modo que ela recomendou botas femininas, com certeza recomendaria também calças, coletes e bonés femininos. Para serem coerentes com o texto, as pessoas que creem ser todas as calças “roupas masculinas”, deveriam também crer que todos os tipos de botas, coletes e bonés também são masculinos. Na verdade, isso seria uma grande incoerência.

O assunto tratado por Ellen G. White é o travestismo

A leitura contextual e imparcial do capítulo 83 do livro Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, revela que a Sra. White não trata da calça em si (até porque a calça feminina não existia nos dias dela), mas da moda na época que incentivava o travestismo. Como é de se esperar de um verdadeiro profeta, ela se detém no mesmo princípio de Deuteronômio 22.5.

Os princípios e ensinamentos que extraímos através de uma leitura correta do referido capítulo de Ellen White são os seguintes:

  1. Equilíbrio – “…O motivo de eu chamar-lhes novamente a atenção para o assunto do vestuário é que alguns parecem não compreender o que escrevi anteriormente. Alguns que não estão dispostos a crer no que escrevi, estão fazendo esforços para confundir nossas igrejas sobre esse importante assunto. Não se deve dar aos descrentes nenhuma ocasião de desonrar nossa fé. Somos considerados estranhos e singulares, e não devemos adotar uma conduta que leve os descrentes a pensar que o somos mais do que nossa fé requer que sejamos… Foi-me mostrado que Deus requer que tenhamos uma conduta coerente e sensata”.[18]
  1. Rejeitar qualquer tipo de moda que leve a mulher parecer-se com os homens – “Vi que a ordem de Deus foi invertida e Suas orientações especiais menosprezadas por aqueles que adotam o traje americano. Minha atenção foi chamada para o seguinte verso: ‘Não haverá trajo de homem na mulher, e não vestirá o homem veste de mulher; porque qualquer que faz isto abominação é ao Senhor, teu Deus.’ Deuteronômio 22:5. Deus não deseja que Seu povo adote essa pretensa reforma de vestuário. Trata-se de um vestuário ousado, completamente inadequado às modestas e humildes seguidoras de Cristo. Há uma crescente tendência de as mulheres usarem vestuário e adotarem aparência mais semelhantes aos do sexo oposto e escolherem seus trajes bem parecidos com os dos homens. Mas Deus declara que isso é abominação. ‘Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia’. 1 Timóteo 2:9… Esse testemunho me foi dado como reprovação para as irmãs que se sentem inclinadas a adotar um estilo de vestuário criado para os homens. Mas, ao mesmo tempo, foram-me mostrados os males de um estilo comum para as vestes femininas”.
  1. Fazer distinção entre roupas femininas e masculinas, bem como evitar o luxo – “Deus determinou que houvesse clara distinção entre trajes masculinos e femininos, e considerou o assunto de suficiente importância para dar explícitas instruções a esse respeito, pois se o mesmo traje for usado por ambos os sexos, causaria confusão e grande aumento de crime. Se o apóstolo Paulo estivesse vivo e contemplasse as mulheres que professam piedade usando esse tipo de vestuário, pronunciaria a repreensão: ‘Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras’. 1 Timóteo 2:9, 10. A maioria dos professos cristãos, desrespeitam totalmente os ensinos dos apóstolos, usando ouro, pérolas e vestidos custosos”.[19]
  1. Não fazer uso de roupas desconfortáveis e que prejudiquem a saúde, incluindo vestidos muito longos “Cremos não estar de conformidade com a nossa fé vestir-se de acordo com o traje americano, usar saias-balão, ou ir ao extremo de vestir compridos vestidos que varrem as calçadas e ruas. Caso as mulheres usassem seus vestidos deixando um espaço de uma ou duas polegadas entre a sujeira das ruas, seus vestidos seriam mais modestos, e poderiam ser conservados limpos muito mais facilmente e durante mais tempo. Esses vestidos estariam de conformidade com a nossa fé”.[20]
  1. Fazer a escolha da roupa considerando os princípios de saúde e o conforto – “As mulheres devem agasalhar seus membros visando maior saúde e conforto. Seus pés e pernas devem estar protegidos — assim como os dos homes”.[21]
  1. Mesmo não aderindo a modas extravagantes e que prejudicam a saúde, as mulheres cristãs não devem se vestir como “extraterrestres”, tornando-se objeto de zombaria diante dos incrédulos – “As mulheres cristãs não se devem dar a trabalhos para se tornarem objeto de ridículo por vestir diferentemente do mundo. Mas, se seguindo suas convicções de dever a respeito do vestir modesta e saudavelmente, elas se acham fora da moda, não devem mudar de vestuário a fim de ser semelhantes ao mundo; porém manifestar nobre independência e coragem moral para ser corretas, ainda que o mundo inteiro delas difira. Caso o mundo introduza um modo de vestir decente, conveniente e saudável, que esteja em harmonia com a Bíblia, não muda nossa relação para com Deus ou para com o mundo ou adotar tal estilo de vestuário. As mulheres cristãs devem seguir a Cristo e fazer seus vestidos em conformidade com a Palavra de Deus. Devem evitar os extremos. Devem elas adotar humildemente uma conduta reta, apegando-se ao direito por ser direito, sem se preocupar com aplausos ou censuras”.[22]
  1. Não fazer uso das orientações de Ellen G. White como pretexto para criticar o vestuário dos outros – “Existe uma posição intermediária nestas coisas. Oh! possamos todos encontrar sabiamente essa posição e conservá-la! Que todos examinemos nosso coração e neste tempo solene, arrependamo-nos dos nossos pecados e nos humilhemos diante de Deus. A obra está entre Deus e o próprio coração. É uma obra individual, e todos têm muito o que fazer sem ser criticar o vestuário, os atos e os motivos de seus irmãos e irmãs…”.[23]

