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Dicionário Brasileiro de Teologia demonstra que a “alma” é mortal

Introdução

Cada vez mais teólogos protestantes (e também católicos) têm reconhecido que o conceito bíblico de “alma” difere radicalmente daquele apresentado pela filosofia grega e popular.

Oscar Cullmann apontou em sua obra Imortalidade ou Ressurreição? que enquanto o dualismo grego acreditava ser o corpo a “prisão da alma”, a Bíblia ensina que este é, na verdade, o “templo do Espírito Santo” (1Co 6.19.20).[1]

Enquanto na concepção grega o corpo é inferior, na Bíblia ele é objeto da redenção e da transformação (1Co 15) por ocasião da segunda vinda de Cristo e da ressurreição dos mortos (1Ts 4.13-18).

Portanto, para as Escrituras, como bem apontou Cullmann – não existe salvação fora do corpo:

“Nós não somos libertados do corpo; pelo contrário, o próprio corpo é libertado”.[2]

Teólogos brasileiros também têm negado o dualismo grego

Sob a coordenação de Fernando Bortoletto Filho, a Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE) publicou um dos trabalhos mais importantes e significativos para a teologia brasileira: o Dicionário Brasileiro de Teologia.[3]

Além do conselho editorial dar um exemplo de academicismo e de imparcialidade para muitas editoras cristãs, quando escolheu um teólogo adventista do sétimo dia para escrever o verbete “Adventismo” (o Dr. Alberto R. Timm), os referidos teólogos proporcionaram ao público brasileiro a oportunidade de conhecerem o verdadeiro sentido bíblico do termo “alma”.

A seguir disponibilizarei para você alguns trechos da explicação do Dr. Nélio Schneider[4], um dos colaboradores para a produção da referida obra e autor do verbete “Alma (corpo, espírito).” Os grifos em negrito foram acrescidos por mim.

Você perceberá que a crença no sono da alma é a única que se harmoniza com a antropologia bíblica, que ensina ser a natureza humana integral, holística, incapaz de existir sem o funcionamento harmônico de todos os aspectos do ser: o físico, mental e espiritual (1Ts 5.23-24).

Alma (corpo, espírito)[5]

Veja a seguir o que Nélio Schneider apresentou sobre o tema:

“A definição lexical de alma abrange um amplo espectro de significados. Curioso que seu significado primeiro é “princípio de vida” no ser humano e nos animais (Dicionário Houaiss). No entanto, no uso filosófico e religioso, alma designa comumente uma parte do ser humano diferente e geralmente contraposta ao corpo, implicando uma tensão ou um antagonismo interno no ser humano.

“O uso dos termos alma/espírito é revelador de uma determinada concepção antropológica. Na perspectiva bíblica, o ser humano não consiste de duas ou até mesmo de três partes; alma e espírito tão pouco constituem funções ou princípios especiais do ser humano, localizados dentro do corpo e que o distinguiriam do ser animal.

“O ser humano constitui uma unidade viva, um “ser vivente” (Gn 2.7; não uma “alma vivente”, como encontramos na tradução de João Ferreira de Almeida), que, como tal, está em relação com o mundo circundante, com seu semelhante, consigo mesmo e com Deus.

A Bíblia tem como pressuposto a indivisibilidade do ser humano, ou seja, sua integridade essencial; isso quer dizer que a existência humana jamais poderá ser parcial e continuar sendo existência humana […]

“O corpo indica a materialidade (visibilidade, tangibilidade, historicidade) do ser humano vivo, ao passo que a alma, nefesh/ruah (hebraico) e psyqué/pneuma (grego), aponta para a sua dimensão dinâmica, vital, ativa, intangível, invisível […]

“ O corpo não é mais importante que a alma nem a alma mais importante que o corpo, até porque não se pode conceber uma visão isolada de ambos. Uma dimensão não tem existência sem a outra. Assim, biblicamente, a alma seria o sopro vital, o espírito da vida, o princípio da vida ou simplesmente a vida.

Não se trata de novidade constatar que nossa cultura não pensa biblicamente. Predomina, antes, uma visão antropológica de duas partes (alma e corpo) ou três partes (corpo, alma e espírito), caracterizada por uma dualidade ou até uma dicotomia entre os elementos que compõem o ser humano […] Sendo a alma ou o espírito considerado o elemento eterno e imortal, este naturalmente recebe uma valorização maior do que o corpo transitório e mortal. Essa visão tem seu fundamento na filosofia grega antiga, mormente em Platão […].

