Pena de Morte: A Ignorância é Atrevida

Pena de Morte: A Ignorância é Atrevida

Má-educação

Surpreendentemente, um internauta comentou sobre meu post acerca da pena de morte (“White Era a Favor da Pena de Morte”) de modo muito mal-educado.  A maneira como me atacou e rotulou (chamou-me de “insensato”, “analfabeto bíblico”, “fundamentalista”, etc., além de me tratar com um sarcasmo maldoso), demonstra quão medíocre é sua capacidade argumentativa.

Com toda certeza, quem ataca pessoas, ao invés de discutir ideias de forma ponderada revela mediocridade. Também falta de educação e pouca noção de filosofia ou retórica. Afinal, ao usar ataques pessoais, o interlocutor faz uso da condenável falácia ad hominem. E o pior: dá um péssimo exemplo de cristianismo, caso seja um cristão. E se não o for, dá um mau exemplo como cidadão.

Como se não bastasse, além de argumentação precária, ele se demonstrou muito arrogante. Por fim, tratou-me como se eu fosse o “analfabeto bíblico” (palavras dele) e ele, o erudito.

Contudo, uma simples leitura do comentário desse internauta deixa visível:

  • Que além de mal-educado, ele não sabe argumentar. E também não possui noções básicas de filosofia e retórica.
  • Que ele não sabe interpretar um texto escrito.
  • Que ele não tem familiaridade com os princípios hermenêuticos de interpretação do texto bíblico.
  • Que ele não possui familiaridade com a disciplina chamada Ética Cristã.
  • Que ele foi seletivo, propondo-se a refutar apenas aquilo que quis. Na verdade, o que ele “acha” que consegue refutar. Inegavelmente, sem nenhum constrangimento ele deixou de comentar diversos textos bíblicos que citei. Ignorou os argumentos que ponderei e as citações disponíveis no post anterior.

Como bem dizia o Prof. Pedro Apolinário aos seus alunos de grego bíblico: “A ignorância é atrevida”.

Portanto, neste post será evidenciado o despreparo e a arrogância desse internauta. Uma pena que isso tenha de acontecer. Porém, ele precisa de um chacoalho para, talvez, refletir e se tornar uma pessoa humilde.

Apresentarei as acusações e argumentação dele entre aspas e na forma de subtópicos. Consequentemente, a respectiva resposta.

Ataques e Refutação

“Ler uma “explicação bíblica” feita por Leandro Quadros (ou por fundamentalistas semelhantes) é um martírio”.

Concordo. Infelizmente, analfabetos funcionais não entendem nem mesmo um texto escrito em ordem direta. Imagine se saberão ponderar argumentos! Como se isso não bastasse, há aqueles que distorcem o texto. Isso pelo simples fato de não se adequar às ideias preconcebidas deles.

Na verdade, preciso ser honesto em dizer que ontem à noite (02/01/2021), ao prometer a esse internauta que o responderia no dia seguinte, o fiz por um motivo principal. Porque ao começar ler todo seu palavreado, além de naturalmente ficar chateado com as rotulações, me deu uma preguiça e um sono “daqueles”. Sim: eu já estava com sono e, ao ler um comentário como aquele, que despreza os outros e tenta alegar para si erudição, percebi que esse tipo de leitura é tão eficaz para fazer alguém adormecer quanto um Rivotril de 2mg.

“A grande ‘técnica’ dele é a metodologia ‘pula-pula’, ou seja, salta de um texto a outro, ainda que sem a menor preocupação com nexo lógico, contexto literário, histórico, social, (ainda que tudo isso esteja disponível a quem queira). Ela salta do Novo Testamento, ao Antigo, depois vai para EGW, com tanta habilidade como um farofeiro faz farofa”.

Aqui encontramos o palavreado do tolo. Segundo Eclesiastes 5:3:

“Porque, da muita ocupação vêm os sonhos, e a voz do tolo da multidão das palavras” (Grifos acrescidos).

 

Ao invés de escrever tanta bobagem num só parágrafo, deveria ser sábio como orienta Provérbios 17:27-28:

“Quem realmente detém o conhecimento é comedido no falar, e quem possui o entendimento demonstra alma tranquila. Até mesmo o tolo passará por sábio, se conservar sua boca fechada; e, se dominar a língua, parecerá até que tem grande inteligência”.

 

Escrever, escrever e escrever qualquer um pode fazer, se o souber. A coisa muda quando a pessoa se propõe a provar seu falatório, fazendo uso de argumentação e lógica. Isso ele não o fez porque foi bem seletivo em sua abordagem. Isso porque o internauta fez menção apenas os pontos que ele achou ser capaz de responder.

Além disso, considerando o princípio hermenêutico de que a Bíblia é sua própria intérprete, e que o Antigo e Novo Testamento se constituem na Palavra de Deus (2Tm 3:16; 2Pe 1:21; 2Pe 3:15-16), é lógico que se queremos compreender devidamente um tema, devemos “pular” de um Testamento para outro. Obviamente, sempre respeitando o contexto histórico-gramatical do texto bíblico.

De conformidade com isso, foi o que fiz. Por sua vez, o internauta nem de perto conseguiu fazer o mesmo. Inegavelmente, ele confundiu interpretação bíblica com rotulação, o que chega a ser vergonhoso.

Cabe a ele o ônus da prova de que usei os textos sem nenhum nexo. Ou que desconsiderei o contexto deles. Para isso, o mínimo que ele deveria fazer é dar uma interpretação alternativa aos textos que usei. Além disso, deveria apresentar alguma fonte teológica ou histórica que contradissesse o que eu escrevi. Desse modo, poderíamos seguir num debate honesto, com o objetivo de aprendizagem.

Lamentavelmente, muitos argumentos que apresentei para discussão ele nem sequer cogitou mencioná-los. Não sei se isso ocorreu por não entender o que lê, ou porque foi tendencioso mesmo. Ele e Deus o sabem.

“Apesar de ele dizer que toda a Bíblia precisa ser levada em consideração, curiosamente, ele não mencionou o explícito ensino paulino, como se verifica em Gal 3:15-25; ou 2ºCor 3:6-18 etc., que o Cristão não vive regido pela Torá judaica, aquela mesma outorgada a Israel, no Sinai, 430 anos após a aliança com feita com Abraão (é Paulo que escreveu isso explicitamente). Segundo Paulo, a vida no Espírito é superior e distinta daquela vida regida pela Torá mosaica. Ele mesmo não se pauta por ele (Gal 2:19a)”

Esse comentário revela despreparo para interpretar o texto bíblico. Também, o desconhecimento da posição Protestante, Reformada e Adventista a respeito da Lei. Não sei a qual denominação religiosa essa pessoa pertence. Mesmo assim, ele deveria conhecer algumas literaturas essenciais como as Confissões de Fé Reformadas (mesmo que naturalmente não concorde com tudo o que elas dizem). Assim, não correria o risco de escrever a respeito daquilo que não sabe.

Em primeiro lugar, seu total desconhecimento bíblico é demonstrado quando afirma que a Torá foi dada a Israel “no Sinai”. De fato, isso é um absurdo. Afinal, no Monte Sinai Deus deu apenas o Decálogo (ver Êx 19 e 20), escrito por Seu próprio dedo (Êx 31:18). Posteriormente, o Decálogo veio a fazer parte da Torá propriamente dita, composta primeiros cinco livros de Moisés.

Em segundo lugar, a tentativa de invalidar a Torá é a única maneira que encontrou de abolir a pena de morte. Entretanto, a seguir você verá que o “tiro saiu pela culatra”.

Por exemplo, se ele conhecesse os padrões doutrinários da igreja reformada (nem estou citando o adventismo), os chamados Catecismos, veria que nenhum teólogo conservador (mesmo não sendo observadores do sábado) crê na “abolição da Torá”.

Segundo a Confissão Belga, de 1561:

“A Sagrada Escritura consiste de dois volumes: o Antigo e o Novo Testamentos, que são canônicos e não podem ser contraditos de forma alguma”.[1]

 

Por outro lado, se tivesse familiarizado com a obra Lei, Graça e Santificação, de Russell P. Shedd (outro teólogo que não era a favor da observância do sábado), saberia que “Jesus não cancelou a lei de maneira alguma: ‘Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas… Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra (Mt 5:17-18). Pelo contrário, por estas palavras, Jesus estabelece a lei [Torá] de maneira absoluta”.[2]

De maneira idêntica, se tivesse alguma familiaridade com o conteúdo da obra de J. Barton Payne, compreenderia que a interpretação que ele deu, tanto a Gálatas 3:15-20 quanto a 2 Coríntios 3, é destituída de qualquer embasamento teológico sério.

Em contrapartida, Payne é categórico em afirmar:

“Descartar indiscriminadamente os mandamentos dados no Sinai como ‘ministério de condenação e da morte’ [ver 2Co 3:7-0] não passa de uma evidente compreensão errônea do Antigo Testamento. A lei não era, de forma alguma, um fardo impossível (Dt 30:11-14). Israel amava a lei (Sl 1:2; 119:167) […] O requisito essencial da lei era a fé e a crença em Deus (Dt 1:32; 9:23)”.[3]

 

O internauta não parou para pensar que “a Torah, portanto, abrange tanto a lei quanto a graça divina” [assim como o Novo Testamento]. Esse ponto fica claro no Salmo 19: ‘A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma’”.[4]

Simultaneamente, quando afirmou que “o cristão não vive regido pela Torá judaica”, ele desconsiderou por completo as palavras de Jesus em João 5:46-47. Segundo Jesus, não crer em Moisés é o mesmo que não crer nEle. Afinal, Moisés foi inspirado a escrever sobre o Messias:

Se cressem, de fato, em Moisés, creriam em mim, pois ele escreveu a meu respeito. Contudo, uma vez que não creem naquilo que ele escreveu, como crerão no que eu digo?” (Jo 5:46,47, NVT).

 

Definitivamente: não existe separação, dissociação ou contradição entre Cristo e a Torá. Portanto, é óbvio que não há contradição entre Cristo e a pena de morte. Repito: isso ficará evidente no outro artigo que disponibilizarei sobre a pena de morte. Deverei concluí-lo nas próximas semanas.

Em outras palavras, tendo comprovado a unidade essencial entre Cristo e os Escritos de Moisés, vemos que a Torá permanece. Por conseguinte, a Torá teve sua compreensão original restaurada, ampliada por Jesus (veja-se Mateus 5:17).

Isso é o que vemos na perícope (bloco de texto) de Mateus 5 a 7: ao invés de “abolir” a Torá, o Salvador devolve a ela seu significado primário pretendido por Deus. Significado que havia sido perdido pelo legalismo farisaico da época.

A Lei “depois” do Sinai

Se o internauta tivesse lido e refletido apenas nas palavras de Gênesis 4:10-11, Gênesis 26:5, Êxodo 16:1-36 e João 8:44, saberia que a parte moral da Lei existia antes do Sinai.

Do contrário, Caim (Gn 4:10-11) e o Diabo (Jo 8:44) não seriam considerados homicidas; Abraão não teria sido considerado obediente “aos mandamentos e leis” de Deus, e o Sábado não teria sido ordenado quando ainda os israelitas não haviam chegado ao Sinai (Êx 16:1-33).

Assim sendo, quando Paulo diz que “a lei foi dada 430 anos depois” (Gl 4:17), inegavelmente ele se refere à sua forma escrita. Ademais, a existência do pecado antes do Sinai torna isso tão claro que uma criança devidamente ensinada, compreende e aceita esse fato.

Uma vez que ele afirmou que “a vida no Espírito é superior e distinta daquela vida regida pela Torá”, tenho curiosidade de saber como ele harmoniza isso com João 5:46-47 (supracitado), Romanos 3:31 e Romanos 10:1-4.

Mais ainda: estou curioso em saber como ele harmoniza sua crença com o fato de que tanto na Antiga quanto na Nova Aliança a Lei de Deus permanece como parte do processo de santificação do crente. É o que afirma o texto neotestamentário de Hebreus 8:10:

“E esta é a nova aliança que farei com o povo de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei minhas leis em sua mente e as escreverei em seu coração. Serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (NVT).

 

De antemão, digo que aguardarei a interpretação proposta pelo internauta.

Definitivamente, também neste tópico ele desconhece acerca do que escreve.

“Entretanto, farei de conta que sigo a insensatez e o mesmo analfabetismo bíblico do fundamentalista Leandro Quadros, mencionarei outras aplicações da pena de morte ordenadas lá nos mesmos textos em que ele se embasou…”

Mais uma vez o analfabetismo funcional do interlocutor ou sua má fé fica evidente. Quando ele diz que eu selecionei “apenas aquilo” que me interessou, será que não percebeu que tanto no meu artigo quanto em meu vídeo, prometi abordar os argumentos contrários à pena de morte noutro artigo? Ademais, fui claro quanto à isso porque preciso concluí-lo.

Sou levado a duvidar que ele tenha lido o artigo, ou visto o vídeo. Seja como for, é difícil chegar a outra conclusão quando alguém faz uma afirmação tão sem fundamento.

Não vou me ater aos outros rótulos que ele deu a mim neste tópico. Afinal, seria perda de tempo, pois:

Rotular os outros é uma forma medíocre de convencer a si mesmo de que sabe alguma coisa, sendo que, na verdade, não sabe nada.

“Ou melhor, vou citar os textos que ele fez questão de deixar de fora, pois selecionou apenas aquilo que o interessou. Mas segundo Quadros, os textos do Pentateuco sobre pena capital é que devem fundamentar a posição do cristão e do Estado hoje. Vamos ao texto então”.

Como disse anteriormente – e isso ficou bastante claro no meu artigo – abordei apenas uma parte do meu artigo maior. Nele trato dos argumentos “contra” a pena de morte. Espero que o interlocutor se disponha a ler com mais atenção.

Então, vamos aos textos que ele citou. Em seu comentário ele usou Números 15:31, onde um homem foi apedrejado por quebrantar o sábado, bem como uma série de textos de Levítico. Versos que condenam à pena de morte praticantes de vários outros crimes. A finalidade do internauta foi argumentar que tais condenações não seriam viáveis hoje. Portanto, a pena de morte estaria descartada.

Não vou citar todos esses textos porque meu internauta poderá lê-los no comentário dele, que se encontra em meu post anterior. Todavia, demonstrarei neste tópico duas coisas:

  • Que ele não sabe ler devidamente o texto.
  • Que ele desconhece por completo a disciplina teológica Ética Cristã.

Antes de mais nada, vou explicar Número 15:31 e Êxodo 21:20-22, que trata da escravidão, e nada tem a ver com o assunto em pauta.

Segundo ele eu sou “analfabeto bíblico” e não entendo nada de interpretação bíblica. Porém, parece-me o contrário. Afinal, ele não leu Números 15:30, que se constitui no tema central do problema em questão. Diz o verso: “Mas a pessoa que fizer alguma coisa atrevidamente, quer seja dos naturais quer dos estrangeiros, injuria ao Senhor; tal pessoa será eliminada do meio do seu povo…”.

Percebe? Não foi um simples apanhar lenha que fez aquele homem ser apedrejado. Foi o transgredir o sábado com o pecado do atrevimento. Quando ele sabe dessa ordem e decide sair pelo meio do acampamento de maneira atrevida e desafiando a Deus, é óbvio que ele deveria ser punido com rigor.

Assim sendo, consideremos que os Israelitas foram de certa forma desumanizados por causa da escravidão no Egito. Dessa maneira, imagine Deus tolerar o desafio aberto a Ele naquele contexto. Passar a mão na cabeça de um pecador atrevido só pioraria o caráter dele.