Perceba nesses princípios listados que a preocupação de Ellen G. White não é simplesmente estilística. Ela vai muito além disso. Além disso, dentre os diversos princípios encontrados nos escritos dela sobre vestuário cristão, a “modéstia aparece como um dos princípios mais importantes para guiar o gosto cristão”.[24]

Também devemos considerar que em Testemunhos Para a Igreja, vol, 1, ela não milita contra um formato específico de roupa (calça, saia, vestido, camisa), até porque ela teria problemas de aplicar isso universalmente. Por exemplo, na Escócia, África e Ásia há roupas masculinas que se assemelham a saias e vestidos. As pessoas de tais culturas não veem tais homens como se estivessem vestidos como mulheres. Até mesmo em nossa cultura, quando vemos um pastor batizar com uma túnica que parece um longo vestido, não entendemos que ele seja um homem se vestindo como mulher. Além disso, nos tempos bíblicos, a veste interior, peça básica do vestuário masculino, era “a túnica, uma espécie de camisa longa, semelhante a um vestido ou a uma camisola de dormir”[25], feita de lã ou linho.

O equilíbrio de Ellen G. White em relação ao vestuário é impressionante.                             Mesmo tendo orientado as mulheres a adotarem um estilo de vestuário em seus dias[26], ela escreveu em 1897:

Algumas supõem que o modelo dado era o modelo que todas deviam adotar. Não é assim. Mas algo simples como esse modelo é o melhor que podemos adotar nestas circunstâncias. Nenhum estilo exato me foi dado como sendo a regra para guiar a todas em seu modo de vestir.[27]

Sobre isso escreveram os Depositários do Patrimônio Literário White:

Com o passar dos anos, os estilos predominantes de vestuário feminino mudaram para melhor, tornando-se mais sensatos e saudáveis. O antigo vestido da reforma de saúde em seu modelo exato não era mais recomendado, mas Ellen White deu sempre um testemunho uniforme a respeito dos princípios fundamentais que deviam orientar o cristão neste mundo. Por isso em 1897 ela escreveu: ‘Estejam nossas irmãs vestidas de maneira simples, como muitas o fazem, usando vestidos de tecido bom e durável, modestos, apropriados para a idade, e não permitam que o assunto do vestido lhes ocupe a mente.[28]

Além de visualizarmos nessa citação princípios adicionais na escolha da roupa, ela recomenda às mulheres não ocuparem a mente com esse tipo de questão, considerando que o evangelho é muito mais amplo em sua mensagem de restauração e transformação.

