Livros Apócrifos: Por Que Estão Na Bíblia Católica?

Livros Apócrifos: Por Que Estão Na Bíblia Católica?

Antes de tudo, por que os livros apócrifos se encontram na Bíblia Católica?

A fim de responder a essa pergunta, neste post quero tratar sobre:

  1. Os 7 livros a mais que encontramos na Bíblia Católica. Ao passo que eles são chamados pelos protestantes de “apócrifos”, em contrapartida os irmãos católicos consideram tais livros como “deuterocanônicos”.
  2. O significado dos termos “apócrifo” e “deuterocanônico”.
  3. Um pouco da história de como esses livros foram parar na Bíblia Católica.
  4. As razões para não aceitarmos tais livros como inspirados, embora tenham valor histórico e contenham pensamentos de sabedoria. Assim sendo, darei duas razões gerais para negarmos a inspiração deles. Em outras palavras, uma razão histórica e outra Teológica.

Em primeiro lugar, é importante destacar que a existência dos apócrifos em Bíblias Católicas não desqualifica os teólogos católicos como tradutores. Eles são excelentes no trabalho que fazem. É altíssimo o nível técnico de tais tradutores. E o conhecimento que têm dos originais bíblicos é incrível. Eu mesmo sou um leitor de traduções feitas por teólogos católicos.

Em segundo lugar, mesmo que os livros “apócrifos” não sejam inspirados (você verá as razões ao longo do artigo), eles são importantes fontes históricas. Afinal, nos ajudam a entender como era o judaísmo nos tempos antigos, especialmente no período em que os judeus foram influenciados pelo helenismo (filosofia grega).

Apócrifo: Significado

A princípio, da língua grega “apócrifo” significa “aquilo que está oculto”, “escondido” ou que é “difícil de entender”. Analogamente tais livros são assim considerados especialmente porque sua autoria é “oculta”, “desconhecida”. Por exemplo, quando você vê ou lê o livro de Tobias, saiba que os eruditos demonstraram que, na verdade, não foi Tobias quem o escreveu. Certamente um autor desconhecido fez uso desse nome para dar “peso” a seu escrito. Algo comum na época.

Contudo, foi Lutero quem denominou tais livros de “apócrifos” no século 16, em virtude de conterem ensinos defendidos pela Igreja Católica. Não pela Bíblia Canônica, obviamente (continue a leitura para saber quais são tais ensinamentos).

Por sua vez, a palavra “deuterocanônico”, usada pelos irmãos católicos para definir tais livros, significa “segundo cânon”. De conformidade com isso, os “deuterocanônicos”, segundo a compreensão Católica, foram canonizados em um segundo momento pela Igreja. Em contrapartida, não foram canonizados pelos profetas bíblicos.

Assim, como protestante prefiro a primeira definição: “apócrifos”. Por que? Por uma razão histórica e outra teológica. É o que veremos a seguir.

Razão Histórica

Primeiramente, tais livros foram produzidos durante os dois últimos séculos a.C.

No 4o século, São Jerônimo, a pedido do Papa Dâmaso, iniciou uma revisão das Bíblias. Posteriormente sua revisão culminou na tradução chamada Vulgata Latina. Por algum motivo, Jerônimo incluiu os livros apócrifos em sua tradução, de modo que aparecem nas Bíblia Católicas até hoje. Além disso, de modo diversificado os apócrifos apareceram na tradução Septuaginta (LXX), versão grega do Antigo Testamento traduzida por 70 eruditos judeus.

Entretanto, é interessante o fato de que Jerônimo, mesmo introduzindo-os na Vulgata, não os definiu como canônicos. Surpreendentemente, para ele, tais livros não poderiam ser lidos como os livros bíblicos inspirados. Ainda mais ser usados como fundamento doutrinário.

Da mesma forma, segundo Rodrigo Silva em sua obra A Bíblia de Álef a Ômega, autores reconhecidos pela Igreja Católica também mantinham a opinião de Jerônimo. Entre eles:

  • João Damasceno
  • Papa Gregório Magno
  • Walafrid
  • Nicolau de Lyra
  • Tostado, etc.

Definitivamente, isso deveria ser avaliado por nossos irmãos católicos, e ao mesmo tempo servir como um argumento histórico de peso para a rejeição dos “deuterocanônicos”. Desse modo, tais livros não se constituem num “segundo cânon”. Por isso, a falta de consenso em um assunto tão importante deveria levar nossos irmãos católicos a uma postura mais equilibrada. Isso consiste em considerar tais livros com valor histórico e de sabedoria, mas não como canônicos. Assim sendo, eles não foram inspirados pelo Espírito Santo, como as demais Escrituras (leia Rm 15:4; 2Tm 3:15-17; 2Pe 1:19-21).

De fato, há outra parte interessante dessa história. Em 1540, o reformador Andreas Carltadt, munido do Prologus de Jerônimo, afirmou dogmaticamente que aqueles livros deveriam ser banidos das Bíblias cristãs. Tal afirmação foi feita em seu “De canonics Scripturis Libellus”.