Se mesmo ouvindo a voz de Deus, e vendo as manifestações sobrenaturais e trovões no Sinai (Êx 19 e 20), muitos deles em seguida adoraram um bezerro de ouro (Êxodo 32), imagine no que se tornaria o acampamento e a devoção a Deus se tal atrevimento e desafio aberto não fosse punido?!

Em suma: basta o internauta ler Números 15:30-36 e não mais dará esse tipo de “bola fora interpretativo”.

A escravatura

Ao citar a prática da escravidão em Êxodo 21:20-22, ele desviou totalmente a discussão. Apesar disso, vou explicar o texto para o leitor, para não o deixar “no vácuo”.

Antes de mais nada, se o internauta tivesse conhecimento do contexto histórico da época, saberia que as leis mais justas para essa prática cultural (não apoiada, mas tolerada e regulamentada por Deus na Torá).

Entre os povos vizinhos de Israel, um senhor de escravos poderia fazer com ele o que quisesse, até mesmo cortar membros, torturar, matar e jamais indenizar. Já nesse texto bíblico, o agressor do escravo era castigado! Desejo ver provas que nas culturas antigas alguma nação pagã tratasse com tanto respeito um escravo como a Israelita.

Voltemos ao tema. Ao citar os vários textos sobre a pena de morte aplicada a outros crimes, o internauta demonstra não conhecer nada sobre Ética Cristã. Para exemplificar, se ele tivesse lido a obra de John Stott, intitulada Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos, veria que sua alegação em torno dos textos que citou é totalmente infundada:

“Mas a vida humana, por ser a vida de seres humanos feitos à imagem de Deus, é sacrossanta… É verdade que na lei mosaica um pequeno número de outras ofensas sérias (p. ex., sequestro, maldizer os pais, feitiçaria, bestialidade, idolatria e blasfêmia, veja Êx 21-22; Lv 24) eram puníveis com a morte. Mas isso não anula o princípio: ‘Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado (Gn 9:6). Ou seja, o derramamento de sangue por assassinato merece o derramamento de sangue da pena de morte, pois no último caso, é o sangue do culpado que é derramado. Em todos os outros casos, o pecado de ‘derramar sangue inocente’ foi cometido. Daí vem a gratidão de Abigail por Davi não ter se vingado contra Nabal, pois ‘não terá no coração o peso de ter derramado sangue desnecessariamente’ […] A evidência bíblica a respeito dessa questão é um testemunho impressivamente unido, da época dos patriarcas, da lei e dos profetas até o Novo Testamento [Veja o quanto a “abolição da Torá” proposta pelo internauta é absurda]”.[5]

 

Além disso, cristãos que aderem ao ponto de vista conhecido como retribucionismo[6] (sou um deles), argumentam que somente crimes hediondos como assassinato (Êx 21:12), estupro (Dt 22:25) e sequestro (Êx 21:16) deveriam ser retribuídos com a morte pelas seguintes razões:

  1. Deus não aplicou a pena de morte para todas as ofensas, mesmo nos dias do Antigo Testamento. O fato de existir uma lista de aproximadamente 23 crimes que mereciam a morte, não significa que tenha sido necessário Deus aplicar a pena a todos os casos. Além disso, devemos recordar que o Criador não puniu a homossexualidade de Sodoma e Gomorra de forma arbitrária, mas deu muito tempo para que eles se arrependessem desse tipo de pecado (Gn 18 e 19), e de outras coisas mais que praticavam (Is 3:9; Ez 16:49-50; Jd 1:7).
  2. “Embora do Antigo Testamento registre vários exemplos em que Deus ordenou o uso da pena de morte, todos exceto um dentre os dezesseis a vinte exemplos do Antigo Testamento podiam ser atenuados por meio de um ‘resgate’. Mas, como ensina Números 35:31, isso não se aplica ao caso de um assassinato premeditado, em que o perpetrador planejou antecipadamente e estava à ‘espreita’ (Nm 35:20) da vítima. Muitos judeus e intérpretes conservadores destacam o fraseado incomum de Números 35:31, que determina: ‘Não aceitem resgate [ou ‘substituto’] pela vida de um assassino, que merece morrer. Certamente terá de ser executado”[7]. Além disso, o referido autor destaca: “Dos vinte crimes que exigiam pena de morte, somente no caso do homicida não havia substituição ou alternativa de resgate a ser oferecida ou aceita; alguém que destruísse a vida de outra pessoa feita à imagem de Deus teria de ser oferecida de volta a Deus pelas autoridades governamentais”.[8] Isso quer dizer que se os demais pecados – com exceção do assassinato – poderiam ser expiados por meio de um substituto [cordeiro] – o argumento de que a pena de morte atualmente é “inviável” por pressupor a morte não apenas de homicidas, estupradores e sequestradores – é um argumento sem sentido, que evidencia total desconhecimento dos certos aspectos da teologia retributiva veterotestamentária.
  3. Mesmo Deus sendo imutável em Seus conceitos, Ele pode mudar a forma de tratar o pecador. Por exemplo, no Novo Testamento o adultério não mais é punido com a morte, mas com a excomunhão da igreja (1Co 5:5). Todavia, essa mudança não aconteceu em relação aos assassinatos, como vemos em Jo 19:11, Atos 25:11 e Romanos 13:1-4. Desse modo, a punição com a morte para assassinos continua. “Uma vez que Deus nunca aboliu esse tipo de punição a ser aplicada pela raça, do mesmo modo que ele nunca aboliu sua promessa feita a Noé de “nunca mais” destruir a terra e a raça humana através de um dilúvio (Gn 9:11), a instituição divina da pena de morte ainda está em vigor sobre toda a raça humana”.[9]
  4. Ao contrário da punição sugerida a feiticeiros, homossexuais, adúlteros e filhos rebeldes, “a pena de morte aplicada a crimes capitais foi dada ao governo humano antes da lei mosaica (Gn 9:6) e foi confirmada após a lei mosaica (Jo 19:10-11; At 25:11; Rm 13:4)”.[10] Portanto, isso sugere que Deus diferencia o homicídio doloso dos demais atos pecaminosos, o que perpetua a pena capital para nossos dias quando o motivo for assassinato.

Além desses comentários abalizados demonstrarem o desconhecimento do internauta sobre Ética Cristã, tornam evidente o fato de que o princípio de valorização da vida em Gênesis 9:6 é universal. Afinal, foi dado por Deus antes de existir qualquer nação sobre a Terra pós-dilúvio.

Como bem comentou Stott na citação supracitada, o fato de alguns outros crimes serem punidos com a pena de morte “não anula o princípio: ‘Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado (Gn 9:6). Ou seja, o derramamento de sangue por assassinato merece o derramamento de sangue da pena de morte, pois no último caso, é o sangue do culpado que é derramado”.[11]

Estou curioso também para saber como o internauta interpreta Gênesis 9:6. Em outras palavras, no seu comentário rotulador e ofensivo, não vi nada a respeito.

“Mesmo que os livros bíblicos citados por ele, neste caso específico do aborto, só aplicam uma “multazinha” ao causador!”

Aqui é revelado o analfabetismo funcional do meu acusador.

Segundo ele, o causador do “aborto” no AT recebia uma “multazinha”. Vamos ler o texto na Nova Versão Transformadora (NVT). Observando as palavras grifadas para vermos se há alguma verdade em sua alegação:

“Se dois homens brigarem e um deles atingir, por acidente, uma mulher grávida e ela der à luz prematuramente, sem que haja outros danos, o homem que atingiu a mulher pagará a indenização que o marido dela exigir e os juízes aprovarem. Mas, se houver outros danos, o castigo deverá corresponder à gravidade do dano causado: vida por vida, olho por olho, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão” (Êx 21:22-25. Grifos acrescidos).

 

Os grifos nos mostram o seguinte:

  • Que o aborto prematuro que não causasse danos era punido com uma multa.
  • Que o aborto prematuro com maiores danos, causado por aquele que atingiu a mulher, era punido com a morte, pois o texto bíblico diz: “o castigo deverá corresponder à gravidade do dano causado: vida por vida, olho por olho, etc.”.

O que você acha, leitor? Com base na alegação acima e na leitura atenta do texto, realmente sou eu o “analfabeto bíblico” nesse debate?!

“Talvez um dia, o dicionário dará como sinônimo de ‘contradição’ a seguinte definição: cristão conservador fundamentalista. Se for um dicionário ilustrado, trará uma imagem de Leandro Quadros”.

A respeito desse último tópico, que contém mais uma rotulação arrogante, em obediência a Provérbios 14:7 não irei responder:

“Afaste-se do tolo, pois em seus lábios não achará conhecimento”.

 

No dia em que ele aprender a ser educado na forma de discordar, volto a tratar do assunto com ele. Do contrário, dou por encerrada minha resposta.

Referências

[1] Disponível na Bíblia de Estudo de Genebra, 2ª ed. (Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; São Paulo: Cultura Cristã, 2009), p. 1750. Grifos acrescidos.

[2] Russell P. Shedd, Lei, Graça e Santificação, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova, 1998), p. 20.

[3] J. Barton Payne, The Theology of the Older Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1997), p. 309.

[4] Hans K. LaRondelle, Nosso Criador Redentor: Introdução à teologia bíblica da aliança (Engenheiro Coelho, SP: Terceira Margem do Rio e UNASPRESS,2016), p. 37. Estudos em Literatura Bíblica, vol. 1.

[5] John Stott, Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos (Viçosa, MG: Ultimato, 2014), p. 120, 121.

[6] Os retribucionistas recomendam a pena de morte para alguns crimes capitais; os reconstrucionistas creem que a pena deve ser aplicada para todos os crimes de maior gravidade; e, por sua vez, os reabilitacionistas não aceitam a pena de morte para nenhum tipo crime, mesmo os hediondos. Se desejar ler mais artigos meus sobre a pena capital, clique aqui e também aqui.

[7] Walter C. Kaiser Júnior, O Cristão e as Questões Éticas da Atualidade: Um Guia Bíblico para Pregação e Ensino (São Paulo: Vida Nova, 2015), p. 168.

[8] Júnior, O Cristão e as Questões Éticas da Atualidade, p. 168-169. Grifos acrescidos.

[9] Ibid., p. 257.

[10] Ibid., p. 258. Grifos acrescidos.

[11] Stott, Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos, p. 120.

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32 Comentários

  1. Hernandes Lima Chaves
    março 16, 16:22 Resposta

    Cara você também é Mediocre então!
    Em um vídeo de 2018, gravado nas dependências de um templo adventista (provavelmente em culto JA), você, ao defender a pena de morte e aproveitar para fazer propaganda do então pré candidato Jair Bolsonaro (isso é proibido na IASD. Não sei o que você fez para passar batido, mas os documentos oficiais da igreja te condenam), você iniciou o raciocinio se referindo a um interlocutor que abordou o deputado com uma pergunta como “um imbecil”. Lembra?
    Você é um medíocre cara!

  2. Rodrigo Rodrigues
    fevereiro 09, 16:36 Resposta

    PARTE 3

    2.10. Você diz: Mais ainda: estou curioso em saber como ele harmoniza sua crença com o fato de que tanto na Antiga quanto na Nova Aliança a Lei de Deus permanece como parte do processo de santificação do crente. É o que afirma o texto neotestamentário de Hebreus 8:10
    Na verdade, não é exatamente isso que o texto mencionado ensina sobre a “Lei de Deus”. Não está escrito desse modo lá. Ademais, é sempre a vontade de Deus que determinou quais atitudes seriam lei, e não o contrário. Um exemplo didático: a vontade de Deus determinou para a família de Ló que, ao fugir de Sodoma, não poderia olhar para trás. Não foi tal atitude que determinou qual era a vontade de Deus, mas foi a vontade de Deus que determinou que tal atitude era lei obrigatória, ainda que sua vigência fosse por tempo limitado (vigeu somente durante a fuga de Sodoma), e apenas para aquela família em particular (ninguém mais foi proibido de olhar para traz).
    Deus e sua vontade são o fundamento inclusive da lei mosaica também. Assim, algumas coleções de leis terminam com a seguinte justificativa “por que Eu sou santo”; são leis fundamentadas na santidade divina. Noutras Deus disse: “por que Eu sou o Senhor”; são leis fundamentadas em Sua soberania. Noutras ele disse: “por que sou misericordioso”; logo, tais leis estão fundamentadas da misericórdia divina. Deus é o fundamento da lei, ainda que se trate de leis provisórias, para pessoas específicas e para períodos pré-determinados. Os atributos do caráter de Deus transparecem em tudo aquilo que Ele faz ou diz.
    Aqui faço um parêntese para mencionar o pecado de Lúcifer. Deus é vida, e Satanás, que é adversário, peca ao agir atentando contra a vida. Deus é amor, santidade, verdade, pureza etc., o adversário peca ao agir em oposição a tudo isso que Deus é. Ele mata, destrói, mente, promove a impureza (misturas indevidas) etc. Não se trata de desobedecer a alguma parte preexistente das 613 leis listadas na lei mosaica, e sim, de oposição direta ao que ele sabe que Deus é e ao que ele sabe ser a vontade divina. Deus quer a adoração de suas criaturas para Si, o adversário age para que as criaturas divinas substituam Deus por outras coisas quaisquer da criação, real ou imaginária. O indivíduo pode “não fazer imagens de escultura, nem lhes prestar culto”, ainda assim, pode estar adorando outra coisa diferente Deus. Tal indivíduo estaria guardando a letra da lei mosaica, mas pecado contra a vontade de Deus. Vale frisar, assim, que não são as regras escritas de determinam a vontade de Deus, mas é a vontade de Deus que determina, inclusive regras escritas. É essa mesma vontade divina que quis que uma lei com 613 leis regesse a aliança sinaítica e, essa mesma vontade, instaurou por meio de Cristo uma nova aliança. Dito isso, passemos a Hebreus 8.
    O Livro de Hebreus é explicitamente destinado a cristãos de origem judaica. O livro argumenta que Cristo é superior aos anjos, a Moisés e ao sacerdócio da antiga aliança, sacerdotes esses da linhagem levítica/araônica. Com base nessa superioridade e suficiência de Cristo, de seu sacrifício e de seu ministério intercessor, o Livro exorta os leitores a que parem de recorrer ao templo; parem de recorrer aos sacerdotes levitas/araônicos; parem de praticar sacrifícios, visto que Cristo é a realidade para qual todas essas sombras apontavam. No caso de Hebreus 8:10-12, para demonstrar como o modo de vida prescrito na antiga aliança é inadequado ao Cristão com base no próprio ensino do Antigo Testamento, Hebreus 8:10-12 reproduz “ipsis litteris” o texto de Jeremias 31:31-34 que já prediz uma nova aliança diferente daquela anteriormente feita lá no Sinai.
    O autor de Hebreus conclui, a partir da citação que: “quando ele [Deus] diz nova [aliança], torna antiquada a primeira [aliança]” (Hb 8:13). Logo na sequência, o autor retoma a linha principal de fundamentação de seu ensino, descreve o santuário terrestre, lista seus móveis e elementos, incluindo “as tábuas da aliança” (9:4). Na continuação, mais uma vez, expõe sua conclusão de que o santuário, seus itens e ritos, em conjunto, constituem uma “parábola para a época presente” (9:9). Não há nada contido no santuário terrestre que “escape” ileso. Nem mesmo as tábuas de pedras (9:4 e 9). A nova aliança não reproduz a antiga, não usa seus elementos, mas supera todos eles.
    Destaco, porém, duas afirmações que me parecem serem mais pertinentes ao caso. Na nova aliança, diz Deus por meio de Jeremias:
    (1º) nas suas mentes imprimirei as minhas leis; também sobre o seu coração as inscreverei” [8:10]; (2º) “E não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão […] porque todos me conhecerão” [8:11]. Vale frisar que as palavras de 8:10 são retomadas em 10:15-16 como tendo sido ditas pelo Espírito Santo. É por meio do Espírito que Deus disse “eu imprimirei”.
    A legislação da antiga aliança foi escrita para fins didáticos, e isso incluía a leitura periódica da legislação, tanto de modo permanente, como em ocasiões especiais para esse fim. Por exemplo, Êx 24:12 diz: “[…] dar-te-ei tábuas de pedra, e a lei, e os mandamentos que escrevi, para os ensinares”; o sacerdote não poderia beber antes de oficiar para poder estar apto para, entre outras coisas, “ensinardes aos filhos de Israel todos os estatutos que o SENHOR lhes tem falado por intermédio de Moisés” (Lv 10:11); no seu último discurso, Moisés diz “Também o SENHOR me ordenou, ao mesmo tempo, que vos ensinasse estatutos e juízos, para que os cumprísseis na terra a qual passais a possuir” (Dt 4:14); sobre o ofício de juízes e sacerdotes, é dito: “Segundo o mandado da lei que te ensinarem e de acordo com o juízo que te disserem, farás” Dt 17:11); e há muitas outras afirmações similares reafirmando a lei como instrumento do ensino sobre qual era o modo correto de um membro da antiga aliança servir a Deus. Essa lei era uma lista de comportamentos externa aos indivíduos e cada um precisava ser ensinado a viver em conformidade com ela, do contrário, o indivíduo deveria ser banido do povo da aliança, ou até, em caso de transgressão coletiva, o povo como um todo seria banido da terra, como maldição por quebrar as cláusulas legais da aliança.