Como o presente artigo já ficou extenso para a internet, não transcreveremos outros princípios para o vestuário cristão que encontramos nos escritos de Ellen G. White. Quem desejar se aprofundar no assunto, recomendamos a leitura do capítulo 78 da obra Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, intitulado “Extremos no Vestuário” (p. 425-426); do capítulo 62 do livro Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, intitulado “Simplicidade no Vestuário” (p. 628-648).

Também é muito interessante a leitura do capítulo intitulado “Vestuário” na obra A Ciência do Bom Viver (p. 287-294). Por sua vez, os tópicos “Dress and Adornment” (p. 784-786) e “Dress Reform” (p. 776-788) da obra The Ellen G. White Encyclopedia (citada anteriormente), esboçam os princípios gerais para o vestuário encontrados nos escritos da Sra. White.

O que dizer aos travestis?

Qualquer abordagem que ignore a realidade humana do travestismo se torna bastante fragmentada, e não contribui para mostrar a tais pessoas que Deus as ama do jeito que são, e que o evangelho pode mudar a vida delas para melhor (2Co 5.17). Desse modo, quando abordamos essa problemática precisamos lembrar que estamos mexendo com a sensibilidade de pessoas valiosas para Cristo e que sofrem preconceito sem, muitas vezes, entenderem o que Deus requer delas. Afinal, “como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?” (Rm 10.14).

O que dizer a uma pessoa que gosta de se travestir, e que não tenha conhecido antes o princípio bíblico de Deuteronômio 22.5?

Em primeiro lugar, o cristão será reconhecido por sua capacidade de amar os outros do jeito que eles são (Jo 13.35), e jamais fará acepção de pessoas, julgando-se “melhor” ou “superior” (Rm 2.11). Uma pessoa que usa roupas apropriadas para seu gênero à luz das Escrituras[29] e que conhece a Cristo intimamente, abordará o assunto de forma amável (Cl 4.6; 2Tm 2.24-26), elegante e bíblica ao mesmo tempo, não gerando no travesti simplesmente um senso de pecaminosidade, mas alegria por uma graça divina que está disponível a ele, que o ajudará a mudar de vida (2Co 5.17) e a ser feliz de verdade (Jo 14.27; 16.33; Fp 4.4; 1Ts 1.6). Resumindo: o cristão tratará as pessoas do jeito que Cristo as trataria.

Em segundo lugar, o travesti precisa entender que nada poderá fazer sem Cristo (Jo 15.5), pois apenas através da força dEle é que qualquer ser humano – hetero, homossexual, travesti ou transgênero – poderá se tornar o tipo de pessoa que Deus deseja. Ser humano algum pode lutar sozinho. Precisamos de Alguém maior do que nós e esse Alguém é Cristo (Jo 14.6; Mt 11.28-30).

Deve ter um relacionamento com Cristo “em espírito e em verdade” (Jo 4.23, 24) para que consiga “querer e realizar” (Fp 2.13) aquilo que o Senhor lhe pede. Isso leva ao terceiro ponto: o travesti precisa viver impulsionado pelo Espírito Santo e não pela letra da lei, pois “a letra mata e o Espírito vivifica” (2Co 3.6).

O amor atuante do Espírito Santo é que lhe ajudará a viver segundo os princípios divinos (Hb 8.10) e a se tornar uma pessoa feliz com o gênero que Deus lhe deu. A consequência disso será nortear a vida pelo princípio de Deuteronômio 22.5, vestindo-se de modo apropriado ao gênero com o qual veio ao mundo. O Criador deseja isso porque Ele quer sua felicidade e saúde plena, e que desfrute da alegria do ser amado e liberto em Cristo. Afinal, Ele veio a esse mundo morrer numa cruz para que você “tenha vida, e a tenha em abundância” (Jo 10.10).

