Textos Difíceis

Cravados na Cruz (Efésios 2:14, 15)

Por Nelson Wasiuk
Tradução: Mauricio Mancuzo
Revisão: Leandro Quadros

Introdução

Existe uma discussão muito grande sobre o que Cristo “cravou na cruz” (Efésios 2:14,15). Muitas pessoas, incluindo adventistas, dizem que foi apenas a “Lei cerimonial”. Este conceito não está de todo errado, sendo que esse aspecto cerimonial da Lei terminou com sacrifício de Cristo. As cerimônias prefiguravam o plano de Salvação e a morte do Salvador substituto (compare Levítico 22:20 com João 1:20), de modo que após o encontro entre o símbolo (sacrifícios cerimoniais) e a realidade (o sacrifício de Cristo), toda pedagogia (sistema cerimonial) usada para ensinar sobre o plano de salvação, foi substituída por outro sistema pedagógico (vida e obra de Cristo).

Em contrapartida, muitos irmãos evangélicos dizem que o que foi cravado na cruz foram os 10 mandamentos. Porém, frequentemente temos abordado que os 10 mandamentos seguem vigentes. Todavia, como entender a palavra “ordenanças” em Efésios 2:15? Não estaria ela indicando que a Lei foi abolida por Jesus?

O contexto de Efésios 2:14, 15

A análise de todo capítulo revela que Cristo aboliu a inimizade entre judeus e gentios. Guardar os mandamentos não produz inimizade alguma; a verdade é que, desobedecer aos mandamentos é que produz inimizade, e isso se dá em dois aspectos:

  • Inimizade entre os seres humanos: se transgredimos os últimos seis mandamentos do Decálogo (veja Êxodo 20). Se roubarmos, adulterarmos, mentirmos, cobiçarmos, etc, certamente machucaremos e/ou feriremos outras pessoas.
  • Inimizade com Deus: se transgredimos aos quatro primeiros mandamentos do Decálogo, feriremos a Deus. “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça” (Isaías 59:2).

Então, quais leis ou mandamentos causam inimizade em Efésios 2:14, 15?

Paulo tinha a missão de pregar aos gentios e, sendo que muitas leis judias causavam grande inimizade e discriminação contra eles (uma delas era a circuncisão), Paulo foi enfático contra a validade desta prática depois da morte de Cristo. Para ele, o que tem real valor é a circuncisão “do coração” (Romanos 2:28, 29. Ver também Jeremias 4:4). Em Romanos 2 ele deixa muito claro que, se alguém desobedece aos mandamentos, de nada vale a circuncisão feita na carne.

Essa e outras ordenanças, sem sentido para os gentios que já viviam numa época em que Cristo já tinha morrido na cruz, eram uma carga muito grande na hora de evangelizá-los. Tal sistema pedagógico antigo gerava mais confusão que bons recursos didáticos.

Por outro lado, os mesmos apóstolos, no início, se opunham a levar o evangelho aos gentios. Isso foi motivo de desavença entre Pedro e Paulo até que Deus, em uma visão dada a Pedro, o fez entender que todos são merecedores da Salvação (Atos 10, 11). Mais adiante, em Atos 15, discutindo sobre a circuncisão, o mesmo Pedro disse que esse conceito (salvação não somente para os judeus, sem a necessidade de se circuncidar para pertencer ao povo de Deus) era muito difícil de ser aplicado (leia também 1 Coríntios 7:19).

A circuncisão era a parte externa do pacto de Deus com Abraão: de que através de sua descendência viria o Messias (Gálatas 3). Entretanto, em nenhum momento esse pacto contemplou a vigência ou não dos 10 mandamentos, pois o aspecto moral da Lei não depende da existência ou não de seu aspecto cerimonial.

O que foi cravado na cruz

Sabemos que nossos pecados nos separam de Deus (Isaías 59:2), e que o único salário que merecemos por eles é a morte eterna (Romanos 6:23; ver Ezequiel 18:4, 20). Devemos à Lei do Legislador Divino nossa própria vida. Foi esse débito, “escrito de dívida” mencionado em Colossenses 2:14, que Jesus cancelou na cruz. Seja em seu aspecto moral ou cerimonial, a Lei não pode mais nos condenar à morte eterna se Jesus for nosso substituto e advogado (João 3:36; 1 João 2:1,2). No calvário, Cristo pagou o “escrito de dívida” ou “nota promissória” porque jamais poderíamos pagar. A morte de Jesus em nosso lugar saldou essa dívida que tínhamos para com Deus e Sua santa Lei (João 3:16. Leia também 2 Coríntios 5:21, 1 Pedro 2:24 e Efésios 5:2) e agora podemos viver em paz através da fé em Cristo, nosso justificador (Romanos 5:1).

Sim, amigo: você e eu temos uma dívida muito grande. Paulo, em sua carta magistral aos Romanos, deixa isso bem claro nos capítulos 7 e 8: o pecado nos escraviza e nos leva à morte. Para exemplificar isso, Paulo usou a expressão “corpo de morte”, que para seus interlocutores possuía um significado latente: na época, uma forma de punição era amarrar um cadáver nas costas de um condenado, e este deveria carregá-lo até que a infecção do cadáver viesse a matá-lo. O pecado é nossa sentença de morte, lenta e dolorosa, e somente Cristo pode retirar este peso de nós (Romanos 8). Porém, a boa notícia é que, em 2 Coríntios 5:17, Paulo diz que ao aceitar a Cristo somos “novas criaturas. Desse modo, o “corpo morto pendurado” em nossas costas foi tirado de nós e carregado por Jesus!

As últimas palavras de Cristo na cruz são traduzidas em algumas versões da Bíblia como “está consumado”. A palavra grega é tetelestai (“está consumado”) também significa “está pago”. Logo, o que texto está ensinado é que Cristo saldou por completo nossa dívida na Cruz.

Portanto, o que Cristo saldou e aboliu na cruz foi a nossa dívida para com a Lei de Deus, não a Lei em si. Graças à morte substitutiva de Jesus, essa dívida foi cravada na cruz. Por seu sacrifício, Ele abriu a porta da salvação para todos os que quiserem (Apocalipse 22:17) entrar, sejam brancos, negros, homossexuais, heterossexuais, pobres e ricos (João 3:16).

Pela fé, vá até a cruz, olhe para Cristo (Hebreus 12:1, 2) e veja seus pecados cravados nela. Louve a Deus por Sua bondade e permita que o Espírito implante o caráter obediente de Jesus em você (Hebreus 8:10; Romanos 8:29).

 

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