Deus, Maldade Teocrática e Aborto

Deus, Maldade Teocrática e Aborto

Deus tem culpa das opiniões equivocadas de alguns religiosos?

Comentando sobre as manifestações contrárias ao aborto pelo qual foi submetida a criança de 10 anos, o YouTuber Felipe Neto escreveu em sua conta no Twitter, em 16 de agosto de 2020, o seguinte:

Se você acha que uma criança de 10 anos, grávida após estupro, deve ser obrigada a carregar o fruto desse estupro e ter sua vida posta em risco… Você não é mais um ser humano, apenas uma ferramenta da maldade teocrática em busca do poder. Você representa o martelo, não Cristo”.

Não vou me ater à crença ou descrença de Neto, nem questionar a sinceridade dele. Afinal, não o conheço pessoalmente, e apreciei muito sua postura de oferecer ajuda financeira para a educação da inocente criança. Isso é louvável e Deus se agrada com isso.

O que pretendo fazer neste post é demonstrar que jamais existiu na história bíblica qualquer tipo de “maldade teocrática”. Uma leitura atenta do texto, considerando seu contexto, revela que uma definição mais precisa para as ações de Deus no AT seria “justiça teocrática”.

Além disso, demonstrarei que essa diferenciação ou dicotomia que as pessoas fazem entre o Deus do Antigo Testamento e Jesus Cristo no Novo Testamento, é resultado de total familiaridade com a Bíblia. Afinal, uma diferença na essência divina e no caráter entre Deus Pai e Deus Filho está longe de existir.

4 razões para não crer em “maldade teocrática”

Razão #1 – Não há diferença de caráter entre Deus Pai no Antigo Testamento e Jesus Cristo, no Novo Testamento.

Leia atentamente os textos bíblicos a seguir:

“Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30).[1]

“Disse Filipe: ‘Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta’. Jesus respondeu: “Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer: ‘Mostra-nos o Pai’? Você não crê que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Pelo contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando a sua obra. (Jo 14:8-10).

“O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, ele se assentou à direita da Majestade nas alturas…” (Hb 1:3)

“Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (Jo 1:18).

Em síntese, além de desconhecerem a doutrina bíblica da Trindade, as pessoas que opinam negativamente sobre Deus provavelmente nunca leram um livro de interpretação bíblica. Se o fizessem, perceberiam em seus estudos pessoais que fazia parte da missão de Jesus corrigir as opiniões distorcidas que as pessoas tinham sobre Deus (veja João 9:1-3). Por isso, a Bíblia considera a Cristo como sendo a maior revelação existente do caráter e do amor de Deus (leia Hb 1:1-2).

O que se vê nas Escrituras são ações diferentes em contextos diferentes. E que as Três Pessoas da divindade atuam em funções distintas, porém, com o mesmo propósito. (cf. Gn 1:1-3; Jo 1:1-3; Jo 14:16; [compare Jo 10:17-18 com Rm 8:11]; Mt 28:19; Hb 9:14; 1Pe 1:2; 2Co 13:13, etc).

O mesmo Cristo que morreu na cruz pelos pecadores (Jo 3:16; Mt 20:28), em sua condição pré-encarnada destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra. Afinal, elas viveram durante séculos mergulhadas na maldade e imoralidade, e por causa da recusa de seus habitantes em se arrependerem de seus pecados (Gn 18 e 19), as cidades foram aniquiladas por Jesus e dois anjos.

Não se identifique com o herege Marcião

Definitivamente, não há diferença de caráter e nem de propósito entre Deus no Antigo Testamento e Jesus no Novo Testamento. Essa ideia teve um grande defensor em Marcião no século II. Ele “rejeitava a validade do testemunho do AT para os cristãos porque cria que o Deus do AT era incompatível com o Deus amoroso revelado por meio de Jesus Cristo”[2].