Portanto, caro leitor travesti, jamais duvide do amor de Deus por você! Adaptando Isaías 55.6 e 8 (Nova Versão Internacional), lhe aconselhamos: “Busque o Senhor enquanto é possível achá-lo; clame por ele enquanto está perto. Volte-se para o Senhor, que terá misericórdia de você; volte-se para o nosso Deus, pois ele dá de bom grado o seu perdão”.

Vá a Jesus assim como está e Ele lhe dará o descanso e a paz que tanto busca: “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo. Deixem que eu lhes ensine, pois sou manso e humilde de coração, e encontrarão descanso para a alma. Meu jugo é fácil de carregar, e o fardo que lhes dou é leve” (Mt 11.28-30, Nova Versão Transformadora).

Referências e notas

[1] Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja, vol. 4 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 643.

[2] Gordon D. Fee e Douglas Stuart, Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica (São Paulo: Vida Nova: 1984), p. 13-14.

[3] Tradução Ecumênica da Bíblia (São Paulo: Edições Loyola e Paulinas, 1995). Ver Deuteronômio 22.5

[4] William L. Coleman, Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos (Venda Nova, MG: Betânia, 1991), p. 66.

[5] Ao tratar de Deuteronômio 22.5, o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 1 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011), p. 1132, explica: “Isto provavelmente seja referência ao costume pagão – comum em alguns lugares atualmente – de simular a troca de sexo com propósitos imorais; homens vestindo roupas de mulher, imitando seus trejeitos e oferecendo seus corpos para fins imorais […] Deus criou homem e mulher, e a distinção ordenada deve ser honrada e obedecida. O desejo de minimizar a diferença é resultante de baixos ideais e contribui para a imoralidade”.

[6] Ibid.

[7] Fee e Stuart, Entendes o que lês?, p. 18.

[8] Isso é de certo modo relativo. Em alguns lugares as mulheres adotam na igreja como roupa de culto um terninho feminino folgado no corpo, elegante, modesto e puro, que não possui a mínima possibilidade de mostrar a marca da calcinha, por exemplo. Isso demonstra que há outras roupas femininas que podem ser mais condizentes com os princípios cristãos que muitas saias ou vestidos compridos que acentuam as peças íntimas. Com isso não estamos dizendo que as cristãs devam ser promotoras de discórdia entre as irmãs de suas igrejas locais, que culturalmente são condicionadas a usar saia. Deve haver um respeito mútuo de ambas as partes e uma consideração respeitosa para com a consciência moral e religiosa dos outros. Inclusive nesse tipo de caso, Romanos 14.1-23 deve ser considerado e obedecido.

[9] Bíblia de Estudo Temas em Concordância, Nova Versão Internacional (Rio de Janeiro: Central Gospel, 2000). Ver 1 Timóteo 2.9, 10.

[10] White, A Ciência do Bom Viver, 10ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 289.

[11] Referimo-nos ao contexto social. É claro que no convívio íntimo com o marido, a mulher deve investir na intimidade sexual, vestindo-se de maneira muito atraente e sensual para seu esposo, que é fortemente atraído pelo aspecto visual (os homens, por sua vez, têm de contribuir sendo românticos ao longo do dia e estando bem arrumados, limpos e cheirosos). Obviamente, marido e mulher têm de entrar num consenso amigável para que ambos se sintam à vontade e estimulem um ao outro sem que a consciência moral individual seja agredida. O princípio da satisfação sexual entre marido e mulher, como esboçado por Paulo em 1 Coríntios 7:2-5, deve reger a vida conjugal.

[12] Russell Norman Champlin, O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, vol. 2, 2ª ed. (São Paulo: Hagnos, 2001), p. 837. Ver Deuteronômio 22.5.

[13] Sabiamente Ellen G. White recomendou: “Recomendo-vos, caro leitor, a Palavra de Deus como regra de vossa fé e prática. Por essa Palavra seremos julgados. Nela Deus prometeu dar visões nos ‘últimos dias’; não para uma nova regra de fé, mas para conforto do Seu povo e para corrigir os que se desviam da verdade bíblica” – Primeiros Escritos, 10ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 78.

