A Predestinação em Marcos 4:11-12: Um Mito

A Predestinação em Marcos 4:11-12: Um Mito

Introdução

Lemos em Atos 17:30 que Deus “ordena que todas as pessoas, em todos os lugares, cheguem ao arrependimento”, o que parece contradizer Marcos 4:11-12, que diz:

Então, lhes revelou: “A vós foi concedido o mistério do Reino de Deus; aos de fora, entretanto, tudo é pregado por parábolas, com o propósito de que: ‘mesmo que vejam, não percebam; ainda que ouçam, não compreendam, e isso para que não se convertam e sejam perdoados’” (Versão King James Atualizada).

Para os que creem na dupla predestinação, em Marcos 4:11-12 Jesus estaria confirmando tal doutrina. Entretanto, se não desconsiderarmos Atos 17:30, o contexto de Marcos 4 e alguns textos paralelos, veremos que os predestinistas precisam com humildade reconhecer que viram no texto algo que ele não disse.

 

Pistas para a interpretação de Marcos 4:11-12

Temos 3 pistas importantes para compreendermos corretamente o texto em discussão:

1ª pista: O verso 10 de Marcos 4.

2ª pista: O texto de Isaías 6:9-10 juntamente com Isaías 1:2-4;

3ª pista: O texto paralelo de Mateus 13:15, que assim como Marcos 4:11-12, trata do mesmo assunto.

Atente para cada uma delas no restante desse post.

Análise contextual de Marcos 4:11-12

Em Marcos 4:10-20 Jesus está explicando a parábola do semeador, contada nos versos anteriores (1-9). No verso 10 obtermos a primeira pista para a interpretação que se distancia – e muito – daquele oferecida por calvinistas.

Diz o texto que “quando se afastaram das multidões”, os doze discípulos “e alguns outros que o seguiam” pediram a Jesus que elucidasse a parábola. Perceba que muitos ouviram a pregação de Cristo, mas apenas uns poucos realmente estiveram dispostos a aprenderem.

Isso não indicaria que Deus “predestinou” que somente esses poucos compreendessem a mensagem e aceitassem a Cristo?

Não, pois se o oferecimento da salvação é universal (leia 1Tm 2:1-4), não haveria lógica em pregar para todos. Seria muito mais coerente e produtivo Cristo pregar diretamente àqueles que foram “predestinados”.

Desse modo, o texto revela que apenas uns poucos estiveram realmente interessados, e que o desinteresse da multidão não é atribuído à predestinação da parte de Deus.

A segunda pista para a correta interpretação encontramos em Isaías 6:9-10, por ser este o texto usado por Marcos:

Ele me respondeu: ‘Vai e dize a este povo: Podeis ouvir constantemente, mas não haveis de compreender; podeis ver e continuar a ver sempre, contudo jamais percebereis! Embota o coração deste povo; torna esta gente incapaz de escutar os seus ouvidos e tapa-lhe os olhos. Que essas pessoas não enxerguem com os olhos, não consigam ouvir mediante os ouvidos, e não possam entender com o coração, a fim de que não recebam a conversão e se tornem sãos!”

Você pode estar se perguntando: “mas de que maneira Isaías 6:9-10 ajudou na compreensão? Não reforçou a ideia de que Deus predestina pessoas para que se tornem duras e venham a se perder?”

Não seja tão rápido em sua conclusão. Antes, leia o que Isaías nos informa alguns capítulos antes, para que possa compreender devidamente o que Deus quer nos transmitir tanto em Isaías 6:9-10 quanto em Marcos 4:10-11. Destacarei algumas palavras para facilitar a análise:

Ouvi, ó céus, presta atenção, ó terra! Eis que assim diz Yahweh, o SENHOR: “Criei filhos e os fiz desenvolver, todavia eles se revoltaram contra minha pessoa. O boi conhece o seu dono e o jumento conhece o local onde o seu senhor costuma depositar o alimento diário; contudo, Israel não deseja me compreender, o meu próprio povo não age com sabedoria”. Ah, que tristeza! Nação pecadora, povo carregado de malignidade! Raça de perversos, filhos que amam a corrupção! Eis que abandonaram o Eterno, desprezaram o Santíssimo de Israel, e afastaram-se do SENHOR! (Is 1:2-4).

