Bons Debates

Resposta ao presbítero Paulo Cristiano da Silva, do CACP

 

 

Introdução
Ao ler a resposta dada pelo presbítero Paulo Cristiano da Silva a um e-mail meu, enviado ao Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP), constatei mais uma vez que, por mais sincero que ele seja na defesa de suas ideias, a apologética da qual o vice-diretor do CACP se utiliza não é a bíblica.
Já há algum tempo tenho percebido que, no zelo pela defesa daquilo que considera ser verdade, representantes de tal instituição deixam de lado as ideias para discutir pessoas. Isso fica evidente logo no início da resposta, onde o autor alega que os “adventistas do Sétimo Dia” não são “menos intransigentes” que os Adventistas da Promessa. Além disso, ele afirma que “beligerância é a marca registrada das seitas e com os adventistas não é diferente […]”.
Que as pessoas são o maior alvo do CACP – e não ideias – fica evidente também no tipo de palavreado que se utiliza para se referir a mim, sobre o qual não vale à pena entrar em discussão, a não ser para evidenciar que o tipo de “apologética” realizada pelo referido articulista pode melhorar – e muito – em sua abordagem. Isso será tratado de maneira breve na presente resposta.
Sobre minha dissertação
Quando escrevei um e-mail a ele em resposta ao que havia escrito no blog do Na Mira da Verdade, esperava que Silva demonstrasse ao menos curiosidade em saber do que se trata minha dissertação, mas não foi o caso. Ao invés disso, interpretou que a menção ao meu trabalho acadêmico fosse um “simples argumentar e escrever” para provar a “ortodoxia adventista”, sendo que não é esse o caso.
Lamentavelmente, ele se antecipou em suas conclusões sem ao menos perguntar o tema da pesquisa que tem como título “Críticas aos adventistas na literatura não adventista brasileira”.
Meu propósito não é essencialmente defender o adventismo (mesmo que isso seja uma consequência natural), mas apontar as distorções (ou “bolas-fora”, como preferir) dos críticos no Brasil, tendo como base fontes primárias que eles desconhecem e/ou ignoram. O CACP não é meu objeto de estudo e apenas faz parte da relação de críticos que distorcem aspectos históricos, doutrinários e sobre o estilo do adventismo, apologistas esses que listei desde 1925 quando foi lançada a obra O Sabatismo à Luz da Palavra de Deus[1], plágio que Ricardo Pitrowsky (1891-1965) fez do livro Seventh-day Adventism Renounced, publicado em 1889[2] pelo ex-pastor adventista Dudley M. Canringht (1840-1919).
Portanto, minha pesquisa foi essencialmente bibliográfica e mais abrangente, de modo que citei o CACP de forma tangencial. O suficiente, com certeza, para demonstrar a superficialidade da referida instituição quando aborda o adventismo do sétimo dia.[3] Futuramente o leitor terá acesso a tal material que será enviado inclusive ao CACP.
O mais importante
Não vou discutir sobre pessoas porque a apologética bíblica é muito superior a isso. A Palavra de Deus se detém especialmente no campo das ideias, convidando-nos a estar “sempre dispostos a justificar” nossa “esperança perante aqueles que dela” nos “pedem conta” (1Pe 3:15, Tradução Ecumênica da Bíblia).
Portanto, sendo que a apologética bíblica não nos convida a julgar as pessoas (Mt 7:1,2), não vou entrar no mérito de discutir o “comportamento beligerante” que faz parte da natureza corrompida de todos os seres humanos, independente da religião a qual pertençam e da filosofia que adotem. Afinal, “todos pecaram” e “estão privados da glória de Deus” (Rm 3:23).
Em obediência a 1 Pedro 3:15, também não comentarei o julgamento que Silva fez de minha pessoa (cf. Mt 7:1,2), alegando que meu esforço “para ser politicamente correto” se deva, talvez, à minha “imagem de persona pública” o que pode, segundo ele, ter “me levado a ser mais polido” em minhas palavras, quando apresento o programa Na Mira da Verdade. Quem me conhece sabe que sou o mesmo em minha casa e na TV: um pecador que necessita desesperadamente da graça de Cristo todos os dias da minha vida, mas que aprendeu com as pancadas da vida e por meio da comunhão com Deus a tratar as pessoas com respeito.
Ignorando esse tipo de discussão que em nada edifica, mas apenas promove ódio, rancor e preconceito entre os internautas (e os debatedores), darei atenção a uma frase de Paulo Cristiano da Silva que envolveu crenças adventistas do sétimo dia: “Conhecendo o adventismo como eu conheço pressinto que o nosso oponente fala pelos dois lados da boca como dizia com muita propriedade o Pastor Natanael Rinaldi…”.
Se Paulo Silva conhecesse realmente o adventismo (Natanael Rinaldi também conhecia muito pouco, apesar de sua experiência), não teria alegado com essa frase que estou sendo falso, quando afirmo ser meu desejo estar no céu com todos os meus irmãos em Cristo. Foi justamente no adventismo que aprendi que o amor de Deus por todas as pessoas é incondicional, e que o céu é para todos aqueles que sinceramente amam a Jesus e vivem segundo a luz que receberam.
Ellen G. White, co-fundadora do adventismo, jamais ensinou que os adventistas são os “únicos salvos”. Em 1888 ela escreveu:
“Mas os cristãos das gerações passadas observaram o domingo, supondo que em assim fazendo estavam a guardar o sábado bíblico; e hoje existem verdadeiros cristãos em todas as igrejas, não excetuando a comunhão católica romana, que creem sinceramente ser o domingo o dia de repouso divinamente instituído. Deus aceita a sinceridade de propósito de tais pessoas e sua integridade”.[4]
Também está à disposição para Silva conferir a obra Questões Sobre Doutrina, publicada desde 1957[5]. Na versão em língua portuguesa, disponibilizada em 2009, há a opinião oficial da igreja sobre o assunto:
“Temos a firme convicção de que milhões de cristãos piedosos de todas as crenças, através de todos os séculos do passado, bem como aqueles que atualmente confiam sinceramente no Salvador Jesus para se salvarem e que O seguem em conformidade com a luz que receberam, inquestionavelmente estão salvos”.[6]
Portanto, fica evidente que Paulo Silva conhece pouquíssimo sobre o adventismo e que, tendo ele mantido contato com algum adventista fanático que tenha expressado opinião diferente daquilo que a própria denominação religiosa ensina, o vice-diretor do CACP deveria, antes de formar (pre)conceitos sobre a Igreja Adventista como um todo, ler ao menos umas poucas fontes oficiais para conferência. E, na medida do possível, conviver com adventistas que realmente conhecem e vivem o evangelho. É injusto e contra a ética cristã avaliar o todo por uma minoria.
Um orador emocional
Silva chega a dizer que faço “escândalo” quando aponto que os oponentes não usam fontes primárias[7], e que meu “chororô” é “ad nauseam”. Segundo especialistas em análise do discurso, o uso exagerado de certos adjetivos por parte do vice-presidente do CACP demonstra ser ele nada mais que um orador emocional. Além disso, seu uso do latim por diversas vezes prova que ele se utiliza da questionável retórica ornamental, ao invés de usar a retórica persuasiva[8]. Resumindo: o tipo de retórica usada por Paulo Silva só impressiona e convence pessoas com baixo nível cultural sem, obviamente, diminuí-las como seres humanos, por quem Jesus morreu na cruz.
Desafio aceito
Estou tão curioso para obter as provas de que os oponentes do adventismo têm feito uso devido e responsável das fontes primárias (e, por isso, estou apenas fazendo “chororô”), que estou propondo a Paulo Silva um debate para o próximo ano, tanto na igreja dele quanto numa igreja Adventista em São José do Rio Preto, SP, cidade onde está a sede do CACP. Podemos ajustar nossas agendas para que inclusive os pastores João Flávio Martinez e Joaquim de Andrade estejam presentes, a fim de que eu possa tratar com eles sobre outros assuntos referentes ao adventismo.
Só espero que o presbítero Silva não alegue, como o fez no último e-mail que me foi enviado dia 31/03/2016, de que tal debate em sua igreja “não é possível”. Já que eu propus inicialmente um diálogo interconfessional e topei o desafio dele para um bom debate numa igreja adventista (um pastor distrital em São José do Rio Preto, amigo meu, cedeu sua igreja para tal debate), o mínimo que se espera é que ele também disponibilize um espaço em sua congregação para eu esclarecer aos demais irmãos sobre o que realmente ensina o adventismo.
Com bem escreveu Ellen G. White em 1888, “a verdade não pode perder nada com uma investigação minuciosa”. Se o que o CACP tem escrito sobre a igreja Adventista do Sétimo Dia for realmente verdade, esta “verdade” nada terá a perder e só se confirmará ainda mais depois de posta à prova, seja na igreja dele ou na minha. Aguardemos a resposta do presbítero referente à minha proposta. Cedo-lhe a possibilidade de escolher o mês do ano de 2017 para nosso encontro.
Gostaria de continuar esse debate escrito. Porém, encerro por aqui pelo fato de a resposta de Paulo Silva ao meu e-mail ter tido pouquíssimo de apologética (cristã) e muito de preconceito e juízos pessoais, contrários ao que ensinou Jesus em Mateus 7:1,2.