    A promessa de Jer 31:31, repetida por Hb 8:11 faz, portanto, um contraste evidente. Primeiro, na nova aliança não há mais uma lei/lista externa como parâmetro para definir nem o pertencimento à aliança e nem o modo de vida nessa nova aliança. Consequentemente, ao contrário do ensino externo que precisou ser ministrado por Moisés, sacerdotes e juízes, não há mais um instrutor externo daquela antiga lei, daquela antiga aliança. O modo de se viver e relacionar com Deus na Nova aliança se dá de maneira diversa, sem instrutor humano da lei. Na nova aliança, Deus assume para Si mesmo, por meio do Espírito (Hb 10:15-16) o papel de ensinar sua vontade e inseri-la pessoalmente no indivíduo (mente e coração). Isso justifica por que os leitores de Hebreus deveriam parar de procurar os instrutores da lei que ainda ensinavam a antiga aliança e seu modo de vida como necessário para o presente.

    Outro ponto a destacar é que quando o Livro de Hebreus fala de santificação, ele sempre a vincula à oferta sacrifical de Cristo (Hb 10:10.14; 13:12) ao sangue na nova aliança e ao Espírito da Graça (Hb10:29); à disciplina aplicada diretamente por Deus (Hb 12:10), mas em nenhum momento a santificação em Hebreus é ensinada como sendo a repetição das práticas prescritas na lei da antiga aliança. A expressão “minhas leis” de 8:10 remete leitor à “vontade divina” proposta para a nova aliança como profetizado por Jeremias, e não às leis mosaicas escritas, seja nas tábuas (Heb 9:4) seja em qualquer oura parte dos códigos que compuseram a antiga aliança.

    Na sequência do capítulo 8, em Hb 9:14, o progresso espiritual do membro na nova aliança é feito pelo “sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!” (9:14). Esse texto reúne Deus, Cristo e seu sacrifício, e o Espírito como o verdadeiro fundamento na nova vida estimulada ao amor e às boas obras (Heb 10:24). Não há justificativa contextual para dizer que, não obstante tudo aquilo que o livro diz sobre a antiga aliança (Hb 8:7.13 etc.) e sobre a lei que a regia, ainda assim, em vez de se tomar Hb 8:10 significando a vontade divina para a nova aliança, nada justifica o leitor defender o contrário: que na nova aliança Deus inseriria no coração do crente uma parcela de leis da velha aliança que o próprio Livro trata como superada.

    O serviço a Deus, no Livro de hebreus, é algo diferente de reproduzir as leis da antiga aliança. O “erro” reprovado ao longo do livro não é o fato de os leitores estarem deixando de praticar algum item da lei, mas ao contrário, é o fato de ainda estarem praticando certos itens dela. Ao assim fazerem, não estavam vivendo em conformidade com a nova aliança, estavam desacreditando de Cristo e de seu sacrifício, sendo tão rebeldes e incrédulos como seus “pais” no período do deserto foram em relação ao que Deus lhes ordenou lá.

    Esses textos de Hebreus se aproximam muito daquilo que Paulo diz em Romanos 6-8. Lá, Paulo se dirige aos que conhecem a lei (7:1). A esses, ele exorta a morrerem para a lei (Rom 7:4-6); e a viverem a vida no Espírito (8:1-11). Em Rom 7-8, Paulo também não acusa seu leitor, conhecedor da lei, de transgredir algum item moral específico da lei mosaica, mas mostra que a solução para o problema do pecado, além de estar muito fora do alcance da lei (foi impossível a ela), mais do que isso, dada a malignidade do pecado, a lei tornara-se parte do problema, aliada do pecado.

    Segundo Paulo, como já dito, o mandamento dado para a vida foi manipulado pelo pecado para causar a morte (Rom 7:10). Vale frisar que é o próprio Paulo que trata a lei desse modo, como parte do problema (cf. Rom 7:7-13); ele considera a lei como sendo a força com a qual o pecado atrai suas vítimas (7:11; cf. 1Cor 15:56) ainda que, simultaneamente, ele considera a lei, quanto a sua origem, divina; quanto a sua natureza, santa (7:12). A natureza da lei é oposta da natureza do pecado, mas tanto a lei quanto o “EU” carnal sucumbem aos propósitos do pecado.

    O problema não está na lei em si, mas na excessiva malignidade do pecado que faz da lei sua isca para o “EU” carnal. Assim como Hebreus convoca seu leitor a se desvincular da antiga aliança e de seus apetrechos, de modo similar Paulo convoca os crentes a morrerem para a lei da antiga aliança (Rom 7:4-6), da mesma forma como se deve morrer para o pecado (Rom 6:11): unindo-se a Cristo por meio de seu corpo (Rom 6:5-6; 7:4 etc.). Assim como em Hb 8:10 justaposto a Hb 10:15-16 considera o Espírito um elemento fundamental na para a concretização da nova vida na nova aliança, também Paulo em Rom 8:1-17 apresenta o Espírito como o único que de fato é capaz de fazer morrer o pecado, libertando o crente justificado de seu domínio/escravidão ao habitar no justificado/salvo (Rom 8:1-17).

    Apenas a vida no Espírito fará com que o pecado não reine sobre o indivíduo mesmo que o pecado ainda more no seu corpo mortal (7:17-21). O pecado vive, mas não reina (Rom 6:12), porque aquele que foi justificado já morreu. A vida no Espírito é superior à vida na lei porque é a única forma de vida que não é escrava do domínio profundo do pecado. Viver uma vida moral (tão exaltada no adventismo como no judaísmo primitivo) não é viver livre do domínio do pecado. Imoralidades, ainda que sejam mais notáveis socialmente, são uma ínfima partícula dos efeitos profundos do pecado sobre o corpo e mente. Além do orgulho, inveja, ciúme etc., há diversas formas de “obras da carne” que podem escravizar um indivíduo ainda que ele seja um exímio praticante das obras prescritas na lei mosaica. Para Paulo, o conhecedor da lei que não se libertasse da vida regida por ela para viver a vida no Espírito, continuaria necessariamente dominado pelo pecado (Rom 6:14).

    O tema é certamente mais profundo do que é possível expor aqui. O adventismo, porém, aborda o tema de modo extremamente superficial e passa tão longe daquilo que realmente Paulo ensinou sobre a lei, e faz desse modo há tanto tempo, que, talvez, a causa deve ser uma mistura de sua história e sua devoção à própria tradição. Explico.
    As primeiras crenças adventistas básicas foram elaboradas no período de 1844-1846, dentre elas, estava a doutrina adventista da lei e do sábado. Primeiramente, José Bates entrou em contato com a doutrina do sábado, através de um folheto escrito por Thomas M. Preble que, por sua vez, havia sido influenciado por Rachel Oakes Preston. Jose Bates influenciou os White quanto a obrigatoriedade do sábado para os cristãos a ponto de, quando Ellen White, após se convencer, chegou a pedir que Tiago a rebatizasse. Ou seja, não dá pra duvidar da sinceridade de tais pessoas. Ocorre que aquilo que foi formulado por esses pioneiros quanto ao tema da lei não teve nenhuma significativa alteração de lá para cá, mesmo em obras como os volumes do Comentário Adventista, que abordam as cartas de Paulo; nem no “Tratado de Teologia”, nem em obras de cunho apologético como “Respostas às Objeções” de F.D. Nichols, ou no “Nisto Cremos”. É vão vasculhar as produções disponibilizadas pela Andrews University em busca de uma abordagem ampla, academicamente séria que aborde o tema da lei no NT., particularmente em Paulo, com a profundidade que o tema deveria receber, dado o valor que esse tópico tem para a teologia adventista. Mesmo em obras que se apresentam como sérias, que empregam uma linguagem mais elaborada, tal linguagem apenas repete a formulação doutrinária pioneira em sua deficiência e precariedade, sem tentativas de aprofundamento. Os textos de Paulo são sempre “explicados” com a citação de Mat 5:17; Rom 3:31, Tig 2:10 e alguns outros amuletos “clássicos”.
    Diante disso, há um contraste que fica evidente a qualquer leitor atento dos textos paulinos ao se deparar com as afirmações adventistas. Por exemplo, das 119 ocorrências da palavra lei (nomos) que aparecem nos sete livros do corpus paulinum (72 estão em Romanos, e 32 em Gálatas. Apenas entre Rom 2:12-8:7 “nomos” ocorre 66 vezes). Dessas mais de cem ocorrências, os pioneiros conseguiram “utilizar” menos de 10. O uso que foi feito se resume a poucas sentenças como “confirmamos a lei” (Rom 3:31); “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rom 3:20b); “eu não teria conhecido o pecado se lei não dissesse (Rom 7:7)”; “a lei é santa… (Rom 7:13”) e mais algumas outras poucas. Todavia, mesmo essas poucas sentenças não são analisadas à luz daquilo que, nas respectivas perícopes, são a real mensagem que o apóstolo Paulo de fato está comunicando por meio delas. No adventismo, essas sentenças são lidas como se fossem provérbios soltos desconectados daquilo que Paulo disse antes e daquilo que disse depois desses textos. O pensamento e raciocínio paulino inerente a esses textos e defendido por Paulo jamais foi assimilado no ensino adventista sobre a lei. Em regra, os esforços são para dizer aquilo que Paulo não disse. Uma “argumentação” muito comum é “Paulo não iria contradizer Mateus ou Tiago” e coisas do gênero. Mas há um silêncio sobre aquilo que de fato Paulo quis dizer com suas palavras ao longo de Romanos, Gálatas e outros.
    Essa tática evasiva de argumentação adventista se verifica quando um intérprete adventista se propõe a explicar declarações paulinas do tipo: “morri para a lei a fim de viver para Deus”; “a força da lei é o pecado”; “considerai-vos mortos para a lei”; “O pecado pelo mesmo mandamento me enganou e me matou”; “O pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, e sim da graça” e muitas outras similares. Aquilo que Paulo efetivamente quis dizer sobre o tema da lei, inclusive com tais afirmações, ficou de fora do sistema doutrinário adventista desde 1846, e é mantido assim até hoje. Mesmo Paulo sendo o escritor neotestamentário que mais escreveu sobre a lei, aquilo que realmente ensinou, jamais foi, de fato, assimilado pela doutrina adventista da lei.
    É compreensível que os pioneiros não tivessem acesso ou meios suficientes para ir a fundo nos textos paulinos quanto à lei. Certamente foram sinceros naquilo que puderam compreender. Hoje, porém, quase duzentos anos depois, a manutenção dessa postura superficial e equivocada em relação ao ensino paulino quanto a lei evidencia uma rejeição proposital de ensinos bíblicos. Não se trata mais hoje de mera ignorância, e sim, de erro voluntário.
    É possível supor que, se a teologia adventista assimilasse o ensino paulino hoje, tão tardiamente, além de resultar numa alteração radical da doutrina da lei em si, causaria também um impacto reflexo muito grande em quase todas as demais crenças e doutrinas adventistas, visto que diversas outras doutrinas adventistas se relacionam diretamente com a doutrina da lei (p. ex.: a guarda do sábado; o “selo divino” de Apocalipse 7; o real significado do termo “mandamento” de Apocalipse 14; o “critério” de julgamento no “juízo investigativo” etc. etc.). Impactaria até mesmo o conteúdo das visões de EGW sobre o decálogo e sobre o papel do decálogo na escatologia adventistas. Desse modo, diante da proporção inimaginável do impacto de fazer uma correção bíblica tão tardiamente, por uma questão de sobrevivência, parece ser melhor fazer como se faz na teologia dogmática do catolicismo: a tradição da igreja está acima da Bíblia. A tradição dos “pais” fundadores do adventismo é o seu critério interpretativo da Bíblia. Desse modo, aquilo que os pioneiros e EGW disseram sobre a Bíblia é a verdade imutável, ainda que para manter isso se exija sacrificar o ensino explícito de algum apóstolo.
    Ou seja, não é possível vislumbrar qualquer solução. Por “sorte”, somos salvos pela graça, e não pela exatidão do conhecimento.

  3. Rodrigo Rodrigues
    fevereiro 09, 16:34 Resposta

    PARTE 2

    2.9. Você diz: Uma vez que ele afirmou que “a vida no Espírito é superior e distinta daquela vida regida pela Torá”, tenho curiosidade de saber como ele harmoniza isso com João 5:46-47 (supracitado), Romanos 3:31 e Romanos 10:1-4.

    Em primeiro lugar, quem ensina que a vida no Espírito é superior e distinta da vida sob a lei, regida pela Torá, é o próprio Paulo, e não eu. Eu não inventei tal afirmação. Eu poderia citar centenas de intérpretes, contemporâneos e antigos, de diversas universidades ao redor do mundo, que já constataram isso no ensino do próprio Paulo em seus textos. Há farta bibliografia que analisa as diversas perícopes onde Paulo ensina precisamente isso (além de comentários exegéticos, há também artigos acadêmicos, monografias, ensaios, teses etc.) e, por sua vez, essas bibliografias levam o leitor que esteja realmente interessado à muitas outras. Ainda que em português a oferta de tais bibliografias não seja tão grande, há abundância em inglês e, para aqueles que têm outras competências linguísticas, a oferta também é muito grande principalmente em alemão, mas também há importantes produções em francês, italiano (particularmente pelo Pontifício Instituto Bíblico e pela Gregoriana), ou traduzidas para o espanhol. São produções das mais diversas universidades que fazem pesquisas avançadas e permanentes no AT. e no NT. Em regra, essas obras são disponibilizadas de modo bastante facilitado.