“Obviamente essa concepção grega e platônica influenciou o cristianismo no decorrer de sua história comum e acabou por determinar a interpretação bíblica, impingindo-lhe a concepção da imortalidade da alma e o consequente desprezo do corpo mortal, principalmente na sua dimensão sexual […]

Biblicamente a transitoriedade e mortalidade do corpo implicam a transitoriedade e mortalidade da alma, pois se tem uma concepção do ser humano integral. Inversamente a valorização da alma como princípio da vida e da espiritualidade implica valorização do corpo como templo da habitação divina, primeiro em Jesus Cristo e depois na comunidade cristã como corpo de Jesus Cristo […]

“A condição transitória e mortal do ser humano como criatura de Deus estende-se, portanto, a todo o ser, ou seja, também à alma. Quando o ser humano sofre em seu corpo, sofre também em sua alma; quando se abate a sua alma, curva-se também o seu corpo; quando o corpo tem prazer, alegra-se também a sua alma; quando a alma se eleva, ergue-se também o seu corpo […]

Não há existência humana viável da alma sem o corpo nem do corpo sem a alma. De tal modo isso é verdade que a ressurreição após a morte é concebida como ressurreição na forma de “corpo espiritual” (1Co 15.44).

“Recupera-se, com isso, decididamente uma fala antropológica fundada na integralidade do ser humano, contrapondo-se ao desprezado do corpo a sua valorização e significado […]”.

Que dizer, por exemplo, do relato do rico e Lázaro?

Alguém pode ser tentado a argumentar que Lucas 16.19-31 é uma narrativa histórica e não uma parábola pelo fato de ser esta a única que dá nome a uma pessoa (nesse caso, Lázaro). Desse modo, se um nome próprio foi usado, isso seria prova de que Jesus não contou uma parábola, mas uma história real.[6]

Porém, outro teólogo protestante, Grant R. Osborne, em sua excelente obra intitulada A Espiral Hermenêutica, além de argumentar que o relato é sim parabólico, citando Darrell L. Bock refutou a alegação quanto ao uso do nome próprio:

“Não fundamente doutrinas com base em parábolas sem conferir detalhes comprobatórios em outro lugar […] Por exemplo, a parábola do homem rico e Lázaro (Lc 16.19-31) é tomada muitas vezes como prova de um inferno compartimentado. Porém, semelhante tipo de doutrina não se encontra no ensino de Jesus em Lucas, e, na verdade, em nenhuma outra parte das Escrituras. Logo, a ambientação no inferno é algo específico da parábola, e não dogma, e isso não deve ser forçado no texto em demasia.

“Alguns tentam resolver isso argumentando que se trata de uma narrativa histórica, uma vez que é a única ‘parábola’ nomeando personagem. Entretanto, ela começa precisamente como a parábola anterior a Lc 16.1-8: ‘Havia um homem rico que…” e é Lázaro o nomeado, em vez do homem rico, pois o nome dá um significado à pessoa (em contraste com o homem rico, que não tem nome e, portanto, nenhuma significação!), e Lázaro quer dizer ‘Deus ajuda’, um tema importante da parábola”.[7]

Percebe, caro leitor, que a crença na mortalidade da alma ou a interpretação de Lucas 16.19-31 como sendo parábola, não são características de “movimentos sectários”, como alegam apologistas desinformados e/ou tendenciosos?

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Referências e notas

[1] Oscar Cullmann, Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? O Testemunho do Novo Testamento (Artur Nogueira, SP: Centro de Estudos Evangélicos, 2002), p. 22.

[2] Cullmann, Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?, p. 26.

[3] Fernando Bortolleto Filho (org.) Dicionário Brasileiro de Teologia (São Paulo: ASTE, 2008).

[4] Ele é coordenador da pós-graduação e pesquisador na área de teologia na Escola Superior de Teologia (EST), de São Leopoldo-RS (1992-2000). Desde 2000 é tradutor e revisor de livros técnicos em tempo integral, especialmente nas áreas de teologia e filosofia – Disponível em: http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Autores/visualizar/nelio-schneider (consultado em 05 de julho de 2017).

[5] Filho, Dicionário Brasileiro de Teologia, p. 30-31.

[6] Uma explicação mais detalhada da parábola do rico e Lázaro, bem como uma refutação às alegações da Bíblia Apologética de Estudo (Jundiaí, SP: Instituto Cristão de Pesquisas, 2000) pode ser lida em minha obra Na Mira da Verdade, vol. 1, p. 47-50. O livro pode ser encontrado no site www.lerstore.com.br

[7] Grant R. Osborne, A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica (São Paulo: Vida Nova, 2009), p. 392.

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