[14] Leia, por exemplo, o livro Caminho a Cristo, disponível no site www.cpb.com.br

[15] White, Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, 2ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 459 e 465.

[16] Depositários do Patrimônio Literário White. Veja-se “Apêndice” na obra supracitada, p. 717-718.

[17] A citação a seguir é bem esclarecedora: “A principal dificuldade na mente de muitos é o comprimento do vestido. Alguns insistem em que a expressão “o cano da bota” faz referência ao alto das botas usadas pelos homens, que alcançam quase até os joelhos. Se fosse costume das mulheres usar tais botas, então essas pessoas não teriam responsabilidade em entender o assunto dessa maneira. Mas as mulheres geralmente não usam tais botas. Elas, portanto, não têm o direito de entender como pretendem o que escrevi” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 462.

[18] Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 456.

[19] Ibid., p. 460.

[20] Ibid., p. 458.

[21] Ibid., p. 459. Na mesma página Ellen G. White apresenta cinco razões para as mulheres não usarem um vestido muito longo: (1) É extravagante e desnecessário ter o vestido tão longo, varrendo a sujeira das calçadas e ruas; (2) Um vestido assim longo absorve o orvalho da grama e a lama das ruas, tornando-se assim uma falta de asseio; (3) Assim enlameado, o vestido entra em contato com os tornozelos sensíveis, os quais não estão protegidos de modo conveniente, esfriam-se rapidamente arriscando a saúde e a vida. Eis aí algumas das maiores causas de produção de catarro e inchações escrofulosas; (4) O comprimento exagerado é um peso adicional aos quadris e intestinos; (5) Embaraça o andar e às vezes atrapalha o movimento de outras pessoas.

[22] Ibid., p. 458-459. Grifos acrescidos.

[23] Ibid., p. 465.

[24] Denis Fortin e Jerry Moon, edts. The Ellen G. White Encyclopedia (Hagerstown, Maryland: Review and Herald Publishing Association, 2013), p. 785.

[25] Coleman, Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos, p. 61.

[26] Veja o capítulo 88 intitulado “O Traje da Reforma” (p. 521-525) na obra Testemunhos Para a Igreja, vol. 1.

[27] Carta de E. G. White, Nº 19, 1897. Citada no livro The Story of Our Health Message, p. 145. Grifos acrescidos.

[28] Ibid., 146. Grifos acrescidos.

[29] Ao contrário da tendência atual de nossa sociedade, Gênesis 1.27 e 2.22-24 faz sim distinção entre gêneros: masculino e feminino. Além disso, a Bíblia associa inseparavelmente o gênero ao sexo biológico, não fazendo distinção entre os dois. Desse modo, o cristão aceitará a opinião do Criador (At 5.29), não a opinião de criaturas equivocadas. Contudo, a Igreja Adventista do Sétimo Dia reconhece que um trabalho especial precisa ser feito com os transgêneros que sofrem pelo desalinhamento entre o físico e/ou mental-emocional. Eles precisam conhecer o amor e a graça de Jesus disponíveis a eles. Um documento com a visão teológica da igreja sobre o tema, visão essa bastante amorosa e sensata à luz do texto bíblico, foi aprovado em abril de 2017 e se encontra disponível em: http://noticias.adventistas.org/pt/noticia/comportamento/igreja-adventista-vota-declaracao-sobre-transgeneros/ (Acessado em 19/04/2017).

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7 comments

  1. Artigo fantástico e esclarecedor!

  2. Concordo plenamente temos que ter equilíbrio e analisar o texto no seu contexto.

  3. otimo,bem explicado,espero que sirva para abrir os olhos de muitos!

  4. Que artigo infeliz! Deus tenha misericórdia @

    1. Fernanda: não é correto você dizer que um artigo foi infeliz sem apresentar provas contrárias ao mesmo. Abra seu coração para outras verdades e viva os princípios da Palavra, a essência daquilo que Deus ensina. Deus a ilumine.

  5. Para mim que ainda não recebi o batismo e já frequento a igreja adventista. Foi muito esclarecedor este texto.

    1. Fico contente em saber, Cris. Grato por seu retorno!

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