    Tenho a impressão, porém, que um adventista tradicional com mentalidade apologética, como é o teu caso, dificilmente teria real interesse em saber o que o texto bíblico de fato diz (por isso ignora as pesquisas). Em regra, um apologista quer apenas achar meios de como manusear um texto de forma a favorecer sua crença pré-constituída. Desse modo, receio que não dê para tomar muito a sério tua “curiosidade de saber” (se realmente houvesse, não estaria tão alheio às publicações especializadas a respeito).

    Ainda assim, tecerei algumas considerações elementares, particularmente sobre Romanos 3:31. Esse versículo está situado um pouco depois de uma das sentenças mais conhecidas de tudo aquilo que Paulo já escreveu, que é o texto precedente de Rom 3:21: “Agora, à parte da lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela Lei e pelos profetas” (Rom 3:21). Há aqui um equilíbrio vital que Paulo mantém em diversas passagens, e repete tal equilíbrio em Rom 3:31.

    De um lado, Paulo afirma que a atual revelação da justiça de Deus sobre todos os que creem acontece à parte das obras da lei. Sem a participação das obras da lei. Assim, a primeira ocorrência da palavra “lei” em 3:21 faz referência à legislação. Noutros textos, ele usa a expressão completa “obras da lei”. Ao lado disso, na segunda ocorrência de “lei” em Rom 3:21 ele a usa na expressão “lei e profetas”. Neste caso, agora, Paulo está se referindo à porção das Escrituras conhecida como Lei/Torá, os cinco livros mosaicos. Da mesma forma, “profetas” faz referência à porção de livros que na Bíblia hebraica são conjuntamente chamados de profetas (divide-se em profetas anteriores e posteriores).

    O que Rom 3:21 está dizendo é que a justificação sem a obras da lei é uma realidade que já fora predita nos próprios livros da lei (cinco livros da Torá), assim como nos livros dos profetas. Desse modo, ao ensinar a justificação baseada na fé, para os circuncisos (judeus); e por meio da fé, para os incircuncisos (gentios); igualando todos na mesma condição para serem, no presente, declarados justos, Paulo deixa claro que não está contradizendo ou desautorizando os livros da lei nem os ensinos dos profetas, e sim, demonstrando seu real cumprimento histórico no presente. Ou seja, o ensino que rejeita qualquer papel das “obras da lei” no presente está em plena harmonia com tudo aquilo que os próprios livros da lei já profetizaram. Paulo exemplifica isso analisando o caso paradigmático da Abraão que vem logo em seguida a Rom 3:31 (i.e.: Rom 4). É assim que, tudo aquilo que Pulo diz sobre a exclusão das obras da lei naquilo que é proposto na nova aliança, em realidade, confirma a veracidade daquilo que fora profetizado na própria Lei.

    À luz de Rom 4 e o caso de Abraão, fica novamente reafirmado que mesmo o fato de Paulo descartar as obras da lei, que foram inseridas nos livros da Torá como único modo de vida aceito dentro da antiga aliança sinaítica, ainda assim, esse “descarte” no presente está em plena harmonia com aquilo que já fora predito. Esse “descarte” apenas demonstra o cumprimento e a absoluta veracidade da Torá. É por isso que em Rom 3:31 Paulo diz que a afirmação que ele sustentou desde Rom 3:21, não é uma anulação da Torá, mas uma confirmação de seu valor. É dessa mesma perspectiva que ele também diz em Gálatas: “Eu, MEDIANTE A PRÓPRIA LEI, morri para a lei, a fim de viver para Deus” (Gal 2:19). Ou seja, é porque Paulo compreendeu o real sentido da lei que ele, em obediência, morreu para ela.

    Essa mesma linha argumentativa de que a exclusão das obras da lei está em harmonia com a correta compreensão da Torá é mantida em Rom 9-11. De igual maneira, em 2ºCotíntios 3, depois de descrever como a antiga aliança, quela “cravada com letras em pedras” era inferior à vida na nova aliança sob o Espírito, Paulo não diz que está contrariando ao ensino da Torá, e sim, que são os leitores que se opõem a isso é que ainda leem a lei com vendas nos olhos e no coração (2ºCor 3:14-15). Aos crentes da Galácia, que estavam sendo influenciados pelos judaizantes, ele indaga: “vós que quereis estar sob a lei, não ouvis a lei?” (Gal 5:21). Dito de outro modo, a postura deles em aderir elementos da legislação da antiga aliança (p. ex.: Gal 4:10); era, na prática, evidência de que não ouviam a própria Torá que julgavam querer obedecer. De volta a Romanos, Paulo não escreve focando em degenerados imorais, e sim, em quem “conhece a lei” (Rom 7:1); praticantes que “têm zelo por Deus”, não, porém, com o entendimento necessário (Rom 10:2).

    Obviamente estou deixando de fora uma enorme quantidade de detalhes mais densos que rodeiam e se relacionam com Rom 3:31,

    Algo similar poderia ser dito de João 5. Quem realmente cria nos escritos de Moisés, deveria crer em Cristo inclusive naquilo que Cristo difere ou diverge frontalmente de Moisés. Quando veio a “plenitude dos tempos”, Deus não enviou Moisés de volta, e sim, Cristo. Eu poderia discorrer também sobre Rom 10:1-4 e sobre o significado de Cristo ser o “telos” da lei ([télos gàr nomou Cristós…]). O termo significa fim ou finalidade? Ou ambos? Mas acho que já sintetizei o essencial daquilo que foi questionado e há outras coisas ainda para discorrer.

    Mesmo não tomando muito a sério tua “curiosidade” de saber, faço ainda assim uma sugestão genérica Bibliográfica. Já que teus leitores supõem que você pesquisa aquilo que constantemente lhes diz, então, pelo menos no trato com textos Bíblicos específicos, seria uma atitude responsável conhecer e consultar tal bibliografia.

    Há um periódico trimestral intitulado “The New Testament Abstracts” (existe também o The Old Testament Abstracts). Ele é produzido desde a década de 1960. Está disponível para assinatura, bem como é possível adquirir os números antigos. Nele é possível conferir a respeito de qualquer que seja o texto bíblico em particular todos os trabalhos de cunho acadêmico já produzidos a respeito de cada texto bíblico específico.

    Tudo aquilo que as maiores universidades ou os institutos de pesquisas publicaram ao redor do mundo, de cunho exegético, nas principais línguas. O periódico traz o título de cada obra, a indicação de seu tipo (se é livro, comentário, artigo, monografia, ensaio, capítulo de livro, tese etc.), também traz um resumo em inglês (mesmo que a obra indicada tenha sido publicada em alemão, francês, italiano etc.), o resumo é sempre me inglês. As universidades brasileiras que dispõem de todos números dos periódicos, como é o caso da PUC-Rio, ou da EST de São Leopoldo, também dispõem de convênios e meios fáceis e práticos para o pesquisador solicitar qualquer material indicado nesses periódicos (com exceção de livro completo), ainda que o material desejado esteja do “outro lado do mundo”. Isto é, se o pesquisador descobre 5 artigos e três teses doutorais sobre Romanos 3:31, em geral, as universidades têm a forma fazer tal pedido gratuitamente e apenas por um valor simbólico. Você e teus leitores poderiam se beneficiar muito disso (mesmo no caso do interesse do pesquisador se resumir à mera defesa apologética das tradições denominacionais).

    (CONTINUA…)

  4. Rodrigo Rodrigues
    fevereiro 09, 16:28 Resposta

    Eis aqui o “internauta”.

    PARTE 1

    Eu li teu texto aos poucos e, hoje, aproveitei uma a oportunidade de tempo livre para responder. Foram citados textos e feitas afirmações que vão bem além do assunto original. Dado o tamanho do teu texto, não vou conseguir em um dia responder cada item e cada afirmação em particular e, mesmo os casos que vou responder, dada a real profundidade que eles requerem, vou me ater apenas àquilo que julgo ser mais essencial, sem a pretensão de esgotar qualquer item. Farei algumas considerações preliminares, depois entro nas questões de cunho mais conceitual na ordem em que estão dispostas no texto.

    1. QUESTÕES PRELIMINARES

    Acho que você me superou na quantidade rótulos. Não selecionei todos, mas em uma parte deles você me qualifica do seguinte modo:

    “falta de educação e pouca noção de filosofia ou retórica”; “revela mediocridade”; “argumentação precária”; “se demonstrou muito arrogante”; “não sabe argumentar. E também não possui noções básicas de filosofia e retórica”; “não sabe interpretar um texto escrito”; “não tem familiaridade com os princípios hermenêuticos de interpretação do texto bíblico”; “não possui familiaridade com a disciplina chamada Ética Cristã”; “tolo”; “confundiu interpretação bíblica com rotulação”; etc. etc.

    Receio que se eu possuísse em mim cada uma dessas qualificações, possivelmente, agora eu te devolveria, merecidamente, uma outra lista de “qualificações” à altura valendo-me de teu próprio texto inclusive. Isso, porém, faria a discussão fugir muito das questões conceituais e textuais que aparecem entremeadas à adjetivação. Desse modo, por economia de tempo e de energia, vou ignorar o conteúdo ad hominen e preferir me ater às questões de cunho mais conceituais.

    Destaco aqui ainda que, quanto a eu “não saber filosofia e retórica”, entre as coisas que já estudei e ainda estudo, estão as diversas metodologias exegéticas e abordagens textuais (são coisas distintas), tanto sua teoria quanto sua prática. No caso da filosofia, até costuma ser muito útil e muito empregada por teólogos em suas teologias sistemáticas/dogmáticas, mas é completamente inútil e absolutamente imprópria à exegese técnica. Qualquer exegeta sabe que a tarefa da exegese é extrair aquilo que está no texto, aquilo que o texto significou ao ser escrito, logo, não se deve levar ao texto conceitos estranhos a ele, ainda que se trate de conceitos ou categorias filosóficas válidas em si mesmas.

    Quanto à “disciplina chamada Ética Cristã”, como você deve saber, também está dentro do campo teologia sistemática/dogmática em sentido amplo, mas totalmente fora do campo da exegese em sentido estrito.

    Quanto aos “princípios hermenêuticos de interpretação do texto bíblico”, vale frisar que há distinção entre “princípios hermenêuticos” e “metodologia exegética”. Tanto o primeiro item (hermenêutica) quanto o segundo (exegese) não são idênticos quando, por exemplo, se compara a exegese de obras que aderem ao Método Histórico-Crítico com as que aderem ao assim chamado “Gramático Histórico”. Além disso, ainda que intérpretes com metodologias distintas busquem fundamentos na mesma Bíblia, os princípios hermenêuticos de um intérprete protestante reformado e “inerrantista”, por exemplo, diferirão substancialmente dos princípios adotados por um protestante arminiano não-inerrantista e, por sua vez, estes dois diferirão dos princípios adotados por um intérprete católico. Entre você, adventista apologista, e um presbiteriano reformado, ainda que suspostamente vocês partilhem dos mesmos princípios hermenêuticos, na prática, vocês divergirão sobre muitos pontos essenciais, ainda que, em tese, conheçam e pratiquem princípios hermenêuticos idênticos.

    De qualquer modo, como o cardápio de princípios hermenêuticos é um tanto farto, a menos que você diga quais princípios hermenêuticos você julga que eu não conheço (os de Lutero, talvez?), eu realmente não faço ideia do que é que você está falando, visto que não há um conjunto único e uniforme que seja aceito e praticado por todos os intérpretes de modo igual.

    Ainda dentro dessas questões preliminares, no texto anterior, eu “acusei” você de não fazer a exegese dos textos bíblicos em questão. Também disse lá que você não é exegeta. Apesar de você ter tomado isso como se eu tivesse fazendo um ataque pessoal e gratuito, na verdade, acho que você não refletiu sobre a questão.

    Se você abrir um comentário exegético, por exemplo, em Romanos 11 e justapô-lo a uma obra de teologia sistemática, aberta em alguma parte que trate de algum tema que também se relacione com Romanos 11, você verá, por um lado, que teu artigo anterior, de fato, não corresponde à exegese em absoluto, mas por outro, até se aproxima, ao menos em parte, da teologia sistemática. Ocorre que entre uma abordagem sistemática de alto padrão, como as feitas por Wolfhart Pannenberg (protestante), ou de Jürgen Moltmann (católico), teu texto também não se enquadraria perfeitamente. A teologia sistemática/dogmática possui métodos e passos específicos que precisam ser seguidos, ainda que sem prejuízo da liberdade criativa do teólogo.

    Todavia, se teu texto for comparado a escritos de apologistas quando escrevem em linguagem popular, aí sim, é possível ver grande semelhança. Eu não disse, na minha crítica anterior, que você não era sequer apologeta (que é uma sub área da teologia sistemática). Eu disse que você não é exegeta. Mas essa afirmação não é um ataque pessoal, e sim uma constatação a partir de texto concreto escrito por você mesmo. Obviamente eu não li todos os textos que você já escreveu (os que eu li, foi sempre alguém conhecido me enviando e perguntando algo a respeito, mas neles, as características são as mesmas) , nem assisti todos os seus vídeos já produzidos (mas já vi alguns postados no Youtube), de qualquer modo, nos textos teus que eu li e nos teus vídeos que já assisti, você não faz uso dos passos próprios de uma metodologia exegética (tal como consta nos manuais de exegese bíblica do AT e do NT, tal como se pratica em textos exegéticos acadêmicos). Não estou falando da “linguagem” simples (exegese independe de linguagem técnica ou popular), estou me referindo ao método.

    Ao lado disso, friso que mesmo um teólogo sistemático (ou da área aplicada/pastoral ou das áreas afins), como parte obrigatória e inicial de seu trabalho, consulta a exegese técnica e atualizada para saber o que o texto quis originalmente dizer ao leitor primário, ainda que um teólogo não faça, ele mesmo, a exegese em si (o teólogo não faz crítica textual, delimitação de perícope, análise de forma/estrutura, análise de gênero etc. etc.). O teólogo parte da exegese feita e colhe seus resultados como alicerce de sua exposição. A partir da verificação daquilo que a exegese técnica diz, o teólogo procederá os passos próprios da teologia sistemática/dogmática.

    A exposição apologética, por mais que possa legitimamente recorrer a outras fontes, como conceitos filosóficos, não deveria dispensar a verificação exegética quando vai se utilizar de textos bíblicos. Em contraste, tanto na bibliografia que você menciona neste texto, quanto no anterior, eu fiz questão de checar todas, você não menciona uma única obra exegética (Champlin é um comentário popular. Um misto de crença pessoal, um pouco de exegese, textos homiléticos etc.). Essa falta, a meu juízo, pode explicar a presença de deficiências conceituais, por exemplo, quanto ao significado de textos de Paulo ou do Pentateuco. Voltarei a isso ao tratar de textos específicos que você menciona.

    2. TÓPICOS SELECIONADOS

    2.1 Você diz: se queremos compreender devidamente um tema, devemos “pular” de um Testamento para outro. Obviamente, sempre respeitando o contexto histórico-gramatical do texto bíblico.

    Há aqui, novamente, uma questão metodológica. Compreender um “tema” que perpassa toda a Bíblia para, no fim, dizer como o leitor deve crer hoje, não é tarefa da exegese, absolutamente, antes, esse é o foco da teologia sistemática (a exegese se atém a dizer descobrir: o que um escritor em particular quis dizer e o que ele cria. A teologia é que diz em que o religioso DEVE crer hoje).