Considerações finais
Caro Paulo Cristiano da Silva: o ataque nem sempre é a melhor defesa para nossas crenças, muito menos uma maneira saudável de cuidarmos de nossa enraivecida e ferida “criança interna”, que se encontra “pendurada em nossa perna” implorando amor, carinho e compreensão. Desejo sinceramente que venha a entender isso um dia, sem a necessidade de adoecer emocionalmente, para que não tenha de crescer pela dor, e sim pelo amor.
Amigo leitor: por mais que fique chateado com as coisas que um crítico de sua fé tenha dito (nesse caso, Paulo Silva), não se deixe levar pelas emoções negativas a ponto de desqualificar um adversário. Trate as pessoas como deseja ser tratado “porque esta é a lei e os profetas” (Mt 7:12).
Notas
[1] Ricardo Pitrowsky, O Sabatismo à Luz da Palavra de Deus (Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1925).
[2] Dudley Marvin Canright, Seventh-day Adventism Renounced (New York, Chicago: Fleming H. Revell, 1889).
[3] Confesso que não compreendi bem a proposta de Paulo Silva de me enviar sua monografia com o intuito de me levar, quem sabe, a prezar “pelos cânones da pesquisa científica”, sendo que metodologia científica não é o assunto em pauta. O que apontei em meu e-mail foi a falta de rigor acadêmico por parte do CACP no trato com as fontes adventistas. Obviamente, jamais desmereceria seu trabalho monográfico, resultado de muito esforço e dedicação, o qual leria com satisfação. Porém, é desnecessário discutirmos o rigor acadêmico que ele apresentou em sua monografia, a não ser pelo uso indevido das fontes primárias em seus artigos sobre o adventismo.
[4] Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 449. Grifo acrescido.
[5] Seventh-day Adventists Answer Questions on Doctrine: an explanation of certain major aspects of seventh-day Adventist belief (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1957).
[6] Questões Sobre doutrina: o clássico mais polêmico da história do adventismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2009), p. 161. Grifo acrescido.
[7] Gostaria que me fosse provado o conhecimento e manuseio responsável das fontes adventistas por parte dos críticos.
[8] Uma análise desse tipo de retórica deficiente pode ser vista no artigo de Joubert Castro Perez e Sônia M. Mastrocola, onde eles analisaram o recurso argumentativo utilizado por Sérgio Quevedo em sua série de artigos contra Ellen G. White, publicados na revista Defesa da Fé, do Instituto Cristão de Pesquisas (ICP). Intitulado “Uma análise das técnicas argumentativas empregadas em dois textos publicados na revista Defesa da Fé”, o referido artigo se encontra disponível na revista Acta Científica, vol. 2, no 19, 2º semestre de 2010, p.p. 33-52. Para adquirir o material, basta acessar www.unaspstore.com.br