O Concílio de Trento em 1546

Similarmente, os protestantes argumentavam que doutrinas católicas como a intercessão dos santos, oração pelos mortos e purgatório (entre outras), não tinham base bíblica. Obviamente, a Igreja Católica, vivendo a época da contra-reforma, respondeu à essa afirmação de Andreas. Como resultado, proveu uma resposta também à crítica protestante de que não havia base bíblica para tais doutrinas católicas.

A resposta foi o Concílio de Trento, realizado em 8 de abril de 1546. Neste meio tempo oficializou-se que esses 7 livros deveriam fazer parte das Bíblias aprovadas pelo Papa.

Afinal, como visto acima, os “apócrifos” dão apoio à algumas doutrinas católicas. Todavia, tais ensinos que não encontram apoio nos livros bíblicos inspirados. Semelhantemente, outra doutrina apoiada pelos “apócrifos” é a doação de esmolas para purificar pecados (Tobias 12:8-9; Eclesiástico 3:30). Em outras palavras, isso contradiz abertamente a doutrina da justificação unicamente pela fé em Jesus Cristo (Rm 5:1; Ef 2:8-10; 1Jo 1:7-9).

Em síntese, este é o argumento histórico para rejeitarmos os apócrifos como inspirados: foram acrescentados nas Bíblia tardiamente (em 1546). Além disso, até mesmo Jerônimo e autoridades católicas ao longo da história, os rejeitaram como inspirados.

Aliás, o cardeal Caetano, um dos mais importantes opositores de Lutero, foi comissionado pela Igreja para refutar os ensinos do protestantismo. Desse modo, ele escreveu um comentário dedicado ao Papa. Em suma, nesse comentário ele apresenta sua opinião de que os apócrifos não eram inspirados, muito menos canônicos. Por isso, não foram incluídos em seu comentário do Antigo Testamento.

Em seguida vamos para a razão teológica para rejeitarmos os apócrifos como inspirados.

Razão Teológica

A seguir disponibilizarei uma Tabela Comparativa entre os livros apócrifos e os livros bíblicos inspirados.

Com essa tabela você poderá comparar algumas doutrinas apresentados em ambos os livros. Ao mesmo tempo, verá que não existe harmonia doutrinária entre os mesmos.

Logo depois, no vídeo que gravei sobre o assunto você poderá ver os slides onde transcrevo os textos dos livros apócrifos. Assim sendo, CLIQUE AQUI para assistir.

Contraste entre alguns textos apócrifos com a Bíblia Sagrada

Livro Apócrifo

Heresia ou Lenda

Posição Bíblica

Tobias 5:4-6

Anjos bons mentem Jo 8:44

Tobias 6:4-8

Anjo ensina feitiçaria

Dt 18:10-12; Êx 22:18; Mc 9:17-29

Tobias 12:8-9; Eclesiástico 3:30

Dar esmolas purifica dos pecados

1Pe 1:18-19; 1Jo 1:7-9

Judite 8:4-6

Mulher jejuou exageradamente por mais de 3 anos. Mais que o Divino-humano Jesus

Mateus 4:2

Judite 9:2

Simeão e Levi mataram os habitantes de Siquém por ordem de Deus

Gn 34:30; 49:5-7

2 Macabeus 12:43-46

Oração pelos mortos

Is 38:18-19 (na versão Almeida)

Sabedoria 3:4-5

Purgatório

Sl 6:5; Ec 9:5, 6, 10

Eclesiástico 3:3

Perdão dos pecados pela obediência aos pais (salvação pelas obras)

Êx 20:12; Rm 5:1; 1Jo 1:9

Eclesiástico 12:6 Deus “detesta” os pecadores

Mt 5:44-48; Ez 18:23, 32; Pv 25:21; Rm 12:20

**Para refletir: “Se a mente divina inspirou cada escritor da Bíblia, o produto desses diferentes autores deve estar em harmonia entre si”.

Em conclusão: após esta comparação feita entre os “apócrifos” com a Bíblia, fica evidente que tais livros não estão de acordo com o ensino inspirado dos profetas.

Autores Bíblicos Reconhecem a Inspiração dos Apócrifos?

Por sua vez, o Antigo Testamento não reconhece a canonização de tais livros. De fato, os autores inspirados não fazem menções diretas a qualquer um deles, usando um “Assim diz o Senhor” ou “Está Escrito”. Aliás, algo que Jesus fazia sempre que citava o Antigo Testamento. Similarmente, os profetas não usam expressões do tipo: “como declarou o profeta Tobias”; “como declarou Judite”, etc.

Ao mesmo tempo, alguns estudiosos pensam que há a hipótese de haver alguma alusão indireta na Bíblia de pouquíssimos trechos dos apócrifos. Se isso for correto, demonstraria no máximo que o autor bíblico conhecia tais livros. Todavia, jamais indicaria que os considerava como parte da Palavra de Deus.

