Em que sentido Jesus é “as primícias dos que dormem”?

Em que sentido Jesus é “as primícias dos que dormem”?

Elias Soares de Moraes alega que se Jesus é “as primícias dos que dormem” (1Co 15:20), ou seja: “o primeiro a ressuscitar para nunca mais morrer”, Moisés não poderia ter ressuscitado antes dEle. Mesmo que “primícias” se refira também à ordem cronológica, não é esse o sentido aplicado a Cristo em 1 Coríntios 15:20. Você verá mais detalhes sobre isso no artigo “1 Coríntios 15 e as Primícias”, escrito por Sérgio Monteiro e disponibilizado no Apêndice A desse e-book. Porém, quero lhe dar algumas informações iniciais desde já.
Quando o texto bíblico diz que Cristo é “as primícias dos que dormem”, o contexto esclarece que é no aspecto figurado, no sentido de principal. É no mesmo “contexto”, diríamos assim, em que a Bíblia fala de Cristo como “primogênito da criação” em Colossenses 1:15. Se entendermos “primícias” no sentido literal como significando que Cristo foi o “primeiro que ressuscitou para não mais morrer”, temos que entender Colossenses 1:15 como ensinando que Cristo foi o “primeiro a ser Criado”. Sabemos que isso é uma heresia.

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A argumentação de Elias Soares e outros apologistas como João Flávio Martinez, do Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP), não resiste à uma breve análise contextual e linguística. O texto de 1 Coríntios 15:23 – que obviamente se encontra no mesmo contexto de 1 Coríntios 15:20 – demonstrará esse fato: “Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda”
A palavra em negrito – ordem – foi destacada para o leitor perceber em que contexto linguístico se encontra a segunda palavra em destaque – primícias. O termo grego para “ordem” é tagma e, segundo o Dicionário do Grego do Novo Testamento, significa “ordem”, “turno”, “classe” .
Por sua vez, o Theological Dictionary of the New Testament explica sobre o termo: “No NT, a única referência está em 1Co 15:23, onde o significado mais provável é “ordem”, “posição”, “classificação””. Para o referido dicionário, “é altamente possível que o sentido” da palavra tagma seja “cada um em sua ‘posição’, ‘ranking’”.
Desse modo, quando Cristo é chamado de “primícias”, o texto não diz que ele foi “primeiro em uma ordem cronológica”, mas “o primeiro de uma classe”, ou seja: Ele é o primeiro de uma ordem ou turno especial, obviamente no sentido de importância – não cronológico.
O termo “primícias” em 1 Coríntios 15:20, 23, segundo a Bíblia de Estudo Genebra , possui um significado mais metafórico, com o propósito de demonstrar que a ressurreição de Cristo é a mais importante e especial, pois dela depende a ressurreição de todos os justos mortos:

Primícias – essa metáfora se baseia na ordenança do Antigo Testamento, que pedia aos israelitas para trazerem ‘um molho das primícias da vossa messe ao sacerdote’ (Lv 23:10). Essa oferta indicava o reconhecimento, por parte do ofertante, de que toda a colheita pertencia a Deus. Assim, Paulo utilizou essa expressão para enfatizar, por exemplo, que os cristãos, ao receberem o Espírito, recebiam a garantia da sua ressurreição futura […] A questão aqui é que a ressurreição de Jesus e a ressurreição dos cristãos não são coisas separadas, desconectadas. Pelo contrário, Jesus foi ‘o primeiro da ressurreição dos mortos’ (At 26:23), e é esse fato que torna possível a ressurreição dos cristãos. Uma vez que Cristo, como representante do seu povo, ressuscitou, assim também o cristão foi ressuscitado espiritualmente […]

Leon Morris destaca:

As primícias compreendiam o primeiro feixe da colheita, que era trazido ao templo e oferecido ao Senhor (Lv 23:10, 11). Num sentido, ele consagrava toda a colheita. Além disso, primícias implica na existência de frutos posteriores. Ambas as ideias vão ao ponto aqui. Cristo não foi o primeiro a ressuscitar dos mortos. Na verdade, Ele próprio ressuscitara a alguns. Mas estes tinham que tornar a morrer [cremos que Moisés foi ressuscitado, mas poderia tornar a morrer se Cristo no Getsêmani desistisse]. A ressurreição de Cristo foi para uma vida que não conhece a morte, e, neste sentido, Ele foi o primeiro, o precursor de todos os que haveriam de estar nele. Hodge vê na comparação com as primícias a ideia de que ‘a ressurreição de Cristo é um penhor e uma prova da ressurreição do Seu povo’.