    Entretanto, não basta “pular” de fraseado a fraseado do AT. ao NT., misturando tais “freados” bíblicos com afirmações categóricas que apenas expressam as convicções pessoais do intérprete. Se se está lidando com uma temática ampla abarcada pela teologia, principalmente se se trata de tema que abriga múltiplas interpretações divergentes, espera-se, pelo menos, que o expositor pratique o essencial dos passos da metodologia teológico-sistemática. (Há manuais de metodologia teológica tal como há os de metodologia exegética disponíveis no mercado, inclusive em português, à disposição de quem os queira).

    Uma metodologia clara, consistente, que não omite os pressupostos do intérprete, mas busca o máximo rigor e precisão na abordagem e apresentação de um tema, é o mínimo que se espera de um intérprete que se sabe responsável diante de Deus e de seus leitores. É muito fácil tagarelar coisas como: “sigo o princípio da sola scriptura”, ou o da “tota scriptura”, ao passo que, por exemplo, o próprio Lutero, que elaborou esses e outros princípios, também quebrou cada um deles ao longo de seus escritos.

    Por um lado, não esperaria que você usasse não nem uma metodologia exegética nem uma metodologia teológico-sistemática propriamente (visto que teus textos são essencialmente apologéticos). Por outro lado, no ímpeto apologético, você faz os textos dizerem aquilo que você quer que eles digam. Tuas conclusões antecedem tua pesquisa. Esse “mal”, contudo, é muito frequente também em obras como o Tratado de Teologia da IASD, assim como ao longo dos volumes do Comentário ASD (possuo todos eles). Há, na IASD, honrosas exceções, como se verifica em artigos produzidos e disponibilizados pela Andrews University, particularmente quando não se trata de algum tema ou texto que tenha relevância doutrinária para a IASD.

    • 2.2. Você diz: Cabe a ele o ônus da prova de que usei os textos sem nenhum nexo. Ou que desconsiderei o contexto deles. Para isso, o mínimo que ele deveria fazer é dar uma interpretação alternativa aos textos que usei. Além disso, deveria apresentar alguma fonte teológica ou histórica que contradissesse o que eu escrevi. Desse modo, poderíamos seguir num debate honesto, com o objetivo de aprendizagem.

    Eu confesso que, diante do que você afirma sobre minhas “qualificações” ao longo do texto, fiquei um pouco em dúvida quanto a veracidade de você realmente ter algum interesse em “uma interpretação alternativa aos textos”. Será que uma exegese completa, por exemplo, de Romanos 13:1-6, não te faria dormir? Não obstante essa minha ressalva, vou tentar elaborar de modo bastante claro um dos principais problemas lógicos que mais prejudicam tua interpretação dos textos do Pentateuco no artigo anterior. Depois, seguindo tua sugestão, recomendarei algumas obras úteis à contextualização dos textos bíblicos em questão.

    Quando você recorreu ao Pentateuco, você não abordou, primeiro, aquilo que o Pentateuco como um todo diz sobre a pena capital para, então, destacar a suposta peculiaridade da pena capital no caso específico do homicídio para, com base nisso, explicar por que é que, somente no caso específico do homicídio, a pena capital se aplica aos dias de hoje. Em seu texto anterior você se limitou a selecionar textos específicos sobre a punição para o homicida. Apenas isso.

    Vou dizer a mesma coisa de outro modo: digamos que haja dez tipos de condutas no Pentateuco que eram puníveis com pena de morte. Dessas dez, você seleciona exclusivamente uma (homicídio) para dizer que a pena capital, nesse caso particular, é válida ainda hoje. Mas qual foi o CRITÉRIO (objetivamente falando) fornecido no próprio texto do Pentateuco para deixar de lado as outras nove atitudes que lá também são puníveis com a mesma pena?

    Uma coisa é você concluir que a imagem divina no homem é o fundamento para, hoje, punir o homicida com a morte, outra coisa, muito diferente, é demonstrar o porquê de apenas o homicida, e não qualquer outra das atitudes lá mencionadas (adultério, homossexualidade etc.) não devessem, hoje, igualmente ser punidas com a morte. Qual texto e qual critério justifica essa cisão nessa temática na leitura do Pentateuco? Amenos que tal critério seja objetiva e biblicamente demonstrado, então, você estará sim sendo seletivo, parcial e defendendo ideias sem a mínima fundamentação esperada.

    Sobre a parte legislativa do Pentateuco, eu sugiro a obra de Frank Crüsemman: “A Torá: teologia e história social do Antigo Testamento” (Ed. Vozes). É uma obra clássica. É um texto técnico, porém claro e muito preciso, focado na parte legislativa do Pentateuco.

    Para algumas questões mais gerais úteis à contextualização de textos pentateucais, eu sugiro ainda os primeiros nove capítulos da obra organizada por Thomas Römer; Jean-Daniel Machi e Christophe Nihan “Antigo Testamento: história escritura e teologia”. Edições Loyola.

    Para questões mais elementares: Jean Louis Ska, “Introdução à leitura do Pentateuco: Chaves para a interpretação dos cinco primeiros livros da Bíblia”. Ed. Loyola. Essas obras trazem ampla bibliografia para quem quer se aprofundar.

    Quanto a Romanos 13 e demais textos de Paulo (Como Gálatas 3:15-25), sugiro que se comece pela obra de James Dunn, “A Teologia do Apóstolo Paulo”. Três capítulos dessa obra são dedicados especificamente sobre como Paulo se relaciona com a Torá judaica. Outra coisa muito importante é que Dunn traz uma enorme bibliografia a respeito, incluindo comentários, artigos especializados a cada passagem que ele aborda para benefício do leitor que queira “ir além”.

    Vale a pena ver, em segundo lugar, a obra organizada por Andreas Dettwiler [e outros]: “Paulo, uma teologia em Construção”. A quarta seção trata especificamente da relação de Paulo com a Torá judaica. Eu não descartaria, ainda, a obra de E.P.Sanders: “Paulo, a lei e o povo judeu”. Apesar de ser uma obra que recebeu diversas críticas de exegetas paulinistas em alguns pontos específicos, ainda assim, traz muitas contribuições inovadoras e ainda úteis.

    Todas essas estão traduzidas para o português. Há muitas outras excelentes obras excelentes sobre Romanos e Gálatas e demais textos paulinos, como as obras de N.T.Wright; C.B.Cranfield., mas por ora, essas bastam.

    • 2.3. Você diz: Esse comentário revela […] o desconhecimento da posição Protestante, Reformada e Adventista a respeito da Lei […] ele deveria conhecer algumas literaturas essenciais como as Confissões de Fé Reformadas […] Por exemplo, se ele conhecesse os padrões doutrinários da igreja reformada (…), os chamados Catecismos, veria que nenhum teólogo conservador (mesmo não sendo observadores do sábado) crê na “abolição da Torá”.

    Nenhum desses textos são comentários exegéticos dos livros de Paulo. Nenhum! Esses textos trazem afirmações teológicas na forma de declarações de fé, e dizem o que cada grupo denominacional crê. Eles são reflexos da teologia de cada grupo, e não base para se fazer teologia em cima deles, nem tem relação com aquilo que um exegeta, seja paulinista seja do Pentateuco, pesquisa e produz. Aliás, o que eu mencionei desde o texto anterior é que o que falta nos teus textos tem a ver, primariamente, com a deficiência exegética. De qualquer maneira, é Paulo quem usa tanto o termo como a ideia de abolição ao falar da Lei judaica. Mas acho que é válido aqui já tecer algumas considerações mais específicas.

    No coração da antiga aliança, fazendo o papel de testemunha (por isso ficava na arca da testemunha (o termo: ‘edot em Êx 25:16 é feminino, por isso: “testemunha”), estavam as tábuas de pedra (voltarei a este item mais abaixo). Em 2º Cor 3:7 menciona-se as tábuas de pedra como cerne da aliança que foi substituída pela nova. O texto de 2º Cor 3:6-11 faz um contraste entre as duas alianças afirmando a substituição da antiga aliança pela nova, e sem excetuar a “testemunha” daquela aliança substituída (o escrito nas pedras). Tudo aquilo que consta em de 2º Cor 3:6-11 se aplica igualmente às tábuas de pedras, àquilo que foi “cravado com letras em pedras”.

    Ademais, é o próprio Paulo que, depois de descrever a outorga da lei ao povo recém-saído do Egito, conclui que não estamos mais debaixo do aio, e “aio” é que é precisamente a Lei outorgada (Gal 3:25). Aliás, segundo Paulo, da mesma forma que o Cristão deve estar morto para o pecado (Rom 6:11) e liberto dele (Rom 6:18), o cristão também deve estar morto para a lei (Rom 7:4) e liberto dela (Rom 7:6), assim como ocorreu com o próprio Paulo (Gal 2:19a). Isso não é uma interpretação, e sim, as próprias palavras de Paulo. Está escrito precisamente isso. Pode-se discutir o que Paulo quis dizer ao leitor primário de modo concreto com o ensino de que “não estamos debaixo da lei”; e que: “devemos morrer para e lei”; ou ainda com: “devemos nos libertar da lei” etc., mas não se pode negar que ele, textualmente, diz precisamente isso.

    A velha técnica do adventismo é dividir a lei ao abordar os textos paulinos. Assim, se Paulo diz: “confirmamos a lei” (Rom 3:31), ou: “a lei é santa, o mandamento santo” (Rom 7:12); nestes casos, o adventismo afirma que se trata especificamente do decálogo. Todavia, se no mesmo contexto, como parte da mesma argumentação, Paulo diz que não devemos estar debaixo da lei, ou que devemos morrer para ela e sermos livres dela, então, dirá o adventismo tradicional que se trata de leis cerimoniais (leis “não-morais”).

    Obs. Dentre os adventistas brasileiros, a exceção é Wilson Paroschi (vide, por exemplo: (1) (2) )

    Ocorre que a ausência de divisão na “Lei”, seja nos escritos de Paulo, seja no restante do Novo Testamento, seja em escritos contemporâneos a Paulo, tal ausência está devidamente evidenciada pelos biblistas paulinistas desde há muito tempo. É possível constatar que quando Paulo fala negativamente da lei ele está falando precisamente da mesma lei que ele fala positivamente. E não está se contradizendo nisso. O pensamento de Paulo é bem mais profundo e complexo do que você demonstra ter conseguido compreender.

    Às vezes ele usa lei/Torá em sentido amplo, significando o todo Pentateuco, às vezes, porém, ele usa lei significando especificamente a parte legislativa, por meio da qual foi estabelecida a aliança no Sinai. A legislação é tomada por Paulo como as cláusulas que regia a vida na vigência da antiga aliança. Ocorre que Paulo jamais dividiu a legislação judaica em moral e não-moral (assim como não divide “corpo” e “alma”, mas trata-os como dimensão do indivíduo holístico). Nem Paulo nem qualquer outro escritor no Novo Testamento fez divisão interna na legislação judaica. Aquilo que Paulo diz a respeito de um único preceito, ele tem como verdade em relação a toda a legislação, e, aquilo que ele diz em relação a toda a legislação, ele tem isso como verdade em relação a qualquer preceito em particular. Desse modo, caso alguém se submetesse um item da lei que regia a antiga aliança, por coerência, deveria estar obrigado a aguardar toda a lei que regia quela aliança (Gal 5:3).

    Eu poderia discorrer por páginas e por horas sobre o tema, citando bibliografia e explorando os textos individualmente considerados, seja sobre a lei em Paulo seja sobre a Lei no próprio Pentateuco, bem como suas relações com Paulo (essa relação entre a legislação da Torá e Paulo ainda é um dos temas mais estudados pelos exegetas paulinistas), mas tenho a impressão de que este aqui não seja o melhor lugar para isso, nem esta a melhor ocasião (eu soube que há leitor que dorme se tiver que acompanhar uma linha de raciocínio até o final).

    Seguindo:

    • 2.4. Você diz: “Em primeiro lugar, seu total desconhecimento bíblico é demonstrado quando afirma que a Torá foi dada a Israel “no Sinai”. De fato, isso é um absurdo. Afinal, no Monte Sinai Deus deu apenas o Decálogo (ver Êx 19 e 20), escrito por Seu próprio dedo (Êx 31:18). Posteriormente, o Decálogo veio a fazer parte da Torá propriamente dita, composta [pelos] primeiros cinco livros de Moisés”.

    A meu ver, afirmar que Deus deu “apenas” o decálogo no Sinai, isso sim é que é absurdo! Ademais, a meu juízo, acho que deu para entender que quando eu me referi a Torá “dada no Sinai”, eu me referi a legislação da aliança feita 430 anos depois da aliança anteriormente feita com Abraão (e não aos cinco livros mosaicos), além disso, foi Paulo quem disse isso textualmente. Mas vou gastar um espaço maior aqui. Começo pelo Pentateuco, depois volto a Paulo.

    2.4.1. No Pentateuco há três grandes coleções de leis: o “Código da Aliança” (Êx 20:22-23:19); a assim chamada “Lei de Santidade” (Lev 17-26), e o “Código Deuteronômico” (Dt 12-26). Além dessas coleções, há diversas pequenas coleções de leis como as duas versões do decálogo (Ex 20:1-17; Dt 5:6-21); o denominado “Direito de privilégio de YHWH”, que alguns também o chamam de “Decálogo Cultual” (Ex 34:10-26). No caso de Levítico, tem-se diversos outros pequenos blocos como a lei dos sacrifícios e ofertas (Lv 1-7); Lei de pureza (Lv 11-15); o dia da expiação (Lev 16); Lei sobre votos (Lv 27). Com exceção das leis do Deuteronômio, as demais citadas foram todas dadas quando Israel estava nas planícies do Sinai. Essas coleções abarcam diversas áreas como a jurídica (jus), a ética (ethos) e a cultual (cultus).

    A grande diferença do decálogo para as demais leis mencionadas é que ele é o único conjunto de lei transmitido diretamente por YHWH ao povo, sem a mediação de Moisés. As demais leis foram transmitidas ao povo pelo próprio Deus, mas tiveram Moisés como seu intermediário.

    Dada a função do decálogo (testemunha das cláusulas da aliança), de todas as áreas temáticas, foram pinçadas alguma lei fundamental representativa para compor o conteúdo das tábuas de pedras e, ao passo que as pedras tinham o papel de ser testemunha da aliança entre YHWH e o povo, as cláusulas da aliança foram sinteticamente inscritas nas pedras para representar todas as demais cláusulas que regiam a aliança.

    Por exemplo, de tudo aquilo que foi dito sobre a área da sexualidade, apenas o mandamento “não adulterarás” foi inscrito no decálogo; de tudo o que se disse quanto a violência, apenas o mandamento “não matarás” foi inscrito. De todos os tempos sagrados, apenas o sétimo dia semanal foi inserido, e assim por diante. Esses mandamentos, porém, representam todo o restante do conteúdo legislativo na relação contratual entre YHHW e o povo recém-liberto. O acolhimento do decálogo implicava no acolhimento de todas as cláusulas nele representadas.

    A função de testemunha na aliança do Sinai faz lembrar os formulários de aliança do Antigo Oriente Próximo que seguem basicamente seis pontos: 1. Preâmbulo; 2. Prólogo histórico; 3. Cláusulas gerais básicas seguidas de disposições concretas; 4. Documento do pacto (preservação e leitura em determinados momentos); 5. Testemunhas; e 6. Bênçãos e maldições. (Um estudo clássico sobre isso foi há muito publicado por G. E. Mendehall, sob o título de “Ancient Oriental na Bíblical Law”, no “The Biblical Archaelogist”, 17, New Haven, 1954. particularmente, páginas 26-46 e 49-76).