Isso foi declarado como heresia pelo cristianismo, pois além de fragmentar o texto bíblico, o marcionismo ignora que Jesus e os cristãos primitivos eram judeus. E que isso resultava na aceitação de Cristo de todo o Antigo Testamento como regra de fé e prática (Lc 24:27, 44; Jo 10:35; Jo 17:17). O mesmo ocorreu com os judeus cristãos primitivos (Rm 15:4; 2Tm 3:15-17; 2Pe 3:15-16).

Assim, não creia nessa dicotomia entre Deus Pai (AT) e Jesus Cristo (NT), pois, do contrário, será uma pessoa bastante atrasada. Afinal, partilhará das ideias de Marcião já refutadas e desacreditadas desde o segundo século.

Você precisa entender que as ações do Juiz Divino no Antigo Testamento são o resultado do amor dEle pela justiça e pelo pecador, e que aquilo que Deus Pai executa é o mesmo que Cristo executa – e vice-versa.

Portanto, quando alguém for opinar sobre o “Deus do Antigo Testamento”, deveria estudar mais antes de fazê-lo. Até porque Cristo, antes da encarnação, agiu juntamente com Deus Pai e o Espírito Santo tanto no perdão dos pecadores, quanto na execução de povos pagãos ímpios e criminosos (leia os capítulos 18 e 20 de Levítico, para comprovar o que estou dizendo).

Futuramente gravarei outro vídeo sobre a pena de morte. Nele você entenderá ainda mais as ações de Deus no Antigo Testamento.

Razão #2 – Não há na Bíblia um registro sequer em que Deus obrigue uma criança a ter um filho, que seja fruto de um estupro ou incesto.

Todo internauta sábio, ao ver alguns cristãos opinarem de forma até mesmo exagerada, não culpará a Deus por isso. Nem a Bíblia, a igreja dessa pessoa e o cristianismo. Julgar o todo pela parte, além irracional, é evidência de analfabetismo funcional e/ou de pouca capacidade de análise crítica. Vai contra as bases elementares da lógica.

Digo isso porque li o Twitter de outro jovem, que afirmou estar disposto a xingar e a ofender muitos crentes. Mesmo que viesse a ser processado por intolerância religiosa.

Não faça o mesmo. Não julgue o todo por sua parte, pois isso é burrice. Além disso, xingamentos constantes fazem parte do íntimo de pessoas que brigam com a vida e com elas mesmas. Imediatamente se afaste disso porque não trará saúde para sua mente.

Razão #3 – Deus mandava punir o estuprador com a pena de morte, não a vítima.

“Se, contudo, um homem encontrar no campo uma jovem prometida em casamento e a forçar, somente o homem morrerá. Não façam nada, pois ela não cometeu pecado algum que mereça a morte. Este caso é semelhante ao daquele que ataca e mata o seu próximo, pois o homem encontrou a moça virgem no campo, e, ainda que a jovem prometida em casamento gritasse, ninguém poderia socorrê-la” (Dt 22:25-27).

Alguém pode ser tentado a dizer que em Deuteronômio 22:28-29 existe uma “maldade teocrática” porque “Deus autoriza o estupro de uma mulher não comprometida”. Essa é uma leitura bem mal feita do texto, pois não considera uma das regras básicas da hermenêutica. Esta consiste em analisar, entre outras coisas, o contexto cultural da época em que o texto foi escrito. Considere as informações a seguir:

  1. Naquela cultura antiga, retratada pela Bíblia (e não apoiada por ela), uma mulher estuprada era muito desprezada. Não poderia ter emprego e direito de propriedade. E se ela não tivesse pai, marido ou filho, não tinha qualquer proteção legal. Certamente nunca se casaria, e não teria ninguém para sustentá-la. Também considere que os Israelitas foram escravos por muito tempo. Foram totalmente influenciados pela cultura da época, além desumanizados pelos maus tratos durante a escravidão. Por isso, vemos ao longo do Antigo Testamento Deus reeducando-os, para que se afastassem de qualquer crença ou prática pagã. E de convenções sociais contrárias aos princípios divinos.
  2. Foi justamente para proteger a mulher e refrear o estupro que Deus obrigou o estuprador a pagar uma multa, e ter uma responsabilidade para com ela por toda a vida. Iria ter de sustentá-la para sempre, sem jamais se divorciar dela.
  3. Portanto, em Deuteronômio 22:25-27, Deus condena o estuprador à pena de morte; mas no caso em particular em Deuteronômio 22:28-29, o estuprador de uma virgem não comprometida era preservado para que a vítima tivesse quem a sustentasse, pois ela não teria ninguém. Nesse caso, Deus pensou no futuro da vítima, não no estuprador que, segundo Ele, mereceria a morte.
  4. Leia a Bíblia com os “olhos hebraicos”, e não simplesmente com os “olhos ocidentais”. Aquilo que você julga ser o melhor para a vítima no ocidente, não significa necessariamente que seria o melhor para ela no oriente, naquele contexto.

Razão #4 – A Bíblia se posiciona contra o aborto por considerar a vida sagrada[3]. Porém, silencia em relação a tais casos especiais, em que há estupro ou incesto.

Por causa disso, a opinião da vítima estuprada deve ser respeitada, como bem orientou o livro Declarações da Igreja, citado no post anterior. A referida obra afirma que no caso de estupro ou incesto, “a decisão final quanto a interromper ou não a gravidez deve ser feita pela mulher grávida após o devido aconselhamento. Ela deve ser auxiliada em sua decisão por meio de informação precisa, princípios bíblicos e a orientação do Espírito Santo”.[4]

Considerações Finais

Creio que esses quatro pontos são suficientes para demonstrar que Felipe Neto e qualquer outra pessoa deveria evitar falar mal do Deus do Antigo Testamento. Afinal, biblicamente não há diferença entre o caráter amoroso e justo do Pai e o caráter amoroso e justo de Jesus Cristo. Como diz Paulo em Colossenses 2:9: “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Nova Versão Internacional).

Portanto, além de não culpar a Deus pelas manifestações indevidas de algumas pessoas, não se deve culpar a Bíblia. Ela não tem culpa de ser mal lida e estudada. Também não é correto culpar todas as igrejas, muito menos todos os cristãos.

Esse tipo de generalização, além de irracional, vai contra a lógica, o bom senso e a realidade, que apontam para o fato de que há muitos cristãos amáveis, amorosos, que oram pelas vítimas, sofrem e se solidarizam com elas.

Em conclusão, Neto não deveria chamar nenhum cristão de “ferramenta da maldade teocrática”. Afinal, o Deus bíblico não é mau (Jr 31:3; Os 11:7-9). Além disso, Ele nada tem a ver com a atitude daqueles que opinam sem conhecer a Bíblia mais profundamente.

Leia também:

Aborto e a Menina de 10 anos: Dilema Difícil

 

Referências

[1] Todos os grifos encontrados nos textos bíblicos foram acrescidos.

[2] Stanley J. Grenz, David Guretzki e Cherith Fee Nordling, Dicionário de Teologia: mais de 300 conceitos teológicos definidos de forma clara e concisa (São Paulo: Vida, 2007), p. 84. Ver “marcionismo, Marcião”.

[3] Os princípios bíblicos contrários ao aborto podem ser vistos, por exemplo, em Êx 21:22-23; 23:7; Jr 1:5, Is 49:1; Sl 139:13-16. Além disso, no Novo Testamento vemos que Deus não faz diferença entre o feto e a criança nascida. Pela utilização do termo grego brephos tanto para o bebê que está no ventre (Lc 1:41), quanto para o que já nasceu (Lc 2:16), isso é por demais claro.

[4] Igreja Adventista do Sétimo Dia. Declarações da Igreja: aborto, assédio sexual, homossexualismo, clonagem, ecumenismo e outros temas atuais, 3ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 220.

 

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Leandro Quadros
Leandro Quadros 755 posts

Escritor e apresentador dos programas "Na Mira da Verdade" e "Lições da Bíblia"

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