Segundo Lucas 24:44 (leia também o verso 27), a lista de livros reconhecidos como inspirados por Jesus Cristo não continham os apócrifos:

“Em seguida, disse: “Enquanto ainda estava com vocês, eu lhes falei que devia se cumprir tudo que a lei de Moisés, os profetas e os salmos diziam a meu respeito” (Lc 24:44, Nova Versão Transformadora)

Aliás, em seu estudo bíblico para “abrir o entendimento” dos discípulos sobre Sua morte e ressurreição (leia Lucas 24:45), Jesus não usou nenhum apócrifo. Pelo contrário: fez uso da divisão da Bíblia hebraica. Assim sendo, ela era composta pelos seguintes livros:

  • Lei de Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio).
  • Profetas (Profetas Maiores e Profetas Menores).
  • Salmos (Cânticos de louvor e adoração).

Em outras palavras, os apócrifos nunca foram reconhecidos por Jesus ou por algum profeta, como parte da Bíblia Hebraica. Portanto, como cristãos deveríamos seguir o exemplo dEle inclusive neste ponto (cf. Jo 13:15; 1Jo 2:6).

E os Autores Bíblicos do Novo Testamento?

Similarmente, o apóstolo Pedro reconheceu os escritos de Paulo como inspirados e como parte das “demais Escrituras”. Todavia, nem sequer cogitou a possibilidade de qualquer livro apócrifo (ou “Evangelho perdido”) estar no mesmo patamar que os escritos paulinos:

“… e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada,
ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.” (2Pe 3:15-16, Almeida, Revista e Atualizada)

Definitivamente, nem mesmo os autores neotestamentários sequer sugeriram a hipótese de um livro apócrifo fazer parte da cânon bíblico inspirado.

Surpreendentemente, até mesmo 1 Macabeus 9:27 reconhece que, naqueles tempos, a inspiração profética havia cessado. Portanto, o autor não via seus livros (1 e 2 Macabeus) como inspirados! Veja:

“Reinou então em Israel uma opressão como não houve outra desde o final dos tempos dos profetas” (1Mc 9:27, Tradução Ecumênica da Bíblia. Grifos acrescidos)

Inegavelmente o próprio autor de 1 Macabeus não atribuiu inspiração para seu livro. Então, por que a Igreja deveria se sentir na liberdade de fazê-lo, se tal atitude não é verdadeira?

Falta de Consenso Entre Teólogos Católicos

Por exemplo, em sua obra já citada, Rodrigo Silva cita um comentário católico da Idade Média. O comentário chama-se “Glossa Ordinária”. De acordo com Rodrigo, nele há a seguinte declaração, demonstrando que a aceitação dos apócrifos não era um consenso entre os teólogos católicos da época:

“Os livros canônicos são fruto do ditado do Espírito Santo. Não sabemos, no entanto, em que tempo ou por quais autores os não canônicos ou apócrifos foram produzidos. Desde, porém, que eles sejam proveitosos e úteis e não contenham qualquer contradição com os demais livros canônicos, é permitido à Igreja lê-los para sua devoção e edificação. Sua autoridade, contudo, não é considerada adequada naqueles assuntos que ainda são dúbios, nem servem para confirmar a autoridade eclesiástica de um dogma, como o bem-aventurado Jerônimo declara em seu prólogo ao livro de Judite e também aos livros de Salomão. Por outro lado, os livros canônicos possuem tal autoridade que tudo que está contido neles é para ser considerado uma firme verdade e um assunto indiscutível” (Grifos acrescidos).  [1]Rodrigo Silva, A Bíblia de Álef a Ômega: Um Guia Para Entender Como a Bíblia Chegou Até Nós” (São Paulo: Ágape, 2020), p. 73.

Certamente, esse comentário católico do período medieval resume muito bem a maneira como devemos enxergar os apócrifos.

Considerações Finais

Em conclusão, como cristãos que têm a Bíblia como regra de fé e prática, devemos seguir o conselho apostólico:

“… para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito…” (1Co 4:6).

Afinal, se continuarmos indo “além do que está escrito”, Deus pedirá contas de nossa postura. Assim sendo, Ele não gosta que pessoas acrescentem algo à Sua santa e perfeita Palavra:

“Toda palavra de Deus é pura; ele é escudo para os que nele confiam. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso” (Pv 30:5-6). Grifos acrescidos.

 

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Referências

Referências
1 Rodrigo Silva, A Bíblia de Álef a Ômega: Um Guia Para Entender Como a Bíblia Chegou Até Nós” (São Paulo: Ágape, 2020), p. 73.
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Sobre o autor

Leandro Quadros
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3 Comentários

  1. Geilson Santos
    junho 26, 11:48 Resposta

    Parabéns pelo seu ministério professor Leandro Quadros, que Deus continue lhe usando para espalhar a mensagem divina, conteúdo muito bem explicado a luz da Bíblia, só aprende quem não quer.

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