    O decálogo em pedras exerce a função de testemunha, tal como no “pacto” entre Jacó e Labão, na ausência de alguém “neutro” (que não era parte envolvida naquele pacto), recorreu-se a pedras para servirem de testemunha entre os contratantes (Gên 31:44-49).

    2.4.2. Mais importante para contrapor ao descalabro de tua afirmação, diz respeito ao lugar em que Deus deu todas as leis acima mencionadas. O Pentateuco situa Israel geograficamente de modo bastante claro. Êxodo 1:1-15:21 descreve Israel no Egito. Ex 15:22-18:27 descreve Israel no deserto. A partir de Êxodo 19-40, passando por todo o Livro de Levítico e chegando até Números 10:10, Israel permanece situado nas imediações do Monte Sinai. Isso pode ser verificado pelas “fórmulas itinerário” que, em sua maioria, são compostas pelos verbos nasa’ (partir, transladar-se), bo’ (chegar) e nahah (acampar).

    Desse modo, tão logo o decálogo é pronunciado em Ex 20:1-17 (não foi imediatamente escrito), Moisés se achega à nuvem onde Deus estava e, lá, ele ouve/recebe de Deus as prescrições do “Código da Aliança” (Êx 20:22-23:19). Em Ex 24:3 é dito que Moisés referiu ao povo todas palavras e estatutos que Deus tinha dito a ele. Ele escreveu tais prescrições (24:4) leu o “livro” agora já escrito ao povo (v.7), e, logo em seguida, realizou o rito da aliança (v.8). Temos, assim, um conjunto de leis dadas no próprio Monte Sinai, escritas e lidas ao povo como sendo leis dadas pessoalmente pelo próprio Deus, no alto do Monte, antes mesmo da entrega da primeira versão escrita do decálogo (24:12). Ora, textualmente, o código da aliança foi dado (pronunciado) no Monte Sinai tal como o foi o decálogo; a diferença foi que, para o “Código da Aliança”, Moisés serviu de intermediário entre Deus e o povo. Da mesma forma, as leis de Êx 34:18-26 foram pronunciadas a Moisés quando ele estava no topo Monte Sinai. Estas leis também foram escritas e compuseram as cláusulas da aliança (34:27). Por esses dois exemplos já fica evidente o absurdo de se dizer que “no Monte Sinai Deus deu apenas o Decálogo”! Essa afirmação atenta contra a própria literalidade do texto do Êxodo.

    Houve uma mudança ocorrida a partir de Lev 1:1 quando, após a inauguração do santuário, Deus passa a pronunciar suas leis da “tenda da congregação” situada ainda aos “pés” do Monte Sinai, no meio do povo. Em consonância com isso, Levítico termina dizendo “são esses os mandamentos que O SENHOR ORDENOU a Moisés, para os filhos de Israel, NO MONTE SINAI” (Lv 27:34). Ainda assim, você afirma que “no Monte Sinai Deus deu apenas o Decálogo”!

    2.4.3. O significado de “Lei” dada 430 anos após a aliança feita com Abraão, mencionada em Gálatas 3:17, é dado pelo próprio livro de Gálatas. O principal livro da Torá citado por em Gálatas é o Deuteronômio. Assim, quando ele cita, usando a versão da LXX, “maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas escritas no Livro da Lei” (Dt 27:26), ele está fazendo menção à mesma coisa que o livro do Deuteronômio também chama de “Livro da Lei”, e não aos cinco livros de Moisés genericamente considerados (Lei em sentido amplo). É o “Livro da Lei” que contém as cláusulas da aliança feita no Sinai, e não os cinco livros mosaicos em sentido amplo. Paulo também menciona a Lei em sentido amplo, mas o contexto não deixa dúvidas nos casos específicos em que ele faz isso. Da mesma forma, em Gálatas 3, não há qualquer possibilidade de dúvidas de que Paulo está se referindo à legislação que compunha as cláusulas da aliança realizada no Monte Sinai 430 anos depois da aliança feita com Abraão. Apenas um “intérprete” que quisesse somente fazer “cortina de fumaça” insinuaria algo diferente disso em Gálatas 3.

    No capítulo 4 de Gálatas inclusive, Paulo constrói uma metáfora usando novamente a aliança feita no Monte Sinai (Gal 4:24-25). Em apertada síntese, a argumentação de Paulo é que aqueles que se pautam, após a vinda do Messias (Cristo), pelas cláusulas da aliança feita no Sinai estão agindo contra a própria Torá. Assim, aqueles que ainda queriam estar debaixo da lei que compunha a aliança do Sinai não estavam ouvindo à Torá de fato (Gal 5:21), pois aquilo que Paulo menciona sobre a aliança com Abraão e as razões pelas quais a lei sinaítica fora dada já deixa claro que, desde sua origem, o propósito divino era que a lei do Sinai e sua aliança deveriam ser provisórias.

    Semelhantemente, é mediante a própria Torá que Paulo diz ter morrido para a lei (Gal 2:19). Ou seja, quem compreende a Torá em sentido amplo sabe que aquilo que Deus acordou (prometeu) diretamente a Abraão (sem mediadores) 430 anos antes da aliança no Sinai é o que foi cumprido por meio de Cristo e, a lei adicionada no Monte Sinai na realização daquela aliança posterior (Gal 3:17) em nada altera a aliança abraâmica feita anteriormente, visto que deveria durar somente até a chegada do “descendente” prometido a Abraão (Gal 3:19). Cristo é o cumprimento da promessa, logo, a lei dada na aliança do Sinai já desempenhou seu papel previsto por Deus para durar até a chegada do Seu descendente (Gal 3:25). Viver no pressente regido por ela, em vez de viver guiado pelo Espírito (Gal 5:18), equivale a voltar ao estado de imaturidade ou de escravidão anterior à vinda de Cristo (Gal 4:1-6; 5:1 etc.).

    Não obstante as riquezas não mencionadas desses textos em comento, entendo que aquilo que há de mais essencial na tua afirmação acima (incluindo o absurdo de que: “no Monte Sinai Deus deu apenas o Decálogo”), já está devidamente contraditada.

    2.5. Você diz: Por outro lado, se tivesse familiarizado com a obra Lei, Graça e Santificação, de Russell P. Shedd (outro teólogo que não era a favor da observância do sábado), saberia que […] De maneira idêntica, se tivesse alguma familiaridade com o conteúdo da obra de J. Barton Payne, compreenderia que a interpretação que ele deu, tanto a Gálatas 3:15-20 quanto a 2 Coríntios 3, é […].

    Esse tipo de referência explica porque você jamais penetrou no ensino paulino sobre a lei. Aparentemente, você não sabe onde encontrar a informação de que precisaria. Esses dois senhores citados realmente foram muito notáveis, além de muito conservadores, mas jamais vi um exegeta paulinista citando qualquer um deles.

    Quando à J. Barton Payne (1922-1979), não obstante sua excelente formação e trabalhos enraizados principalmente no Antigo Testamento, não obstante sua sua conhecida obra “Enciclopédia de Profecia” Bíblica”, fiz questão de procurar a lista de suas publicações acadêmicas (e são muitas mesmo!), e não achei uma única dedicada a Paulo e a seus escritos. O mesmo pode ser dito do batista Russell P. Shedd (1929-2016). Nenhum de seus livros publicados pela Edições Vida Nova ou pela Shedd Publicações tratou particularmente dos textos paulinos (ele também não é citado pelos exegetas palulinistas). Então, não entendi por que é que para saber o significado de Gálatas 3 ou de 2º Coríntios 3 eu deveria ter consultado esses senhores!?

    Para compreender Paulo eu pesquiso obras acadêmicas de exegetas especializados em Paulo. Quando o objetivo é compreender o Pentateuco, eu consulto especialistas do Pentateuco. Se você realmente quer discutir e até ensinar pessoas sobre o que esses textos significam deveria fazer o mesmo. Pela tua afirmação acima, e pelas bibliografias mencionadas nas notas no fim do texto, claramente, você não o faz.

    2.6. Você diz: “Jesus não cancelou a lei de maneira alguma: ‘Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas… Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra (Mt 5:17-18). Pelo contrário, por estas palavras, Jesus estabelece a lei [Torá] de maneira absoluta”. […] O internauta não parou para pensar que “a Torah, portanto, abrange tanto a lei quanto a graça divina” [assim como o Novo Testamento]. Esse ponto fica claro no Salmo 19: ‘A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma’”. Simultaneamente, quando afirmou que “o cristão não vive regido pela Torá judaica”, ele desconsiderou por completo as palavras de Jesus em João 5:46-47. Segundo Jesus, não crer em Moisés é o mesmo que não crer nEle. Afinal, Moisés foi inspirado a escrever sobre o Messias (…)

    Aqui há, novamente, uma questão metodológica que fere a qualidade de tua argumentação logo em sua base. Para se contrapor a uma afirmação que eu fiz fundamentada nas exatas palavras de Paulo, depois de mencionar J. Barton Payne e Russel Shedd, você recorre a Mateus 5:17-18; Salmo 19 e João 5:46-47 (por que não incluiu Tiago 2:10 também?). Essa mesma tática é encontrada em obras como o próprio Comentário Bíblico ASD, no Tratado de Teologia, no livro “Respostas às Objeções”, bem como nos materiais evangelísticos como a série de estudos Bíblicos “Ouvindo a Voz de Deus” etc., portanto, é a forma oficial da IASD lidar com os textos de Paulo que contradizem sua teologia: praticar o “pula-pula” para outros versículos cujo fraseado favorece sua crença. Nisto você não inova em absolutamente nada.

    Em lugar de usar textos de fugir para outros contextos para ignorar ou negar aquilo que Paulo diz, por que é que você não explorou as perícopes de Gal 3:15-22; de 3:23-29; nem do texto de 2º Cor 3:7-11? Por que não demonstra (1º) o que de fato Paulo quis dizer ao leitor primário nesses textos em seu devido contexto? Por que apresenta o que os exegetas especialistas em Paulo dizem a respeito desses textos? Isso que você fez é uma mera fuga do texto paulino, e não uma contra-argumentação.

    Aliás, eu desconheço um único comentarista de Mateus que diga o contrário do que você afirma sobre Mt 5:17 (ou seja, que Jesus, no Evangelho de Mateus, teria ensinado que a lei foi abolida). De igual forma, até mesmo exegetas católicos (exegetas de fato) não se opõem ao fato de que “a Torah […] abrange tanto a lei quanto a graça divina”. Por exemplo, a editora católica Ave-Maria traduziu e publicou uma introdução ao Pentateuco escrita pelo biblista Garcia Lopez que, ao comentar a parte legislativa do Livro do Êxodo, entre outras coisas sobre graça e lei diz: “A ética nasce do dom da liberdade e não ao contrário. Israel tem que observar a lei não tanto para ser salvo, mas porque já fora salvo. A obediência aos mandamentos constitui a resposta adequada do homem livre” (p.161). A própria lei, segundo Lopez, é uma dádiva ao salvos/libertos. Um ato da graça divina.

    Não se pode confundir membros leigos de igrejinhas quaisquer que apenas reproduzem aquilo que padres ou seus pastores berram do púlpito com aquilo que comentaristas exegetas de fato, seja do Evangelho de Mateus seja de qualquer outra parte da Bíblia tem a dizer sobre esses textos. Mas não é disso que se trata. Recorrer e tais textos como o de Mateus 5:17 (isto é, aos fraseados específicos dos versículos, não a real mensagem ampla da passagem) quando confrontado com Paulo é um vício praticado há mais de um século e meio o adventismo.

    Você aprecia os textos que você acredita poder usar para reforçar aquilo que você acredita, mas foge daqueles que causaria profunda lesão àquilo que você pretende. Essa é a única razão possível para você ignorar o significado dos textos paulinos mencionados (e há muitos outros que eu poderia ter mencionado), e se refugiar em outros livros, outros textos, outros contextos, como se isso mudasse aquilo que Paulo disse sobre a legislação da Torá como um todo.

    Os textos não-paulinos em seu contexto não estão de fato se contrapondo ao que Paulo diz, mas estão comunicando coisas diferentes para públicos diferentes em contextos histórico e literários distintos. Não vou discorrer sobre cada um deles aqui porque, além de exigir um espaço bastante amplo, isso seria o mesmo que te acompanhar na fuga ante os textos paulinos apresentados. De qualquer forma, faço algumas ponderações poucas sobre Mateus que parece ser um dos preferidos para o adventismo contradizer ou não ter de enfrentar Paulo com seriedade.

    Vale lembrar, todavia que, cronologicamente, Paulo escreve antes do Evangelho de Mateus ter sido escrito. Assim, pinçar versículos de Mateus e impô-los aos textos de Paulo para negar aquilo que o apóstolo disse, não é apenas erro metodológico, mas é exegeticamente desonesto também. Todavia, olhando apenas para Mateus, trata-se de um livro primariamente destinado a leitores cristãos judeus (é o posto de Lucas que é destinado primariamente a cristãos gentios). No contexto de Mateus 5, não bastaria a um discípulo fazer como um fariseu e obedecer, por exemplo, a letra da Torá que diz “não adulterarás”. Se um discípulo não se tornasse puro no íntimo do seu coração, já estaria a baixo da norma. Como diria Dietrich Bonhoeffer, até mesmo um único olhar não motivado pelo amor, tornaria um discípulo indigno de Cristo (comentando Mat 5:27-29).

    Tomando Mat 5:27-29 apenas como exemplo, se usássemos a linguagem de Paulo, parafrasiaríamos esse ensino de Mateus afirmando que: o discípulo, ao se unir ao Cristo pelo batismo, deve morrer para o sétimo mandamento, não se guiar pela letra caduca do sétimo mandamento, mas pelo Espírito dado por Cristo para habitar no íntimo desse discípulo salvo, pois só assim ele poderá viver em conformidade com a vontade de Deus expressa no sétimo mandamento: exprimir pureza do coração até mesmo num olhar. Nos termos de Paulo, seria necessário dizer ainda que aqueles que estão no “nível” da letra do sétimo mandamento, regidos pela estrita letra, no seu íntimo, ainda estão dominados pelo pecado denunciado pelo próprio sétimo mandamento (impureza) e escravizados por ele, ainda que pratiquem a obra prescrita nesse mandamento (ainda que não adultere na prática, até seu olhar é escravo da “porneia” que domina o coração).

    Neste sentido, voltando a Mateus 5, era possível um fariseu praticar toda a letra da Torá, mas estar transgredindo a própria Torá, pelo fato de não a praticar nos moldes de Cristo. Paralelo a isso, em Rom 6-8, a vontade última de Deus subjacente à lei outrora escrita, só é possível ser compreendida e vivenciada por meio do Espírito dado por Cristo. A lei jamais teve sequer a função de alçar um ser caído a esse patamar elevado visto em Cristo. Esse alçamento de um pecador é obra possível apenas e tão somente pela habitação do Espírito naquele que foi justificado por meio da fé em Cristo.

    Se respeitarmos aquilo que cada texto de fato quer dizer, é possível vislumbrar grande profundidade e relevância tanto naquilo que Paulo diz contra a lei, como naquilo que ele ou qualquer outro diz a favor dela. Todavia, não é possível fazer isso quando se está apenas defendendo apologeticamente uma tradição doutrinária, ou uma ideia pessoal a todo custo, com meros artifícios retóricos em lugar de se escavar o mais fundo possível aquilo que cada texto, em seu devido contexto, de fato, quis dizer ao leitor primário quando foi escrito.

    2.7. Você diz: “Se o internauta tivesse lido e refletido apenas nas palavras de Gênesis 4:10-11, Gênesis 26:5, Êxodo 16:1-36 e João 8:44, saberia que a parte moral da Lei existia antes do Sinai. Do contrário, Caim (Gn 4:10-11) e o Diabo (Jo 8:44) não seriam considerados homicidas; Abraão não teria sido considerado obediente “aos mandamentos e leis” de Deus, […]”

    Essa afirmação mostra como o “afã” de provar ideias e intepretações típicas do adventismo tradicional impedem a leitura apurada e proba dos textos bíblicos.

    Acho mais didático começar por Abraão. Quais leis/mandamentos Abraão obedeceu? Estaria o texto de Gênesis se referindo a uma forma preexistente do decálogo? Ou à preexistência de todas as 613 leis dos blocos legislativos da Torá? No contexto do Livro de Gênesis, é a VONTADE REVELADA de Deus que foi chamada de mandamento/lei.

    Quando Deus disse para Abraão sair de sua terra, deixando sua parentela (desistir de seu passado); ou quando Deus disse para ele sacrificar seu único filho (desistir de seu futuro), aí estavam mandamentos (vontade de Deus revelada) às quais Abraão obedeceu. O mesmo pode ser dito de Caím que, antes de matar seu irmão, Deus se apresenta a ele e o adverte para dominar o desejo homicida que já está em seu coração (Gn 4:7). É contra essa vontade divina revelada que Caím pecou. Adão e Eva pecaram, não contra o decálogo das tábuas de pedras, nem contra nenhum dos 613 mandamentos que constam na parte legislativa da Torá, mas contra a vontade revelada de Deus para não comerem do fruto da ciência do bem e do mal. De igual maneira, pode-se acrescentar a ordem para que Ló e sua família não olhassem para trás durante a fuga. Isso se tornou uma vontade divina revelada especificamente para eles precisamente durante a fuga e, ao transgredir essa ordem tão específica, ainda que tão provisória, a mulher de Ló pecou contra um mandamento divino. Ora, não se trata de “parte moral da lei” preexistente. A tal preexistência não é nem a intenção dos textos de Gênesis nem é a compreensão de Paulo ou demais escritores do Novo Testamento.

    À luz do livro de Gênesis, qualquer que fosse a vontade divina revelada ela era em si um mandamento/lei, mesmo que fosse uma ordem nitidamente circunstancial e provisória; ainda que fosse destinada a um único indivíduo. A única coisa que Gênesis de fato ensina como eterno e preexistente é: o próprio Deus (Gn 1:1). Antes de tudo começar, havia Deus. Tudo o mais passou a existir a partir dEle. A ideia de que há um conjunto de preceitos que compõe a lei judaica que é uma lei eterna e preexistente é expressamente ensinada por Ellen White, por exemplo, no livro “Patriarcas e Profetas”, “O Grande Conflito”, e demais escritos adventistas, mas não nos livros bíblicos, nem em qualquer versículo de Gênesis, nem de Êxodo, nem de João, nem dos escritos de Paulo. O diabo/adversário peca ao se opor a Deus, qualquer que já tenha sido a vontade divina revelada, desde tempos remotos o Diabo se fez adversário dela. É absurdo recorrer as ações do próprio Diabo contra Deus para defender que a Bíblia ensina a pré-existência da tal “parte moral” da Torá. Nem mesmo a própria Torá jamais fez essa distinção entre lei moral e lei não-moral. Essa classificação é estranha ao Pentateuco, artificial, tardia e arbitrariamente atribuída a ele. Um exegeta saberia disso (Como é o caso, por exemplo, de Wilson Paroschi).

    2.8. Você diz: Assim sendo, quando Paulo diz que “a lei foi dada 430 anos depois” (Gl 4:17), inegavelmente ele se refere à sua forma escrita. Ademais, a existência do pecado antes do Sinai torna isso tão claro que uma criança devidamente ensinada, compreende e aceita esse fato.

    As crianças realmente aceitam qualquer ensino, ainda que não seja baseado em fatos. Creio que parte dos seus leitores, a julgar pelos comentários a baixo, estão justamente nesse nível infantil e indefesos. Mas vamos ao texto Bíblico.

    Quanto à primeira parte dessa afirmação (ele se refere à sua forma escrita) eu jamais diria o contrário disso (e essa nem é a discussão aqui). Quando Paulo se refere à lei adicionada, no Monte Sinai, para o povo recém-saído do Egito, certamente ele está sim se referindo à lei escrita, pois no Sinai, é desse modo que ela foi entregue ao povo: escrita. E isso inclui o decálogo. Em contrapartida, em nenhum texto de Gálatas Paulo considera alguma outra forma preexistente dessa mesma lei antes de ela ter sido escrita. Ou seja, o fato de Paulo estar se referindo à lei escrita não significa que, para ele, a lei escrita era preexistente, muito menos que esse código escrito devesse ser perene após a vinda de Cristo (que é o cumprimento da promessa feita a Abraão), e nem que devesse continuar regendo a vida de quem vivessem a vida no Espírito já dentro da nova aliança. A lei foi dada “até que viesse o descendente”, e não para viger para sempre. No mesmo contexto ele diz que Cristo vem para resgatar aqueles que viviam sob a lei. É Paulo, no contexto, que diz que aqueles que são guiados pelo Espírito, não estão mais debaixo da lei que regia a aliança do Sinai. De qualquer modo, não há dúvida de que, de fato, ele se refere à lei escrita. Afinal, não era possível uma aliança com todo o povo, séculos antes de Cristo, sem que suas cláusulas (a lei) estivessem objetivamente definidas.

    Quanto à “existência do pecado antes do Sinai”, se eu não conhecesse o ensino tradicional adventista, eu até diria que você usou intencionalmente mais uma sutil falácia. Tua afirmação pressupõe que o pecado decorreu da mesma “lei moral” posteriormente escrita. Mas eu sei que se trata apenas de mais uma sincera crença típica do adventismo tradicional (baseada no uso que EGW faz de João 3:4?), mas isso insere sorrateiramente, particularmente nos textos de Paulo, algo que nunca esteve lá. Por traz de tua afirmação, está a pressuposição de que, a menos que uma parte daquela mesma lei posteriormente escrita (decálogo?) já existisse eternamente, não teria sido possível acontecer o pecado, nem do Diabo, e nem queda do homem.

    Talvez o texto de paulino mais adequado para refutar essa questão é Romanos 5. Paulo afirma que havia pecado no mundo (e ele reinava por meio da morte) antes do regime da lei (Rom 5:13).

    Segundo Paulo, aquilo que inseriu o pecado e seu reinado de morte no mundo, atingindo igualmente a todos os homens, foi a específica transgressão de Adão. O pecado se instala “por um só homem” (5:12); “somente um pecou”; “o julgamento derivou de uma só ofensa” (5:16); “Pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte” (5:17); “por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para a condenação” (5:18); “pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores” (5:19). Percebe-se que Paulo é bastante enfático sobre qual foi a desobediência que trouxe o pecado ao mundo. E nada tem a ver com preceitos da lei posteriormente escrita.

    Deus manifestou de forma muito especificada e clara qual era sua vontade para a vida de Adão no Éden. Paulo não confunde essa vontade divina com a lei mosaica introduzida posteriormente. Nem sequer insinua que a lei posteriormente escrita era preexistente ao pecado de Adão, nem que foi a essa mesma lei, que teria sido posteriormente escrita e dada a Israel, que Adão transgrediu. Esse “raciocínio” de preexistência de alguma parte da lei como condição para existência do pecado, apesar de tão caro à crença adventista, não está na argumentação de Paulo, em absoluto, a menos que alguém o coloque lá por contra própria. Na verdade, Paulo deixa claro que os demais seres humanos, apesar de afetados pelo pecado primevo de Adão, não pecaram à semelhança da transgressão de Adão (5:14)!

    Por esses versículos, a única forma de dizer que Adão transgrediu uma lei “eternamente preexistente”, a mesma que (parcialmente) teria sido inserida de forma escrita na Torá mosaica, seria dizer que a ordem para não comer do fruto era uma regra eternamente preexistente. Isso, porém, exigiria que o “intérprete” recorresse a todo tipo de ginástica interpretativa para achar a lei (moral e eterna?) que Adão transgrediu constando na própria legislação mosaica. Ao lado disso, seria necessário ainda contradizer Paulo para afirmar que, pelo fato de todos os homens quebrarem a “mesma lei”, na verdade, todos transgrediram à semelhança de Adão, exatamente o contrário do que Paulo disse (5:14).

    Ainda em Romanos 5, Paulo descreve a vinda da Lei, por meio de Moisés, como algo posterior ao “pecado original”. Dito de outro modo, o homem perdeu seu estado primevo de justiça e santidade originais. Esse estado é a origem de todos os problemas da humanidade “adâmica”. Independe de ato. É um estado tão real, grave e insolúvel ao ser humano quanto à morte (que é mera consequência do estado de pecado). A primeira desobediência, então, instala um estado, uma forma de ser e de existir diferente e contrária àquelas existentes anteriormente. Esse estado do ser humano é que Paulo apresenta como “o” pecado (hamartia no singular) que reina por meio da morte e se transmite a todos os homens. Uma outra “mera” consequência do estado de pecado é a imoralidade, a prática de atos destrutivos e degenerantes (Rom 2), noutros contextos também chamados de obras da carne. Mas isso tudo já é consequência, e não a causa profunda em si.

    Diz Paulo que “até o regime da Lei, havia pecado no mundo”. Note que, para Paulo, primeiro existe o pecado no mundo, depois é que entra a lei, e ele vai se referir a essa mesma lei mais 72 vezes somente no livro de Romanos, 32 vezes apenas em Gálatas. Em nenhuma dessas vezes Paulo vai dizer ou insinuar que essa lei, ou a sua “parte moral” era preexistente. A entrada da lei mosaica, segundo Paulo, tem, em primeiro lugar, um motivo: “o pecado não é contabilizado quando não há lei”. Dito de outro modo, a realidade profunda do pecado não é discernida pelas próprias vítimas portadoras do estado de pecado, não obstante ser uma realidade concreta desde Adão a ponto de matar a todos os indivíduos, que consequentemente são tão pecadores quanto mortais.

    A questão é que esses indivíduos “adâmicos” infectados não tomam consciência plena, de forma automática, da sua letal realidade de pecado. São eles (e não Deus) que precisam “contabilizar” o pecado. Eles são que ignoram sua real condição. Eis o motivo de a Lei mosaica ter sido necessária, particularmente para o povo recém-saído do Egito: a lei mostra a “ponta” do iceberg. Na melhor das hipóteses, a lei sinaítica fez reprovava as atitudes externas que eram mais evidentemente destrutivas e degenerativas no ser humano caído, mas nada podia fazer quanto a fonte profunda de todo o mal: a perda da santidade e da justiça originais.

    Segundo Paulo em Rom 5, uma das funções que a Lei tinha a desempenhar é, in verbis: “Sobreveio a Lei para que a ofensa (paraptoma) aumentasse (pleonássê)”. Esse “aumentar” é no sentido de crescer até atingir seu ápice. Diante da lei, em vez de ser inibido, o pecado “reage” se multiplicando, aumentando, avultando-se.

    A mesma ideia de o estado de pecado, diante da Legislação mosaica (a legislação como um todo, sem divisões internas), é estimulado e se traduz em manifestações pecaminosas específicas está presente em Rom 7:7-8.

    Neste texto, Paulo diz que a mesma lei que lhe revelou a cobiça (epitumían) como sendo pecado, precisamente ela despertou no “EU” toda a sorte de cobiça (epitumían). No estado “adâmico” (em contraste com a vida no Espírito oferecida por Cristo), a lei estimula o próprio pecado que ela mesma revela (ao dizer “não cobiçarás” estimula a própria cobiça revelada). Desse modo, para Paulo, a revelação ao ser humano “adâmico” quanto ao seu real estado é uma das funções da lei, mas, ao lado disso, um dos efeitos reativos do estado de pecado que mora no ser humano “adâmico” é ser estimulado e compelir o “portador” do pecado a praticar precisamente aquilo que a lei vedou e matá-lo.

    Paulo tem como pano de fundo aqui o relato da queda. Deus deu um mandamento (não coma do fruto) com o fim de preservar a vida da criatura, todavia, a serpente (pecado) tomou o próprio mandamento e, por meio dele, enganou a criatura, fê-la cobiçar precisamente aquilo que o mandamento vedara e, consequentemente, causou a morte da criatura. Neste sentido, ainda que quele primeiro mandamento tenha sido santo em sua natureza, divino em sua origem, ainda assim, o pecado (serpente) o manipulou, usou-o para enganar a criatura com o fim de matá-la. Essa é a lógica do pensamento de Paulo em Rom 7:7-13 e é uma das razões que ele apresenta para o leitor morrer para a lei e aderir algo que realmente “funciona” contra o pecado. A lei mosaica foi dada ao ser humano ainda no seu estado “adâmico”, por isso, o feito da Torá judaica sobre Israel é precisamente o mesmo daquele ilustrado no primeiro Adão.

    Segundo Paulo, isso evidencia que, ao contrário da lei que em sua natureza é santa (Rom 7:12), a forma como o pecado manipula a lei para gerar a morte revela que ele é excessivamente maligno em sua natureza (Rom 7:13).

    Paulo divide a humanidade em duas, a humanidade que está em Adão (primeiro adão) e a humanidade que já está em Cristo (o segundo Adão). O indivíduo que ainda está no estado “adâmico”, mesmo que conheça e até pratique a letra da lei mosaica, verá o pecado dentro de si ganhar força ao ser exposto à lei (a força do pecado é a lei) a ponto de tal estado de pecado escraviza-lo para o servir, mas o pecado sempre “pagará” o seu serviçal com a morte (o aguilhão do pecado é a morte; o salário do pecado é a morte). Antes de apresentar a vida no Espírito como sendo não apenas superior à vida na lei, mas como a única forma de vida que não está sujeita à escravidão do pecado, Paulo mostrou com a própria lei tornou-se parte do problema. Por essa razão, é necessário morrer para a lei tanto quanto para o pecado.

    A única e exclusiva “força” capaz de realmente fazer oposição eficaz ao domínio do pecado e libertar o pecador de se estado “adâmico” para o serviço a Deus é somente o Espírito que passa a habitar e guiar até mesmo os pensamentos e inclinações daquele que se uniu a Cristo e foi justificado por ele. É o Espírito, e não a lei, que realiza a vontade última de Deus: recriar no ser humano, destituído de da glória de Deus, a imagem original perdida, ou seja, a imagem de Cristo, o segundo Adão (Rom 8:29).

    Essa linha de argumentação de Paulo é bastante densa e, para seguir cada um de seus desdobramentos, ilustrar de modo didático cada conceito presente em cada segmento textual de Romanos, relacionando cada conceito acrescentado com os conceitos precedentes e com os subsequentes, atentando para os avanços, para as afirmações parentéticas, para as constantes diatribes de Paulo, para as frequentes retomadas do que já foi anteriormente dito etc., requer muito mais tempo e um espaço mais adequado do que este aqui.

    Mas o que quero destacar é que aquilo que Paulo tem a dizer sobre a Lei mosaica, a sua outorga e os seus papeis em relação ao pecado, não admite qualquer identificação entre (a) surgimento do pecado com (b) alguma porção preexistente ou perene da lei mosaica dada no Sinai. A ideia de que é a transgressão de uma parcela preexistente da Lei mosaica que “possibilitou” Adão (ou, pior ainda, o próprio Lúcifer) a pecar e que, posteriormente, essa mesma lei é que teria sido inserida na Torá de forma escrita, é absolutamente estranha tanto às palavras de Paulo quando a sua linha de apresentação do tema “Lei” versus “pecado”. Usei os textos supramencionados apenas como exemplo.

    Vale acrescentar que, dentre as diversas definições de “pecado” espalhadas por toda a Bíblia, uma única delas é “anomia”, equivale a viver “sem” lei, no sentido de viver a imoralidade conhecida como tal (1João 3:4). Entretanto, há outras muitas definições de pecado que nada tem a ver nem com uma lei em si e nem mesmo com qualquer ato imoral. Assim, é possível se falar de pecados ocultos, não discernidos nem pelo próprio pecador (Sal 19:12); pecado como a condição corrompida inerente ao ser humano desde sua concepção e nascimento (Sal 51:5); ou ainda: “tudo o que não provém de fé é pecado” (Rom 14:23); “aquele que sabe o que deve fazer e não o faz, nisto está pecado” (Tig 4:17); além de “meros sentimentos” internos que nem precisam ser externados para serem pecados, como é o caso de inveja (que é muito diferente de cobiça) , orgulho etc., que não estão em algum preceito particular da Torá, mas para o Cristão que tem Cristo com referência, são pecados, são obras da carne opostas a Deus ao seu Espírito. É o Espirito, e não a lei, que impede que o cristão seja submerso.

    (continuo no próximo)

  5. Cláudio de Sousa
    janeiro 11, 01:53 Resposta

    Eu li todos os artigos e não me convenceram nem um pouco. Nesse aqui ele só passou por alto o sentido das passagens que cita, para dar a impressão de que conhece bem a Bíblia, mas não se aprofundou para responder a crítica do internauta.
    É notório também que ele usa muito da opinião subjetiva de vários “teólogos” para forçar uma interpretação dos textos bíblicos favorável à pena de morte, quando não era exatamente ali que o texto bíblico queria chegar.
    Todos os seus puxa-sacos aqui, muito provavelmente não sabem interpretar nada, nem mesmo em sua própria língua, uma vez que nem perceberam a manipulação.
    Eu continuo acreditando que a tal pena de morte do Antigo Testamento é impossível de ser praticada hoje em dia pelos estados modernos. E essa persistência paranóica do Leandro, cercado desse bando de ignorantes puxa-sacos em querer forçar isso no meio cristão, só me faz desconfiar dele cada vez mais.
    E infelizmente não é de hoje que a IASD tem sido conivente com esse tipo de apostasia. Durante todo o século XX foi assim. Há escândalos terríveis registrados em suas próprias publicações, que só tendem a fazer a situação da igreja se agravar, se ela não tomar as devidas providências disciplinares.
    A essa altura eu já acho algo inevitável que ele seja expulso do ministério e, talvez até excluído da igreja.

  6. ADENILDA SILVA
    janeiro 10, 12:03 Resposta

    Cada dia quer passar as pessoas deixar ser usada pelo o inimigo para de trouxe a palavra de Deus. Quer o Senhor continue te abençoando Leandro Quadros,pois vc É um homem de Deus. Amor assistir seu vídeo pois mim levar para mais perto de Jesus. FELIZ ANO NOVO.

  7. Antônio Dias
    janeiro 05, 23:18 Resposta

    Muito bom o professor Leandro, mas está se deixando levar por comentários fúteis, ao gastar tempo para responder certas críticas, isso não deveria ser respondido por ele, mas pelos internautas avaliadores dos comentários. Sem dúvida o professor é o melhor apologeta, da atualidade. Portanto não precisa ficar de batendo com quem sente inveja do seu conhecimento. A vida é curta e temospouco tempo pra anunciar a volta de Jesus e ajudar as pessoas a se prepararem. Boa noite a todos

  8. Li todo artigo. E li também sua resposta ao internauta “tolo”, pois ele se mostrou assim , além de falta de conhecimento e não saber nem o que é contexto. O que dizer dar argumentações. Sua resposta no começo me fez até rir, pois talvez ele não entenda por falta de interpretação de texto. Mais você se mostrou ainda mais sábio parabéns amigo por mostrar seu conhecimento que as pessoas deveriam ter, ou pelo menos buscarem esse conhecimento. Leandro eu e meu esposo te conhecemos aqui em Lavras MG quando veio fazer um encontro só pra casais, foi maravilhoso! Agora vou falar do que tenho passado por perder minha filha amada adolescente de 19 anos Letícia de Paula Pereira. Sou mãe de 4 filhos.

    Sei a dor mais forte que Adão e Eva sentiram quando perderam Abel assassinado. Perdi minha filha Letícia de 19 anos grávida, por um homem que já tinha assassinatos e estupro nas costas e tava solto pela nossa justiça brasileira. Nenhum direito humanos veio atrás de mim, em júri popular que parecia mais um reunião de família pois a população não pode ir devido a pandemia ele foi condenado por apenas 18 anos e meio com 8 anos de em regime fechado sem benefícios. Minha filha não volta mais. Lá no júri que tive noção do que ela passou na mão dele, de joelhos pedindo pra ele não a matar… Ela tava grávida de um menino de 5 meses, ela nem o conhecia …. Hj sigo confiando em Deus que minha filha tenha alcançado salvação e que um dia eu a reecontarei pois está lá em Tessanolissence escrito, na volta de Cristo Leandro. Isso aconteceu em 19/09/2019. Sempre vou dizer que tenho 4 filhos. Aí de mim se eu não conhecese tentasse viver o que a Bíblia ensina.

  9. Kelly
    janeiro 05, 04:36 Resposta

    Leandro! Shalom!

    Que você é inteligente, creio que todos já saibam.
    Uma pergunta a você.
    Você se sentiu incomodado com os comentários desse internauta?
    Se sim, se pergunte o motivo.
    A partir do momento que você publica “coisas” na internet, estará sujeito a críticas. Se você fica incomodado é porque tem algo em você que precisa ser analisado.
    Essas pessoas que te criticam, tem alguma relevância na sua vida??? Se não, deixem falar!
    Quem não tem críticas é porque muito provavelmente, também não tenha nenhum sucesso!

    • Leandro Quadros
      janeiro 05, 16:16 Resposta

      Estimada Kelly:

      Primeiramente quero agradecer por suas palavras amigas e por me levar a refletir. Vou responder abertamente a você.

      Realmente me senti incomodado pelo fato de aquele comentário ficar visível a tantas pessoas. Possivelmente isso se dá pela fato de minha “criança interna” ainda estar no processo de cura de suas feridas.

      Eu me importo pouco com as críticas, mas muito com as ofensas duras. Porém, creio que em minha caminhada com Deus e com o auxílio de minha psicóloga e meu psiquiatra, ficarei ainda mais imune a esse tipo de coisa.

      Tenho trabalhado memórias traumáticas através da abordagem EMDR; já pensamentos e comportamentos, com a T.C.C. Digo isso para afirmar que você acertou na mosca: tenho coisas que precisam ainda ser analisadas, mas estou nesse processo. É doloroso, porém, muito necessário e eficaz.

      Não posso reclamar porque hoje me encontro num nível de saúde emocional bem superior ao de anos atrás.

      Mas, saiba que suas palavras me fizeram muito bem, pode ter certeza. Recordaram-me ensinamentos de minhas sessões de psicoterapia 🙂

      Um abraço e feliz 2021 pra você!

    • Oi meu querido irmão, sou seu admirador, pois sei que és da parte de Deus tudo que ensina ,pois há tanta coerência na palavra de Deus.
      Olha amigo diante de tantas injustiça que aconteceno Brasil e no mundo , sempre fui a favor da pena de morte, tenho um senso de Justiça muito elevado, porém ,com muito medo de minha consciência está contrário a suposta nova aliança dada a Jesus com relação ao ,assunto, pois foi assim que eu fui ensinado,mas não ia contra minha própria consciência e eu não podia negar para Deus que se Ele fosse contra a pena de morte ,na era Cristã ,eu não estava conseguindo me armonizar mentalmente com sua vontade diante de tantos crimes ediondos e com requintes de crueldades que se ver e sem punições, e ver os infratores impune.
      Hoje tive um dos melhores tempos gastos lendo seu artigo e pude finalmente perceber que minha consciência está maravilhosamente em armonia com a de meu amoravel Deus e que eu é que tinha uma interpretação errônea dos ensinamentos de Jesus consernetes a alguns assuntos .
      Muito obrigado por me fazer enteder melhor que de fato Deus não é contra a punição capital por assassinatos ediondos.
      Obrigado por esclarecer tão bem .
      Tudo que esse internauta te fez resultou em benção par mim, pois do contrário nunca teria conhecido esse teu maravilhoso artigo.

  10. Ivair de Almeida Lemes
    janeiro 04, 21:14 Resposta

    Professor Leandro Quadros, graça e paz !!!

    Estamos num país que ainda possui de certa forma, uma pseuda “liberdade de expressão”…

    Assim, muitos sem o devido conhecimento e humildade necessários, acham-se na condição de “tentarem” refutar assuntos que exigem profundo estudo das Sagradas Escrituras, de preferência nas línguas originais, em conjunto à uma vida de oração e comunhão com Deus, para então, receber dEle, a elucidação de assuntos tão complexos como o que estamos aqui partilhando.

    Mais uma vez caro Professor, Deus lhe usou extraordinariamente na exposição de sua posição frente ao comentário recebido.

    Estou em oração por você e por todos que, com humildade se achegam aos pés do Salvador afim de obterem a verdade.

    • Leandro Quadros
      janeiro 05, 16:18 Resposta

      Graça e paz, irmão Ivair!

      Seu comentário foi muito proveitoso não só para mim, mas também para os demais internautas.

      Peço que Deus o recompense tremendamente por suas orações a meu favor. Ore por mim nem que seja uma só vez, e ficarei muito satisfeito em saber 🙂

      Um abraço e tenha uma feliz semana!

  11. Diego
    janeiro 04, 16:10 Resposta

    peefeito Professor, tudo respondido a luz das escrituras, sem distorcer os textos ou pegar apenas partes.

  12. Além do professor Leandro quadros ser muito sábio, ele é também muito humilde e educado nas tanto nas suas palavras como no seu modo de ser, isso que eu chamo de um homem que mesmo com os seus defeitos como qualquer um de nós, sempre busca a sua perfeição em Cristo,que o Senhor Deus continue te abençoando e te usando muito professor Leandro quadros,um grande abraço

    • Leandro Quadros
      janeiro 04, 21:27 Resposta

      Olá, João Guilherme: é um privilégio um pecador como eu ler palavras como as suas.

      O Senhor o recompense por suas palavras amigas.

      Abração e tenha uma ótima semana!

    • Leandro Quadros
      janeiro 05, 20:39 Resposta

      Caro João Guilherme: obrigado por suas palavras amigas e cristãs dirigidas a mim, um pecador. Que o Senhor continue dando luz
      à sua vida, e que 2021 seja um ano cheio de boas surpresas vindas do Criador.

      Forte abraço.

    • Antônio
      janeiro 05, 23:17 Resposta

      Muito bom o professor Leandro, mas está se deixando levar por comentários fúteis, ao gastar tempo para responder certas críticas, isso não deveria ser respondido por ele, mas pelos internautas avaliadores dos comentários. Sem dúvida o professor é o melhor apologeta, da atualidade. Portanto não precisa ficar de batendo com quem sente inveja do seu conhecimento. A vida é curta e temospouco tempo pra anunciar a volta de Jesus e ajudar as pessoas a se prepararem. Boa noite a todos

  13. Josiel
    janeiro 04, 11:15 Resposta

    Só Deus tem o direito de tirar a vida. Um juiz humano que decide que alguém deve morrer sem a ordem divina ñ está agindo certo. Esse negócio aí de um juiz humano ter o de decidir se alguém deve morrer ñ sei ñ.

    • Leandro Quadros
      janeiro 04, 21:54 Resposta

      Estimado Josiel: Vejo sinceridade em seu comentário. Permita-me ajudá-lo a perceber que Deus autorizou o Estado a aplicar a pena capital. Leia o texto a seguir:

      “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal“.

      Perceba que, apesar de o império dominante ser a perversa Roma, Paulo considerou os magistrados como instrumentos de Deus para punir com a espada aqueles que fazem o mal.

      Releia com calma esse texto e verá que foi o Senhor quem autorizou a pena capital, após devido julgamento e com duas ou três testemunhas.

      Graça e paz.

    • Cláudio de Sousa
      janeiro 11, 01:35 Resposta

      Finalmente alguém que tem a cabeça no lugar faz um comentário sensato!
      Parabéns Josiel!

  14. Emir Camacho Junior
    janeiro 04, 10:40 Resposta

    Professor, quando eu era criança, cresci ouvindo meu pai dizer, ” Nunca mexa com alguém, mais velho que você, porque se você apanhar e chegar em casa chorando, vai levar outra surra de mim…”! Esse aviso, serviria muito bem para esss moço. Porque é mais um que tenta te atacar e não dá conta! Tem argumento apenas para atacar, falando mais que a boca. Como sempre digo, você é um homem de Deus! Fácil de ver isso, diante de tanta erudição e sabedoria. Resumindo, é mais um que não deu conta!!! Que Deus continue a lhe abençoar como tem feito até agora!! Um feliz 2021!!!

    • Leandro Quadros
      janeiro 04, 21:57 Resposta

      Olá, Emir: realmente, esse moço precisa aprender muito com a vida. Como bem disse: os “argumentos” dele são para atacar, e inexistem para discutir ideias.

      Obrigado por suas palavras de amizade meu irmão. e que seu 2021 seja repleto de alegrias e surpresas agradáveis do Senhor.

      Abração!

    • Leandro Quadros
      janeiro 05, 20:49 Resposta

      Irmão Emir: agradeço por sua confiança em meu trabalho para Deus. Infelizmente, às vezes temos de ser um pouco mais firmes com a arrogância de algumas pessoas. Por mais que nos esforcemos para tecer um bom diálogo, muitas vezes o interlocutor não quer. Deseja apenas brigar. Uma pena.

      Feliz 2021 pra vc tb! Que a graça do Senhor seja com você e os seus.

  15. Daniel
    janeiro 04, 01:24 Resposta

    Esse rapaz carece de boa fé e de estudos. É muita confusão. Talvez 10 anos de estudos e pesquisas o ajude a resolver seu analfabetismo funcional. Já a má fé só quando criar vergonha mesmo…rs

    • Leandro Quadros
      janeiro 04, 22:02 Resposta

      Obrigado por ter separado um tempo para ler minha resposta, Wilson.

      Um abraço e que Deus o abençoe.

  16. Lúcia Fleury
    janeiro 04, 00:27 Resposta

    Obrigada Senhor Deus, por concederes ao Professor Leandro Quadros, Sabedoria e Conhecimento da Tua Sagrada Palavra!
    Foi realmente uma “Surra Santa” e eu te agradeço Querido Pai!!!

    • Leandro Quadros
      janeiro 04, 22:03 Resposta

      Lúcia: obrigado por acessar meu blog e fazer parte dos meus seguidores.

      Um ótimo 2021 pra vc e sua família!

    • Leandro Quadros
      janeiro 05, 20:51 Resposta

      Olá, Lúcia: agradeço pelas palavras de amizade. Torço para que aquele irmão seja humilde e pare de brigar com a vida e comigo.

      Feliz 2021 pra vc!

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