O contexto deixa muito claro que:

  1. “Eles se revoltaram” contra a pessoa de Deus. Não foi Deus quem os predestinou para se revoltarem.
  2. “Israel não deseja” compreender a Deus. Não foi Deus quem predestinou que Israel não O compreendesse e buscasse.
  3. Deus e Isaías ficaram muito “tristes” pela rebeldia do povo. Deus teria de sofrer de uma espécie de “esquizofrenia divina” para endurecer pecadores e, ao mesmo tempo, ficar triste por isso. É melhor ser ateu do que crer num Deus tão incoerente. Pode ser que tenha vindo à sua mente o “endurecimento do coração de faraó”. Clique aqui para ler o artigo onde explico esse texto de Êxodo 7:3. O artigo interessante, intitulado “Doutrina da dupla predestinação prejudica a mente”, pode ser lido aqui.
  4. O povo é acusado de ser “carregado de malignidade”, “perversos” e amantes da “corrupção”. É óbvio que Deus não torna ninguém assim, mas quem o faz é o Diabo e a própria obstinação do pecador.
  5. Foram eles quem “abandonaram”, “desprezaram” e “afastaram-se” do Senhor, ou seja: Deus e Sua predestinação nada têm a ver com algo tão maligno.

A conclusão óbvia que chegamos por meio dessa breve análise contextual é:

Em Marcos 4:11-12 Jesus está ensinando que é a própria obstinação da maioria que os impede de compreenderem e aceitarem a mensagem divina, e de alcançarem a salvação.

O texto paralelo, que nos oferece a 3ª pista para a interpretação, confirma essa conclusão. Afinal, ele também cita Isaías 6:9-10, assim como o faz Marcos:

Posto que o coração deste povo está petrificado; de má vontade escutaram com seus ouvidos, e fecharam os seus olhos; para evitar que enxerguem com os olhos, ouçam com os ouvidos, compreendam com o coração, convertam-se, e sejam por mim curados (Mt 13:15).

Mais claro, impossível: Mateus revela que o coração do povo foi endurecido pelo próprio povo, que teve má vontade em escutar a Deus e, por livre e espontânea vontade, “fecharam os seus olhos” para a verdade.

Porque Jesus ensinava por parábolas

Cristo contava parábolas não para que “somente os predestinados as compreendessem”, mas por ser este um recurso didático eficaz (Mc 4:33), e para atrair a Ele quem fosse sincero e estivesse realmente interessado no que Ele tinha a dizer (Mc 4:34):

Assim, por meio de muitas parábolas semelhantes Jesus lhes comunicava a Palavra, conforme a medida das possibilidades de compreensão de seus ouvintes. E nada lhes transmitia sem usar alguma parábola. Entretanto, quando estava em particular com os seus discípulos, explicava-lhes tudo claramente (Mc 4:33-34).

Como bem comentou a Bíblia King James Atualizada – Edição de Estudo:

O estilo de pregação e ensino de Jesus se assemelha ao ministério de Isaías, o qual conquistou muitos discípulos (Is 8:16), mas igualmente desmascarou a falsidade e a dureza de muitos corações incrédulos face aos inúmeros apelos de Deus.[1]

Conclusão

Essa interpretação contextual de Marcos 4:11-12, com o auxílio dos textos paralelos, está em perfeita harmonia com o Deus bíblico que conhecemos, que não tem “nenhum prazer na morte de quem quer que seja”, e que, ao invés de predestinar uns poucos, apela a todos: “Convertei-vos, pois, e vivei!” (Ez 18:32 – King James Atualizada).

Referência

[1] Bíblia King James Atualizada – Edição de Estudo – 400 anos (São Paulo: Abba Press, 2012), p. 1839. Veja-se a nota de número 5.

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Sobre o autor

Leandro Quadros
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Escritor e apresentador dos programas "Na Mira da Verdade" e "Lições da Bíblia"

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1 Comentário

  1. aranda zenza
    setembro 11, 15:10 Resposta

    Maravilhosa interpretação DEUS seja Exaltado pelas verdades, e pelo estudo professor Leandro Quadros.

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