Vê-se que Morris, em parte, concordaria com a explicação do Pr. Soares. Obviamente não concordaria totalmente, pois Morris explica que a ênfase principal de primícias, quando aplicada a Cristo, significa que por meio de Sua ressurreição, Ele consagra todos os mortos nEle para apresentá-los a Deus. Citando outro comentarista, Morris explica que Cristo é as “primícias dos que dormem” no sentido de ser o penhor, a garantia de que todos os que O aceitaram como Salvador serão ressuscitados. Isso leva a crer que, mesmo bem-intencionado, o Pr. Elias Soares seguiu uma linha de raciocínio na interpretação de “primícias” que não faz parte do raciocínio de Paulo em 1 Coríntios 15:20.
Seria importante o prezado Pr. Soares atentar para o fato de que esse comentário publicado pela Vida Nova está em harmonia com a posição do Comentário Bíblico Adventista a respeito de 1 Coríntios 15:20:

O molho das primícias da colheita tipificava a Cristo, as ‘primícias’, ou promessa, da grande colheita que se seguirá quando todos os justos mortos forem ressuscitados na segunda vinda de Jesus (ver 1Co 15:23; 1Ts 4:14-16) […] Assim como as primícias eram uma promessa e uma certeza da reunião de toda a colheita, também a ressurreição de Cristo é uma promessa de que todos os que confiam nEle serão ressuscitados dos mortos.

Já a Bíblia de Estudo Plenitude apresenta posicionamento parecido: “As primícias são a primeira parte madura da colheita, fornecendo provas reais de que a colheita inteira está a caminho. De acordo com Lv 23:4-14, as primícias, em conexão com a Páscoa, eram usadas para consagrar a colheita que chegaria. Jesus morreu na Páscoa e sua ressurreição é uma promessa de nossa própria ressurreição”.
Lamentável é a insinuação do Pr. Soares em sua última obra , de que o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 1, p. 676, concorda com a opinião dele de que Cristo foi o “primeiro em ordem cronológica”, sendo que o referido comentário, no vol. 6, destaca claramente o sentido figurado da expressão. Também lamentável é o fato dele desconsiderar a explicação do comentário bíblico adventista no vol. 6, p. 475, referente à Atos 26:23 que contradiz abertamente a alegação dele:

O primeiro da ressurreição. Cristo é ‘as primícias dos que dormem’ (1Co 15:20) e ‘o primogênito de entre os mortos’ (Cl 1:18). Ele também foi o primeiro a proclamar que os mortos viveriam pela fé nEle (Jo 5:21-29; 11:23-26). Cristo não foi o primeiro da história a ressuscitar dos mortos. Moisés foi o primeiro nesse sentido (Lc 9:28-30; Jd 9). Cristo é o ‘primeiro’ em preeminência e por ser o Autor da Vida (Cl 1:15, 16; 3:4) […].

Portanto, ao contrário do que Soares alega , o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia explica que Cristo é as primícias dos que dormem não no sentido cronológico, mas de importância: é só por causa da ressurreição dEle que todas as pessoas puderam e poderão ser ressuscitadas.
Por isso, se outros ressuscitaram antes de Cristo, Moisés também poderia. “Assim como as primícias eram uma promessa e uma certeza da reunião de toda a colheita, também a ressurreição de Cristo é uma promessa de que todos os que confiam nEle serão ressuscitados [colhidos] dos mortos”.

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Leandro Quadros
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1 Comentário

  1. Olá Professor Leandro. No livro de Mateus, no capítulo 27, está escrito que logo após a morte de Jesus, muitos foram ressucitados (E abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados;Mateus 27:52), se isso aconteceu antes da ressurreição de Jesus, poderia tranquilamente ter ocorrido com Moises, e note que os que ressucitaram, estavam já mortos em suas sepulturas, correto? Parabéns pelo excelente trabalho, que o Espírito Santo continue a te guiar.

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