Tags:

4 comments

  1. Só acho que vc leandro e uma pessoa usadoa por Deus mas que as vezes vc precisa ouvir as críticas e fazer um balanço e ver se o que vc comenta era pra ser falado ou não pois tem muitas pessoas aliviando suas consciências onde o espírito santo já falou apenas com os seus comentários ou seja o seu achismo pense nisso e lembre se do que Paulo falou “mesmo que não achamos errado mas se vai fazer uma pessoa cair não faça ou não fale ..” espero que isso chegue como um conselho e não como uma crítica fica com Deus

    1. Olá, Dhian: independente de eu concordar ou não com algum conselho, sinta-se livre para me escrever. Agradeço a Deus por contar com a preocupação de irmãos sinceros como você.

      Um abraço.

  2. Caro Professor Leandro Quadros,
    Cuide para não perder o foco do seu site e redes sociais.
    Afinal, eles servem para edificação ou para discussão pessoal?
    Sendo o senhor uma pessoa pública, formadora de opiniões, não seria mais adequado permanecer inerte diante de tais provocações?
    Qual seria a atitude de Jesus diante de uma afronta?
    “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” Isaías 53:7
    Grande abraço.

    1. Querido Mein: você está confundindo afrontas com desafios doutrinários. Realmente, não devemos ligar para afrontas, mas para desafios doutrinários, a Bíblia ordena que demos resposta: “Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês” (1Pe 3:15).

      O apóstolo Paulo, por exemplo, lidou com isso para o bem do evangelho. Portanto, faz parte da evangelização refutar o erro: “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e, sim, poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.4,5).

      Ignorar o que os críticos dizem sobre a Verdade é desobedecer às claras orientações bíblicas para “batalharmos” pela fé (Jd 1:3), manejarmos bem a Palavra” (2Tm 2:15) e para “darmos razão” de nossas crenças (1Pe 3:15). É por isso que existe uma disciplina na Teologia chamada “apologética”, que é defesa racional da fé cristã”. Por meio de tal disciplina o Espírito Santo convenceu MUITOS céticos e pessoas de mente secularizada.

      Que Cristo o use como um bom apologeta cristão que defende a verdade (com amor) e, assim, protege e liberta do erro aos sinceros.

      Um abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *